Índice
- Lide
- Maquiavel não era um guru da maldade
- O ponto central: o mundo não respeita hesitação
- Os sete padrões da mediocridade
- A fome de validação
- O hábito de pedir desculpas por existir
- O terror de decidir
- A confusão entre interesse e intimidade
- O desejo que nasce da carência
- A transparência excessiva que mata o impacto
- A incapacidade de ver o outro como ele é
- Por que isso vale para muito além do romance
- A lição brutal de Maquiavel para o presente
- Conclusão
- Perguntas comuns sobre o tema
- Cinco pontos relevantes do artigo
- Três livros recomendados
- Referências
Lide
O nome de Maquiavel foi transformado, ao longo dos séculos, em atalho para cinismo, manipulação e perversidade. É uma leitura preguiçosa. Nicolau Maquiavel não se tornou um clássico porque ensinou a maldade, mas porque entendeu algo mais desconfortável: a maior parte das pessoas fracassa não por falta de boas intenções, e sim por falta de presença, firmeza, leitura de contexto e capacidade de agir quando a realidade cobra preço. Sua reflexão sobre virtù e fortuna continua atual porque desmonta uma ilusão muito moderna: a de que o mundo vai premiar automaticamente quem é simpático, transparente, bem-intencionado e emocionalmente agradável. Não vai. O mundo respeita densidade, consistência e capacidade de sustentar posição diante da incerteza (Machiavelli, 2018; Nederman, 2023).
Lido com atenção, Maquiavel oferece menos um manual de crueldade e mais uma autópsia da mediocridade. Ele mostra por que alguns indivíduos ocupam a cena sem gritar, influenciam sem implorar e permanecem na memória sem fazer esforço teatral, enquanto outros, mesmo falando muito, explicando-se demais e buscando aceitação o tempo inteiro, desaparecem socialmente com uma rapidez humilhante. A diferença, em grande medida, está em padrões repetidos: necessidade de validação, medo de decidir, carência disfarçada de afeto, excesso de exposição e incapacidade de reconhecer a realidade humana sem fantasia. É nesse terreno que Maquiavel continua perigoso, porque não consola. Ele revela (Nederman, 2023; IEP, s.d.).
1. Maquiavel não era um guru da maldade
Existe uma caricatura escolar de Maquiavel que ainda circula com uma força impressionante. Nela, o autor florentino aparece como uma espécie de patrono universal dos manipuladores, um teórico da trapaça elegante, um defensor de qualquer expediente desde que o poder seja mantido. Essa imagem vende bem, cabe em frases de efeito e funciona nas redes sociais, mas empobrece radicalmente a estatura do pensador. Maquiavel foi secretário da chancelaria florentina, diplomata, observador agudo das disputas italianas, homem de Estado derrubado pela mudança de regime, preso, torturado e exilado. Sua escrita nasce da experiência concreta da instabilidade, e não de abstrações descoladas da vida histórica (Britannica, 2026; Nederman, 2023).
A Florença em que Maquiavel viveu não era um laboratório tranquilo de teoria política. Era um ambiente de conspirações, mudanças de alianças, violência militar, ascensão e queda de facções, intervenções estrangeiras e rearranjos constantes de poder. Nesse cenário, pensar significava observar homens reais sob pressão real. Por isso sua obra é tão seca e tão dura. Maquiavel não tem interesse na fantasia edificante. Ele quer compreender a “verdade efetiva” das coisas, isto é, o modo como as pessoas e os governos de fato agem quando o solo começa a ceder sob os pés (Machiavelli, 2018).
Essa escolha metodológica é decisiva. Enquanto muita filosofia política anterior perguntava como deveria ser o governante ideal, Maquiavel perguntou como homens concretos preservam ou perdem poder no mundo tal como ele existe. E a resposta que oferece é profundamente incômoda: não basta ter boa imagem de si, nem boas intenções, nem pureza de linguagem. Quem não consegue ler a ocasião, decidir a tempo e suportar o conflito tende a ser atropelado pela realidade. O fracasso, em Maquiavel, raramente é apenas moral; ele é também técnico, posicional e psicológico (Nederman, 2023).
