Índice
- Cena de abertura: o país real e a promessa que nunca chega inteira
1.1 A fila, o imposto, o medo e a sensação de abandono
1.2 “O Estado é inimigo?” — quando a pergunta vira combustível político - A tese do texto (sem rodeio)
2.1 Estado não é “eles”: é estrutura — mas pode ser capturada
2.2 Povo não é “um”: é plural — e por isso é disputado - Três definições práticas (sem academicismo)
3.1 Estado: máquina de decisão + coerção + serviço
3.2 Povo: população, cidadania e mito narrativo
3.3 Política: arena de alocação de recursos e legitimidade - Como ideias viram políticas públicas (e por que isso importa mais que discurso)
4.1 Ideias + interesses + instituições: o triângulo do poder
4.2 Hegemonia e “senso comum”: mídia, algoritmos, púlpitos e palanques - O bem-estar como pacto: direitos, orçamento e capacidade estatal
5.1 Bem-estar não é slogan: é arranjo institucional financiado
5.2 O custo social da baixa capacidade: quando direito vira favor - A fratura Estado vs povo: por que ela reaparece em toda crise
6.1 A indignação legítima (e onde ela acerta)
6.2 A manipulação (e onde ela engana) - Quatro discursos que sequestram a fratura
7.1 Ordem: “acaba com a bagunça” (cortando garantias)
7.2 Antipolítica: “gestão sem conflito” (fantasia perigosa)
7.3 Moralismo punitivo: punição como política social
7.4 Salvacionismo estatal: “um homem resolve” (instituições derretem) - O ciclo da confiança: quando o Estado educa (ou deseduca) a cidadania
8.1 Entrega, previsibilidade e dignidade no atendimento
8.2 Crise, exceção e a tentação do atalho autoritário - Conclusão: a nação como obra inacabada — e o bem-estar como disputa permanente
9.1 Três perguntas para ler qualquer “projeto de nação”
9.2 A escolha decisiva: direitos e controle ou fé e obediência?
Lide
A vida pública vira ruído quando o Estado é sentido como cobrança e raramente como proteção. A fila que humilha, o serviço que falha, a segurança que não vem e o imposto que pesa criam uma conclusão intuitiva: “o Estado não é para o povo”. Só que essa fratura — real em muitos pontos — também é o terreno preferido de discursos que prometem ordem, vendem antipolítica, estimulam moralismo punitivo e oferecem salvacionismos fáceis. No fim, a pergunta não é se o Estado existe “contra” ou “a favor” do povo; é quem captura o Estado, quem define quem é povo e que ideia de bem-estar a política institucionaliza.
1. Cena de abertura: o país real e a promessa que nunca chega inteira
1.1 A fila, o imposto, o medo e a sensação de abandono
O Brasil cotidiano raramente se apresenta como teoria. Ele se apresenta como experiência: a marcação de consulta que demora, o ônibus que falha, o aplicativo que “cai” quando mais se precisa, a escola que vira depósito de expectativas e carências, o posto de saúde que atende com pressa e exaustão. Somam-se a isso as contas: água, energia, aluguel, comida, combustível, juros. O cidadão paga e, muitas vezes, sente que recebe pouco, tarde e com humilhação. Nesse cenário, a frase “o Estado é inimigo” não nasce do nada; nasce do atrito entre promessa e entrega.
Só que esse atrito tem duas faces. A primeira é objetiva: burocracia lenta, atendimento precário, desigualdade territorial, serviços desiguais entre centro e periferia, entre capital e interior. A segunda é simbólica: o Estado aparece como “um outro” distante, cheio de normas e carimbos, e não como um pacto coletivo. Essa distância corrói a noção de pertencimento: o indivíduo deixa de se perceber como parte do sistema que financia e controla o Estado; passa a se perceber como vítima dele.
A imagem é dura, mas é recorrente: quando o Estado vira uma porta estreita e seletiva, o direito vira favor. E quando o direito vira favor, a cidadania vira dependência. Essa inversão é o terreno perfeito para discursos de ressentimento — e também para vendedores de atalhos.
