sexta-feira, 6 de março de 2026

Judaísmo, sionismo e semitismo: por que o conflito entre Israel, Palestina e Irã é mais político do que religioso

Judaísmo, sionismo e semitismo: por que o conflito entre Israel, Palestina e Irã parece religioso, mas é sobretudo político, territorial, militar e geoestratégico



1. 

Há temas em que a confusão das palavras já é parte da guerra. O conflito que envolve Israel, Palestina e Irã é um deles. Em grande parte do debate público, tudo aparece misturado: judaísmo, sionismo, povo judeu, Estado de Israel, semitismo, antissemitismo, islamismo, Hamas, Irã, ocupação, segurança, resistência, terrorismo, soberania. O resultado é previsível. Em vez de análise, surge catecismo. Em vez de compreensão, surgem trincheiras morais. E, quando isso acontece, a guerra deixa de ser lida como estrutura de poder e passa a ser vendida como disputa de essências eternas.


A tese central deste artigo é simples, mas exige precisão: judaísmo, sionismo e semitismo ajudam a entender a linguagem, a memória e algumas bases identitárias do conflito, porém não explicam, sozinhos, sua engrenagem histórica concreta. O núcleo real da crise é político, territorial, militar e geoestratégico. Trata-se de terra, soberania, controle de fronteiras, ocupação, deslocamento populacional, alianças regionais, disputa de legitimidade internacional, capacidade de dissuasão e uso organizado da força. A religião e a memória histórica entram com enorme peso simbólico, mas não substituem a anatomia do poder (Britannica, 2026a; CIJ, 2024; Reuters, 2024a).


Dizer isso não significa rebaixar a importância da fé ou da identidade. Significa recolocá-las no plano correto. O judaísmo é uma tradição religiosa e civilizacional milenar do povo judeu; o sionismo é um movimento político moderno, formulado sobretudo a partir do fim do século XIX, em favor da autodeterminação nacional judaica; e o termo “semítico” pertence, em sua origem mais rigorosa, ao campo linguístico-histórico, relacionado a línguas como o hebraico e o árabe (Britannica, 2026a; Britannica, 2026b; Britannica, 2026c). Misturar esses três níveis como se fossem a mesma coisa é um atalho conceitual. E atalhos conceituais costumam desembocar em violência verbal, propaganda e cegueira analítica.



2. O erro que intoxica o debate



O primeiro problema do debate contemporâneo está na falsa equivalência. Judaísmo não é sinônimo de sionismo. Sionismo não é sinônimo de Estado de Israel. Estado de Israel não é sinônimo de todo o povo judeu. E “semita” não significa, de forma exclusiva, “judeu”. Quando essas distinções desaparecem, tudo se deforma.


Essa deformação aparece de formas diferentes. Em alguns discursos, qualquer crítica à ocupação dos territórios palestinos ou às políticas do governo israelense é tratada automaticamente como antissemitismo. Em outros, toda a história judaica é absorvida pela crítica ao sionismo, como se o judaísmo inteiro fosse apenas o nome religioso de um projeto estatal moderno. Em ambos os casos, o pensamento recua. De um lado, o Estado tenta vestir a roupa inteira da civilização. Do outro, a civilização inteira é julgada como se fosse um governo em campanha militar.


O problema é que conflito real não cabe em simplificação moral tão conveniente. Quando um exército ocupa, bombardeia, bloqueia ou amplia assentamentos, quem age é um aparato estatal ou paraestatal, não uma religião abstrata. Quando grupos armados atacam civis, lançam foguetes, sequestram ou operam como milícias regionais, o que está em curso também não é simplesmente “a fé em movimento”, mas uma estratégia política armada. A religião fornece linguagem, legitimidade, memória, coesão e mobilização. O poder fornece a estrutura da ação (Britannica, 2026d; Reuters, 2024a).



3. Judaísmo não é Estado



O judaísmo é anterior, muito anterior, ao Estado moderno de Israel. Ele não nasceu como aparato militar, nem como fronteira reconhecida, nem como soberania nos moldes do sistema internacional contemporâneo. A Encyclopaedia Britannica o define como a religião monoteísta desenvolvida entre os antigos hebreus e, ao mesmo tempo, como uma forma de vida total do povo judeu, englobando crenças, práticas, ética, memória e continuidade histórica (Britannica, 2026a).


