Desinformação, exceção institucional e o risco real à democracia nas eleições de 2026
Um país não precisa de armas químicas para ser sufocado. Basta um ecossistema de medo. Da sabotagem à vacina à relativização de crimes contra a democracia, passando pela violência política dentro do Parlamento e pela censura de fato à imprensa, o Brasil vive um processo de intoxicação simbólica que desloca o debate público da razão para o pânico. Às vésperas de 2026, essa engrenagem não apenas segue ativa — ela se institucionaliza.
1. A alegoria da câmara sem gás como chave interpretativa do presente
Há alegorias que dizem mais sobre o presente do que qualquer manchete. A história dos “três homens trancados em uma câmara de gás vazia” — narrativa sem base histórica, mas poderosa como metáfora — ilumina com precisão perturbadora o Brasil contemporâneo. Na fábula, três homens são colocados em uma câmara supostamente letal e informados de que o gás será liberado. Nada acontece: não há fumaça, cheiro ou substância química. Ainda assim, o terror se instala. Dois morrem, o terceiro agoniza. Nenhum inalou gás. O colapso foi produzido exclusivamente pela crença induzida de que estavam condenados.
Essa narrativa metafórica expõe um mecanismo central do poder político contemporâneo: o medo precede o fato e o substitui. Como observa Kahneman (2012), sob forte carga emocional, o cérebro humano abandona o pensamento analítico e passa a operar por atalhos cognitivos, aceitando narrativas simples, mesmo que falsas. O medo, portanto, não é consequência da realidade — é tecnologia política.
2. O medo como método: da exceção psicológica à exceção política
O Brasil dos últimos anos tornou-se laboratório avançado da política do medo. Não se trata de ignorância espontânea, mas de um processo sistemático de produção de crenças falsas, amplificadas por algoritmos, lideranças políticas e autoridades simbólicas. Como analisam Sunstein e Vermeule (2009), teorias conspiratórias prosperam quando líderes legitimam a suspeita permanente e substituem evidência por narrativa.
Esse processo gera um efeito corrosivo: a realidade passa a importar menos do que a percepção emocional. A democracia, que depende de confiança institucional mínima, começa a operar em estado de estresse contínuo.
3. A pandemia como ensaio geral da câmara simbólica
A negação da vacina contra a COVID-19 foi o primeiro grande teste desse modelo. Não havia gás nas vacinas. Não havia veneno, chip ou manipulação genética. Ainda assim, uma campanha deliberada transformou ciência em ameaça e proteção coletiva em conspiração.
O resultado foi trágico: centenas de milhares de mortes evitáveis. Como aponta Sapolsky (2017), o estresse crônico altera decisões individuais e coletivas, reduz empatia e aumenta a aceitação de discursos autoritários. No Brasil, o medo fabricado matou antes do vírus.
Esse episódio revelou algo estrutural: o medo pode ser mais letal que o agente físico, exatamente como na alegoria da câmara vazia.
4. Da desinformação eleitoral ao 8 de janeiro
O mesmo mecanismo foi reaplicado no campo eleitoral. Sem provas técnicas, construiu-se a crença histérica de que as urnas eletrônicas eram fraudadas. Como observa Zuboff (2019), plataformas digitais operam como infraestruturas de modulação comportamental, amplificando conteúdos que geram engajamento emocional, não verdade.
O resultado foi a tentativa de ruptura institucional em 8 de janeiro de 2023. Aquilo não foi espontâneo: foi consequência lógica de um ambiente onde o medo substituiu o fato e a mentira repetida ganhou estatuto de verdade emocional.
5. A Câmara dos Deputados como extensão institucional da câmara simbólica
Os acontecimentos recentes na Câmara dos Deputados revelam algo ainda mais grave: o mecanismo da câmara sem gás foi institucionalizado.
A aprovação do chamado PL da dosimetria é emblemática. Formalmente, não se trata de anistia. Nenhuma palavra nesse sentido aparece no texto. No entanto, ao impedir a soma de penas para crimes como tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, o projeto reduz drasticamente a responsabilização penal de golpistas.
Trata-se do que Bourdieu (1997) chamaria de violência simbólica institucional: o direito permanece formalmente intacto, mas perde sua função de proteção democrática. O “gás” jurídico não é declarado — mas seus efeitos são reais.
6. Violência parlamentar: quando o medo ganha corpo
A retirada à força do deputado Glauber Braga da cadeira da Presidência, com relatos de agressões físicas e uso da Polícia Legislativa contra um parlamentar em exercício, marca uma inflexão histórica. Não houve decreto de exceção. Não houve suspensão formal de direitos. Mas houve algo igualmente grave: a normalização da violência como linguagem política.
Como alerta Arendt (2016), quando a força substitui a palavra, o poder democrático começa a se dissolver. O gesto não serve apenas para punir um parlamentar — serve para disciplinar todos os demais.
7. Censura de fato e opacidade deliberada
O corte do sinal da TV Câmara e a retirada da imprensa do plenário completam o quadro. Não se tratou de censura formal, mas de censura material. Como ensina Habermas (2003), a democracia depende da publicidade dos atos do poder. Quando o Parlamento se fecha ao olhar público, rompe-se o elo entre representação e sociedade.
A Câmara, símbolo máximo da democracia representativa, transformou-se momentaneamente em um espaço opaco — uma câmara fechada, exatamente como na alegoria.
8. Regimento como arma e a lógica da exceção permanente
As denúncias de dupla medida no uso do regimento — tolerância a ocupações bolsonaristas e repressão imediata à ocupação de um parlamentar de oposição — reforçam a percepção de seletividade institucional. O regimento deixa de ser regra comum e passa a ser instrumento de poder.
Esse processo produz o que Agamben (2004) define como estado de exceção difuso: a norma continua existindo, mas sua aplicação passa a ser contingente à correlação de forças.
9. 2026: risco estrutural, não retórico
A soma desses fatores cria um cenário particularmente perigoso para as eleições de 2026. O questionamento das urnas já foi normalizado. A violência política já foi testada. A relativização penal já foi aprovada. A censura de fato já ocorreu.
A democracia brasileira entra em 2026 não como sistema estável, mas como instituição sob estresse crônico.
Conclusão: reconhecer a câmara vazia ou continuar sufocando
A alegoria da câmara sem gás não é apenas literária — é diagnóstica. O Brasil não está sendo destruído por fatos objetivos, mas por narrativas de medo cuidadosamente produzidas. Como na fábula, ninguém precisa liberar gás algum. Basta convencer a sociedade de que ele existe.
Quando o Parlamento relativiza crimes contra a democracia, agride opositores, cala a imprensa e manipula regras, ele não anuncia o golpe — mas constrói as condições para que ele volte a ser tentado.
O desafio de 2026 não é apenas eleitoral. É civilizatório.
Ou o país reconhece que a câmara está vazia —
ou continuará morrendo de medo dentro dela.
Referências (ABNT)
AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.
ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.
KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
SAPOLSKY, Robert. Behave: the biology of humans at our best and worst. New York: Penguin, 2017.
SUNSTEIN, Cass; VERMEULE, Adrian. Conspiracy theories. Harvard Public Law Working Paper, 2009.
ZUBOFF, Shoshana. The age of surveillance capitalism. New York: PublicAffairs, 2019.
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