segunda-feira, 16 de março de 2026

Quando o ataque é à escola, o alvo é o país: Institutos Federais, universidades públicas e a nova ofensiva contra o pensamento no Brasil



Assisti a O Agente Secreto pensando no passado, mas saí do filme olhando para o presente. O que mais incomoda na obra de Kleber Mendonça Filho não é apenas a violência visível da ditadura, e sim a percepção de que regimes autoritários não precisam destruir a educação pública com tanques na porta. Muitas vezes, basta cercá-la por dentro: com desinformação, hostilidade moral, asfixia orçamentária, campanhas de difamação e intimidação constante contra professores, estudantes e dirigentes. Essa chave de leitura não é apenas histórica. Ela ajuda a entender por que, no Brasil de hoje, universidades públicas e Institutos Federais continuam sob pressão recorrente de setores da extrema direita e de uma cultura política que trata o pensamento crítico como suspeita permanente. 


Nos últimos meses, essa ofensiva apareceu de forma muito concreta. Em 12 de março de 2026, o Conif divulgou nota oficial para rebater declarações do economista Marcos Mendes em programa da GloboNews, classificadas pela entidade como desinformação sobre o papel e o funcionamento dos Institutos Federais. Na resposta, o conselho lembrou que os IFs foram criados pela Lei nº 11.892/2008, têm modelo institucional próprio, forte presença no interior do país, cerca de 1,8 milhão de matrículas e missão articulada entre educação básica, técnica, superior, pesquisa aplicada e extensão. A nota também ressaltou que 85% dos estudantes da Rede Federal têm renda familiar de até dois salários mínimos, o que mostra o peso social e territorial dessas instituições. 


Esse episódio é revelador porque a tentativa de reduzir os Institutos Federais a caricaturas administrativas não é um simples erro conceitual. É parte de uma disputa política mais ampla. Quando uma instituição pública é apresentada de forma distorcida, como se fosse um luxo disfuncional ou uma espécie de desvio da função do Estado, prepara-se o terreno para sua deslegitimação pública. Primeiro se espalha a dúvida; depois se naturaliza o corte; por fim, vende-se o enfraquecimento como racionalidade. É um método conhecido. A ditadura também precisou construir narrativas para justificar vigilância, intervenção e silenciamento nas instituições de ensino e pesquisa. Hoje, o repertório mudou de forma, mas preserva um núcleo antigo: hostilidade à autonomia, medo da crítica e aversão ao conhecimento socialmente organizado. 


Essa pressão não se limita ao plano discursivo. Em 2025, o Decreto nº 12.448, de 30 de abril, impôs novas restrições à execução orçamentária federal. Na prática, segundo o Conif, a medida limitou a execução mensal a 1/18 do total autorizado e empurrou parte relevante da liberação para dezembro, dificultando compromissos essenciais das 685 unidades da Rede Federal, como bolsas estudantis, manutenção de campi, contratos de energia, limpeza, segurança e projetos de pesquisa e extensão. A Andifes, por sua vez, afirmou que a limitação afetava diretamente a capacidade de planejamento e gestão das universidades federais, comprometendo assistência estudantil, bolsas acadêmicas, restaurantes universitários, água, energia e terceirização. 


É verdade que, em 27 de maio de 2025, o Ministério da Educação anunciou recomposição de R$ 400 milhões no orçamento das universidades e institutos federais, além da liberação de R$ 300 milhões que haviam ficado retidos por decreto. O governo também informou que as instituições sairiam da regra de 1/18 e voltariam ao patamar de 1/12 na execução mensal. Ainda assim, o próprio ministro Camilo Santana reconheceu que o orçamento discricionário, corrigido pela inflação, segue abaixo do que era em 2014, e que essa é uma das principais queixas dos reitores. Em outras palavras: houve alívio, mas não solução estrutural. 


É exatamente aqui que o filme encontra o presente. O ataque às instituições do pensamento não acontece apenas quando há censura explícita. Ele também ocorre quando a universidade e o instituto passam a funcionar em estado de sufocamento crônico, sempre no limite, obrigados a gastar energia demais apenas para sobreviver. A precarização orçamentária, quando se torna contínua, produz efeitos políticos profundos: interrompe planejamento, desmobiliza equipes, enfraquece a permanência estudantil, reduz pesquisa, compromete inovação e desgasta simbolicamente a legitimidade da instituição diante da sociedade. O corte de verba, nessas condições, deixa de ser mero problema fiscal e passa a operar como tecnologia de enfraquecimento institucional. 