Esse ponto é fundamental. O povo judeu atravessou séculos de dispersão, reorganização comunitária, adaptação cultural e resistência civilizacional sem depender de um Estado nacional moderno. A diáspora judaica, lembrada pela Britannica como processo histórico de dispersão entre sociedades não judaicas, mostra que a continuidade do judaísmo foi sustentada por estudo, rito, lei, comunidade e memória, e não apenas por poder territorial centralizado (Britannica, 2026e).


Isso muda completamente a leitura do presente. Quando se tenta fundir o judaísmo ao Estado de Israel, produz-se um estreitamento brutal da experiência judaica. É como se toda uma tradição milenar, atravessada por escolas religiosas, debates rabínicos, exílios, perseguições, renascimentos culturais e formas diversas de pertença, fosse reduzida a um único centro estatal contemporâneo. Trata-se de uma compressão histórica indevida.


Também por isso nem todo judeu vive sua identidade da mesma maneira. Há judeus ortodoxos, conservadores, reformistas, seculares, ateus, sionistas, não sionistas, antissionistas e pós-sionistas. Há judeus cuja identidade é antes religiosa; outros a vivem como herança cultural; outros a reconhecem como pertencimento histórico; outros a vinculam fortemente à ideia de Israel; outros, não. A existência dessa pluralidade é suficiente para desmontar a ideia de que judaísmo e sionismo sejam termos equivalentes.



4. Sionismo não é sinônimo de judaísmo



O sionismo pertence a outra camada histórica. Segundo a Britannica, trata-se de um movimento nacionalista ligado à ideia de criação e sustentação de uma pátria judaica, cuja formulação política moderna ganhou corpo decisivo com Theodor Herzl no final do século XIX (Britannica, 2026b; Britannica, 2026f). Herzl, ao escrever Der Judenstaat em 1896, tratou a chamada “questão judaica” como um problema político a ser resolvido politicamente. No ano seguinte, o Congresso Sionista Mundial consolidou institucionalmente essa virada (Britannica, 2026f).


É importante sublinhar a palavra “moderna”. O sionismo não é simplesmente o judaísmo traduzido em política. Ele é uma resposta histórica específica, surgida em meio ao nacionalismo europeu, ao antissemitismo moderno, aos pogroms e ao fracasso parcial da assimilação. Ele bebe de memórias mais antigas, é verdade, mas sua forma é moderna. Seu vocabulário é o da autodeterminação nacional, da soberania política, da questão territorial e da segurança coletiva.


Esse dado é essencial para que o debate não se converta em truque retórico. Quando alguém diz “todo judeu é sionista”, apaga a pluralidade judaica. Quando alguém diz “o sionismo é a essência eterna do judaísmo”, converte uma resposta política moderna em substância religiosa absoluta. E quando alguém trata o sionismo como um bloco monolítico, ignora as correntes internas do próprio movimento, que foram do sionismo trabalhista ao revisionista, do secular ao religioso, do pragmático ao expansionista (Britannica, 2026b).


Portanto, a relação entre judaísmo e sionismo existe, mas não é de identidade. O sionismo emerge da experiência histórica de setores do povo judeu, mas não esgota o judaísmo nem representa automaticamente todos os judeus. Essa distinção, longe de ser apenas acadêmica, é indispensável para separar crítica política de generalização étnico-religiosa.



5. Semitismo: o termo mais confundido do debate



O termo “semítico” é outro foco de mal-entendidos. A Britannica registra as línguas semíticas como um ramo da família afro-asiática, do qual fazem parte, entre outras, o hebraico e o árabe (Britannica, 2026c). Já o verbete “Semite” lembra que a categoria foi popularizada em contextos intelectuais do século XIX e hoje é considerada inadequada ou obsoleta quando usada como grande identidade de povo uniforme (Britannica, 2026g).


