quarta-feira, 18 de março de 2026

Petróleo em guerra: como o conflito com o Irã empurrou o barril para cima e transformou Trump em réu político do próprio choque energético

Da escalada militar no Golfo ao preço na bomba: por que a guerra com o Irã já reorganiza o mercado mundial de energia, pressiona o Brasil e pode cobrar um custo econômico, jurídico e eleitoral da Casa Branca


Introdução


Entre 28 de fevereiro de 2026 e 18 de março de 2026, o preço internacional do petróleo deixou de ser apenas um indicador econômico e voltou a funcionar como um sismógrafo geopolítico. O que ocorreu nesse intervalo não foi uma simples oscilação de mercado. Foi a tradução financeira de uma guerra. Os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, a ameaça de interrupção no Estreito de Ormuz, os danos à infraestrutura energética regional e a escalada militar no Golfo recolocaram o barril de petróleo no centro da política mundial. O mercado reagiu como costuma reagir quando percebe risco real de ruptura física de oferta: com alta rápida, prêmio de guerra e volatilidade extrema. 


Os números são eloquentes. Considerando o fechamento útil imediatamente anterior a 28 de fevereiro, o Brent saiu de US$ 72,48 em 27/02/2026 para US$ 107,38 em 18/03/2026, enquanto o WTI passou de US$ 67,02 para US$ 96,32 no mesmo período. Em menos de três semanas, isso significou valorização aproximada de 48,2% no Brent e 43,7% no WTI. Não se trata de um detalhe técnico. Trata-se de um choque com capacidade de contaminar inflação, cadeias logísticas, preços agrícolas, disputa eleitoral e legitimidade internacional. 


A guerra com o Irã é, portanto, a chave interpretativa dessa alta. E ela também é a chave para avaliar Donald Trump. A pergunta correta não é apenas se ele será penalizado. A pergunta correta é: de que forma ele poderá ser penalizado — juridicamente, diplomaticamente, economicamente ou eleitoralmente. No plano interno dos Estados Unidos, o Congresso até aqui lhe deu margem de manobra; no plano do direito internacional, a situação é muito mais controversa; no plano político, o preço da gasolina pode se tornar uma acusação diária contra a própria narrativa econômica de seu governo. 





1. O que aconteceu com o petróleo entre 28 de fevereiro e 18 de março



O comportamento do petróleo nesse período foi típico de um mercado sob choque geopolítico agudo. O barril saiu da casa dos US$ 70 para a faixa dos US$ 100–110, mas não em linha reta. Houve aceleração, correções técnicas e novos saltos, sempre guiados pelas notícias de guerra, de ataques a rotas marítimas e de risco de interrupção de exportações pelo Golfo. No Brent, a sequência passou por US$ 77,74 em 02/03, US$ 81,40 em 03/03, US$ 85,41 em 05/03, US$ 92,69 em 06/03, US$ 100,46 em 12/03 e US$ 107,38 em 18/03. O WTI seguiu a mesma direção, com menor intensidade relativa: US$ 71,23, US$ 74,56, US$ 81,01, US$ 90,90, US$ 95,70 e US$ 96,32. 


Essa trajetória expressa uma mudança de regime de preços. Antes da escalada, o mercado petrolífero vinha operando com percepção de oferta relativamente confortável. A própria IEA observou que, antes das ações militares iniciadas em 28 de fevereiro, o mercado global estava em situação de excedente relevante. A partir dali, o petróleo deixou de responder prioritariamente a fundamentos convencionais de demanda e produção e passou a responder ao risco de desorganização do principal eixo marítimo energético do planeta. 


Em 12 de março, a Reuters registrou um dos momentos mais reveladores do nervosismo do mercado: o Brent subiu cerca de 9% em um único dia, fechando em US$ 100,46, enquanto o WTI avançou para US$ 95,70, em meio ao agravamento do conflito e às ameaças iranianas relacionadas ao Estreito de Ormuz. Poucos episódios explicam melhor a lógica do mercado do que esse: quando há dúvida sobre a continuidade do fluxo de petróleo, o preço começa a incorporar medo antes mesmo da escassez material se consolidar. O petróleo, nesses momentos, é metade commodity, metade expectativa armada. 





