terça-feira, 17 de março de 2026

Comparar sem banalizar: Entender por que a radicalização israelense sob Netanyahu evoca mecanismos do fascismo sem autorizar equivalências históricas automáticas



Há perguntas que não podem ser evitadas porque o desconforto moral que produzem é, precisamente, o que as torna politicamente necessárias. Comparar a sociedade israelense contemporânea, sob a liderança de Benjamin Netanyahu, com a sociedade alemã durante o regime de Adolf Hitler exige esse tipo de coragem intelectual: não a coragem da frase fácil, mas a coragem da precisão.


O impulso imediato de muitos analistas é fugir da comparação. Uns o fazem por honestidade histórica; outros, por medo de tocar em uma analogia explosiva. Mas o problema é que o excesso de cautela também pode virar cumplicidade semântica. Quando uma sociedade começa a normalizar a devastação, a desumanização do outro e a violência sem horizonte moral claro, não basta responder com fórmulas diplomáticas. Torna-se necessário nomear processos.


Benjamin Netanyahu permanece como primeiro-ministro de Israel em março de 2026, conduzindo um governo apoiado em discurso securitário, excepcionalismo nacional e prolongamento do conflito como forma de ordenação política interna.  Ao mesmo tempo, o debate internacional sobre sua responsabilidade já deixou de ser apenas político ou retórico: a Corte Internacional de Justiça determinou medidas provisórias no caso apresentado pela África do Sul, e o Tribunal Penal Internacional anunciou mandados de prisão contra Netanyahu e Yoav Gallant em novembro de 2024.


Esse dado altera o patamar da discussão. Já não se trata apenas de perguntar se a guerra em Gaza é excessiva, brutal ou desproporcional. Trata-se de reconhecer que instâncias centrais do direito internacional passaram a tratar a conduta do Estado israelense e de sua liderança como matéria de gravidade excepcional.


Ainda assim, equiparar Israel de hoje à Alemanha hitlerista, de forma direta e absoluta, seria um erro. A Alemanha nazista era um regime totalitário de partido único, fundado em ideologia racial explícita, culto integral ao líder, liquidação das oposições e mobilização total do Estado para perseguição e extermínio. Israel, embora apresente erosão democrática relevante, ainda mantém eleições competitivas, vida parlamentar, dissenso interno, imprensa ativa e protestos públicos significativos contra o governo. A Freedom House continuou classificando Israel como “livre” em 2025, embora com queda de pontuação, enquanto manifestações contra Netanyahu e contra a condução da guerra seguiram mobilizando setores expressivos da sociedade.


É justamente aí que reside a formulação mais séria: não se deve falar em identidade histórica, mas em semelhança de mecanismos. O erro está em buscar repetição fotográfica da história. A política raramente repete formas; ela reaproveita lógicas. O que deve ser observado não é se Netanyahu é Hitler em escala literal, mas se há, no interior da sociedade israelense e de sua liderança, processos de radicalização que lembrem dinâmicas de fascistização.


E há.


O trauma de 7 de outubro de 2023 foi real, profundo e nacionalmente devastador. Negá-lo seria desonesto. Mas traumas coletivos podem ser elaborados de dois modos muito diferentes: podem gerar prudência democrática ou podem ser convertidos em autorização moral para a brutalidade. Quando a dor deixa de produzir reflexão e passa a justificar tudo, o luto se transforma em tecnologia de poder.


É isso que se vê com nitidez preocupante em Israel sob Netanyahu. O medo coletivo, em vez de ser tratado como ferida histórica a exigir contenção ética, vem sendo transformado em matéria-prima de endurecimento político. O sofrimento nacional passa a funcionar como salvo-conduto moral. A memória da vítima, então, deixa de ser advertência universal contra a barbárie e passa a operar como licença para exercê-la.


Esse deslocamento é central. O delírio coletivo, em política, quase nunca aparece como irracionalidade caricata. Ele costuma assumir a forma de racionalidade moral deformada. Fala em segurança, sobrevivência, destino nacional, urgência histórica. Não se apresenta como barbárie, mas como dever. E é justamente por isso que consegue contaminar sociedades inteiras sem exigir unanimidade fanática.


A Alemanha nazista também não se consolidou apenas pela coerção bruta; consolidou-se pela formação de uma comunidade moral sitiada, convencida de que o inimigo representava ameaça existencial permanente. A política da exceção, quando bem-sucedida, não precisa convencer todos do ódio; basta convencer muitos da necessidade. O essencial é produzir um ambiente em que destruir o outro deixe de parecer crime e passe a parecer medida dura, porém inevitável.


Netanyahu opera nesse terreno com habilidade política antiga. Sua liderança se sustenta na capacidade de converter insegurança social em capital de governo. Quanto mais a sociedade se percebe cercada, mais seu papel se fortalece como o do homem indispensável. O líder que promete proteção total depende, em larga medida, da permanência da sensação de ameaça total.


Esse mecanismo é tipicamente autoritário. Não exige o fim imediato das eleições. Não depende, no século XXI, da instauração formal de um partido único. Pode funcionar dentro de estruturas ainda chamadas de democráticas, desde que estas sejam lentamente corroídas por medo, militarização e suspensão seletiva da humanidade do outro. O relatório de 2025 do V-Dem enquadra o mundo num cenário mais amplo de autocratização e erosão institucional, e Israel aparece nesse contexto como exemplo de deterioração democrática associada à guerra e à concentração de poder.


