Lide
Saí de O Agente Secreto com uma sensação incômoda que não era apenas estética, nem apenas política. Era uma sensação profissional, institucional e histórica. Como professor de uma instituição pública de ensino, o que mais me atingiu no filme de Kleber Mendonça Filho não foi somente a perseguição ao indivíduo, mas a percepção de que, quando um regime ou um projeto autoritário decide sufocar a inteligência crítica, ele não ataca apenas pessoas: ele ataca laboratórios, salas de aula, bibliotecas, universidades, institutos, memória e futuro. Situado no Recife de 1977, em plena ditadura militar, o filme acompanha Marcelo, personagem vivido por Wagner Moura, um homem que tenta escapar de um passado ameaçador e encontra uma cidade igualmente atravessada por medo, vigilância e decomposição moral. O longa estreou em Cannes em maio de 2025, onde recebeu forte reconhecimento crítico, incluindo os prêmios de Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho e Melhor Ator para Wagner Moura.
1. O que mais me chamou a atenção no filme
Assisti ao filme como espectador, mas também como alguém que vive, todos os dias, a realidade da educação pública. Por isso, O Agente Secreto me atingiu de um modo particular. Não vi apenas um thriller político bem construído. Vi uma alegoria dolorosa sobre a fragilidade das instituições do conhecimento diante de projetos de poder que preferem a obediência à inteligência.
A sinopse mais divulgada apresenta Marcelo como um professor especializado em tecnologia que sai de São Paulo em direção ao Recife de 1977, tentando recomeçar a vida, mas encontrando, em vez de refúgio, um ambiente de vigilância e caos. Essa premissa já diz muito. O personagem não é um guerrilheiro caricatural nem um herói de ação convencional. Ele pertence a um território muito mais sensível para qualquer autoritarismo: o território do pensamento, da pesquisa, da técnica e da circulação de ideias.
Foi exatamente isso que mais me prendeu. O filme parece entender que regimes autoritários não têm medo apenas de armas. Eles têm medo de professores, de pesquisadores, de estudantes, de instituições capazes de produzir linguagem, memória, método, crítica e autonomia. Têm medo de gente que formula perguntas incômodas. Têm medo de ambientes onde a autoridade precisa se justificar diante da razão.
Essa é talvez a dimensão mais forte do longa. Ele não trata só da violência aberta. Trata do clima. Trata do ar contaminado. Trata da suspeita, da escuta lateral, do comentário atravessado, do medo que se instala antes mesmo da prisão, da tortura ou do desaparecimento. Em entrevista ao Jornal da USP, o dramaturgo e pesquisador José Eduardo Vendramini Rewald resumiu algo central sobre o filme ao observar que a ditadura operava por “pequenos poderes”, apodrecendo a estrutura social por dentro. É isso. O filme mostra que o autoritarismo não vive apenas de atos espetaculares. Ele vive da corrosão cotidiana da confiança.
2. A ditadura como destruição do ecossistema intelectual
Há um equívoco recorrente quando se fala da repressão no Brasil: imaginar que ela se limitou à perseguição física de opositores visíveis. Isso é verdade, mas é incompleto. O dano histórico foi mais amplo. A ditadura atacou também o ecossistema intelectual do país. E é aí que O Agente Secreto se torna especialmente relevante.
Universidades, centros de pesquisa, ambientes culturais e espaços de debate foram alvos preferenciais do medo autoritário. O motivo é simples: onde há reflexão autônoma, há resistência potencial. Onde há produção de conhecimento, há capacidade de contestação. Onde há ciência, filosofia, arte e ensino público, há uma infraestrutura de pensamento que dificulta a naturalização da barbárie.
O filme trabalha isso sem didatismo panfletário. A perseguição ao pesquisador não é apresentada apenas como uma tragédia individual. Ela é o sintoma de uma política mais profunda: interromper cadeias de produção de saber. Cortar um professor do seu trabalho não significa apenas silenciar uma voz. Significa romper orientações, atrasar pesquisas, desmobilizar alunos, desestruturar grupos, desanimar instituições e enfraquecer a própria ideia de projeto nacional.
Essa leitura ganha ainda mais força porque a crítica contemporânea e a cobertura recente sobre o filme insistem em seu vínculo com memória, identidade e apagamento. A Associated Press descreveu a obra como uma narrativa sobre memória, identidade e “apagamento social”, ambientada na ditadura militar brasileira. Essa expressão é decisiva. Não se trata apenas de repressão. Trata-se de apagamento. O autoritarismo quer mais do que calar. Quer reescrever o que pode ser lembrado, pesquisado e transmitido.