Mas a ofensiva recente não tem sido apenas financeira. Em março de 2025, a Universidade de Brasília tornou-se palco de uma série de ações de grupos de extrema direita. O Conselho Universitário da UnB declarou, em nota de 21 de março, que essas ações faziam parte de um “contínuo e articulado ataque” às instituições públicas de ensino superior, incluindo gravações manipuladas de aulas, filmagens clandestinas para distorcer a realidade universitária, propagação de mentiras e estímulo ao vandalismo contra patrimônio público. A própria nota afirma que, desde 2016, as universidades públicas brasileiras enfrentam “ofensiva sistemática” baseada em fake news, campanhas negacionistas, sucateamento deliberado e tentativas reiteradas de desqualificação do conhecimento produzido nesses ambientes. 


Poucos dias depois, em 24 de março de 2025, estudantes, docentes, técnicos e parlamentares participaram de ato na UnB contra ataques recentes organizados por bolsonaristas. O protesto ocorreu após ações contra o Centro Acadêmico de Artes Visuais, descritas como “ações de limpeza da UnB”, e foi acompanhado por manifestações da reitoria em defesa da democracia e contra o extremismo. O caso é emblemático porque explicita uma prática típica da nova extrema direita: transformar a universidade em palco de provocação calculada, produzir imagens descontextualizadas, alimentar redes de desinformação e, depois, apresentar a reação institucional como prova da própria tese conspiratória. 


Na USP, o quadro também se agravou em 2025 e 2026. Em setembro de 2025, a direção da FFLCH denunciou que um grupo ligado a parlamentares de extrema direita invadiu novamente o vão de História e Geografia, partiu para violência física, agrediu um professor egresso, machucou estudantes e tentou forçar a porta de um laboratório, acuando uma funcionária. Em outubro, a própria USP informou que o ato “Em Defesa da FFLCH: a Universidade Pública É do Povo” era resposta aos ataques promovidos por grupos de extrema direita que vinham ocorrendo desde maio, nas dependências físicas da instituição e também contra sua comunidade acadêmica. Já em março de 2026, a Adusp noticiou novo ataque à USP, com estudantes feridos em ação protagonizada pelo vereador Lucas Pavanato e seus seguranças. 


Esses episódios não são marginais. Eles mostram uma mudança preocupante de patamar. Não se trata mais apenas de discurso agressivo nas redes sociais ou de opinião hostil contra universidades. Em vários casos, há tentativa concreta de invasão simbólica e física dos espaços acadêmicos, de intimidação de docentes, de constrangimento de estudantes e de produção deliberada de cenas de conflito para abastecer ecossistemas políticos que vivem da desmoralização da educação pública. O que está em disputa, portanto, não é somente orçamento. É a possibilidade de a universidade e os Institutos Federais permanecerem como territórios de liberdade intelectual, pluralismo, pesquisa, dissenso e formação crítica. 


Nesse cenário, a decisão aprovada pelo Senado em 10 de março de 2026, extinguindo a lista tríplice e estabelecendo que o presidente deverá nomear o candidato mais votado pela comunidade acadêmica nas universidades e institutos federais, tem peso simbólico e institucional importante. A medida, ainda pendente de sanção presidencial na data das reportagens, responde a um longo histórico de intervenções sobre a autonomia universitária e sobre a legitimidade das escolhas internas das instituições. Em contextos de avanço autoritário, controlar a direção das instituições de ensino é controlar parte da vida intelectual do país. Por isso, defender eleição respeitada e autonomia não é detalhe corporativo; é defesa da arquitetura democrática da educação pública. 


Para quem trabalha em Instituto Federal, tudo isso é especialmente sensível. Os IFs não são apenas escolas técnicas expandidas, nem pequenas universidades, nem anexos burocráticos do Estado. São uma das experiências mais capilares de educação pública, ciência aplicada e desenvolvimento regional do Brasil contemporâneo. Estão no interior, dialogam com o território, formam jovens de baixa renda, articulam ensino médio integrado, licenciaturas, tecnologia, pesquisa e extensão. Atacar essas instituições, desinformar sobre elas ou asfixiá-las financeiramente é atacar justamente uma das raras infraestruturas públicas que ainda conectam conhecimento, mobilidade social e soberania territorial. 


É por isso que a lembrança da ditadura não pode ser tratada como museu político. Ela precisa funcionar como critério de leitura do presente. A ditadura não perseguiu apenas indivíduos; perseguiu ecossistemas de pensamento. Não destruiu apenas carreiras; destruiu ambientes de pesquisa, redes de debate, autonomia universitária e confiança pública no saber crítico. Quando setores da extrema direita hoje elegem universidades e Institutos Federais como alvos de desinformação, hostilidade moral, invasões, gravações clandestinas, campanhas de difamação e pressão política, o sinal de alerta é evidente. O léxico mudou, a tecnologia mudou, a estética mudou. O impulso de fundo, porém, continua reconhecível: a vontade de domesticar o pensamento para tornar o país mais obediente, menos crítico e mais vulnerável à mentira organizada. 