1.2 “O Estado é inimigo?” — quando a pergunta vira combustível político
Há uma pergunta que retorna em crises econômicas, em picos de violência, em escândalos de corrupção, em colapsos de serviços: o Estado é para quem? E logo vem uma resposta que parece intuitiva: “para eles”. “Eles” pode significar elite, classe política, burocratas, ricos, “o sistema”, o topo da pirâmide. Às vezes, a crítica acerta: capturas existem, privilégios existem, seletividade existe. Às vezes, a crítica erra o alvo: confunde Estado com governo de turno; confunde falha de gestão com inutilidade do serviço; confunde “política ruim” com “política em si”.
Essa confusão é perigosa porque transforma um problema concreto — capacidade estatal, desigualdade de acesso, captura por interesses — numa saída simplista: destruir a política, deslegitimar instituições, concentrar poder em “gestores” ou “salvadores”. A ironia é cruel: para “resolver” a fratura Estado vs povo, muitos acabam reforçando exatamente o que piora a fratura — um Estado menos controlado, mais opaco e mais seletivo.
2. A tese do texto (sem rodeio)
O bem-estar de uma nação não é uma essência moral, nem uma dádiva de líderes, nem um produto automático do mercado. Ele é um pacto político-institucional. E pacto significa duas coisas: (1) financiamento e capacidade para entregar políticas públicas; (2) controle e legitimidade para impedir que essa capacidade seja capturada por grupos e usada contra o próprio povo.
A tese central é simples, mas exige coragem para sustentar:
Bem-estar nacional nasce da disputa entre interesses e ideias, e só se sustenta quando o povo controla o Estado por meio de instituições e direitos — não por fé em salvadores, nem por ódio à política.
2.1 Estado não é “eles”: é estrutura — mas pode ser capturada
O Estado é uma estrutura durável: leis, tribunais, orçamento, burocracia, fiscalização, escolas, hospitais, segurança pública, regulação. Governo é o comando temporário. A confusão entre ambos serve bem a demagogias: se o governo falha, conclui-se que “o Estado” é inútil; se o governo vence, conclui-se que “o Estado” é do líder. Só que o Estado é mais antigo, mais pesado e mais complexo. Ele pode ser reformado, fortalecido, enfraquecido — e, sim, capturado.
Captura é o nome técnico para um fenômeno bem brasileiro e bem universal: quando interesses privados (econômicos, corporativos, políticos, religiosos) ocupam os canais decisórios e orientam políticas públicas de modo a beneficiar poucos, mesmo quando se vende a ideia de benefício geral. A captura não precisa de conspiração; basta desigualdade de acesso. Quem tem tempo, dinheiro, advogado, lobby e rede entra pela porta da frente. Quem não tem entra pela fila — quando entra.
2.2 Povo não é “um”: é plural — e por isso é disputado
“Povo” parece um sujeito único, mas é uma pluralidade concreta: classes, territórios, religiões, raças, gêneros, profissões, idades, interesses. Por isso, “povo” é sempre disputado como narrativa. Em períodos de crise, surgem versões recortadas: “o povo de bem”, “o povo trabalhador”, “o povo honesto”. Recortes morais funcionam como filtro político: definem quem merece proteção e quem merece suspeita.
O risco é transformar cidadania em merecimento. Quando isso acontece, o Estado deixa de ser garantidor de direitos universais e vira instrumento de recompensa e punição. Essa passagem é central para entender por que o bem-estar nacional pode ser desmontado com aplausos: basta convencer a sociedade de que certos grupos “não merecem” o piso comum.
3. Três definições práticas (sem academicismo)
3.1 Estado: máquina de decisão + coerção + serviço
O Estado tem três dimensões que convivem, se tensionam e, às vezes, entram em curto-circuito:
- Decisão: quem decide orçamento, regra, política, prioridade.
- Coerção: capacidade de impor norma, punir, policiar, usar força legítima (Weber, 1999).
- Serviço: entrega de políticas públicas, garantia de direitos, infraestrutura, proteção social.
Quando a dimensão de coerção domina sem controle, cresce o autoritarismo. Quando a dimensão de serviço falha, cresce a frustração e o cinismo. Quando a dimensão de decisão é capturada, as duas outras viram instrumentos de seletividade.