É exatamente aí que o autor ganha atualidade. Em uma época que transformou autoexpressão em valor supremo, Maquiavel retorna como alguém que pergunta: e a forma? E a consequência? E a eficácia? E a leitura do contexto? Em um mundo que premia a encenação da autenticidade, ele recorda que nem toda transparência é força e que nem toda gentileza produz respeito. Há momentos em que a hesitação se disfarça de delicadeza. Há momentos em que o excesso de justificativa denuncia fraqueza. Há momentos em que o desejo de ser querido corrói a própria autoridade. É por isso que Maquiavel continua sendo lido com desconforto. Ele obriga o leitor a abandonar a autoimagem moral e encarar a própria estrutura de ação (IEP, s.d.; Nederman, 2023).
2. O ponto central: o mundo não respeita hesitação
No coração do pensamento maquiaveliano estão dois conceitos que continuam iluminando a experiência contemporânea: virtù e fortuna. O segundo é mais fácil de entender. Fortuna designa a parcela do real que escapa ao nosso controle: acaso, instabilidade, reversão, crise, sorte, catástrofe, mudança abrupta. Em linguagem mais moderna, fortuna é o nome daquilo que desorganiza planos e lembra aos humanos que o mundo não é uma planilha sob comando. Ela entra na política, no trabalho, no amor, na reputação, na carreira, na saúde e no destino coletivo. Ninguém está fora de seu alcance (Nederman, 2023; Britannica, 2026).
Mas Maquiavel não parou aí. Se a fortuna existe, o ser humano não pode viver ajoelhado diante dela. É nesse ponto que entra a virtù. O termo costuma ser traduzido como “virtude”, mas a palavra, no vocabulário de Maquiavel, significa algo bem mais áspero e mais prático. Virtù é capacidade de agir, firmeza, inteligência estratégica, coragem, discernimento, adaptação e energia para responder ao tempo histórico sem se dissolver nele. Não é santidade. Não é pureza moral abstrata. É potência de ação diante do imprevisível (Nederman, 2023).
Aqui aparece uma das distinções mais importantes para a leitura do presente. A sociedade contemporânea costuma confundir valor com aceitação. Como resultado, formou-se uma geração inteira treinada para parecer agradável, acessível, emocionalmente correta e continuamente validável. Só que a realidade concreta — política, institucional, profissional e até íntima — não respeita automaticamente esse repertório. O mundo respeita quem sustenta forma. Quem lê a circunstância. Quem decide. Quem não implora simbólica ou emocionalmente para existir. Quem não entrega a própria gravidade nas mãos do humor alheio.
A mediocridade, nesse quadro, não é baixa inteligência nem falta de talento bruto. Ela é um modo de operar. É o padrão de quem transfere para o ambiente aquilo que deveria construir internamente. É o comportamento de quem quer garantia antes de agir, aprovação antes de se posicionar, acolhimento antes de assumir risco, reciprocidade antes de oferecer densidade. É uma vida governada de fora para dentro. E toda vida governada assim se torna previsível, insegura e facilmente manipulável. Maquiavel diria: quem não governa a si mesmo acaba sendo governado pela ocasião, pela multidão ou pelo medo (Machiavelli, 2018; IEP, s.d.).
Essa é a brutalidade do diagnóstico. Não é confortável aceitar que muitos dos resultados que se atribuem ao azar, à injustiça ou à “falta de oportunidade” também nascem de gestos cotidianos de enfraquecimento. Pedir desculpas antes de falar. Explicar-se demais. Adiar escolhas simples. Supervalorizar sinais ambíguos. Querer parecer bom em vez de parecer sólido. Confundir atenção com afeto. Derramar-se inteiro no primeiro contato. Tudo isso vai criando uma assinatura invisível. E o mundo lê essa assinatura com rapidez implacável. Há pessoas que, ao entrar em uma sala, comunicam forma. Outras comunicam carência. Em geral, a diferença não está na beleza, no dinheiro ou na posição formal. Está na estrutura interna com que comparecem.
3. Os sete padrões da mediocridade
3.1 A fome de validação
A fome de validação é uma das epidemias silenciosas do tempo presente. Há quem viva como se estivesse o tempo todo diante de uma banca examinadora. Fala para ser aceito. Posta para ser visto. Trabalha para ser elogiado. Argumenta para ser aprovado. Ama para não ser abandonado. O problema não é desejar reconhecimento — isso é profundamente humano. O problema é depender dele para sustentar a própria existência simbólica. Nesse ponto, a pessoa deixa de agir a partir de um centro e passa a funcionar como radar emocional do ambiente.
