1.
Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM, afirmou em entrevista ao Times Brasil que Trump “não arruma a bagunça que criou”, ao comentar as contradições do presidente dos Estados Unidos sobre a guerra contra o Irã e a ausência de um plano claro para o desfecho do conflito. A formulação ganhou repercussão porque condensou, em linguagem direta, uma crítica estrutural ao modo trumpista de exercer poder: tensionar, improvisar, contradizer-se, deslocar limites e deixar que outros administrem as consequências.
O alcance dessa leitura se amplia quando se observa o ambiente em que ela surgiu. Em 6 de março de 2026, o Financial Times publicou artigo de Gillian Tett sob o título Why Trump won’t clean up his own mess, com a tese de que caos e instabilidade constituem traços recorrentes, e não desvios acidentais, da política externa trumpista. O ponto central, portanto, não reside apenas na contundência da frase, mas em sua capacidade de nomear um padrão: produzir a crise, embaralhar a percepção pública e transferir a terceiros o trabalho de conter o estrago.
O problema, nesse quadro, ultrapassa a retórica pessoal de Donald Trump. O que se revela é uma forma de poder assentada menos na coerência estratégica e mais na perturbação contínua. Em vez de estabilizar, tensiona. Em vez de esclarecer, confunde. Em vez de responder integralmente pelo que desencadeia, distribui os custos sobre aliados, mercados, países periféricos e populações civis. A metáfora da “bagunça” torna-se eficaz porque restitui concretude moral a um fenômeno que o vocabulário diplomático costuma diluir em expressões técnicas e assépticas.
2.
Em política internacional, a linguagem frequentemente funciona como amortecedor moral. Expressões como “escalada”, “janela estratégica”, “pressão máxima” ou “realinhamento regional” podem descrever aspectos objetivos da conjuntura, mas também podem encobrir a materialidade do dano. A frase de Trevisan rompe esse verniz. Ao afirmar que Trump não arruma a bagunça que criou, a responsabilidade volta ao centro da análise. O problema deixa de aparecer como abstração geopolítica e passa a surgir como ato político concreto, com efeitos sobre guerra, economia, diplomacia e vida cotidiana.
Essa crítica encontra respaldo nas próprias declarações recentes de Trump. Em 9 de março de 2026, a Reuters registrou que o presidente afirmou à CBS News que a guerra contra o Irã estava “praticamente concluída” e que Washington se encontrava muito adiantada em relação à previsão anterior de quatro ou cinco semanas. A mesma cobertura mostrou que a narrativa presidencial sobre o conflito vinha oscilando. A oscilação não constitui detalhe secundário. Quando o chefe da principal potência militar do mundo altera, em poucos dias, a descrição sobre objetivos, duração e estágio de uma guerra, a instabilidade diplomática, econômica e estratégica se torna consequência direta.
Nesse contexto, a imagem da criança mimada só ganha utilidade quando funciona como figura analítica de um poder sem freios, e não como deboche fácil. O que importa sublinhar não é a caricatura, mas a lógica: agir como se a própria vontade pesasse mais do que a regra comum, como se o limite pudesse sempre ser adiado e como se alguém inevitavelmente fosse encarregado de reorganizar o ambiente depois do excesso. Transportada para a política externa, essa figura de linguagem ajuda a descrever o governante que testa fronteiras porque presume que aliados, mercados, organismos multilaterais e sociedades inteiras absorverão o impacto.
Ainda assim, em escala geopolítica, a imagem mais precisa não é simplesmente a da criança sem limite, mas a do menino imperial. O traço decisivo não reside apenas no capricho, mas na estrutura de poder que o amplifica. Uma pessoa comum espalha desordem em um ambiente restrito. Um presidente dos Estados Unidos pode espalhá-la pelo preço do petróleo, pela inflação internacional, pelas cadeias logísticas, pelas alianças militares, pelas rotas energéticas e pela vida material de milhões de pessoas. O que, em escala doméstica, pareceria simples descontrole, em escala imperial converte-se em perturbação sistêmica.
É exatamente nesse ponto que a tese de Gillian Tett ganha relevância maior. Ao sustentar que o caos constitui uma característica, e não um defeito, da política externa trumpista, a colunista do Financial Times desloca o debate da psicologia individual para o método político. A desordem não aparece como falha de execução; passa a operar como recurso de centralidade. Produzir ruído, desorientar adversários, saturar a esfera pública, obrigar todos os demais atores a reagirem ao próprio ritmo e manter-se permanentemente no centro da cena tornam-se vantagens políticas do caos.
Essa dinâmica ajuda a compreender por que a contradição sucessiva não necessariamente enfraquece Trump. Em muitos casos, ela o fortalece. Cada mudança de tom obriga imprensa, mercados, governos e adversários a recalcularem suas posições. A instabilidade, assim, deixa de ser mero efeito colateral e converte-se em mecanismo de comando. Em vez de oferecer previsibilidade, o líder impõe aos outros a obrigação de viver dentro da oscilação por ele produzida. O governante que embaralha o tabuleiro passa a dominar o tempo da reação alheia.
As consequências materiais desse padrão são evidentes. O próprio Times Brasil ressaltou o peso político e econômico do preço da gasolina para o eleitorado norte-americano, enquanto a cobertura internacional associou a guerra e as falas de Trump à volatilidade energética e financeira. Isso significa que a desordem discursiva não permanece no plano simbólico. Ela contamina preços, pressiona a inflação, eleva a incerteza, altera o comportamento de investidores e desorganiza decisões econômicas muito além do teatro imediato da guerra. O que começa como bravata presidencial pode terminar como combustível mais caro, crédito mais restrito e maior vulnerabilidade em economias que nada decidiram sobre o conflito.