É por isso que a expressão “delírio coletivo” precisa ser usada com cuidado, mas não descartada inteiramente. Ela é imprecisa se sugerir que toda a sociedade israelense tenha aderido de modo homogêneo a uma espécie de surto irracional. Isso apagaria as divisões internas, os protestos, os dissensos e a presença de setores que rejeitam a condução da guerra e responsabilizam Netanyahu pela tragédia prolongada.


Mas a expressão toca algo verdadeiro quando tenta capturar uma atmosfera social em que a devastação do outro vai perdendo sua capacidade de produzir escândalo. Uma sociedade não precisa ser uniformemente fanática para estar gravemente moralmente adoecida. Basta que a destruição passe a ser absorvida como rotina. Basta que a morte em massa seja narrada como preço estratégico. Basta que a dor palestina deixe de ser percebida como dor humana e passe a ser tratada como ruído estatístico de uma guerra necessária.


É nesse ponto que a comparação com a Alemanha de Hitler volta a ganhar sentido analítico. Não para afirmar equivalência integral, mas para identificar os dispositivos que tornam possível a desumanização em larga escala. O fascismo não é apenas um arranjo institucional fechado; é também uma pedagogia moral da indiferença, uma tecnologia de mobilização do medo e uma máquina de converter violência em virtude.


Sob Netanyahu, a sociedade israelense parece viver algo dessa ordem: um fechamento emocional, uma absolutização da própria dor e uma crescente incapacidade coletiva de reconhecer limite ético quando o alvo é o outro nacionalmente construído como ameaça permanente. Isso não é nazismo em cópia. Mas tampouco é normalidade democrática.


Há, portanto, uma distinção decisiva a fazer. Não convém dizer que Israel de 2026 seja igual à Alemanha de 1933 ou 1938. Isso banaliza a singularidade histórica do nazismo e empobrece a análise. O que convém dizer é algo mais forte e mais preciso: a sociedade israelense sob Netanyahu apresenta sintomas graves de radicalização nacionalista, militarização da consciência pública, desumanização do inimigo e normalização da violência de Estado que evocam mecanismos historicamente associados a processos fascistas.


Essa formulação é mais séria porque evita dois vícios simétricos. De um lado, evita a equivalência panfletária. De outro, evita a covardia liberal que se recusa a comparar qualquer coisa com o fascismo até que a barbárie já esteja plenamente consumada. Esperar a repetição exata de 1930 para reconhecer a emergência de lógicas fascistizantes é uma forma elegante de chegar sempre tarde.


O ponto mais trágico de todo esse quadro talvez seja outro. O sofrimento histórico não imuniza nenhuma sociedade contra a barbárie. Ao contrário: quando capturado por líderes nacionalistas, ele pode ser transformado em instrumento de blindagem moral. A memória da perseguição sofrida deixa de funcionar como princípio universal de contenção e passa a operar como crédito político ilimitado. O “nunca mais”, então, deixa de valer para todos e passa a valer apenas para alguns.


É aí que toda crítica séria precisa se firmar. Comparar não é banalizar. Comparar, nesse caso, é tentar compreender quando uma sociedade ferida começa a justificar o injustificável em nome da própria ferida. É reconhecer que a história não retorna como espelho perfeito, mas como reaparição de mecanismos. E é perceber que, sob Netanyahu, Israel oferece ao mundo um caso doloroso de como trauma, medo, nacionalismo e poder podem se combinar para produzir uma comunidade politicamente mobilizada e moralmente anestesiada.


A melhor formulação, portanto, não está em afirmar que Israel se tornou a nova Alemanha nazista. Está em dizer algo mais incômodo e mais verdadeiro: sob a liderança de Netanyahu, parcelas significativas da sociedade israelense parecem ter ingressado num processo de radicalização que lembra, em sua estrutura moral e política, os caminhos pelos quais sociedades passam a aceitar a desumanização como linguagem legítima da história.



Referências



FREEDOM HOUSE. Freedom in the World 2025: Israel. Washington, DC: Freedom House, 2025. Disponível em:


INTERNATIONAL COURT OF JUSTICE. Application of the Convention on the Prevention and Punishment of the Crime of Genocide in the Gaza Strip (South Africa v. Israel): provisional measures. Haia: ICJ, 2024. Disponível em:


INTERNATIONAL CRIMINAL COURT. Situation in the State of Palestine: ICC issues arrest warrants for Benjamin Netanyahu and Yoav Gallant. Haia: ICC, 2024. Disponível em:


ISRAEL. Prime Minister’s Office. Prime Minister Benjamin Netanyahu’s remarks at his press conference, 12 Mar. 2026. Jerusalém: Governo de Israel, 2026. Disponível em:


REUTERS. Israelis stage nationwide protests demanding end to Gaza war and release of hostages. Reuters, 17 ago. 2025. Disponível em:


V-DEM INSTITUTE. Democracy Report 2025. Gotemburgo: Varieties of Democracy Institute, 2025. Disponível em:



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