2. A guerra no Irã como motor central do choque



Sem a guerra, não há explicação satisfatória para o movimento recente do barril. A Reuters relatou que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã em 28 de fevereiro abriram uma nova fase do conflito regional. Em seguida, a crise se expandiu: ameaças à navegação, ataques e contra-ataques, elevação do risco no Golfo e sinais de que a infraestrutura energética poderia deixar de ser periferia do conflito para se tornar seu centro. 


O ponto decisivo é o Estreito de Ormuz. Segundo a IEA, a simples interrupção prolongada desse corredor teria consequências enormes para o mercado mundial, com alta relevante dos preços e risco de escassez física. Não é por acaso. Uma parcela crítica do petróleo global passa por ali. Quando o Irã ameaça restringir essa passagem, o mercado não enxerga apenas uma disputa regional: ele enxerga a possibilidade de choque sistêmico. O barril sobe porque o mundo percebe que o Golfo não é um detalhe cartográfico; é uma artéria do metabolismo energético global. 


A própria IEA afirmou, no relatório de março, que os preços passaram a oscilar violentamente desde os ataques e que a crise já produzia perdas expressivas de oferta no Oriente Médio. Em paralelo, a agência mencionou liberação extraordinária de estoques estratégicos para tentar amortecer o impacto. Esse dado é importante porque revela a gravidade do episódio: quando reservas emergenciais entram em cena, não se está diante de uma mera especulação financeira. Está-se diante de um evento de segurança energética. 


Em 17 e 18 de março, novos ataques iranianos contra alvos energéticos e logísticos no Golfo fizeram o petróleo voltar a avançar com força. Reuters informou alta de 3% em 17/03 e de 5,6% em 18/03, reforçando que o mercado seguia reprecificando o risco de guerra regional prolongada. A cada novo ataque, o barril deixava de precificar apenas o presente e passava a precificar a duração potencial da crise. 





3. Por que o Brent subiu mais que o WTI



A diferença entre Brent e WTI não é apenas uma curiosidade de mercado; ela ajuda a ler o mapa da crise. O Brent, referência mais diretamente conectada ao comércio marítimo internacional e ao risco no Oriente Médio, subiu mais rapidamente e com prêmio superior ao do WTI, benchmark mais ligado ao mercado norte-americano. Reuters registrou que o desconto do WTI em relação ao Brent chegou perto de US$ 12 por barril, o maior em anos. 


Isso ocorreu porque o choque era, antes de tudo, um choque de circulação global e de risco externo, não um choque doméstico puro dos Estados Unidos. Em termos simples: o mercado entendeu que a guerra ameaçava mais diretamente o petróleo que abastece o mundo do que o petróleo que já está mais próximo do circuito interno norte-americano. O Brent virou o termômetro mais fiel da crise porque ele espelha com mais nitidez a ansiedade do comércio energético internacional. 


Essa diferença também desmonta a tese simplista de que bastaria ampliar a produção doméstica norte-americana para neutralizar os efeitos da guerra. Produção interna ajuda, mas não apaga a geografia do risco global. Petróleo é mercadoria mundial. Se o principal corredor marítimo da energia fica ameaçado, o preço internacional sobe e puxa consigo custos, expectativas e inflação em diversos países, inclusive nos Estados Unidos. 





4. Trump será penalizado? Sim, mas não necessariamente da forma mais imediata



A resposta exige precisão. Trump pode ser penalizado, mas não é seguro afirmar que será penalizado de modo institucional imediato. Até aqui, o Congresso dos Estados Unidos não impôs um freio efetivo. Reuters informou que o Senado bloqueou tentativa de limitar seus poderes de guerra e que a Câmara rejeitou resolução semelhante. Em termos políticos domésticos, isso lhe dá cobertura no curto prazo. 