É por isso que a expressão “bagunça” adquire densidade analítica. Não se trata de metáfora ornamental. Trata-se de nomear um estado em que objetivos se tornam nebulosos, justificativas oscilam, saídas diplomáticas perdem nitidez e o custo econômico cresce antes mesmo de qualquer desfecho militar consistente. A frase de Trevisan aponta justamente para essa diferença fundamental: abrir uma crise não se confunde com responder pelo depois. Destruir equilíbrio é fácil; reconstruir previsibilidade, confiança e estabilidade custa muito mais.
Nesse processo, emerge a assimetria típica do poder imperial. Quem toma a decisão raramente assume integralmente a maior parte do custo. O centro produz o abalo; a periferia recolhe os estilhaços. Civis sob bombardeio, países dependentes de energia importada, economias vulneráveis à volatilidade financeira, consumidores atingidos pela alta de preços e governos obrigados a recalibrar suas agendas por causa de decisões alheias acabam incorporando parcelas da conta. A bagunça, aqui, deixa de ser metáfora doméstica e passa a designar uma distribuição profundamente desigual do dano.
Há ainda uma perversidade política adicional. O mesmo líder que contribui para incendiar o cenário busca depois apresentar-se como o único capaz de restaurar a ordem. Primeiro, amplia a tensão; depois, vende qualquer recuo parcial como prova de grandeza. Primeiro, desloca os limites do aceitável; depois, reivindica mérito por um retorno incompleto à normalidade. Essa lógica do incendiário que posa de bombeiro não constitui liderança no sentido forte do termo. Constitui manipulação da instabilidade como instrumento de poder.
Nesse quadro, torna-se necessário desmontar a ilusão que equipara força e descontrole. Potência sem responsabilidade não equivale a liderança; equivale apenas a capacidade ampliada de dano. Liderar não consiste em produzir sobressaltos contínuos, abrir frentes indefinidas ou monopolizar manchetes. Liderar consiste em calcular consequências, limitar custos, estabilizar expectativas e responder pelo cenário que se ajuda a produzir. Quando a especialidade do governante passa a ser criar o problema e terceirizar a limpeza, sua imagem de força revela, na verdade, fragilidade ética e estratégica.
A expressão de Trevisan, por isso, ultrapassa o comentário circunstancial sobre a guerra contra o Irã. Ela oferece uma chave de leitura para uma mutação mais ampla do poder político em tempos de hipermídia e populismo personalista. Em vez de governar por coerência, governa-se por impacto. Em vez de administrar consequências, administra-se atenção. Em vez de apresentar um plano nítido, sustenta-se um fluxo incessante de frases fortes, ameaças, ambiguidades e recuos que mantém o líder no centro da notícia. A performance substitui a estratégia. A ocupação do noticiário substitui a responsabilidade histórica.
3.
A frase de Leonardo Trevisan repercutiu porque deu nome a uma prática. “Trump não arruma a bagunça que criou” não se limita a um comentário sobre um episódio da guerra contra o Irã. Funciona como diagnóstico de um estilo de poder baseado em perturbação, improviso e distribuição desigual do dano. Ao transformar a desordem em linguagem política, esse estilo naturaliza a irresponsabilidade no exercício da força e exige que o resto do mundo administre aquilo que ele mesmo desencadeia.
A imagem da criança mimada só adquire valor quando serve à análise de um poder sem freios. E, mesmo assim, o ajuste continua necessário: trata-se menos de uma criança qualquer e mais de um menino imperial. O problema não reside em capricho isolado, mas em capricho armado, dolarizado, televisionado e geopoliticamente ampliado. Quando isso parte da Casa Branca, a bagunça não permanece em casa. Ela atravessa o petróleo, o câmbio, os mercados, a diplomacia e a vida de populações inteiras.
No fim, a pergunta decisiva permanece elementar: quem cria a crise responde por ela ou apenas a espalha? A frase de Trevisan sugere que, no caso de Trump, a resposta se inclina para a segunda hipótese. E esse talvez seja o traço mais perigoso de seu método: não apenas produzir o choque, mas naturalizar que outros, sempre outros, devam recolher os cacos.
biografia
Leonardo Nelmi Trevisan é professor de Relações Internacionais da ESPM. É graduado em História, mestre em História Econômica e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorados em Economia do Trabalho pela University of London e pela University of Warwick.
Referências
ESPM. Leonardo Nelmi Trevisan. São Paulo: ESPM, s.d. Disponível em: https://www.espm.br/professores/leonardo-nelmi-trevisan/. Acesso em: 10 mar. 2026.
REUTERS. Trump says war against Iran is “very complete,” CBS News reports. Washington, 9 mar. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/trump-says-war-against-iran-is-very-complete-cbs-news-reports-2026-03-09/. Acesso em: 10 mar. 2026.
TETT, Gillian. Why Trump won’t clean up his own mess. Financial Times, 6 mar. 2026. Disponível em: https://www.ft.com/content/0a318f39-b85b-4da7-b22f-243dc97fca80. Acesso em: 10 mar. 2026.
TIMES BRASIL. Sucessão no Irã e instabilidade: o impacto global do conflito. 9 mar. 2026. Disponível em: https://timesbrasil.com.br/mundo/sucessao-no-ira-e-instabilidade-o-impacto-global-do-conflito/. Acesso em: 10 mar. 2026.
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