O Brasil já não vive apenas uma crise institucional. Essa descrição, embora ainda correta, tornou-se insuficiente. Há algo mais profundo, mais antigo e mais devastador operando sob a superfície das disputas entre Poderes, da polarização eleitoral e da degradação do debate público. O que se vê hoje é também uma crise pedagógica, uma falha histórica de formação cívica que deixou milhões de brasileiros sem instrumentos mínimos para compreender o Estado, a Constituição, os limites do poder e o sentido da democracia. Quando isso acontece, a política deixa de ser campo de deliberação racional sobre o destino comum e passa a funcionar como arena emocional, teológica e punitiva, onde a mentira rende votos, a violência produz aplausos e a fé é mobilizada como técnica de coerção.
A tragédia brasileira recente não pode ser entendida sem esse dado central. O ataque de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos Três Poderes, em Brasília, não surgiu do nada. Segundo reconstruções jornalísticas e institucionais posteriores, os invasores estavam inseridos numa narrativa mais ampla de contestação do sistema eleitoral, defesa de intervenção militar e deslegitimação da ordem democrática (Agência Brasil, 2025; Agência Brasil, 2026). O negacionismo sanitário que sabotou a resposta à pandemia também não brotou apenas da ignorância científica. A banalização de chacinas em territórios pobres, a transformação de líderes religiosos em operadores de guerra cultural, a popularização de teorias conspiratórias grotescas, o culto ao salvador autoritário e a corrosão da confiança pública nas instituições pertencem ao mesmo ecossistema. Todos esses fenômenos prosperam quando o povo é afastado da linguagem da cidadania e devolvido à lógica primitiva da crença sem mediação, do medo sem crítica e da autoridade sem controle.
Em termos mais diretos: uma sociedade que não aprende a ler o poder acaba sendo governada por aqueles que sabem manipulá-la.
A crise por baixo da crise
Durante anos, a análise pública da democracia brasileira oscilou entre dois extremos. De um lado, a leitura institucionalista, preocupada com regras, competências, arranjos jurídicos e estabilidade formal. De outro, a leitura conjuntural, centrada em governos, eleições, coalizões e escândalos. Ambas têm relevância. Mas nenhuma delas, isoladamente, explica por que discursos tão pobres, violentos e flagrantemente antidemocráticos encontraram tanta capilaridade social. Nenhuma delas responde, por si só, à pergunta decisiva: por que uma parte significativa da sociedade se tornou tão disponível à mentira, tão vulnerável ao delírio político e tão tolerante à brutalização da vida pública?
A resposta está em um déficit de formação que não é apenas escolar, mas civilizacional. O Brasil universalizou formalmente a democracia constitucional de 1988, mas isso não significou a universalização prática de uma cultura cívica equivalente. A própria Constituição consagra, em seu artigo 5º, um amplo catálogo de direitos e garantias fundamentais, estruturando o Estado Democrático de Direito sobre a centralidade da dignidade, da liberdade, da igualdade formal e das garantias processuais (Brasil, 1988). Ainda assim, grande parte da população permanece distante do vocabulário institucional mais elementar: separação de Poderes, laicidade, legalidade, devido processo, controle constitucional, orçamento público, políticas universais.
Essa precariedade formativa não é neutra. Ela produz efeitos políticos concretos. Num ambiente assim, a democracia deixa de ser experiência interiorizada e passa a ser apenas um ritual externo. Existe urna, existe tribunal, existe Congresso, existe Constituição. Mas nada disso ganha densidade moral no imaginário coletivo. As instituições permanecem de pé, porém o vínculo subjetivo que as sustenta se fragiliza. E quando esse vínculo se rompe, qualquer aventureiro com habilidade retórica e apelo messiânico pode apresentar a ordem constitucional como obstáculo, a legalidade como detalhe e a violência como suposta regeneração nacional.
Quando a política deixa de ser política
Toda democracia depende de um mínimo de realidade compartilhada. Não precisa haver consenso sobre projetos, partidos, governos ou ideologias. Mas é preciso que exista um terreno comum sobre o qual o dissenso possa se organizar. Quando esse chão desaparece, o conflito deixa de ser político e passa a ser existencial. O adversário já não é aquele que pensa diferente dentro da mesma comunidade cívica. Ele se converte em inimigo, em ameaça, em corpo estranho a ser eliminado moral ou simbolicamente.
