Há expressões que, sozinhas, já carregam uma contradição. “Pax judaica” é uma delas. O termo sugere paz, mas remete, no debate contemporâneo, a uma ordem regional sustentada menos por reconciliação do que por supremacia militar, dissuasão permanente, controle territorial, alianças seletivas e rebaixamento político dos adversários. Não se trata de um conceito clássico e consolidado da historiografia, como Pax Romana ou Pax Americana, mas de uma expressão usada em análises críticas para nomear uma hipótese de ordenamento do Oriente Médio em torno da primazia estratégica de Israel.
Essa hipótese não nasce do nada. Ela emerge de uma conjuntura em que Israel ampliou seu poder de projeção regional, intensificou a guerra em Gaza, aprofundou mecanismos de controle sobre a Cisjordânia, elevou o confronto com o Irã a eixo estruturante de sua doutrina estratégica e se beneficiou de uma arquitetura diplomática que inclui os Acordos de Abraão, isto é, a normalização com parte do mundo árabe sem solução efetiva da questão palestina.
O problema central é que uma ordem fundada nesses elementos pode até produzir hegemonia, mas dificilmente produz paz justa. Pode conter inimigos, degradar resistências e fabricar uma aparência de estabilidade. Mas não resolve o núcleo histórico do conflito. Apenas o administra sob nova correlação de forças.
Uma expressão incômoda para uma realidade igualmente incômoda
Quando se fala em “pax judaica”, não se está descrevendo uma paz negociada entre iguais, nem um arranjo regional assentado em soberania recíproca, segurança compartilhada e reparação histórica. O que está em jogo é outra coisa: a possibilidade de que Israel se afirme como centro militar e estratégico do Oriente Médio, capaz de impor limites severos aos seus inimigos, de operar com ampla liberdade no entorno e de enquadrar a região segundo seus próprios imperativos de segurança.
Em outras palavras, seria uma paz do desequilíbrio. Uma paz de cima para baixo. Uma paz que não nasce do encerramento do conflito, mas da incapacidade dos demais de alterar o tabuleiro. Essa é a lógica profunda de toda “pax” imperial ou hegemônica: a estabilidade não decorre de justiça, mas de assimetria. O centro dominante impõe a ordem e chama isso de paz.
No caso israelense, essa ordem seria sustentada por um conjunto bastante claro de pilares: superioridade militar e tecnológica, ampla capacidade de inteligência, apoio estratégico dos Estados Unidos, enfraquecimento sistemático do eixo rival ligado ao Irã, integração seletiva com governos árabes e subordinação continuada da Palestina.
A paz que não resolve o conflito: ela apenas o reorganiza
A sedução da ideia está em sua promessa de estabilidade. Seu limite está em sua incapacidade de enfrentar a origem da instabilidade. Porque o nó central da região continua sendo a Palestina.
Uma ordem baseada em supremacia israelense pode reduzir a capacidade operacional de grupos armados, enfraquecer rivais regionais e ampliar cooperação diplomática com governos árabes. Mas isso não apaga ocupação, deslocamento, colonização de territórios, negação de autodeterminação e desigualdade estrutural entre israelenses e palestinos. O conflito não desaparece. Ele muda de forma.
É por isso que a expressão “pax judaica” carrega ironia crítica. Chama-se de paz aquilo que, para muitos, é apenas a institucionalização da força como princípio ordenador da região. O silêncio obtido pela coerção pode até parecer estabilidade visto do alto da estratégia. No chão da história, continua sendo violência administrada.
Netanyahu e a transformação da guerra em doutrina regional
Benjamin Netanyahu é um dos principais formuladores dessa inflexão estratégica. Ao longo de décadas, sua linha política se organizou em torno de três convicções persistentes: a necessidade de conter ou destruir a ameaça iraniana, a recusa em aceitar uma solução palestina que restrinja decisivamente a liberdade de ação de Israel e a ambição de consolidar o país como potência regional indispensável.
Nos anos mais recentes, porém, essa doutrina ganhou escala e agressividade. O discurso israelense passou a apresentar a guerra não apenas como resposta defensiva, mas como instrumento de reconfiguração do Oriente Médio. Em março de 2026, por exemplo, o chanceler Gideon Saar afirmou que Israel havia “vencido” a guerra contra o Irã, ainda que as metas não estivessem completamente cumpridas. A formulação é reveladora porque desloca o vocabulário do campo tático para o campo geopolítico: não se trata mais só de sobreviver, mas de redesenhar o ambiente regional.
Essa mudança é decisiva para entender a “pax judaica”. O que se desenha não é simplesmente uma política de autodefesa nacional. É um projeto de ordenamento regional em que Israel busca tornar-se o polo militar incontornável do sistema.