No entanto, essa proteção não elimina o problema jurídico. A própria Reuters, ao consultar especialistas, mostrou que a legalidade dos ataques é duramente contestada no plano internacional e debatida no plano constitucional interno. Além disso, a lógica da War Powers Resolution de 1973 continua relevante: sem autorização formal do Congresso para um engajamento prolongado, existe uma janela temporal limitada para justificar ou encerrar ações militares não autorizadas, com prazo apontado para o fim de abril. Ou seja: a blindagem política inicial não equivale a absolvição institucional definitiva. 


No plano internacional, a controvérsia é ainda mais severa. Reuters noticiou que especialistas consideram que muitos países verão os ataques como incompatíveis com a Carta das Nações Unidas, salvo em hipótese robusta de autodefesa comprovada ou autorização do Conselho de Segurança. A Suíça, por exemplo, foi citada defendendo que o ataque contra o Irã constituiu violação do direito internacional. Isso significa que Trump pode não enfrentar, no curto prazo, uma punição formal doméstica decisiva, mas já enfrenta um problema de legitimidade internacional. 


A penalização mais provável, contudo, pode ser política e econômica. O grande ponto fraco de Trump é que ele chegou ao poder prometendo controlar preços e conter a inflação. Reuters informou que o preço médio da gasolina nos Estados Unidos subiu de US$ 2,92 por galão há um mês para US$ 3,79 por galão em 18 de março, enquanto a EIA elevou em 37% sua projeção média para o crude em 2026 e em 15% sua estimativa para a gasolina no ano. Quando o preço da energia sobe, não é apenas a bomba que sobe; sobe também o desgaste do discurso governamental. 


Há ainda um elemento eleitoral explícito. Reuters observou que os republicanos entram na disputa de midterms de novembro de 2026 com maioria frágil no Congresso e consciência de que o encarecimento dos combustíveis pode afetá-los. Outra reportagem mostrou que quase metade dos americanos poderia ficar menos propensa a apoiar a política de Trump para o Irã se os preços continuarem subindo. Em política, petróleo caro funciona como imposto sem votação: ninguém o aprova, mas todo mundo o sente. 





5. O petróleo caro como acusação material contra a guerra



A grande dificuldade para Trump é que guerras podem ser vendidas como demonstração de força, mas o petróleo caro transforma força em custo cotidiano. Enquanto bombas e pronunciamentos permanecem relativamente abstratos para parte da população, a gasolina e o diesel são pedagogias do bolso. E o bolso costuma ser mais eficaz do que qualquer discurso oficial. 


Por isso, o verdadeiro risco político da guerra com o Irã não está apenas no campo militar. Está no supermercado, no posto, no frete, no humor do consumidor e na percepção inflacionária. Reuters destacou que a administração Trump acompanha com preocupação a alta dos combustíveis justamente porque ela pode corroer a base material de apoio que sustentou seu retorno ao poder. O governo tenta argumentar que a escalada seria temporária, mas analistas ouvidos pela agência veem chance de dor mais longa nas bombas. 


Há aqui uma contradição política central: Trump tenta apresentar a guerra como instrumento de estabilização futura, mas o mercado responde tratando a guerra como fator presente de desestabilização. Essa diferença de temporalidade é devastadora para qualquer governo. A promessa está no futuro; o preço já está no presente. 





6. E o Brasil? Diesel, agronegócio, inflação e pressão sobre a Petrobras



O Brasil não está fora dessa equação. Reuters informou que a alta do petróleo já apareceu como ameaça imediata ao agronegócio brasileiro, especialmente porque o país importa cerca de 30% do diesel que consome. Em plena colheita de soja e no plantio do milho, o aumento do diesel atinge exatamente uma das engrenagens mais sensíveis da economia nacional: o transporte e a produção agrícola. 