É exatamente esse deslocamento que atravessa o Brasil dos últimos anos. O espaço público foi invadido por uma linguagem de cruzada. A política deixou de ser disputa por rumos coletivos e foi substituída por uma gramática de purificação. Em vez de mediação, redenção. Em vez de pluralismo, guerra moral. Em vez de cidadania, pertencimento tribal. Em vez de debate sobre estruturas sociais, um teatro incessante de indignação, ressentimento e fabricação de inimigos.
Essa mutação não ocorre por acaso. Ela depende da deseducação política das massas e da hiperestimulação emocional promovida pelas plataformas digitais. Num país onde milhões de pessoas não receberam formação sólida para compreender instituições, a política se torna facilmente traduzível em imagens simples, slogans binários, narrativas conspiratórias e mitologias redentoras. A realidade, em toda sua complexidade, perde espaço para uma dramaturgia de fácil assimilação: o bem contra o mal, o povo contra o sistema, a fé contra a corrupção, a força contra a bagunça, a pureza contra a contaminação.
Nessa lógica, toda análise estrutural vira sofisticação inútil. Toda mediação institucional vira fraqueza. Toda garantia jurídica vira proteção indevida. Toda divergência vira sabotagem. O pensamento político cede lugar à fé política. Hannah Arendt já havia advertido que a destruição do espaço comum de verdade e julgamento é uma das pré-condições para a ascensão de formas modernas de dominação política (Arendt, 2016).
A mentira como sistema
Durante muito tempo, tratou-se a mentira política como distorção episódica. Hoje já não é possível sustentar essa leitura. A mentira se industrializou. Ela se tornou método, linguagem, infraestrutura e mercado. Já não estamos diante de boatos ocasionais ou manipulações isoladas, mas de uma verdadeira economia da desinformação, sustentada por algoritmos, estímulos emocionais, redes de distribuição, influenciadores especializados em inflamar audiências e mecanismos permanentes de monetização do ódio.
A desinformação contemporânea não quer apenas enganar. Ela quer organizar afetos, consolidar identidades, fabricar pertencimentos e produzir fidelidade. Não opera apenas no plano cognitivo, mas no plano existencial. Ela oferece ao indivíduo uma explicação simples para um mundo complexo, um inimigo visível para frustrações difusas e uma comunidade de crença em meio ao caos social. É por isso que o problema não se resolve apenas com checagem de fatos. Muitos acreditam na mentira não apesar de sua falsidade, mas porque ela lhes oferece abrigo simbólico, sentido moral e pertencimento político.
O terraplanismo, por mais absurdo que pareça, é exemplar. Seu ponto não é a geometria. É a rebelião performática contra qualquer mediação institucional do saber. É o prazer de pertencer a um grupo que “enxerga o que os outros não enxergam”. É a recusa da universidade, da ciência, da imprensa, das instituições técnicas e dos consensos metodológicos mínimos. No fundo, não se afirma apenas que a Terra seria plana; afirma-se que qualquer estrutura racional de produção de verdade pode ser substituída pela convicção subjetiva de uma tribo.
Quando esse mecanismo migra da cosmologia delirante para a esfera pública, seus efeitos se tornam devastadores. A urna eletrônica passa a ser fraude sem prova. A vacina passa a ser ameaça sem evidência. O tribunal passa a ser usurpador por definição. A imprensa passa a ser inimiga estrutural. A universidade passa a ser centro de doutrinação. O pluralismo passa a ser corrupção moral. A mentira deixa de ser ruído da política e se torna sua energia principal. Jason Stanley mostrou, ao analisar a propaganda política e suas derivações autoritárias, que a manipulação sistemática da linguagem e das emoções públicas não é acessório do autoritarismo: é parte constitutiva de sua arquitetura (Stanley, 2018).