3.2 Povo: população, cidadania e mito narrativo
“Povo” pode ser entendido como:
- População: o conjunto de pessoas que vive no território.
- Cidadania: o conjunto de pessoas com direitos reconhecidos e condições reais de exercê-los.
- Mito narrativo: a figura retórica invocada para legitimar políticas (“o povo quer”, “o povo manda”).
Essas camadas não coincidem. O Brasil tem população enorme, cidadania desigual e mitos narrativos em disputa. Quando a cidadania é frágil, o mito narrativo domina: o “povo” vira slogan, não sujeito.
3.3 Política: arena de alocação de recursos e legitimidade
Política é o mecanismo que transforma conflito em decisão coletiva. Ela decide quem recebe o quê, quando e como. E, principalmente, decide o “por quê”: a justificativa moral e social por trás da escolha. Por isso, política nunca é neutra. A tentativa de neutralizar a política é, quase sempre, uma forma de esconder a política real — aquela feita por quem tem poder.
A democracia representativa é uma tentativa de organizar a pluralidade: votos, partidos, parlamentos. A participação social é uma tentativa de reduzir a distância entre decisão e vida real. Ambas têm falhas. Mas o ponto-chave é: quando se destrói a política, não se destrói o poder; destrói-se o controle do poder.
4. Como ideias viram políticas públicas (e por que isso importa mais que discurso)
4.1 Ideias + interesses + instituições: o triângulo do poder
Há um truque frequente no debate público: reduzir a política a personalidade e escândalo. Isso rende audiência, mas empobrece a compreensão. Para entender como se produz bem-estar, é preciso olhar para um triângulo:
- Ideias: o que é considerado justo, eficiente e aceitável.
- Interesses: quem ganha, quem perde, quem paga, quem recebe.
- Instituições: as regras do jogo — Constituição, leis, órgãos de controle, burocracias, orçamento, sistema de justiça.
Uma ideia só vira política pública se passa por três filtros: (1) parece moralmente defensável; (2) encontra coalizão política; (3) encontra capacidade institucional para execução. Sem capacidade, vira promessa. Sem coalizão, vira discurso. Sem legitimidade, vira imposição instável.
No Brasil, muitas frustrações vêm exatamente desse descompasso: promessas amplas com capacidade limitada; direitos no papel com execução desigual; universalismo constitucional com seletividade prática. A experiência cotidiana, então, “prova” para as pessoas que o Estado é uma ficção — e a política, uma farsa. Esse “provar” é emocional, mas também é estrutural: onde falta capacidade, sobra ressentimento.
4.2 Hegemonia e “senso comum”: mídia, algoritmos, púlpitos e palanques
A disputa por bem-estar não acontece só no orçamento; acontece na cabeça das pessoas. Gramsci descreveu como uma visão de mundo pode virar “senso comum”, isto é, parecer natural, óbvia, inevitável (Gramsci, 2000). Hoje, esse processo ganhou turbina: plataformas digitais, microsegmentação, guerra cultural permanente, moralização da política, simplificação de problemas complexos.
No Brasil, isso aparece em frases que “explicam tudo” em uma linha: “o problema é corrupção”, “o problema é vagabundagem”, “o problema é falta de punição”, “o problema é Estado grande”, “o problema é Estado ausente”. Algumas contêm pedaços de verdade; nenhuma dá conta do todo. Só que o objetivo, muitas vezes, não é explicar; é mobilizar.
E mobilização tem método: cria-se um inimigo, recorta-se um “povo verdadeiro”, promete-se um atalho, deslegitima-se a mediação institucional. A política vira moral, e a moral vira arma. O resultado é uma sociedade em que a ideia de bem-estar — antes ligada a direitos e proteção — pode ser substituída por uma ideia de bem-estar como disciplina: “vai melhorar quando as pessoas obedecerem”.
5. O bem-estar como pacto: direitos, orçamento e capacidade estatal
5.1 Bem-estar não é slogan: é arranjo institucional financiado
Bem-estar não existe no vácuo. Ele exige dinheiro, gestão e controle. Exige arrecadação, planejamento e execução. Exige escolhas difíceis: investir em educação ou cobrir buracos emergenciais? Fortalecer atenção primária em saúde ou concentrar em hospitais? Expandir assistência social ou priorizar renúncias fiscais? O bem-estar real nasce do choque entre ideal e limite.