Em 9 de março, a Reuters mostrou também que a Petrobras vinha recusando pedidos extras de diesel, num contexto em que os preços domésticos estavam fortemente defasados em relação ao mercado internacional. Em 13 de março, a estatal anunciou reajuste de R$ 0,38 por litro no diesel às distribuidoras. Em 18 de março, a Reuters informou que seis refinarias da companhia operavam acima da capacidade instalada para ampliar a oferta doméstica e amortecer o choque externo. Isso revela duas coisas ao mesmo tempo: há algum espaço de gestão interna, mas há também um limite físico e econômico para absorver indefinidamente o impacto global. 


O efeito macroeconômico é conhecido. O petróleo mais caro pressiona combustíveis, fretes, alimentos e expectativas inflacionárias. Em uma economia com forte dependência do transporte rodoviário, o diesel é quase um transmissor universal de custos. Quando ele sobe, a inflação se espalha por canais diretos e indiretos. Estudos econômicos e a própria experiência brasileira recente mostram que combustíveis funcionam como um dos pontos de passagem mais rápidos entre geopolítica internacional e custo de vida doméstico. 


A particularidade brasileira, porém, é que a disputa em torno do petróleo sempre acaba sendo também uma disputa sobre política pública: quanto repassar, quanto amortecer, quanto tributar, quanto importar e quanto produzir internamente. Em tempos de guerra energética, o barril volta a expor o velho dilema nacional: o país é produtor relevante, mas continua vulnerável à lógica do preço internacional. Essa é a contradição estrutural. O petróleo é nosso; a volatilidade, também. 





7. O que está realmente em jogo: energia, hegemonia e legitimidade



É um erro olhar para o salto do petróleo apenas como questão de mercado. O que está em jogo é algo maior: a relação entre guerra, legitimidade e ordem mundial. Quando um conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel desloca o barril em quase 50% em menos de três semanas, o que se vê é a prova material de que a infraestrutura energética global segue profundamente dependente de uma região permanentemente militarizada. 


Também fica evidente que a hegemonia ocidental não estabiliza necessariamente o sistema; em certos casos, ela o desorganiza. Se a intervenção militar destinada a disciplinar um adversário produz escassez, inflação, insegurança jurídica e instabilidade marítima, então a promessa de ordem começa a parecer produtora de desordem. Isso ajuda a entender por que a guerra do Irã não é apenas um tema regional. Ela se converteu em teste da capacidade dos Estados Unidos de exercer poder sem implodir os próprios fundamentos econômicos e normativos de sua liderança. 


Nesse quadro, Trump enfrenta um paradoxo histórico. Pode vencer a batalha retórica entre seus apoiadores, pode obter apoio congresso adentro, pode sustentar a narrativa de ação dura; mas, se a guerra continuar encarecendo energia e corroendo expectativas, sua vitória tática pode se converter em derrota estrutural. A política externa, nesse caso, volta para dentro de casa pela porta da inflação. 





Conclusão



O salto do petróleo entre 28 de fevereiro e 18 de março de 2026 não foi um acidente de mercado. Foi o preço da guerra. A escalada envolvendo o Irã, os Estados Unidos e Israel transformou o barril em uma medida condensada de risco militar, insegurança logística e perda de confiança no funcionamento regular do sistema energético global. O Brent rompeu a barreira simbólica dos US$ 100, o WTI acompanhou com força e o mundo inteiro passou a pagar, de formas diferentes, a conta dessa militarização. 


Donald Trump dificilmente será punido de maneira simples ou imediata. O Congresso, por ora, lhe ofereceu espaço de manobra. Mas isso não significa ausência de penalização. A penalização mais plausível pode surgir onde governos costumam temer mais: no desgaste econômico cotidiano, na erosão de legitimidade internacional, na contestação jurídica e no impacto eleitoral de combustíveis caros. Em outras palavras, talvez não seja um tribunal o primeiro a cobrar a conta dessa guerra, mas o mercado, os consumidores e a própria política doméstica norte-americana. 


