segunda-feira, 16 de março de 2026

Liberalismo social, neoliberalismo e democracia sob pressão: Entender como a promessa de liberdade passou a disputar espaço com a desigualdade, o mercado e a crise das instituições


Lide

Compreender a política contemporânea exige enfrentar uma pergunta desconfortável: de que liberdade se está falando? Em nome dela, defender o mercado; em nome dela, defender direitos sociais; em nome dela, atacar o Estado; em nome dela, exigir que o próprio Estado proteja os mais vulneráveis. O conflito não é pequeno. Ele estrutura boa parte das disputas do presente. De um lado, afirmar que a liberdade individual só se realiza plenamente quando existir acesso concreto a educação, saúde, alimentação e oportunidades. De outro, sustentar que a intervenção estatal tende a sufocar a autonomia e a corroer a vitalidade econômica. No meio dessa tensão, manter a democracia em funcionamento, ainda que ela própria esteja cercada por desigualdade, judicialização, polarização e manipulação informacional. Esse é o terreno real do debate político atual (Dionizio, 2019).

Ler a liberdade para além do slogan

A palavra “liberdade” costuma circular no debate público como se fosse autoexplicativa. Não é. A tradição liberal preserva, em suas diferentes correntes, dois eixos permanentes: a centralidade da liberdade individual e a preservação de espaço para a ação do mercado. Mas isso está longe de encerrar a discussão. A divergência decisiva aparece quando surge a desigualdade social como problema concreto. Nesse ponto, as famílias liberais se separam. Algumas entendem que a competitividade e a liberdade econômica tenderiam a produzir, por si, soluções sociais. Outras sustentam que sem alguma regulação pública a liberdade vira ficção para amplas parcelas da população (Dionizio, 2019).

O impasse é profundo. Não basta proclamar direitos abstratos em uma sociedade atravessada por fome, precarização, desemprego estrutural e concentração de renda. A liberdade formal pode existir no papel e ainda assim fracassar na vida concreta. O sujeito é declarado livre, mas lhe faltam as condições mínimas para exercer essa liberdade. É nesse ponto que o liberalismo social ganha relevância teórica e política.

Discutir o liberalismo social

O liberalismo social parte de uma distinção decisiva: a diferença entre garantir liberdade apenas em sentido negativo e construir condições para que ela seja exercida de maneira efetiva. Nessa formulação, a ausência de educação, alimentação e saúde pode representar uma ameaça direta à liberdade do indivíduo. A liberdade deixa de ser entendida apenas como ausência de impedimento e passa a ser pensada também como capacidade real de viver, escolher e participar (Dionizio, 2019).

Os chamados “novos liberais”, entre eles Leonard Trelawny Hobhouse e Thomas Hill Green, defenderam que o indivíduo necessita de apoio estatal para atingir a liberdade que a tradição liberal promete. Isso significa admitir intervenção do Estado na cultura, na economia e na sociedade, não para abolir a autonomia individual, mas para torná-la possível. A formulação é importante porque desloca o debate: não se trata de opor liberdade e Estado como se fossem inimigos naturais, mas de avaliar quando a ação estatal pode ser condição de possibilidade da própria liberdade (Dionizio, 2019).

Essa corrente não propõe um Estado totalitário. Pelo contrário. Sua lógica é a de um Estado regulador, legítimo enquanto garante acesso e reduz assimetrias abusivas entre instituições e indivíduos. Nessa perspectiva, não caberia ao poder público monopolizar toda a provisão de bens e serviços, mas assegurar que as pessoas possam efetivamente acessar direitos básicos. Daí a defesa de políticas públicas, da colaboração social de instituições privadas, da saúde básica custeada pelo Estado, da regulação econômica e da existência de salário mínimo (Dionizio, 2019).

Em síntese, o liberalismo social organiza-se em torno de três fundamentos: preservar a liberdade individual, admitir regulação estatal para proteger essa liberdade no plano concreto e compreender a justiça como esforço de redução das desigualdades sociais. Não se trata de negar o mercado, mas de recusar sua transformação em instância suprema da vida coletiva. O mercado pode organizar trocas; não pode, sozinho, produzir justiça (Dionizio, 2019).