Polanyi ajuda a ler esse cenário: quando o mercado “desprotege” — precariza trabalho, concentra renda, produz insegurança — surgem pressões por proteção social; quando a proteção social avança, surgem pressões por retração em nome de eficiência e austeridade (Polanyi, 2000). O Brasil oscila dentro desse pêndulo há décadas, mas com uma particularidade: desigualdade estrutural e capacidade estatal desigual entre territórios. O resultado é um “bem-estar em mosaico”: alguns têm acesso estável; outros vivem de sorte, fila e informalidade.
5.2 O custo social da baixa capacidade: quando direito vira favor
A baixa capacidade estatal tem um custo político profundo: ela quebra o vínculo simbólico entre povo e Estado. Quando o serviço falha, a população aprende uma lição cínica: não é direito, é favor; não é regra, é jeitinho; não é cidadania, é contato. Essa lição é devastadora porque privatiza a sobrevivência: cada um corre por si, e o coletivo vira ruído.
Exemplo simples, cotidiano, brasileiro: quando um serviço público é imprevisível, aparece o despachante; quando a fila é interminável, aparece a indicação; quando a regra é confusa, aparece o “conhecido lá dentro”. Isso não é apenas corrupção; é um mecanismo social de adaptação à incapacidade e à opacidade. Só que esse mecanismo favorece quem já tem rede e capital social. O Estado, então, reforça desigualdade por meio de sua própria falha.
A consequência política é previsível: cresce a percepção de injustiça, cresce a raiva, cresce a demanda por um “chega”. E nesse “chega” entra o mercado de discursos que prometem resolver tudo “sem política”, “sem conversa”, “na marra”.
6. A fratura Estado vs povo: por que ela reaparece em toda crise
6.1 A indignação legítima (e onde ela acerta)
A fratura é real em muitos aspectos. O cidadão vê privilégios, vê impunidade, vê seletividade. Vê que o sistema pesa mais para uns do que para outros. Vê que o Estado é rigoroso com o pequeno e flexível com o grande. Vê que, em muitos casos, a lei é uma cerca elétrica para os de baixo e uma fita de isolamento para os de cima.
Essa percepção não é paranoia. Ela é uma leitura moral do cotidiano. E ela tem um efeito importante: ela empurra a sociedade a exigir reformas, transparência, controles, eficiência e justiça. Em tese, esse é o motor da democracia: crítica + instituição.
6.2 A manipulação (e onde ela engana)
O problema começa quando a indignação legítima é desviada para soluções que destroem os instrumentos capazes de corrigir o Estado. Em vez de fortalecer controles, pede-se exceção. Em vez de melhorar serviços, pede-se repressão. Em vez de qualificar a política, pede-se antipolítica. Em vez de ampliar cidadania, recorta-se o “povo verdadeiro”.
Esse desvio tem um padrão: ele transforma uma crítica institucional em um ódio generalizado ao próprio princípio de mediação democrática. E quando a mediação cai, quem vence? Não é “o povo”. É quem já tem poder para operar no escuro.
O paradoxo é antigo: destruir instituições por causa de suas falhas é como demolir a ponte porque há buracos no asfalto. Só que há quem ganhe com a demolição: quem sabe nadar no rio do caos.
7. Quatro discursos que sequestram a fratura
7.1 Ordem: “acaba com a bagunça” (cortando garantias)
“Ordem” é uma palavra de alta aceitação social, especialmente quando há medo e insegurança. O problema é quando “ordem” vira sinônimo de redução de garantias e aumento de seletividade. A promessa costuma ser: endurecer vai resolver. Só que endurecer sem inteligência institucional tende a produzir dois efeitos: (1) punição concentrada em alvos fáceis; (2) proteção seletiva para alvos poderosos.
O Brasil conhece esse filme: operações espetaculares, retórica de guerra, prisões que viram show, enquanto problemas estruturais — armas, facções, lavagem de dinheiro, corrupção sistêmica, desigualdade urbana — continuam. “Ordem” vira estética. E estética não é política pública.