Para o Brasil, a lição é direta. A guerra no Golfo não fica no Golfo. Ela chega ao diesel, ao frete, à colheita, à inflação e à política energética nacional. E é justamente por isso que o petróleo continua sendo mais do que uma commodity: ele é um índice concentrado da vulnerabilidade do mundo contemporâneo. Quando a guerra se aproxima do coração das rotas energéticas, o barril sobe, a economia balança e a ficção de estabilidade global se rompe. O preço do petróleo, nesse sentido, não mede apenas oferta e demanda. Mede a temperatura de uma ordem internacional em combustão. 

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Abaixo vai uma leitura mais aprofundada do movimento do petróleo entre 28 de fevereiro de 2026 e 18 de março de 2026, com foco em trajetória de preços, causas da alta, dinâmica Brent x WTI e efeitos prováveis sobre o Brasil. Como 28/02/2026 caiu em um sábado, a base de comparação de mercado é o fechamento de 27/02. 


 Preço do petróleo — 28 fev. a 18 mar. de 2026


Entre o fechamento de 27/02 e o fechamento de 18/03, o movimento foi nitidamente altista. No Brent, a cotação saiu de US$ 72,48 em 27/02 para US$ 107,38 em 18/03. No WTI, foi de US$ 67,02 para US$ 96,32 no mesmo intervalo. Isso implica alta aproximada de 48,2% no Brent e 43,7% no WTI em menos de três semanas. 


A trajetória não foi linear. Nos primeiros pregões de março, o mercado saiu rapidamente da faixa dos US$ 70 para os US$ 80; depois, acelerou para a faixa dos US$ 90; em seguida, rompeu os US$ 100. No Brent, alguns pontos dessa escalada foram: US$ 77,74 em 02/03, US$ 81,40 em 03/03, US$ 85,41 em 05/03, US$ 92,69 em 06/03, US$ 100,46 em 12/03 e US$ 107,38 em 18/03. No WTI, os números comparáveis foram US$ 71,23, US$ 74,56, US$ 81,01, US$ 90,90, US$ 95,70 e US$ 96,32. 


O fator decisivo foi geopolítico. A IEA afirmou que os preços passaram a oscilar violentamente desde os ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, com disrupções na infraestrutura energética regional e interrupções no tráfego pelo Estreito de Ormuz. A agência afirmou que o Brent chegou a negociar “a um passo” de US$ 120 por barril antes de recuar parcialmente. 


Em outras palavras, o mercado deixou de precificar apenas fundamentos tradicionais de oferta e demanda e passou a incorporar um prêmio de guerra. Esse tipo de prêmio aparece quando operadores consideram a possibilidade de perda física de oferta, gargalos logísticos, ataques a terminais, navios retidos e risco de ampliação regional do conflito. Reuters registrou em 12/03 que o Brent subiu cerca de 9% em um único dia, encerrando a sessão a US$ 100,46, enquanto o WTI fechou a US$ 95,70, justamente em meio ao agravamento militar e à ameaça iraniana de manter Ormuz fechado. 


A diferença entre Brent e WTI também diz muito. O Brent subiu mais e mais rápido porque é o benchmark mais sensível ao risco de oferta marítima internacional e ao Oriente Médio. A Reuters informou que o desconto do WTI em relação ao Brent chegou perto de US$ 12 por barril, o maior desde 2015 em determinados momentos, sinal de que o mercado internacional estava cobrando um prêmio geopolítico mais forte sobre o petróleo de referência global. 


A IEA reforçou a gravidade do quadro ao dizer que esta passou a ser a maior interrupção de oferta da história do mercado de petróleo, com perda de pelo menos 10 milhões de barris por dia de produção no Oriente Médio e com liberação extraordinária de estoques estratégicos da ordem de 400 milhões de barris para amortecer o choque. Isso ajuda a entender por que houve momentos de alívio no meio da escalada: quando o mercado enxerga resposta coordenada de reservas, parte do pânico de curto prazo é reduzida, ainda que o risco estrutural continue alto. 