Isso quer dizer o seguinte: judeus e árabes podem ser situados, em sentido histórico-linguístico, em tradições semíticas, mas isso não resolve o conflito nem oferece uma chave política suficiente para compreendê-lo. Dizer que o conflito é “entre semitas” talvez produza impacto retórico, mas explica quase nada. Território não se decide por etimologia. Fronteiras não são desenhadas pela árvore genealógica das línguas.


O termo reaparece com mais frequência por causa da palavra “antissemitismo”, que, no uso histórico consolidado, designa hostilidade e discriminação contra judeus. Trata-se de um uso que se firmou politicamente, ainda que o campo linguístico seja mais amplo. Esse detalhe importa porque muitos debates, ao tentar relativizar o antissemitismo com base na etimologia de “semita”, acabam desviando da realidade histórica do preconceito antissemita moderno. O antissemitismo não é uma abstração lexical. É um fenômeno histórico concreto de perseguição aos judeus.


Logo, o semitismo ajuda mais a limpar o vocabulário do que a explicar o conflito. A guerra não é movida por famílias linguísticas. Ela é movida por projetos de poder.



6. Como a questão palestina entrou no centro da história



A questão palestina não surgiu como um rodapé inevitável de disputa teológica. Ela entrou no centro da história moderna pela combinação de fatores políticos concretos: o colapso de impérios, o Mandato Britânico, o crescimento do movimento sionista, a presença de populações árabes palestinas no território, o fracasso de arranjos coloniais e a tentativa internacional de partilha.


A ONU, ao sintetizar a história da Questão da Palestina, recorda que, ao fim do Mandato Britânico, a Assembleia Geral aprovou a Resolução 181, em 1947, recomendando a partilha da Palestina em um Estado árabe e um Estado judeu, além de um regime internacional especial para Jerusalém (ONU, 2026). A Britannica, em verbete específico sobre a Resolução 181, confirma esse desenho histórico e sua centralidade no desencadeamento dos eventos subsequentes (Britannica, 2026h).


Esse é um ponto decisivo. O conflito israelense-palestino contemporâneo não nasce de uma simples antipatia religiosa milenar. Ele nasce da colisão entre dois projetos nacionais sobre a mesma terra, em um contexto de descolonização incompleta, rearranjo geopolítico e produção de legitimidades concorrentes. A religião pesa, sem dúvida, mas a estrutura da crise é política e territorial.


Em linguagem direta, o problema não era apenas “quem crê em quê”, mas “quem terá soberania, em qual território, sob quais fronteiras e com qual reconhecimento”. Essa pergunta continua viva até hoje.



7. 1947, 1948 e a ferida original



A partilha de 1947 não trouxe pacificação. Ela abriu caminho para guerra civil e, em seguida, para a guerra árabe-israelense de 1948. A Britannica observa que a criação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948 foi seguida por guerra com Estados árabes vizinhos, da qual resultaram fronteiras de fato e reconfigurações territoriais decisivas (Britannica, 2026i). A Reuters, ao resumir a história do conflito em dezembro de 2024, retomou o dado amplamente reconhecido de que cerca de 700 mil palestinos foram deslocados em 1948, evento conhecido como Nakba, “catástrofe”, na memória palestina (Reuters, 2024b).


É aqui que se instala a ferida original das duas narrativas nacionais. Para grande parte dos judeus, 1948 simboliza independência, proteção coletiva e saída histórica da vulnerabilidade. Para grande parte dos palestinos, o mesmo evento representa expulsão, perda de terra, refúgio e fragmentação nacional. O mesmo marco histórico carrega, portanto, duas experiências fundacionais incompatíveis, ou ao menos profundamente tensionadas.


Nenhuma análise séria pode apagar uma dessas memórias sem mutilar o problema. Ignorar a história de perseguição judaica e o peso traumático do antissemitismo europeu empobrece a compreensão da busca por segurança. Ignorar a Nakba e a experiência palestina de deslocamento em massa empobrece a compreensão da demanda palestina por justiça, retorno, soberania e dignidade. O conflito se tornou tão duro justamente porque ambas as memórias passaram a operar como fundamentos morais do presente.