Esse ponto merece atenção crítica. Em sociedades muito desiguais, a defesa abstrata da liberdade pode facilmente converter-se em privilégio socialmente blindado. Quem dispõe de renda, escolaridade, redes de proteção e patrimônio consegue transformar liberdade formal em liberdade efetiva. Quem não dispõe, muitas vezes recebe apenas o discurso. Nesse sentido, insistir no liberalismo social é insistir que não basta abrir a porta; é preciso garantir que a travessia seja possível.

Carlos Estevam Martins aprofunda esse problema ao examinar a tensão entre liberalismo e justiça social. Ao discutir o social-liberalismo, o autor destaca formulações que afirmam a indissolubilidade entre liberdade e igualdade, além da necessidade de reconhecer a liberdade também em sentido positivo, como poder de realizar coisas meritórias ou delas usufruir. A crítica é relevante porque impede reduzir o liberalismo a uma versão dogmática do individualismo econômico (Martins, 2003).

Explicar o neoliberalismo

Se o liberalismo social busca compatibilizar liberdade e proteção social, o neoliberalismo recoloca o mercado no centro da organização da vida econômica e política. Seu sentido histórico mais conhecido está na retomada, entre as décadas de 1970 e 1980, de fundamentos do liberalismo clássico, especialmente o princípio do laissez-faire, o “deixar fazer”. Nessa gramática, o mercado seria a esfera mais apta para coordenar escolhas, distribuir recursos e impulsionar eficiência, enquanto o Estado passa a ser visto com profunda desconfiança (Dionizio, 2019).

Ludwig von Mises aparece como referência importante dessa inflexão. Em sua formulação, o Estado e suas estruturas de poder não seriam confiáveis, sobretudo no que diz respeito à proteção das liberdades individuais. A Escola Austríaca, em seguida, consolidaria parte significativa da reflexão neoliberal, aprofundando a crítica ao intervencionismo. Friedrich Hayek se tornaria um de seus principais nomes ao adaptar o liberalismo clássico ao século XX e sustentar que a intervenção estatal conduz à perda de liberdade, chegando a associar formas extremas de intervencionismo a experiências autoritárias (Dionizio, 2019).

A Escola de Chicago, particularmente com Milton Friedman, reforçou essa reorientação. A crítica a regulamentações econômicas, ao salário mínimo e ao papel expansionista do Estado fez do neoliberalismo mais que uma doutrina econômica; fez dele um projeto de reorganização social. Seu efeito histórico foi amplo: reduzir o peso do Estado em determinadas áreas, ampliar a confiança no mercado, promover reformas pró-competição e converter eficiência econômica em critério predominante de legitimidade.

Mas o neoliberalismo não pode ser analisado apenas por sua promessa de eficiência. É preciso observar seus efeitos concretos. Margaret Thatcher tornou-se um dos símbolos mais conhecidos dessa agenda. Seu governo estabilizou a libra esterlina e reduziu a carga tributária, mas também aprofundou a desigualdade: os mais ricos ampliaram sua renda, enquanto os mais pobres não acompanharam esse movimento (Dionizio, 2019).

No caso chileno, o vínculo entre neoliberalismo e autoritarismo tornou-se ainda mais perturbador. Augusto Pinochet implementou reformas econômicas de inspiração neoliberal com apoio intelectual da Escola de Chicago e de Hayek, porém em um contexto marcado por golpe, torturas, assassinatos e graves violações de direitos humanos. Isso desmonta uma simplificação recorrente: não existir vínculo automático entre liberalização econômica e ampliação da dignidade humana. Mercado livre e sociedade justa não são sinônimos necessários (Dionizio, 2019).

A crítica de Martins ajuda a tensionar ainda mais esse quadro. Para o autor, o liberalismo, em muitas de suas versões, tenta apresentar-se como inclusivo e ecleticamente aberto, embora mantenha um núcleo duro de defesa da liberdade individual e resistência a concepções mais densas de justiça social. A disputa, portanto, não é apenas econômica; é ideológica. Está em jogo o esforço de definir o que deve ser tratado como liberdade legítima e o que será descartado como excesso democrático ou demanda igualitária indevida (Martins, 2003).

Descrever o cenário democrático contemporâneo

Apesar de suas falhas, a democracia continua sendo o regime mais apto a preservar escolha, oposição, divergência e pluralidade. Seu valor não reside em eliminar o conflito, mas em permitir que ele seja processado politicamente sem que a diferença seja, por princípio, aniquilada. Esse ponto é central no debate contemporâneo. Democracia não é paz artificial; é conflito institucionalizado sob regras que impedem a conversão do adversário em inimigo absoluto (Dionizio, 2019).