O resultado, muitas vezes, é um Estado mais armado e menos capaz. Mais força e menos serviço. Mais medo e menos cidadania. E, com isso, a fratura Estado vs povo se amplia.
7.2 Antipolítica: “gestão sem conflito” (fantasia perigosa)
A antipolítica vende uma ideia sedutora: basta colocar “gestores” e “técnicos” que tudo funciona. Só que “técnico” também escolhe prioridades. “Gestor” também decide quem perde e quem ganha. Toda decisão pública é atravessada por valores: proteger mais a infância ou cortar gasto para estabilizar contas? Priorizar mobilidade urbana ou segurança? Aumentar salário de professores ou reduzir déficit? Não existe neutralidade.
Habermas explica que a democracia é um esforço de legitimar decisões por meio do debate público e do direito: facticidade e validade caminham juntas (Habermas, 1997). A antipolítica tenta substituir o debate por comando, como se sociedade fosse uma planilha. Mas planilha não resolve conflito distributivo. Só o esconde. E o conflito escondido volta como explosão.
No Brasil, antipolítica costuma vir com moralização: “ninguém presta”, “todo político é igual”, “tem que acabar com isso aí”. Só que “acabar com isso aí” significa acabar com mecanismos pelos quais o povo pode controlar o Estado. E o vácuo é preenchido por quê? Por tecnocracias sem voto, por corporações sem transparência, por líderes sem limites.
7.3 Moralismo punitivo: punição como política social
Moralismo punitivo é a ideia de que a sociedade melhora quando se pune mais. Ele se alimenta de indignação e oferece um caminho rápido: punir dá sensação de ação. O problema é que ele confunde justiça com espetáculo e política social com castigo.
Punição pode ser necessária para crimes, mas não substitui políticas públicas de longo prazo. Não cria escola de qualidade, não gera emprego, não reduz desigualdade territorial, não melhora saneamento, não trata saúde mental. Quando a punição vira política social, o Estado deixa de ser protetor e vira disciplinador. E quem paga a conta tende a ser o mesmo de sempre: o pobre, o jovem periférico, o “suspeito padrão”.
Além disso, o moralismo punitivo costuma conviver bem com privilégios. Ele é duro com o pequeno e negociável com o grande. É aí que a indignação vira instrumento: pune-se para produzir sensação de limpeza, enquanto estruturas de poder seguem intactas.
7.4 Salvacionismo estatal: “um homem resolve” (instituições derretem)
O salvacionismo aparece quando a sociedade perde confiança nas instituições e deseja um atalho. O líder salvador promete o impossível: “resolver tudo”, “acabar com o sistema”, “fazer o país voltar a ser grande”. O truque é simples: personalizar a nação, transformar o Estado em extensão do corpo do líder, e chamar qualquer controle de “sabotagem”.
Arendt alerta para o risco de dissolução do espaço público e da pluralidade: quando o debate vira inimigo, o poder se fecha e a política vira obediência (Arendt, 2010). Salvacionismo estatal é exatamente isso: substituir instituições por vontade. Só que vontade não entrega política pública; vontade entrega comando.
O custo do salvacionismo é sempre institucional: órgãos de controle são atacados, imprensa é deslegitimada, o contraditório vira “traição”. E, sem contraditório, a captura se torna regra. O Estado não vira “do povo”; vira do grupo que controla o líder — ou do líder que controla o grupo.
8. O ciclo da confiança: quando o Estado educa (ou deseduca) a cidadania
8.1 Entrega, previsibilidade e dignidade no atendimento
O cidadão aprende o que é o Estado pela experiência concreta: atendimento, prazo, respeito. Um Estado que entrega com previsibilidade educa para a confiança. Um Estado que falha e humilha educa para o cinismo. Esse aprendizado é político: ele determina se a população vai defender instituições ou desejar sua demolição.
No Brasil, a dignidade no atendimento é uma variável invisível e decisiva. Um serviço pode ser limitado, mas respeitoso; e isso sustenta legitimidade. Um serviço pode ser tecnicamente bom, mas humilhante; e isso destrói legitimidade. Legitimidade é o “cimento” do pacto: sem ela, qualquer política vira disputa de força.