No dia 18/03, o petróleo voltou a subir com força. A Reuters registrou que o Brent fechou em US$ 107,38 e ainda avançou no pós-mercado, enquanto o WTI fechou em US$ 96,32. A Trading Economics também mostrou o Brent na região de US$ 110,94 no dia, o que confirma que o mercado seguiu estressado mesmo após as tentativas de estabilização. 


Para o Brasil, o primeiro canal de transmissão é o diesel. A Reuters informou em 10/03 que a alta do petróleo já aparecia como ameaça imediata ao agronegócio brasileiro, exatamente no momento de colheita de soja e plantio de milho, porque parte do diesel consumido no país é importada ou precificada com referência internacional. Mesmo sem reajuste imediato generalizado da Petrobras naquele momento, o choque externo já pressionava o abastecimento e os custos domésticos. 


O segundo canal é a defasagem entre preço doméstico e paridade de importação. Em 09/03, a Reuters relatou que a ABICOM estimava a gasolina doméstica no Brasil cerca de 46% abaixo da paridade de importação. Isso significa que, se o petróleo internacional permanece alto por vários dias ou semanas, a pressão por reajuste cresce. Em 13/03, a Reuters informou que a Petrobras elevou o diesel vendido às distribuidoras em R$ 0,38 por litro, embora a empresa tenha argumentado que o impacto final ao consumidor tenderia a ser residual por causa de medidas tributárias compensatórias. 


O terceiro canal é a inflação. O repasse de petróleo e combustíveis para o nível geral de preços no Brasil já foi documentado em estudos econômicos recentes, especialmente porque combustíveis afetam diretamente transporte, frete, logística, alimentos e vários preços administrados. Em um país com forte dependência rodoviária, um choque de diesel raramente fica restrito à bomba: ele se espalha pela cadeia. 


Há, porém, um amortecedor parcial: a composição do preço final do combustível no Brasil não depende apenas da Petrobras. No diesel, por exemplo, a própria Petrobras mostra que o preço ao consumidor inclui parcela da estatal, biodiesel, distribuição, revenda e tributos. Na coleta de 08/03 a 14/03, a empresa indicava preço médio nacional do diesel em R$ 6,89/litro, dos quais cerca de 40,6% correspondiam à participação Petrobras. Isso quer dizer que uma alta do barril não se transforma mecanicamente, na mesma proporção, em alta na bomba. 


Ainda assim, o risco macroeconômico existe. Quando o petróleo sobe rápido, o Brasil tende a enfrentar uma combinação desconfortável: pressão sobre combustíveis, fretes e alimentos; piora potencial das expectativas de inflação; e, dependendo do câmbio, amplificação do choque. Se o barril sobe em dólar e o real também enfraquece, o efeito doméstico tende a ser mais forte. A literatura do Banco Central sobre pass-through cambial ajuda a entender esse mecanismo de amplificação. 


A síntese é a seguinte: entre 28 de fevereiro e 18 de março de 2026, o petróleo viveu um choque clássico de guerra, não um mero ajuste cíclico. O mercado saiu de um patamar ainda relativamente administrável para uma zona de preço que já começa a contaminar decisões de política energética, estoques estratégicos, subsídios e inflação. O Brent foi o melhor termômetro desse estresse e mostrou que o mundo passou a precificar não apenas a guerra atual, mas a possibilidade de uma ruptura prolongada da ordem energética no Golfo. 

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Referências



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AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA (IEA). The energy implications of events in the Middle East. Paris: IEA, 2026. Disponível em:  . Acesso em: 18 mar. 2026.


AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA (IEA). Strait of Hormuz - About. Paris: IEA, 2026. Disponível em:  . Acesso em: 18 mar. 2026.


AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA (IEA). The Middle East and Global Energy Markets. Paris: IEA, 2026. Disponível em:  . Acesso em: 18 mar. 2026.


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