Maquiavel compreenderia isso como fraqueza estrutural. Quem precisa excessivamente ser amado se torna refém dos que distribuem afeto, prestígio ou atenção. Seu comportamento começa a ser moldado por esse mercado de aprovação. Aos poucos, perde-se a autonomia do gesto. A fala vira cálculo de simpatia. A decisão vira pesquisa de aceitação. A presença vira performance de agradabilidade. E, no fim, a pessoa já não sabe mais quem é sem testemunha.
Esse padrão é destrutivo porque corrói a autoridade antes mesmo que ela se forme. Autoridade não nasce de grito, pose ou arrogância. Nasce da percepção, por parte dos outros, de que existe ali uma estrutura que não depende integralmente do aplauso circunstancial. O validacionista crônico, ao contrário, transmite uma mensagem muda: “me diga quanto valho”. E o mundo, quase sempre, responde com crueldade a essa pergunta. Não porque seja maligno, mas porque respeita mais o que se sustenta do que o que se oferece em súplica emocional.
3.2 O hábito de pedir desculpas por existir
Existe uma forma muito socialmente aceita de autossabotagem: a autodiminuição elegante. É aquele modo de entrar em espaços como se fosse preciso pedir licença por respirar. “Desculpa incomodar.” “Talvez eu esteja errado.” “Não sei se faz sentido.” “Posso estar falando bobagem.” Em muitos contextos, isso é vendido como delicadeza. Mas, repetido em excesso, torna-se uma declaração pública de fragilidade posicional.
O sujeito que pede desculpas por existir comunica, sem perceber, que não acredita plenamente no próprio direito de ocupar espaço. Faz-se menor antes que alguém o reduza. Baixa o volume antes que alguém peça silêncio. Antecipadamente, entrega a própria força. É como um exército que arriasse a bandeira antes mesmo da batalha começar. O gesto parece educado, mas sua gramática profunda é de recuo.
Maquiavel, que conhecia a importância da aparência e da forma na vida política, jamais trataria isso como uma virtude. Em certas ocasiões, humildade é inteligência. Em outras, é apenas medo vestido de bons modos. Quem quer agir no mundo — seja numa instituição, numa conversa difícil, numa sala de aula, numa liderança pública ou numa relação pessoal — precisa ser capaz de sustentar presença sem se desculpar por ela. Não se trata de brutalidade. Trata-se de não ensinar aos outros que a própria existência vem sempre em regime de concessão.
3.3 O terror de decidir
Decidir cansa, expõe e compromete. Por isso tanta gente transforma a indecisão em estilo de vida. A pessoa chama isso de prudência, maturidade, reflexão, abertura ao diálogo. Às vezes é. Frequentemente, porém, é fuga. O indeciso crônico não quer apenas acertar; quer eliminar a possibilidade de custo. Quer agir apenas quando o risco já tiver sido neutralizado, o que equivale a não agir.
Maquiavel via a decisão como dimensão essencial da virtù. O tempo político, e por extensão o tempo da vida prática, não espera a perfeição psicológica de ninguém. Há ocasiões que exigem resposta antes que o cenário esteja completamente decifrado. Quem perde o tempo da ação pode depois se consolar com a ideia de que foi sensato, mas a oportunidade já estará nas mãos de outro. Em muitos casos, a história não derrota os maus; derrota os lentos.
A mediocridade adora a protelação sofisticada. Ela cria justificativas plausíveis para adiar o inevitável: estudar mais, observar melhor, ouvir mais opiniões, sentir o clima, esperar o momento ideal. Enquanto isso, a vida corre. A reputação se forma. As relações se definem. Os espaços são ocupados. E quem vive esperando o instante perfeito acaba entregando a própria biografia à administração da fortuna. O sujeito não escolhe: é escolhido pelos acontecimentos.
3.4 A confusão entre interesse e intimidade
Poucos erros produzem tanta humilhação silenciosa quanto interpretar mal a natureza de uma relação. Nem toda cordialidade é afeto. Nem toda atenção é vínculo. Nem toda proximidade funcional contém calor humano profundo. A pessoa medíocre, por carência ou fantasia, tende a ler interesse como intimidade, conveniência como conexão, simpatia circunstancial como aliança existencial. E, quando a realidade corrige essa leitura, vem o ressentimento.