Da pandemia à pedagogia da morte
A pandemia de COVID-19 foi o maior teste moral e político da sociedade brasileira em décadas. E o país fracassou não apenas por deficiência administrativa, mas por falência formativa. Dados da Organização Mundial da Saúde e da base Our World in Data mostram que o Brasil ultrapassou a marca de 700 mil mortes confirmadas por COVID-19, consolidando-se entre os países mais afetados em números absolutos de óbitos acumulados (WHO, 2026; Our World in Data, 2026).
O negacionismo sanitário que ganhou força no período não pode ser reduzido a erro de percepção ou ignorância científica elementar. Ele foi a expressão aguda de uma sociedade que já havia sido treinada a desconfiar das mediações institucionais do conhecimento, a interpretar políticas públicas como ameaça à liberdade individual e a converter qualquer medida coletiva em guerra ideológica.
O resultado foi trágico. Em um país historicamente reconhecido por seu êxito em campanhas de imunização, milhões passaram a tratar a vacina como suspeita, a máscara como símbolo de opressão e a evidência científica como opinião entre outras. Famílias recusaram proteção em nome de boatos grotescos. Líderes religiosos interferiram em debates sanitários como se detivessem legitimidade epistemológica para isso. Influenciadores e agentes políticos transformaram a dor coletiva em palanque. E, ao fundo, a morte se avolumava.
Essa experiência revelou algo profundo sobre o Brasil. Revelou que a precariedade da educação política e científica não produz apenas confusão intelectual; ela produz vulnerabilidade biopolítica. Um povo que não compreende o papel do Estado na proteção da vida, que não entende a diferença entre liberdade e irresponsabilidade social, que não enxerga a saúde pública como bem comum, torna-se presa fácil de projetos que administram a morte como se fosse custo inevitável.
É nesse ponto que a necropolítica deixa de parecer conceito distante e assume rosto concreto. Achille Mbembe formula essa categoria para descrever regimes de poder em que a soberania se exerce pela administração diferencial da morte e da exposição à morte (Mbembe, 2018). No Brasil, essa lógica se manifestou quando a proteção da vida foi relativizada, naturalizada ou instrumentalizada em nome de agendas políticas. Não se tratou apenas de má gestão. Tratou-se da criação de um ambiente em que a preservação da vida deixou de ser prioridade incontornável e passou a ser submetida à disputa de narrativas.
O 8 de janeiro e o colapso da alfabetização democrática
O ataque de 8 de janeiro, em Brasília, não foi um acidente histórico, um desvio súbito ou a irrupção espontânea de um grupo marginal de fanáticos. Ele foi o produto visível de um longo processo de corrosão da confiança pública nas instituições, de banalização das fantasias golpistas e de formação de uma massa politicamente vulnerável à mentira como identidade. Reportagens retrospectivas da Agência Brasil registram que os invasores contestavam o resultado das urnas, defendiam intervenção militar e atacavam diretamente a ordem constitucional instaurada em 1988 (Agência Brasil, 2025; Agência Brasil, 2026).
Uma população que compreende minimamente a arquitetura democrática pode até nutrir ressentimentos profundos contra governos, partidos e tribunais. Pode protestar, criticar, mobilizar-se e tentar derrotar adversários nas urnas. Mas ela sabe que eleições não se anulam por vídeo viral, que golpe não é remédio constitucional, que invasão de sedes dos Poderes não é patriotismo e que soberania popular não se confunde com vontade de facção.
Quando pessoas chegam ao ponto de destruir patrimônio público, atacar instituições republicanas e pedir ruptura do regime em nome da defesa da democracia, o problema já não é apenas jurídico. É formativo. É sinal de que faltou àquela sociedade a alfabetização democrática mais elementar. Faltou o entendimento de que Poderes existem para se limitar mutuamente. Faltou a compreensão de que instituições não são ornamentos, mas mecanismos de contenção do arbítrio. Faltou a percepção de que o fato de se discordar de uma decisão estatal não autoriza sua substituição pela violência.
O 8 de janeiro expôs, de forma brutal, uma nação em que muitos foram socializados politicamente não como cidadãos, mas como devotos de lideranças. E devotos não reconhecem regras; reconhecem mandamentos. Não argumentam; obedecem. Não deliberam; seguem. Não defendem a República; defendem a personificação afetiva que escolheram para substituir a República.