Gaza, Cisjordânia, Líbano e Síria: a geografia concreta dessa ordem
Nenhuma tese geopolítica se sustenta apenas em discurso. É preciso olhar o terreno.
Em Gaza, a lógica é de destruição da capacidade militar adversária combinada à produção de uma nova realidade material e política. Na Cisjordânia, observa-se o aprofundamento de instrumentos administrativos, jurídicos e territoriais que muitos analistas e autoridades palestinas descrevem como anexação de fato. No entorno libanês e sírio, a dinâmica é a de zonas frágeis, pressionadas, vigiadas e atingidas por operações recorrentes, isto é, espaços em que a soberania do outro se torna cada vez mais precária diante da liberdade operacional israelense.
Esse conjunto forma uma espécie de periferia estratégica. Não é exatamente paz. Não é guerra convencional contínua. É uma malha de controle, coerção, monitoramento e punição periódica. A paz prometida assume, assim, a forma de uma geografia fragmentada: territórios submetidos a diferentes intensidades de força, todos orbitando ao redor da centralidade militar israelense.
“Pax judaica” e “Grande Israel” não são a mesma coisa, mas caminham lado a lado
É importante não confundir conceitos. “Pax judaica” diz respeito ao tipo de ordem regional; “Grande Israel” remete ao imaginário territorial, histórico e, em certos setores, teológico de uma soberania israelense maximalista.
Ainda assim, os dois elementos podem convergir. Quando o governo israelense amplia controles sobre a Cisjordânia, flexibiliza mecanismos para aquisição de terras por colonos ou promove procedimentos administrativos vistos como consolidação territorial irreversível, a ordem militar regional se conecta a um projeto de transformação do espaço palestino. A hegemonia externa e a expansão interna deixam de ser temas separados.
Nesse ponto, a “pax judaica” deixa de ser apenas uma fórmula de segurança e passa a integrar um processo mais amplo de reengenharia territorial. O que está em jogo não é só neutralizar ameaças. É moldar o mapa e o futuro político da terra disputada.
A extrema direita israelense e a fusão entre segurança, identidade e território
Seria simplista interpretar tudo isso apenas como cálculo estratégico racional. Há um componente ideológico poderoso, e ele cresceu muito nos últimos anos. A extrema direita israelense, especialmente em sua vertente ligada ao sionismo religioso nacionalista, tornou mais estreita a ligação entre segurança, colonização, soberania e linguagem messiânica.
Reportagens recentes mostram o fortalecimento de correntes religiosas ultranacionalistas no interior da cultura militar e política israelense. Essas correntes não veem a guerra apenas como necessidade trágica; frequentemente a interpretam como parte de uma missão histórica. Nessa chave, concessão territorial deixa de parecer prudência diplomática e passa a soar como traição identitária ou renúncia ao destino nacional.
Esse dado é central. Ele revela que a atual arquitetura de poder em Israel não é movida apenas por medo ou cálculo. Ela também é alimentada por uma visão de mundo em que território, Bíblia, povo, segurança e redenção histórica aparecem entrelaçados. A paz, nesse ambiente, já não significa compromisso. Significa domínio estável sobre a terra e sobre o entorno.
Os Acordos de Abraão e a normalização “por cima”
Se o braço militar é indispensável, o braço diplomático também é. Os Acordos de Abraão cumprem justamente essa função. Eles consolidaram a normalização entre Israel e alguns países árabes, ampliando cooperação comercial, tecnológica e securitária. Formalmente, foram apresentados como instrumentos de paz. Politicamente, ajudaram a deslocar a questão palestina do centro da arquitetura regional.
Esse é um dos movimentos mais significativos do Oriente Médio recente. Durante décadas, a causa palestina foi um eixo organizador da posição árabe em relação a Israel. Com os acordos, abriu-se a possibilidade de integração interestatal sem solução prévia do problema palestino. Em linguagem simples: Israel pôde se aproximar de parte do mundo árabe sem ter resolvido o conflito que está na base de sua rejeição regional histórica.
Essa diplomacia “por cima” é peça-chave da “pax judaica”. Ela produz uma paz de governos, mercados e serviços de inteligência, mas não necessariamente uma paz de povos. É uma normalização estatal assentada sobre uma ferida ainda aberta.
O Irã como inimigo organizador da nova ordem
Toda ordem hegemônica precisa de um antagonista que a justifique. No caso atual, esse antagonista é o Irã.
O confronto com Teerã funciona como eixo de coesão interna para Israel, como fundamento de alianças com governos árabes preocupados com a influência iraniana e como justificativa para operações preventivas ou de larga escala. Quanto mais o Irã é apresentado como ameaça existencial, mais plausível se torna, para os defensores dessa arquitetura, a necessidade de uma superioridade israelense duradoura e sem constrangimentos maiores.