8. Ocupação, assentamentos e o peso do direito internacional



Se 1948 marcou a ruptura fundadora, a ocupação prolongada consolidou a crise contemporânea. Em julho de 2024, a Corte Internacional de Justiça publicou parecer consultivo sobre as consequências jurídicas das políticas e práticas de Israel no Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental. No resumo oficial, a Corte concluiu que a presença continuada de Israel nesse território é ilegal segundo o direito internacional e que deve ser encerrada o mais rapidamente possível (CIJ, 2024). A Reuters noticiou o mesmo ponto, destacando que a Corte considerou ilegais a ocupação e os assentamentos nos territórios palestinos (Reuters, 2024a).


Em setembro de 2024, a Assembleia Geral da ONU aprovou resolução exigindo que Israel encerrasse sua presença “ilegal” no Território Palestino Ocupado dentro de doze meses, acolhendo politicamente o entendimento da CIJ (Reuters, 2024c). O documento oficial da Assembleia Geral também registra essa orientação (ONU, 2024).


Esse conjunto de fatos é crucial porque desloca o debate do campo da mera opinião para o campo jurídico-internacional. Não se trata apenas de narrativas concorrentes sobre história sagrada ou trauma civilizacional. Trata-se também de ocupação, administração prolongada de território alheio, assentamentos, recursos, circulação, anexação de fato e autodeterminação. São categorias de direito e poder, não apenas de crença.


É justamente por isso que a frase “é só guerra religiosa” falha de modo tão evidente. Assentamento não é conceito teológico. Ocupação não é rito. Controle de fronteira, bloqueio, administração militar e arquitetura jurídica da desigualdade pertencem ao campo do poder estatal. A religião pode legitimar, sacralizar, intensificar e mobilizar. Mas é o poder que organiza o espaço.



9. Por que chamar tudo de “guerra religiosa” é uma fuga



A expressão “guerra religiosa” seduz porque simplifica um mundo complicado. Ela pega uma história cheia de documentos, tratados, operações militares, resoluções, colonização, nacionalismos e alianças regionais e a converte numa espécie de fatalismo espiritual. Parece mais fácil dizer que judeus e muçulmanos estão presos a um ódio ancestral do que encarar a engrenagem concreta da ocupação, da soberania, dos assentamentos e da rivalidade regional.


Mas essa leitura é uma fuga. O conflito israelense-palestino moderno é inseparável da partilha da Palestina, das guerras de 1948 e 1967, da situação dos refugiados, do estatuto de Jerusalém, da expansão de assentamentos e do fracasso reiterado das tentativas de solução de dois Estados (Britannica, 2026j; ONU, 2026). Tudo isso é política concreta. Tudo isso é território. Tudo isso é institucionalidade e força.


É evidente que a religião importa. Jerusalém importa religiosamente. A memória bíblica importa. O pertencimento islâmico palestino importa. O problema é transformar importância simbólica em causa exclusiva. A terra é sagrada, mas também é administrada. A cidade é santa, mas também é governada. O local de culto é venerado, mas também está submetido a polícia, exército, leis e fronteiras. O que faz a guerra não é apenas a sacralidade dos lugares; é quem tem capacidade de decidir sobre eles.


Religião, nesse quadro, atua como acelerador. Ela aumenta a temperatura moral do conflito. Ela torna concessões mais difíceis, porque ceder território pode parecer ceder promessa. Ela fortalece a sensação de missão histórica. Porém, se a análise parar aí, perde-se o essencial: o conflito persiste porque está ancorado em estruturas materiais de poder.



10. Israel, Palestina e a política da segurança



Poucas palavras têm tanta força no conflito quanto “segurança”. Israel invoca segurança para justificar operações militares, barreiras, controle de circulação, bombardeios, inteligência preventiva e ação contra grupos armados. Palestinos invocam segurança para denunciar ocupação, bloqueios, expulsões, incursões, cercos e violência cotidiana. A mesma palavra serve a experiências radicalmente distintas.