Por isso, bem-estar não se mede só por indicadores macro. Mede-se por rotina: a pessoa consegue resolver um problema sem implorar? Consegue acessar um direito sem depender de favor? Consegue compreender a regra sem ser enganada? Essa dimensão micro é onde a nação se faz — ou se desfaz.
8.2 Crise, exceção e a tentação do atalho autoritário
Crises são aceleradores históricos. Em crise, aumenta a tolerância social à exceção. “Tem que fazer alguma coisa.” Esse “alguma coisa” pode ser reconstrução institucional — ou pode ser atalho autoritário. O atalho é sedutor porque promete rapidez. Só que rapidez sem controle cobra juros altos: direitos corroídos, seletividade expandida, opacidade normalizada.
É aqui que a fratura Estado vs povo vira o campo mais perigoso. Porque a indignação legítima pode ser usada para retirar do povo exatamente o que permite que ele controle o Estado: liberdade de crítica, imprensa, tribunais independentes, órgãos de controle, transparência, participação. O “povo” aplaude, achando que está punindo “eles”. No fim, descobre que puniu a si mesmo.
9. Conclusão: a nação como obra inacabada — e o bem-estar como disputa permanente
Nação não é essência. Nação é obra. É uma construção histórica e institucional que depende de pacto, de memória, de regras e de capacidade. O bem-estar nacional, por sua vez, é o nome civilizado de uma disputa permanente: disputa sobre quais vidas são protegidas, quais riscos são tolerados, quais desigualdades são naturalizadas, quais direitos são considerados piso — e quais são tratados como luxo.
O ponto decisivo é que Estado, povo e política não existem como peças separadas. O Estado organiza a vida coletiva, mas pode ser capturado; o povo é a fonte da soberania, mas pode ser recortado como narrativa; a política é a arena onde conflito vira decisão, mas pode ser degradada em espetáculo moral. Quando esse triângulo funciona com controles e direitos, o bem-estar tende a se expandir com estabilidade. Quando ele é sequestrado por atalhos — ordem sem garantias, antipolítica, moralismo punitivo, salvacionismo — a promessa de bem-estar vira propaganda, e a nação vira uma estética de unidade sobre uma prática de exclusão.
9.1 Três perguntas para ler qualquer “projeto de nação”
- Quem é considerado “povo” de verdade?
Quem é protegido primeiro? Quem vira suspeito por padrão? - Como o Estado é controlado?
Há transparência real, órgãos de controle protegidos, imprensa livre, justiça com autonomia, contraditório respeitado? - Qual é a teoria de bem-estar por trás das políticas?
Bem-estar é tratado como direito universal, como prêmio por mérito ou como favor condicionado?
Essas três perguntas cortam a névoa. Elas mostram se um projeto de nação é um pacto de cidadania ou um contrato de obediência.
9.2 A escolha decisiva: direitos e controle ou fé e obediência?
No fim, a escolha é entre dois caminhos. Um caminho é o mais difícil e o mais civilizado: fortalecer capacidade estatal, reduzir seletividades, melhorar serviços, financiar direitos, expandir transparência, elevar a qualidade da política — e sustentar controles mesmo quando eles incomodam. Esse caminho não promete milagres; promete construção.
O outro caminho é o mais fácil e o mais perigoso: substituir política por moralismo, controle por carisma, direito por punição, debate por ordem, pluralidade por recorte de “povo verdadeiro”. Esse caminho promete velocidade, mas entrega fragilidade. Promete unidade, mas produz silêncio. Promete bem-estar, mas entrega disciplina.
Uma nação que deseja bem-estar precisa encarar a verdade desconfortável: não existe bem-estar durável sem instituições controladas, direitos universais e política tratada como método de mediação — e não como inimiga a ser eliminada. O resto é atalho. E atalho, em política, quase sempre termina em queda.
Referências
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
ARENDT, Hannah. A condição humana. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. 10. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
DAHL, Robert A. A democracia e seus críticos. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Martin Claret, 2011.
WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1999.
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