A política da chacina
Se a pandemia revelou a administração política da morte no campo sanitário, a segurança pública brasileira, sobretudo em territórios populares, exibe essa mesma racionalidade em sua forma mais brutalmente territorializada. O problema já não é apenas o fracasso da política de segurança. É a sua metamorfose em espetáculo moral de extermínio.
A operação policial no Jacarezinho, em maio de 2021, resultou em 28 mortes e foi descrita por organizações de direitos humanos como a mais letal da história do estado do Rio de Janeiro até então (Human Rights Watch, 2021a; Human Rights Watch, 2021b). Em maio de 2022, a operação na Vila Cruzeiro deixou 23 mortos, segundo registros reportados pela Agência Brasil e confirmados em coberturas subsequentes (Agência Brasil, 2022).
Esses episódios não podem ser interpretados apenas como “excesso” ou “falha operacional”. Eles pertencem a uma gramática mais profunda, em que determinadas áreas urbanas são tratadas como zonas de exceção e determinados corpos, sobretudo negros, pobres e periféricos, tornam-se alvos presumidos de uma soberania armada que se exerce com baixíssimo controle democrático.
Quando operações letais passam a ser celebradas como sinal de eficiência, algo já se perdeu no imaginário político nacional. Perdeu-se a ideia de que o Estado de Direito não pode funcionar seletivamente. Perdeu-se a percepção de que letalidade em massa não é prova de força institucional, mas muitas vezes indício de falência institucional. Perdeu-se, sobretudo, a compreensão de que um Estado autorizado a matar sem freios, sem transparência e sem responsabilização jamais permanecerá confinado aos territórios onde hoje exerce sua violência.
A naturalização dessas mortes não se explica apenas pelo racismo estrutural ou pela desigualdade social, embora ambos sejam centrais. Ela depende também de uma cultura política pobre, treinada a compreender segurança como vingança, justiça como eliminação física e ordem como suspensão de direitos. A frase “bandido bom é bandido morto” não é apenas um slogan punitivista. Ela é a síntese de um rebaixamento civilizatório. Nela já está contida a negação do devido processo, da presunção de inocência, do controle judicial e da universalidade da dignidade humana.
Uma sociedade politicamente educada sabe que o monopólio legítimo da força não autoriza o monopólio da exceção. Sabe que segurança exige inteligência, prevenção, investigação, coordenação institucional, política social e controle externo. Sabe que o Estado não se fortalece quando mata indiscriminadamente; ele se animaliza. Sem essa compreensão, a necropolítica deixa de ser denúncia teórica e se converte em rotina policial aceita, e às vezes celebrada, por parcelas significativas da sociedade.
Fé, poder e coerção
Há outro elemento decisivo na crise brasileira contemporânea: a transformação da religião em tecnologia de poder. É preciso fazer uma distinção rigorosa. Ninguém está diante do simples fato de religiosos participarem da vida pública. Isso é inevitável em qualquer sociedade plural e democrática. O problema está em outra parte: no uso sistemático da fé como instrumento de disciplinamento ideológico, controle eleitoral, legitimação do autoritarismo e demonização do pluralismo.
Quando isso acontece, a religião deixa de atuar como horizonte moral e passa a funcionar como engrenagem de guerra cultural. A autoridade espiritual é convertida em capital político. O púlpito se torna extensão do palanque. A comunidade de fé é tratada como massa de comando. O adversário passa a ser nomeado não como divergente, mas como inimigo de Deus, da família, da moral, da ordem. O que era crença torna-se dispositivo de coerção.
É nesse contexto que o termo cristofascismo ganha sentido analítico. Não para atacar a fé cristã em si, mas para descrever a instrumentalização de símbolos, afetos e linguagens cristãs por projetos que rejeitam a laicidade, hostilizam direitos fundamentais, perseguem minorias e tratam o pluralismo como degeneração. Trata-se de uma forma particular de autoritarismo que recobre a vontade de poder com a aparência de cruzada moral. Em diálogo com essa tendência, Stanley observa que a política fascista precisa mobilizar tradição, pureza e pânico moral para estabilizar identidades autoritárias (Stanley, 2018).