3. O exílio interno e a pedagogia do medo
Uma das ideias mais fortes do filme é a de exílio interno. Marcelo foge, mas não sai do país. Ainda assim, vive como exilado. Isso tem uma potência simbólica enorme. O exílio não é apenas geográfico. Ele pode ser institucional, moral, intelectual e afetivo.
Quantos professores, pesquisadores e estudantes, ao longo da história brasileira, não foram empurrados para formas de exílio interno? Gente que permaneceu fisicamente em suas cidades, mas foi apartada das condições mínimas de produzir, pesquisar, orientar e pensar com liberdade. Gente que passou a medir palavras, evitar temas, recalcular vínculos e viver sob o peso da vigilância informal.
Esse talvez seja o aspecto mais sofisticado da violência política. Ela não precisa fechar todas as portas de uma vez. Basta tornar o ambiente irrespirável. Basta produzir insegurança. Basta disseminar a sensação de que qualquer gesto intelectual pode ser interpretado como ameaça. A pedagogia autoritária do medo funciona assim: ela ensina a autocensura antes mesmo da censura oficial.
No caso das instituições públicas de ensino, isso é devastador. Porque a missão dessas instituições é exatamente o oposto: produzir confiança cognitiva, investigação rigorosa, debate qualificado e circulação pública do conhecimento. Quando o medo entra, o método recua. Quando a vigilância avança, a curiosidade se contrai. Quando a intimidação vira paisagem, a inteligência começa a se defender em vez de se expandir.
4. O sucateamento não é acidente: é método
O filme também permite uma leitura que, para quem vive a realidade das instituições públicas, é impossível ignorar: o sucateamento não precisa ser reconhecido oficialmente como política para funcionar politicamente como política.
Em obras sobre ditaduras, muita gente espera sempre a imagem explícita da força: tanques, fardas, armas, celas. Mas há outra forma de destruição, mais lenta e às vezes mais eficaz. É a destruição por asfixia. Não se elimina uma universidade apenas com invasão militar. Pode-se eliminá-la também com corte de orçamento, abandono predial, desorganização administrativa induzida, precarização das condições de trabalho, desmoralização pública dos docentes e erosão simbólica da confiança social na educação.
É nesse ponto que O Agente Secreto conversa com o Brasil de hoje de modo quase perturbador. Porque a degradação material nunca é apenas material. Um laboratório sem manutenção não é só um laboratório sem manutenção. É uma pesquisa que não acontece, um estudante que desiste, um professor que se desmotiva, uma linha de investigação que se rompe, uma região que perde capacidade de desenvolvimento.
Quando se retira da educação pública a estabilidade mínima para planejar, pesquisar e formar, o prejuízo não é corporativo. É civilizacional. O país entra em marcha lenta. A autonomia tecnológica diminui. A dependência externa cresce. A inteligência nacional se fragmenta. E o mais perverso: tudo isso pode ser vendido ao público como se fosse apenas “ajuste”, “eficiência”, “responsabilidade” ou “combate a privilégios”.
5. “Banho de indústria”: a modernização sem alma
Entre as imagens conceituais mais provocativas associadas ao filme está a ideia de “banho de indústria”. Tomada como chave interpretativa, essa expressão condensa uma crítica profunda ao tipo de modernização que a ditadura brasileira tentou performar.
Em termos simbólicos, “banho de indústria” pode ser lido como o verniz técnico aplicado sobre uma estrutura intelectualmente corroída. É a aparência de modernização sem a substância da autonomia científica. É o desenvolvimento como fachada. É a tecnologia exibida como propaganda, enquanto o pensamento crítico que deveria sustentá-la é perseguido, domesticado ou descartado.
Essa expressão permite compreender um paradoxo histórico brasileiro: o desejo de parecer moderno convivendo com a destruição das bases que tornam uma sociedade verdadeiramente moderna. Não há modernidade robusta sem universidade forte. Não há soberania tecnológica sem pesquisa pública consistente. Não há industrialização consequente sem formação humana, ciência básica, liberdade acadêmica e investimento continuado.
O “banho de indústria”, então, não seria a industrialização real, mas sua maquiagem. Uma espécie de acabamento institucional para impressionar o olhar de fora e disciplinar o olhar de dentro. O país posa de potência, mas corrói as engrenagens do conhecimento. Exibe máquinas e reprime mestres. Fala em progresso, mas desconfia da inteligência organizada.