Isso mostra como a linguagem da segurança funciona como idioma político central da guerra. Ela não é falsa por definição. Israel de fato enfrenta ataques, foguetes, redes armadas e ameaças regionais. Palestinos de fato vivem sob ocupação, assimetria militar, perda de autonomia e insegurança estrutural. O problema aparece quando a segurança de um lado passa a ser formulada como suspensão contínua dos direitos do outro.


Nesse ponto, o conflito deixa de ser apenas uma controvérsia histórica e vira um dilema de arquitetura política. Como garantir segurança sem transformar a segurança em álibi para ocupação sem fim? Como reivindicar libertação sem converter a libertação em licença para matar civis? Como sustentar direito de existir sem transformar esse direito em direito de dominar? Essas perguntas são o coração moral do problema.



11. Onde o Irã entra nessa equação



A relação de Israel com o Irã não é idêntica à relação de Israel com a Palestina. Com a Palestina, o centro da disputa é territorial e nacional. Com o Irã, o centro é a rivalidade estratégica regional, ainda que a Palestina continue funcionando como elo simbólico e político.


A Reuters descreveu, em janeiro de 2024 e em reportagens posteriores, a rede de grupos apoiados por Teerã — frequentemente chamada de “Eixo da Resistência” — como envolvendo Hezbollah, facções palestinas, grupos no Iraque e Houthis no Iêmen (Reuters, 2025a). Em junho de 2025, a agência noticiou declaração do Hamas segundo a qual o Irã estaria “pagando o preço” por apoiar os militantes de Gaza, o que explicita o vínculo entre a causa palestina e a projeção regional iraniana (Reuters, 2025a).


Esse dado é central. O Irã não entra no conflito apenas por afinidade ideológica abstrata, mas por cálculo geopolítico. Apoiar a causa palestina e grupos armados hostis a Israel amplia sua capacidade de influência regional, reforça sua imagem de polo de resistência e cria mecanismos indiretos de dissuasão contra Israel e os Estados Unidos. Para Israel, por sua vez, esse apoio iraniano transforma a questão palestina em parte de um arco maior de ameaça regional.


Em outras palavras, a Palestina se conecta ao conflito Israel-Irã porque funciona como ponto de convergência entre drama nacional real e estratégia regional.



12. A Palestina como tragédia real e como linguagem geopolítica



A Palestina é uma tragédia concreta. Há território disputado, população deslocada, ocupação prolongada, bloqueios, destruição, impasses jurídicos e repetidas crises humanitárias. Mas a Palestina também é uma linguagem geopolítica. Ela é invocada por Estados, milícias, partidos, lideranças regionais e potências globais como bandeira moral, instrumento de legitimação ou peça de negociação.


Esse duplo estatuto é parte do drama. A causa palestina é real demais para ser apenas símbolo, mas é simbólica demais para deixar de ser instrumentalizada. O Irã a usa como um eixo de sua disputa contra Israel e os Estados Unidos. Governos árabes a mobilizam seletivamente conforme seus próprios interesses. Grupos armados a transformam em vocabulário de resistência. Potências ocidentais a encaixam dentro de seus próprios discursos sobre estabilidade, terrorismo e ordem internacional.


O efeito disso é perverso. Em vez de aparecerem sempre como sujeitos políticos plenos, os palestinos frequentemente aparecem como signo útil para estratégias alheias. É uma segunda violência: além da violência material da guerra, há a violência política da instrumentalização.



13. O uso político da memória e da identidade



Nenhum conflito dessa intensidade sobrevive sem memória organizada. Israel mobiliza a memória de perseguições históricas, da diáspora, do antissemitismo europeu e do Holocausto como base moral de sua busca por segurança e soberania. A Palestina mobiliza a memória da Nakba, da perda da terra, da ocupação e da resistência como base moral de sua reivindicação nacional. Ambas as narrativas são poderosas porque se apoiam em sofrimentos reais.


O problema surge quando memória vira blindagem. Toda memória coletiva precisa de reconhecimento. Mas, quando o reconhecimento do próprio trauma passa a servir como autorização automática para ignorar o trauma alheio, a memória deixa de iluminar e passa a endurecer. A história vira arma.