No Brasil, essa dinâmica foi favorecida pela ausência de educação política básica sobre o que significa um Estado laico. Milhões foram levados a acreditar que laicidade seria hostilidade à religião, quando na verdade ela é justamente a condição institucional que protege todas as religiões e também o direito de não professar nenhuma. Sem laicidade, o Estado deixa de ser casa comum e passa a ser braço jurídico da fé dominante. E, quando isso acontece, a política deixa de administrar a convivência entre diferentes para impor uma moral particular como lei geral.
O que está em curso, portanto, não é apenas a presença do religioso na esfera pública. É o deslocamento da soberania democrática para uma lógica de legitimação teológica, em que a autoridade se sacraliza e o dissenso se converte em heresia cívica.
A captura afetiva das massas
A crise brasileira não pode ser lida apenas em termos institucionais, nem apenas em termos ideológicos. Ela é também uma crise da subjetividade pública. A política digital contemporânea transformou emoções em matéria-prima do poder. O algoritmo não premia o argumento mais rigoroso, mas o estímulo mais mobilizador. E, em regra, mobiliza mais aquilo que indigna, humilha, ameaça ou excita. A consequência é que o debate público deixa de premiar discernimento e passa a premiar intensidade.
Isso produz uma alteração decisiva na forma como as pessoas se relacionam com a política. Já não se busca compreender o mundo para então formar juízo; busca-se antes sentir algo forte, e só depois organizar uma narrativa que justifique esse afeto. A opinião torna-se pós-racional. A adesão política se dá muito menos pelo exame das estruturas e muito mais pela experiência de pertencimento emocional.
Essa captura afetiva é especialmente perigosa em sociedades com baixa formação cívica. Onde não há repertório institucional, histórico e jurídico suficiente, o indivíduo se torna mais dependente da comunidade emocional em que está inserido. Ele interpreta o mundo pelo olhar da sua bolha, repete as categorias do seu grupo e rejeita, antes mesmo de analisar, toda informação que desafie o pertencimento que lhe dá identidade.
É assim que a mentira deixa de ser apenas falsidade e se torna prova de lealdade. A crença no absurdo não representa apenas erro cognitivo; representa fidelidade ao grupo. Duvidar do delírio passa a ser traição. Aceitá-lo, mesmo contra todas as evidências, torna-se ritual de confirmação política. A democracia, nesse contexto, é corroída não apenas por líderes autoritários, mas por comunidades afetivamente organizadas em torno da recusa sistemática da realidade.
A democracia como rito vazio
O maior risco para uma democracia não é apenas o golpe clássico. É a transformação gradual do regime em rito vazio, em casca institucional desprovida de convicção pública. Esse tipo de erosão é mais perigoso justamente porque parece menos dramático em seu início. As eleições continuam ocorrendo. Os tribunais continuam funcionando. O Parlamento continua reunido. Mas a cultura que dá sustentação a esses mecanismos se enfraquece. O povo já não vê neles garantias coletivas, mas obstáculos incômodos. As instituições deixam de ser compreendidas como patrimônio democrático e passam a ser avaliadas apenas pelo grau em que confirmam as expectativas emocionais da tribo.
Nessas condições, o autoritarismo se apresenta não como destruição da ordem, mas como sua purificação. Promete limpar o sistema, disciplinar a sociedade, conter o caos, restaurar a moral, salvar o país. Seu apelo reside justamente em oferecer simplicidade a uma sociedade complexa e obediência a uma sociedade fatigada pela pluralidade. O líder autoritário seduz porque substitui a dúvida democrática pela certeza hierárquica.
Mas há um preço. Sempre há. O preço é a redução da cidadania à submissão, a conversão da política em culto e o rebaixamento da vida comum à lógica da força. Uma sociedade que troca instituições por salvadores logo descobre que salvadores não prestam contas. Uma sociedade que troca pluralismo por pureza aprende tarde demais que a pureza política exige sempre novos inimigos. E uma sociedade que troca direitos por ordem descobre, quando já é tarde, que a ordem sem direitos é apenas medo administrado.