Maquiavel era um pensador das formas concretas de relação. Ele sabia que o mundo social é feito de graus, funções, interesses, alianças e posições, não apenas de sentimentos nobres. Por isso, ler mal o contexto é sempre perigoso. Não por cinismo, mas por inadequação. Quem exige intimidade onde há apenas cordialidade se expõe de maneira desnecessária. Quem projeta profundidade em interações rasas quase sempre termina ferido pelo próprio excesso interpretativo.
Há uma ironia nisso tudo. Quem mais respeita a realidade da relação costuma agir com mais elegância e até com mais humanidade. Porque não força clima, não implora vínculo, não cobre do outro o que o outro nunca prometeu. O contrário também é verdadeiro: quem precisa converter toda interação em prova de valor pessoal torna-se pesado, invasivo ou patético. Em vez de se conectar, pressiona. Em vez de atrair, sufoca. A mediocridade não nasce só da falta de valor. Muitas vezes nasce da leitura errada do cenário.
3.5 O desejo que nasce da carência
Desejo é força vital. Carência, quando domina, é outra coisa. O desejo saudável se move a partir de plenitude relativa: a pessoa quer, busca, convida, investe, mas continua inteira. A carência excessiva opera ao contrário: ela transforma o outro em fonte de salvação psicológica. Já não se deseja alguém; precisa-se dele como muleta, espelho ou prova de valor. A partir daí, o contato deixa de ser livre e passa a ser pressão.
Esse padrão se manifesta de inúmeras formas. Na insistência exagerada. Na necessidade de resposta imediata. Na dramatização do silêncio alheio. Na idealização acelerada. Na tentativa de produzir intimidade por excesso de disponibilidade. Tudo isso tem uma assinatura muito clara: “eu preciso que você me cure de mim”. É uma carga pesada demais para qualquer interação humana.
Em linguagem maquiaveliana, a carência extrema é fragilidade estratégica porque reduz o campo visual. O indivíduo deixa de perceber a situação como ela é e passa a enxergar apenas a própria falta. Fica ansioso, errático, suscetível, reativo. E o que poderia ser magnetismo converte-se em implosão de forma. Há presenças que atraem porque irradiam completude suficiente para desejar sem implorar. Outras esvaziam o ambiente porque trazem para cada encontro uma fome impossível de saciar.
3.6 A transparência excessiva que mata o impacto
Há uma superstição moderna segundo a qual mostrar tudo é sinônimo de verdade e verdade, por si, gera proximidade. Não é tão simples. Em muitos casos, o excesso de exposição apenas denuncia ansiedade, baixa capacidade de medida e necessidade de controle afetivo. Quem fala tudo, explica tudo, confessa tudo e se entrega inteiro de imediato costuma imaginar que está sendo profundamente autêntico. Muitas vezes está apenas destruindo a espessura da própria presença.
Maquiavel sabia que a ação humana também depende de ritmo, forma, aparência e gestão do que se revela. Isso não é apologia da falsidade. É reconhecimento de que a vida social e política exige calibragem. Nem toda verdade dita fora de hora produz profundidade; às vezes produz desgaste. Nem toda sinceridade é coragem; às vezes é impulsividade emocional querendo aliviar tensão interna às custas do outro.
O mistério, aqui, não é truque barato. É reserva. É densidade. É a capacidade de não transformar cada encontro em descarga total de conteúdo pessoal. Pessoas inteiras não se despejam. Elas se apresentam. Deixam camadas surgirem com o tempo. Preservam alguma opacidade fértil, não para manipular, mas para não se tornarem instantaneamente consumíveis. Num mundo em que tudo é entregue rápido, quem conserva medida adquire relevo.
3.7 A incapacidade de ver o outro como ele é
Talvez o padrão mais infantil da mediocridade seja a simplificação do outro. Há quem trate pessoas como objetos de uso. Há quem as coloque em pedestais absurdos. Nos dois casos, erra-se a leitura. O outro deixa de ser humano concreto — misturado, ambíguo, contraditório, falível — e vira função: instrumento, prêmio, ameaça, fantasia, ideal.
Maquiavel jamais construiu sua análise a partir de idealizações ingênuas. Ele observava os homens como eles são, e nisso reside parte de sua força. Ver o outro com precisão é uma forma de inteligência. Significa reconhecer limites, interesses, potências, medos e contradições sem transformar ninguém em anjo ou monstro de desenho animado. A mediocridade, ao contrário, prefere caricaturas porque elas exigem menos esforço interpretativo.