Esse mecanismo explica parte da rigidez do conflito. Para muitos israelenses, ceder pode parecer abrir novamente a porta para a vulnerabilidade histórica. Para muitos palestinos, aceitar o arranjo existente pode parecer normalizar a catástrofe histórica e a subordinação contínua. O presente fica preso entre duas experiências de perda.



14. Crítica a governo não é preconceito contra povo



Talvez este seja um dos pontos mais urgentes do debate contemporâneo. Criticar políticas do governo israelense, a ocupação, a expansão de assentamentos ou o uso desproporcional da força não é, por definição, antissemitismo. Em abril de 2025, a Reuters publicou checagem esclarecendo que o parecer da CIJ estava sendo distorcido online como se tivesse declarado Israel um “país ilegal”, quando o que a Corte examinou foi a legalidade da ocupação dos territórios palestinos, e não a existência do Estado de Israel em si (Reuters, 2025b).


Essa distinção é essencial. Sem ela, qualquer crítica jurídica ou política ao Estado de Israel pode ser dissolvida em acusação moral generalizante. O resultado é péssimo, inclusive para o combate real ao antissemitismo. Quando tudo vira antissemitismo, o antissemitismo verdadeiro perde nitidez. E ele existe. Ele é histórico, recorrente e perigoso. Por isso mesmo, deve ser nomeado com rigor, não usado como rótulo elástico para silenciar divergências legítimas.


Criticar governo não é odiar povo. Criticar ocupação não é atacar uma religião. Criticar uma ideologia política moderna não é, automaticamente, perseguir uma comunidade milenar. A análise madura precisa ser capaz de fazer essas separações.



15. O erro oposto: apagar o antissemitismo e a história judaica



Mas o debate também adoece no extremo oposto. Há discursos que tratam o sionismo como se tivesse surgido do nada, como pura ambição colonial abstrata, sem conexão com o antissemitismo moderno, com os pogroms, com a exclusão europeia e, depois, com o Holocausto. Essa leitura também mutila a história.


A formulação moderna do sionismo, como indicam os verbetes da Britannica sobre Herzl e sionismo, nasce precisamente de uma percepção: a assimilação não seria suficiente para resolver a vulnerabilidade judaica em sociedades que continuavam produzindo hostilidade, segregação e violência (Britannica, 2026b; Britannica, 2026f). Ignorar esse contexto não produz justiça analítica. Produz caricatura.


Explicar essa origem não significa absolver qualquer forma de sionismo nem legitimar automaticamente toda política de Estado praticada em seu nome. Significa apenas reconhecer que projetos políticos não surgem no vazio. Eles emergem de contextos históricos, medos concretos e diagnósticos sobre sobrevivência coletiva. Nenhum debate sério sobre o presente pode dispensar essa genealogia.



16. A escalada recente e o que ela revela



Os desdobramentos mais recentes reforçam a tese de que o conflito não pode ser reduzido a religião. Em 6 de março de 2026, a Reuters informou que a guerra ampliada entre Estados Unidos, Israel e Irã já estava no sétimo dia e vinha comprometendo corredores humanitários globais, com fechamento de espaços aéreos, paralisação de rotas marítimas relevantes e impactos sobre o envio de ajuda a regiões como Gaza e Sudão (Reuters, 2026a). Trata-se de uma consequência tipicamente geoestratégica. O efeito de uma guerra regional já se espalha por logística, comércio, seguros, energia e ajuda humanitária.


No mesmo dia, a Reuters noticiou bombardeios israelenses intensos em Beirute e ordens massivas de evacuação no Líbano, em escalada ligada ao Hezbollah (Reuters, 2026b). Outra reportagem mostrou que a entrada do Hezbollah no confronto em apoio ao Irã aprofundou o isolamento interno do grupo no Líbano, revelando fissuras domésticas dentro do próprio campo anti-Israel (Reuters, 2026c).


Esses fatos importam porque demonstram o seguinte: o conflito extrapola há muito o plano bilateral. Ele já funciona como sistema regional de guerra. Nele se cruzam Israel, Palestina, Irã, Líbano, milícias, aliados globais, corredores marítimos, opinião pública internacional e organismos multilaterais. O cenário real é de interdependência bélica regional, não de simples antagonismo religioso entre comunidades.