O que a crise exige
O Brasil não sairá desse labirinto apenas por alternância eleitoral. Tampouco bastará reorganizar coalizões, aperfeiçoar mecanismos jurídicos ou denunciar fake news. Tudo isso importa, mas toca somente parte do problema. O que está em jogo é mais fundo: trata-se de reconstruir as bases cognitivas, éticas e políticas da experiência democrática.
Isso exige recolocar a educação política no centro do projeto nacional. Não como doutrinação, catequese partidária ou moralismo cívico, mas como alfabetização republicana. É preciso ensinar, com seriedade, o que é a Constituição, como funcionam os Poderes, por que existem direitos fundamentais, o que significa laicidade, como se fiscaliza o Estado, de que modo operam políticas públicas, por que orçamento importa, como a desinformação se espalha, o que distingue crítica legítima de sabotagem institucional, qual é o sentido do dissenso numa democracia e por que nenhuma liberdade subsiste sem responsabilidade pública.
Paulo Freire insistiu que a educação, quando emancipa, forma sujeitos capazes de ler criticamente o mundo e recusar a adaptação passiva à opressão (Freire, 2023). É justamente essa dimensão crítica, pública e formadora que falta à cultura política brasileira contemporânea.
Sem isso, o Brasil continuará produzindo eleitores formalmente incluídos, mas subjetivamente desarmados; cidadãos jurídicos, mas não cidadãos políticos; participantes do rito, mas não guardiões do regime.
A tarefa é grande porque o problema é estrutural. Ela envolve escola, mídia, universidades, instituições públicas, organizações da sociedade civil e cultura política em sentido amplo. Envolve, sobretudo, a coragem de reconhecer que democracia não se sustenta apenas com norma. Sustenta-se com formação. Sem povo politicamente alfabetizado, a Constituição se fragiliza, o espaço público degrada-se e o poder encontra caminho livre para explorar ignorância, medo e ressentimento.
O que está em disputa
No fundo, o que se disputa no Brasil de hoje não é apenas a vitória de um campo político sobre outro. O que está em disputa é a própria possibilidade de restaurar a inteligência pública da democracia. Uma sociedade incapaz de compreender o poder não consegue controlá-lo. Uma sociedade incapaz de distinguir verdade de delírio não consegue deliberar. Uma sociedade incapaz de separar fé de governo não consegue preservar o comum. Uma sociedade que naturaliza a morte em nome da ordem já começou a perder o seu centro moral.
Por isso a crise brasileira não é só institucional. Ela é pedagógica, filosófica e civilizacional. Institucional, porque há corrosão real de freios e contrapesos. Pedagógica, porque milhões foram mantidos à margem do vocabulário da cidadania. Filosófica, porque o próprio sentido do político foi deformado. Civilizacional, porque o valor da vida, da pluralidade e da dignidade humana passou a ser submetido à lógica da guerra interna.
A grande questão do presente é saber se o país continuará aprendendo política pela tragédia ou se será capaz de reconstruir, com lucidez, as condições de uma cidadania madura. Porque uma democracia pode sobreviver a crises, alternâncias e conflitos. O que ela não sobrevive, por muito tempo, é à deseducação sistemática do seu próprio povo.
Sem formação política, a mentira continuará a render votos. A morte continuará a ser tratada como resultado. A fé continuará a ser mobilizada como arma. E a República continuará formalmente viva, mas culturalmente sitiada.
Com formação política, ao contrário, o país pode começar a inverter a lógica do colapso. Pode reaprender a distinguir autoridade de autoritarismo, convicção de fanatismo, liberdade de abandono, segurança de extermínio, crítica de sabotagem, governo de Estado, fé de coerção. Pode, enfim, devolver à política sua dignidade de espaço racional do comum.
É essa escolha, e não outra, que definirá o futuro democrático brasileiro.
Referências
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AGÊNCIA BRASIL. Operação da Vila Cruzeiro deixa 23 mortos, diz Polícia Civil. Brasília, 25 maio 2022. Disponível no portal Agência Brasil. Acesso em: 26 mar. 2026.
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