O resultado dessa simplificação é quase sempre ruim. Quem idealiza demais se decepciona demais. Quem objetifica demais entende pouco. Quem projeta fantasias em excesso perde a chance de construir relações reais, alianças reais e diagnósticos reais. Em política, isso custa poder. Na vida cotidiana, custa lucidez. Em ambos os casos, o preço é alto: age-se mal porque se viu mal.
4. Por que isso vale para muito além do romance
Seria um erro ler esses padrões apenas na esfera afetiva. Eles aparecem em qualquer ambiente onde haja poder, percepção, expectativa, negociação e disputa por lugar. Estão na reunião de trabalho em que alguém fala dez minutos para não dizer nada. Estão no pedido de aumento que começa com desculpas. Estão no gestor que adia uma decisão elementar por medo de impopularidade. Estão no professor que não sustenta autoridade por obsessão em ser simpático. Estão no dirigente que confunde aplauso com legitimidade. Estão no profissional que se explica demais porque não acredita no próprio valor.
Em outras palavras, a gramática é a mesma. Muda o figurino; o padrão permanece. Há quem implore aceitação no amor e também implore aceitação na carreira. Há quem superinterprete mensagens ambíguas numa relação e faça o mesmo numa instituição. Há quem desabe diante do silêncio de uma pessoa e desabe também diante da ausência de elogio profissional. O mecanismo profundo é idêntico: a dificuldade de sustentar um centro interno que não dependa integralmente do olhar externo.
É por isso que a leitura de Maquiavel interessa tanto ao presente. Sua obra não oferece lições apenas sobre príncipes, exércitos e repúblicas. Ela ajuda a compreender como se forma presença em ambientes de incerteza. Ajuda a distinguir força de pose, prudência de covardia, reserva de frieza, adaptação de oportunismo, decisão de voluntarismo. E, sobretudo, ajuda a perceber que a mediocridade não é só falta de brilho. É um regime de impotência prática, repetido em escala miúda, até que se transforme em destino.
5. A lição brutal de Maquiavel para o presente
A era digital intensificou praticamente todos os defeitos que Maquiavel identificaria como sintomas de fraqueza. Nunca houve tanta oferta de validação instantânea. Nunca foi tão fácil medir o próprio valor pela reação dos outros. Nunca foi tão simples confundir visibilidade com importância, exposição com autenticidade, acesso com vínculo, resposta rápida com interesse real. O resultado é um sujeito cronicamente excitado pela atenção e cronicamente fragilizado pela sua ausência.
Nesse contexto, Maquiavel retorna como uma espécie de antídoto desagradável. Ele lembra que o mundo não foi organizado para proteger sensibilidades frágeis nem para recompensar automaticamente boas intenções. Quem não desenvolve forma interna se torna massa de manobra do algoritmo, da plateia, do ambiente e da própria ansiedade. Quem vive pela aprovação perde densidade. Quem não decide perde lugar. Quem lê mal o outro perde realidade. Quem se derrama inteiro perde gravidade.
Isso não significa defender dureza vazia, brutalidade emocional ou desumanização competitiva. Nada disso. O ponto é outro: a consistência continua sendo uma vantagem decisiva. A pessoa que aprende a conter a necessidade de aplauso, a calibrar a exposição, a suportar silêncio, a decidir sob incerteza e a reconhecer o outro sem fantasia torna-se mais difícil de ser deslocada. Não porque se tornou cruel, mas porque se tornou menos dependente da oscilação do mundo.
Talvez essa seja a lição mais dura e mais útil de Maquiavel para o presente: ninguém constrói presença real sem atravessar o desconforto de deixar de implorar licença simbólica para existir. Há um momento em que é preciso parar de negociar a própria dignidade com o ambiente. Parar de oferecer o próprio valor em regime de leilão emocional. Parar de esperar que a vida autorize aquilo que só a ação disciplinada pode autorizar. Maquiavel continua vivo porque teve coragem de dizer o que muita gente ainda não quer ouvir: boa parte da fraqueza humana não vem da escassez de talento, mas do vício de viver sempre de joelhos diante da opinião, do medo e da ocasião.
Conclusão
Maquiavel não permanece atual porque ensinou truques sujos, mas porque entendeu a anatomia da impotência. Ele percebeu que a fragilidade humana raramente se anuncia como fragilidade. Quase sempre ela aparece mascarada de excesso de bondade, de delicadeza permanente, de reflexão interminável, de sinceridade total, de intensidade afetiva ou de humildade sem fim. Só que, por trás dessas máscaras, muitas vezes está a mesma estrutura: medo de sustentar posição.