Ainda assim, o cenário atual é de pressão permanente. A democracia contemporânea convive com a ascensão de lideranças autoritárias eleitas pelo próprio voto popular, com a intensificação da polarização, com o desgaste da representação e com a corrosão do debate público por meio da desinformação. A expansão tecnológica multiplicou vozes, mas também barateou a mentira em escala industrial. A fake news deixou de ser ruído lateral e passou a funcionar como método de disputa do imaginário político (Dionizio, 2019).

Somar a isso a judicialização da política significa entrar em uma zona ainda mais delicada. A ampliação do protagonismo judicial pode responder a impasses institucionais reais, mas também pode produzir desequilíbrios entre os poderes. Quando um poder cresce sem contrapesos proporcionais, a democracia continua existindo formalmente, porém sua mecânica perde estabilidade. O que deveria ser sistema de equilíbrio corre o risco de tornar-se arranjo assimétrico.

Há ainda um conflito de fundo entre tradição liberal e exigência democrática. Martins observa que democracia e liberalismo não são conceitos idênticos. A democracia implica governo do povo; o liberalismo, em muitas formulações, procura limitar o alcance da ação estatal às relações formais entre indivíduos, resistindo a funções mais amplas de configuração das esferas econômica e cultural. Daí a tensão permanente: a democracia frequentemente exige mais do que o liberalismo clássico está disposto a conceder (Martins, 2003).

Essa observação é crucial para o presente. Em momentos de crise, parte do discurso liberal tende a desconfiar da maioria, do popular, da mobilização social e da ampliação substantiva da igualdade. Ao mesmo tempo, democracias que não enfrentam desigualdades estruturais tornam-se frágeis, manipuláveis e vulneráveis a soluções autoritárias vendidas como respostas simples. A democracia adoece tanto por excesso de arbítrio quanto por déficit de cidadania material.

Mas o quadro não é apenas regressivo. A contemporaneidade democrática também é marcada pela maior visibilidade de grupos historicamente marginalizados e por lutas por reconhecimento, proteção e igualdade. Mulheres, população negra, população LGBT e outros grupos minorizados ampliaram presença pública e capacidade de reivindicação. Isso não é detalhe lateral. É parte substantiva da vitalidade democrática. Onde há democracia viva, há disputa por direitos. Onde toda reivindicação é tratada como ameaça à ordem, costuma faltar democracia de verdade.

Concluir o impasse do presente

Chegar ao coração do problema significa reconhecer que liberdade, mercado e democracia não se articulam automaticamente em harmonia. O liberalismo social procura mostrar que sem condições materiais mínimas a liberdade vira retórica. O neoliberalismo insiste em devolver ao mercado a primazia organizadora da vida econômica e, por extensão, da própria imaginação política. A democracia, por sua vez, precisa equilibrar pluralismo, legitimidade institucional e participação popular em meio a um ambiente de desigualdade, judicialização e desinformação.

O grande risco contemporâneo está em naturalizar a falsa escolha entre liberdade e justiça. Quando isso acontece, a liberdade costuma ficar para os fortes e a justiça, para o discurso. O desafio político mais sério talvez seja outro: construir um arranjo institucional no qual a liberdade individual não sirva de álibi para o abandono social, no qual o Estado não se converta em máquina opressiva e no qual a democracia preserve sua capacidade de garantir oposição, crítica e expansão de direitos.

Defender a democracia, hoje, exige mais do que celebrar eleições. Exige enfrentar a desigualdade que esvazia a cidadania, conter a mentira organizada que contamina a deliberação pública e recusar a idolatria do mercado como se ele pudesse, sozinho, produzir civilização. Liberdade sem condições concretas tende a virar privilégio. Mercado sem limites tende a produzir concentração. Democracia sem compromisso material com a cidadania tende a tornar-se casca institucional. O nome do impasse é esse. E adiá-lo já não parece uma opção razoável.

Referências

Dionizio, M. J. Política contemporânea. In: Filosofia contemporânea. Porto Alegre: Sagah, 2019.

Martins, C. E. Liberalismo: o direito e o avesso. Dados: Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 46, n. 4, p. 619-660, 2003.


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