Essa é uma crítica que continua atual. Ainda hoje, parte do debate público brasileiro trata ciência, universidade e institutos como ornamentos caros, e não como infraestrutura estratégica da nação. Quer-se inovação sem pesquisador, tecnologia sem laboratório, crescimento sem educação pública, soberania sem investimento em inteligência coletiva. É um erro histórico recorrente.
6. O filme visto a partir de um Instituto Federal
Como professor de instituição pública, não consegui ver O Agente Secreto apenas como uma obra sobre o passado. Vi também um espelho oblíquo do presente. E talvez seja essa a sua maior força: ele não nos deixa confortáveis na ilusão de que tudo aquilo ficou para trás.
Os Institutos Federais, assim como as universidades públicas, são muito mais do que espaços de oferta de vagas. São instituições territoriais de formação, pesquisa, extensão, inovação e mobilidade social. Em muitos municípios brasileiros, o campus público é uma das poucas presenças concretas do Estado que ainda significam horizonte, método, ciência e futuro.
Por isso, quando o debate político degrada essas instituições, o ataque não é só orçamentário. É simbólico. Tenta-se esvaziar sua legitimidade. Tenta-se apresentar professor como inimigo ideológico, pesquisador como militante disfarçado, estudante crítico como problema de ordem, campus como gasto excessivo, ciência como luxo e pensamento como suspeita. Esse roteiro não é novo. Apenas muda de roupa conforme a época.
O que o filme me devolveu foi justamente essa percepção aguda: o autoritarismo não começa necessariamente com botas. Às vezes começa com campanhas de desprestígio, com difamação sistemática, com simplificações grosseiras sobre o papel das instituições públicas, com o incentivo à hostilidade contra professores e com a tentativa de convencer a sociedade de que conhecimento crítico é um obstáculo, e não uma condição, para o desenvolvimento nacional.
7. A extrema direita brasileira e a guerra contra o pensamento
É impossível concluir uma reflexão como essa sem falar do presente brasileiro. Nos últimos anos, universidades e institutos federais tornaram-se alvos recorrentes de ataques políticos, morais e discursivos por parte de grupos de extrema direita. Esses ataques assumem formas diversas: cortes e contingenciamentos, campanhas de descredibilização, acusações ideológicas difusas, perseguição simbólica a docentes, hostilidade ao pensamento humanístico e desconfiança sistemática em relação à ciência.
Não se trata de mera divergência sobre políticas educacionais. Divergência é parte da democracia. O problema surge quando a educação pública passa a ser tratada como inimiga interna. Quando a universidade deixa de ser criticada em aspectos objetivos e passa a ser retratada como foco de contaminação ideológica. Quando o instituto deixa de ser visto como patrimônio do povo e passa a ser apresentado como espaço a ser domado, vigiado ou reduzido.
Essa postura tem consequências graves. Uma sociedade ensinada a desprezar seus professores e suas instituições científicas se torna muito mais vulnerável à manipulação, ao obscurantismo e à mentira organizada. Sem academia forte, o debate público empobrece. Sem pesquisa robusta, a política pública improvisa. Sem formação crítica, a população fica mais exposta a charlatanismos, teorias conspiratórias e lideranças que se alimentam da antipolítica e da ignorância.
A ignorância cultivada politicamente não é ausência inocente de conhecimento. É ferramenta de poder. Um povo afastado da ciência, da história e da capacidade crítica é mais fácil de governar pelo medo, pelo ressentimento e por slogans simplificadores. Países que hostilizam suas universidades podem até produzir ruído e espetáculo por algum tempo, mas perdem densidade estratégica, capacidade inovadora e autonomia histórica.
8. O que a ignorância na academia faz com um país
Quando a academia é enfraquecida, o país não perde apenas prestígio intelectual. Perde capacidade de existir com soberania no mundo. Perde engenheiros, professores, médicos, técnicos, pesquisadores, cientistas sociais, matemáticos, filósofos, programadores, artistas, linguistas, educadores. Perde, sobretudo, a capacidade de compreender a si mesmo.
A ignorância institucionalizada produz um país mais dependente. Dependente de tecnologia importada, de soluções prontas, de interpretações externas sobre sua realidade, de modelos que não nasceram das suas necessidades. Um país que despreza a pesquisa pública abre mão da sua própria inteligência estratégica. Torna-se consumidor do futuro desenhado por outros.
Além disso, a ignorância contra a academia deteriora o tecido democrático. Onde o pensamento crítico é desmoralizado, prospera a intolerância ao contraditório. Onde o professor é ridicularizado, enfraquece-se o valor público da argumentação. Onde a universidade é tratada como estorvo, cresce a tentação de resolver conflitos complexos com fórmulas brutais e falsas certezas.