É essa estrutura que produz a mediocridade. Não a mediocridade escolar, estatística ou financeira, mas a mediocridade existencial. A de quem vive pedindo confirmação para ser, pedindo desculpas para ocupar espaço, pedindo tempo para decidir, pedindo calor onde há apenas interesse, pedindo ao outro que preencha um vazio que deveria ser trabalhado por dentro. Em linguagem simples, a mediocridade é o hábito de terceirizar para o mundo a tarefa de construir o próprio eixo.
A boa notícia, se é que Maquiavel permite esse tipo de formulação, é que isso pode ser combatido. Não com frases motivacionais, mas com disciplina de presença. Falar com menos submissão. Expor-se com mais medida. Desejar sem implorar. Decidir antes que a paralisia vire destino. Ler o outro sem fantasia. Suportar a ausência de aplauso sem colapsar. A fortuna continuará existindo. O acaso continuará golpeando. O mundo continuará instável. Mas entre ser arrastado por tudo isso e responder com forma, há uma diferença decisiva. Maquiavel chamou essa diferença de virtù. O resto, quase sempre, é ruído.
Perguntas comuns sobre o tema
1. Maquiavel defendia a maldade como regra?
Não. Maquiavel analisava a política e a ação humana a partir da realidade concreta, não de ideais abstratos. Seu foco era compreender como o poder é conquistado, mantido ou perdido em contextos de instabilidade, o que é diferente de defender perversidade como valor moral (Nederman, 2023).
2. O que significa
virtù
em Maquiavel?
Virtù não significa “virtude” no sentido moral tradicional. Refere-se à capacidade prática de agir com coragem, inteligência, energia, discernimento e adaptação diante das circunstâncias (Nederman, 2023; IEP, s.d.).
3. O que é
fortuna
?
É o nome dado por Maquiavel ao acaso, à instabilidade e aos fatores externos que escapam ao controle humano. A questão central não é eliminar a fortuna, mas desenvolver recursos para enfrentá-la (Machiavelli, 2018).
4. Esses padrões valem só para relacionamentos pessoais?
Não. Eles aparecem também no trabalho, na liderança, na política, na vida institucional, nas negociações e em qualquer situação que envolva percepção, poder e tomada de decisão.
5. Qual é a principal lição prática de Maquiavel?
A principal lição é que o ser humano não controla tudo, mas pode fortalecer sua capacidade de agir. Em vez de viver dependente de aprovação, medo ou hesitação, é possível construir presença, forma e consistência diante da instabilidade.
Cinco pontos relevantes do artigo
- Maquiavel é mais útil como analista da fraqueza humana do que como caricatura do cinismo.
- A mediocridade foi tratada como padrão de impotência prática, não como simples falta de inteligência.
- Os conceitos de virtù e fortuna ajudam a interpretar a vida contemporânea com grande precisão.
- Os sete padrões discutidos no texto aparecem tanto na intimidade quanto no trabalho, na política e nas instituições.
- A força, em Maquiavel, não é brutalidade; é capacidade de sustentar forma diante da instabilidade.
Três livros recomendados
- MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe.
- MAQUIAVEL, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio.
- SKINNER, Quentin. Maquiavel.
Referências
BRITANNICA. Niccolò Machiavelli. Encyclopaedia Britannica, 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Niccolo-Machiavelli. Acesso em: 15 mar. 2026.
IEP. Niccolò Machiavelli (1469—1527). Internet Encyclopedia of Philosophy, [s.d.]. Disponível em: https://iep.utm.edu/machiave/. Acesso em: 15 mar. 2026.
MACHIAVELLI, Niccolò. The Prince. Tradução de Luigi Ricci. Project Gutenberg, 2018. Disponível em: https://www.gutenberg.org/ebooks/57037. Acesso em: 15 mar. 2026.
NEDERMAN, Cary J. Niccolò Machiavelli. In: ZALTA, Edward N.; NODELMAN, Uri (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Winter 2023 ed. Stanford: Metaphysics Research Lab, Stanford University, 2023. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/machiavelli/. Acesso em: 15 mar. 2026.
SKINNER, Quentin. Maquiavel. Porto Alegre: L&PM, 2010.
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