Um país que aprende a desconfiar de seus professores, ridicularizar seus pesquisadores e tratar suas instituições públicas de ensino como problema acaba por mutilar o próprio futuro. Sem universidade forte e sem Rede Federal robusta, não há projeto nacional sério de desenvolvimento, inovação, soberania tecnológica ou democracia substantiva. O obscurantismo pode até mobilizar paixões momentâneas, mas não constrói laboratórios, não forma engenheiros, não sustenta políticas públicas, não reduz desigualdade e não produz autonomia. A ignorância, quando vira programa político, pode render votos; mas cobra seu preço em atraso histórico. E esse preço, como o filme sugere e o presente confirma, quase sempre é pago pelas próximas gerações.



Referências



AGÊNCIA BRASIL. MEC fará recomposição de R$ 400 milhões do orçamento das universidades. Brasília, 27 maio 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2025-05/mec-fara-recomposicao-de-r-400-milhoes-do-orcamento-das-universidades. Acesso em: 15 mar. 2026. 


ANDIFES. Nota da Andifes sobre situação do orçamento das universidades federais. Brasília, 14 maio 2025. Disponível em: https://www.andifes.org.br/2025/05/14/nota-da-andifes-sobre-situacao-do-orcamento-das-universidades-federais/. Acesso em: 15 mar. 2026. 


ADUSP. Estudantes são feridos em novo ataque da extrema-direita à USP, protagonizado pelo vereador Lucas Pavanato (PL) e seus seguranças. São Paulo, 6 mar. 2026. Disponível em: https://adusp.org.br/universidade/fflch-agressao/. Acesso em: 15 mar. 2026. 


CÂMARA DOS DEPUTADOS. Decreto nº 12.448, de 30 de abril de 2025. Brasília, 30 abr. 2025. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/2025/decreto-12448-30-abril-2025-797389-publicacaooriginal-175255-pe.html. Acesso em: 15 mar. 2026. 


CONIF. Nota Oficial: Impactos do Decreto nº 12.448/2025 na Rede Federal de EPCT. Brasília, 14 maio 2025. Disponível em: https://portal.conif.org.br/geral/nota-oficial-impactos-do-decreto-no-12-448-2025-na-rede-federal-de-epct. Acesso em: 15 mar. 2026. 


CONIF. Conif esclarece informações sobre os Institutos Federais após declarações em programa da GloboNews. Brasília, 12 mar. 2026. Disponível em: https://portal.conif.org.br/geral/conif-esclarece-informacoes-sobre-os-institutos-federais-apos-declaracoes-em-programa-da-globonews. Acesso em: 15 mar. 2026. 


FFLCH-USP. Em defesa da FFLCH. São Paulo, 6 set. 2025. Disponível em: https://www.fflch.usp.br/175971. Acesso em: 15 mar. 2026. 


JORNAL DA USP. Ato na USP manifesta apoio à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas após ataques. São Paulo, 1 out. 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/universidade/ato-na-usp-manifesta-apoio-a-faculdade-de-filosofia-letras-e-ciencias-humanas-apos-ataques/. Acesso em: 15 mar. 2026. 


JORNAL DA USP. A aversão da extrema direita pela Universidade. São Paulo, 13 maio 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/jose-eduardo-campos-faria/a-aversao-da-extrema-direita-pela-universidade/. Acesso em: 15 mar. 2026. 


UNB. Nota do Conselho Universitário de repúdio a ações de extrema direita na Universidade de Brasília. Brasília, 21 mar. 2025. Disponível em: https://noticias.unb.br/informes/7912-nota-do-conselho-universitario-de-repudio-a-acoes-de-extrema-direita-na-universidade-de-brasilia. Acesso em: 15 mar. 2026. 


BRASIL DE FATO. “Recua, fascista”: comunidade acadêmica da UnB protesta contra ataques da extrema-direita. Brasília, 24 mar. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/03/24/recua-fascista-comunidade-academica-da-unb-protesta-contra-ataques-da-extrema-direita/. Acesso em: 15 mar. 2026. 


ANDIFES. Senado aprova fim da lista tríplice para escolha de reitores em universidades federais. Brasília, 11 mar. 2026. Disponível em: https://www.andifes.org.br/2026/03/11/senado-aprova-fim-da-lista-triplice-para-escolha-de-reitores-em-universidades-federais/. Acesso em: 15 mar. 2026. 



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