A história mostra isso de forma dolorosa. Toda vez que regimes ou movimentos autoritários buscaram consolidar poder, a produção de conhecimento livre esteve entre os primeiros alvos. Não por acaso. A academia, quando viva, produz um tipo de cidadão inconveniente para projetos de dominação: alguém que pergunta, compara, historiciza, suspeita, investiga, verifica e recusa respostas simplistas para problemas complexos.
9. Um filme sobre ontem, um alerta para agora
O Agente Secreto ganhou reconhecimento internacional não apenas por sua qualidade cinematográfica, mas porque toca numa questão universal: o que acontece com uma sociedade quando o poder passa a temer a memória e o pensamento? O filme foi celebrado em Cannes e se tornou um dos grandes títulos brasileiros recentes exatamente porque articula forma, atmosfera e história de modo contundente.
Mas, para além dos prêmios, o que permanece é seu aviso. O filme lembra que a destruição de uma nação pode começar pela destruição dos seus ambientes de inteligência. Pode começar quando pensar vira suspeito. Quando ensinar vira risco. Quando pesquisar vira ato de coragem. Quando a universidade é cercada não apenas por grades físicas, mas por grades discursivas, orçamentárias e ideológicas.
Essa é a razão pela qual a obra ressoa tanto para quem vive a educação pública. Ela nos obriga a olhar para o presente sem ingenuidade. O autoritarismo nem sempre se apresenta dizendo o próprio nome. Às vezes ele fala em ordem, eficiência, moralidade, neutralidade ou patriotismo. Mas, se no caminho disso tudo ele precisa humilhar professores, enfraquecer universidades, desacreditar institutos e hostilizar a ciência, então o que está em curso não é fortalecimento nacional. É regressão.
Conclusão
O Agente Secreto é um filme sobre perseguição, medo e memória, mas é também algo mais profundo: uma reflexão sobre o custo histórico de um país que decide tratar a inteligência como ameaça. Ao acompanhar um pesquisador acuado em meio à atmosfera sufocante da ditadura, Kleber Mendonça Filho não fala apenas de um homem, nem apenas de um período. Fala de um mecanismo persistente da vida brasileira: a facilidade com que projetos autoritários identificam no professor, no pesquisador, na universidade e no instituto público um inimigo a ser vigiado, cortado, ridicularizado ou silenciado.
Essa leitura se torna ainda mais urgente diante do presente. Os ataques contemporâneos às universidades e aos Institutos Federais por setores da extrema direita brasileira não são episódios isolados de retórica agressiva. Eles fazem parte de uma estratégia mais ampla de rebaixamento da esfera pública do conhecimento. Quando a educação pública é tratada como alvo, o que está em jogo não é apenas a rotina institucional de campi e universidades. Está em jogo a capacidade de um país produzir ciência, tecnologia, pensamento crítico, cidadania e autonomia.
Ignorar a academia, hostilizá-la ou esvaziá-la não gera apenas atraso educacional. Gera dependência econômica, fragilidade democrática, mediocridade técnica e pobreza moral. Um país que despreza seus professores aprende a obedecer mais facilmente; um país que enfraquece seus laboratórios aceita mais facilmente a subordinação tecnológica; um país que ridiculariza suas universidades se torna mais vulnerável à mentira, ao fanatismo e à brutalização do debate público. A ignorância, quando transformada em programa político, não é apenas um problema cultural. É um projeto de poder. E quase sempre cobra seu preço em décadas perdidas.
Referências
ADOROCINEMA. O Agente Secreto. [S.l.], 2025. Disponível em: fonte consultada via busca web. Acesso em: 15 mar. 2026.
ASSOCIATED PRESS. Director Mendonça Filho of “The Secret Agent” reflects on memory and success of Brazilian cinema. 2026. Disponível em: fonte consultada via busca web. Acesso em: 15 mar. 2026.
FORBES BRASIL. Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho são premiados em Cannes por “O Agente Secreto”. 24 maio 2025. Disponível em: fonte consultada via busca web. Acesso em: 15 mar. 2026.
GUIA DO ESTUDANTE. “O Agente Secreto” mostra impacto da Ditadura Militar nas universidades; saiba como foi na realidade. 12 jan. 2026. Disponível em: fonte consultada via busca web. Acesso em: 15 mar. 2026.
JORNAL DA USP. O agente secreto: em busca de um Brasil afetuoso. 14 jan. 2026. Disponível em: fonte consultada via busca web. Acesso em: 15 mar. 2026.
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