Mas há aqui um paradoxo perigoso. Quando a guerra se converte em fundamento da ordem, a própria ordem passa a depender da permanência da guerra ou, ao menos, da ameaça constante dela. O inimigo deixa de ser apenas um risco a ser administrado e se torna parte da engrenagem que legitima o sistema.
O papel dos Estados Unidos e o reforço do sionismo cristão
A centralidade regional de Israel não pode ser entendida sem os Estados Unidos. O apoio americano é militar, diplomático, político e simbólico. Em muitos momentos, a hegemonia israelense funciona como peça regional de uma arquitetura mais ampla de poder ocidental no Oriente Médio.
Dentro desse apoio, o sionismo cristão ocupa lugar relevante, sobretudo em setores evangélicos conservadores dos Estados Unidos. Trata-se de uma corrente teológico-política que associa a existência e o fortalecimento de Israel a uma narrativa bíblica e escatológica, convertendo o apoio ao Estado israelense em dever moral, religioso e civilizacional. Análises recentes mostram como essa visão segue influente na política e na cultura pública americana.
A consequência é poderosa: interesses estratégicos e imaginários religiosos se reforçam mutuamente. O resultado é uma coalizão de apoio mais profunda do que um mero cálculo de Estado. Israel aparece, ao mesmo tempo, como aliado geopolítico e como entidade teologicamente investida de significado.
O que essa ordem realmente entrega
A promessa dessa arquitetura é clara: estabilidade, dissuasão, neutralização de ameaças, integração regional seletiva e capacidade de impedir novas catástrofes de segurança para Israel.
Mas aquilo que ela entrega é mais ambíguo. Ela entrega supremacia, não igualdade. Entrega capacidade de punir, não legitimidade compartilhada. Entrega contenção regional, mas ao preço de ocupação prolongada, degradação territorial palestina, militarização da política e normalização da exceção.
Em resumo, a “pax judaica” pode produzir uma ordem funcional para o hegemon, mas profundamente disfuncional para os submetidos a ela. Ela organiza o medo, mas não reconcilia a memória. Ela impõe limites, mas não oferece uma justiça mínima capaz de encerrar historicamente o conflito.
O cuidado conceitual indispensável
Há, porém, uma cautela essencial. A crítica a essa arquitetura não pode escorregar para formulações antissemitas ou conspiratórias. O objeto da análise não é “os judeus” como povo, religião ou identidade civilizacional. O objeto é um projeto geopolítico associado ao Estado de Israel, a setores de sua elite política e militar, à extrema direita sionista religiosa e a redes internacionais de apoio.
Essa distinção é moralmente necessária e intelectualmente obrigatória. Sem ela, a análise degenera em preconceito e perde rigor. Em tema tão carregado de tragédia, imprecisão conceitual também produz violência.
Conclusões
A chamada “pax judaica” ajuda a descrever uma realidade em formação: a tentativa de organizar o Oriente Médio a partir da primazia estratégica de Israel. Essa ordem se apoia em superioridade militar, liberdade operacional regional, normalização diplomática seletiva, confronto estruturante com o Irã e rebaixamento contínuo da questão palestina.
Quando articulada ao imaginário de “Grande Israel”, ao crescimento da extrema direita israelense, à presença de correntes messiânicas no aparato político-militar e ao apoio político-cultural do sionismo cristão nos Estados Unidos, essa ordem ganha densidade ainda maior. Ela deixa de ser mera estratégia de defesa e passa a se apresentar como projeto de longa duração: militar, territorial, ideológico e civilizacional.
Mas há uma falha de origem nessa arquitetura. Ela pretende estabilizar a região sem resolver a Palestina. Quer conter o conflito sem enfrentar seu núcleo moral e histórico. Quer paz sem igualdade, segurança sem soberania palestina, ordem sem justiça.
Por isso, a “pax judaica” talvez seja menos uma solução para o Oriente Médio do que a forma contemporânea de sua administração coercitiva. E uma paz que depende da desigualdade estrutural, da militarização permanente e da negação de direitos não é propriamente paz. É apenas a guerra reorganizada sob outro nome.
5 pontos centrais do artigo
- A “pax judaica” descreve uma ordem regional baseada em supremacia israelense, não em reconciliação política.
- Essa arquitetura combina guerra, controle territorial, alianças regionais e marginalização da questão palestina.
- O avanço da extrema direita e do sionismo religioso amplia a fusão entre segurança, colonização e missão histórica.
- Os Acordos de Abraão ajudam a normalizar Israel com parte do mundo árabe sem resolver a Palestina.
- A ordem resultante pode gerar hegemonia, mas dificilmente produz paz justa e durável.
Referências
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LE MONDE. The challenges of a “Pax Hebraica” in the Middle East. Le Monde, 24 jun. 2025.
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