17. O que realmente move a guerra



Chega-se, então, ao ponto central. O que move a guerra não é apenas fé, nem apenas memória, nem apenas identidade. O que move a guerra é a forma como esses elementos são incorporados por estruturas de poder. A religião dá sentido. A memória dá profundidade. A identidade dá coesão. Mas quem transforma tudo isso em ocupação, assentamento, operação militar, dissuasão regional, bloqueio, fronteira e bombardeio é a política organizada pelo poder.


No eixo Israel-Palestina, o motor principal é a colisão entre dois projetos nacionais sobre a mesma terra, agravada por expulsão histórica, ocupação prolongada, desigualdade de força e fracasso diplomático. No eixo Israel-Irã, o motor principal é a rivalidade estratégica por influência regional, capacidade de dissuasão, redes de aliados armados e enfrentamento indireto e direto. A Palestina conecta os dois eixos porque é, simultaneamente, questão real de um povo e símbolo mobilizador de uma disputa regional mais ampla.


Isso ajuda a compreender a frase que organiza este artigo: judaísmo, sionismo e semitismo ajudam a nomear partes do problema, mas não constituem sua engrenagem central. Judaísmo explica a profundidade da identidade histórica judaica. Sionismo explica a transformação de parte dessa experiência em projeto político moderno de autodeterminação nacional. Semitismo explica um contexto linguístico-histórico mais amplo. Porém, para entender a guerra, é preciso ir além disso e observar território, soberania, militarização, alianças e geopolítica.



18. Conclusão



A conclusão mais honesta é esta: o conflito entre Israel, Palestina e Irã não pode ser lido com seriedade se for reduzido a uma guerra de religiões, a um choque inevitável entre essências ou a um duelo entre categorias identitárias simplificadas. Judaísmo, sionismo e semitismo são conceitos relevantes, mas pertencem a planos diferentes. O judaísmo é uma tradição religiosa e civilizacional milenar. O sionismo é uma formulação política moderna, nascida num contexto histórico específico. O semitismo é uma categoria histórico-linguística que ajuda a organizar o vocabulário, mas não decide fronteiras nem explica ocupações (Britannica, 2026a; Britannica, 2026b; Britannica, 2026c).


O conflito israelense-palestino nasce da colisão entre projetos nacionais sobre o mesmo território, agravada por deslocamento histórico, guerra, ocupação e assimetria de poder. O conflito entre Israel e Irã nasce da rivalidade estratégica regional, da política de dissuasão, de alianças armadas e da luta por hegemonia no Oriente Médio. A Palestina une esses eixos porque é, ao mesmo tempo, uma causa real de um povo e uma bandeira mobilizadora para outros atores (CIJ, 2024; Reuters, 2025a; Reuters, 2026a).


Uma análise lúcida precisa sustentar simultaneamente algumas verdades incômodas. O antissemitismo é real e deve ser combatido. A história judaica de perseguição não pode ser apagada. A Nakba e a experiência palestina de expulsão, subordinação e ocupação também não podem ser relativizadas. Criticar as políticas do Estado de Israel não é o mesmo que odiar judeus. E instrumentalizar a causa palestina como peça geopolítica também é uma forma de violência política. Quando essas distinções se perdem, o debate vira propaganda. E propaganda, quase sempre, prepara o terreno para novas guerras.


No fundo, a disputa não é apenas sobre crença. É sobre quem tem direito de existir com segurança, quem tem direito de permanecer na terra, quem controla o território, quem define as regras, quem suporta o peso da memória e quem consegue transformar sua narrativa em legitimidade internacional. A fé dá linguagem. A história dá densidade. Mas é o poder que move os tanques, fecha as fronteiras, redesenha o mapa e prolonga a guerra.



Referências



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REUTERS. Israel orders mass evacuations in Lebanon, bombards Beirut. Reuters, 6 mar. 2026b. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/israel-orders-mass-evacuations-lebanon-bombards-beirut-2026-03-06/. Acesso em: 6 mar. 2026.


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