Lide
Nas últimas décadas, uma das formas mais sofisticadas de poder não surgiu pela negação aberta dos direitos, mas por sua incorporação seletiva. O neoliberalismo progressista designa justamente essa combinação: uma ordem econômica fundada em financeirização, concorrência, precarização e mercantilização da vida social, articulada a uma linguagem pública de diversidade, inclusão, pluralismo e reconhecimento. O resultado foi uma hegemonia moralmente sedutora e politicamente eficaz, capaz de apresentar como avanço civilizatório um arranjo que, no plano material, aprofundou inseguranças, assimetrias e fraturas sociais. Mais do que um rótulo polêmico, trata-se de uma chave analítica para compreender por que sociedades que passaram a falar mais sobre inclusão continuaram incapazes de distribuir dignidade, riqueza e proteção de forma substantiva.
Introdução
Há expressões que, quando aparecem pela primeira vez, parecem contraditórias. “Neoliberalismo progressista” é uma delas. Afinal, como algo pode ser simultaneamente neoliberal e progressista? A pergunta é boa justamente porque ela revela o centro do problema. O termo passou a ganhar grande circulação sobretudo a partir da intervenção de Nancy Fraser, que o utilizou para descrever a aliança entre setores do capital financeirizado e correntes liberais-progressistas voltadas ao reconhecimento, à diversidade e à inclusão simbólica (Fraser, 2017). Em sua formulação, tratava-se da junção entre “ideais truncados de emancipação” e formas destrutivas de financeirização, combinação que ajudou a moldar a política de fins do século XX e início do XXI.
A força do conceito está no fato de que ele não descreve apenas um programa econômico, nem apenas uma sensibilidade cultural. Ele descreve um pacto histórico. De um lado, a continuidade de reformas orientadas pelo mercado, pela competitividade e pela lógica empresarial; de outro, a adoção de um léxico moral baseado em direitos civis, representatividade, diversidade e modernização social. O arranjo funcionou porque parecia oferecer o melhor de dois mundos: eficiência econômica e abertura cultural. Mas a promessa escondia uma fissura profunda. A inclusão oferecida por esse modelo era frequentemente inclusão no interior da própria ordem desigual, e não superação de suas estruturas.
Essa contradição exige análise cuidadosa. O problema não está nas lutas feministas, antirracistas, democráticas ou por direitos civis em si. Seria intelectualmente pobre e politicamente equivocado tratar tais agendas como ilusões ou ornamentos. O problema começa quando essas lutas são desarticuladas da crítica à exploração, à desigualdade e à redistribuição, passando a operar como selo moral de legitimação de uma economia socialmente regressiva. A fachada torna-se progressista; a engrenagem permanece concentradora.
O que é neoliberalismo
Antes de entender o adjetivo “progressista”, é preciso entender o núcleo neoliberal. Em sentido amplo, o neoliberalismo é uma doutrina político-econômica que atribui centralidade ao mercado, à concorrência e à proteção institucional da ordem capitalista, ainda que não implique pura ausência do Estado. Ao contrário do senso comum que o reduz a “Estado mínimo”, parte importante da literatura ressalta que o neoliberalismo demanda instituições fortes para garantir contratos, estabilidade monetária, disciplina concorrencial e preservação da arquitetura de mercado (Vallier, 2021).
Isso significa que o neoliberalismo não elimina o Estado; ele o reorienta. O Estado deixa de ser concebido prioritariamente como instância de proteção social e planejamento redistributivo e passa a operar como gestor das condições de reprodução dos mercados. Privatizações, desregulamentação, austeridade fiscal, flexibilização trabalhista e financeirização não são acidentes laterais, mas expressões recorrentes dessa racionalidade. O cidadão, nesse horizonte, é progressivamente redefinido como agente competitivo, responsável individualmente por seu sucesso ou fracasso.
A questão decisiva está aqui: o neoliberalismo não é apenas uma política econômica. Ele é também uma forma de produzir subjetividades. A escola começa a ser pressionada por métricas de desempenho; a universidade, por produtividade e ranqueamento; o trabalho, por disponibilidade permanente; a vida, por autogestão competitiva. A sociedade deixa de se imaginar como espaço de solidariedade e passa a se pensar como ecossistema de desempenho. A metáfora social muda de corpo. Sai a ideia de comunidade política; entra a ideia de mercado expandido.
O que torna esse neoliberalismo “progressista”
O adjetivo “progressista” não significa que o neoliberalismo tenha se tornado socialmente justo. Significa, antes, que ele aprendeu a se associar a pautas moralmente avançadas no plano do reconhecimento. Nancy Fraser descreve esse arranjo como a aliança entre os setores mais dinâmicos do capitalismo financeirizado e correntes progressistas ligadas a feminismo liberal, multiculturalismo, direitos LGBTQIA+, antirracismo institucional e meritocracia inclusiva (Fraser, 2017).
O ponto central é sutil e decisivo. Não se trata de dizer que essas pautas “causaram” o neoliberalismo. Trata-se de afirmar que elas foram, em certos contextos, incorporadas a uma hegemonia que manteve intocada a lógica estrutural da concentração. Em vez de justiça social como redistribuição profunda, ofereceu-se diversidade no topo, acesso diferencial às posições de prestígio e uma ética da oportunidade. A mensagem implícita era sedutora: a sociedade poderia continuar competitiva, financeirizada e desregulada, desde que se tornasse mais plural em seus símbolos, suas narrativas e seus ocupantes.
É como reformar a fachada de um edifício em ruínas sem tocar em suas vigas. Trocam-se os letreiros, diversificam-se os rostos nas campanhas institucionais, ampliam-se repertórios de linguagem, mas a base material continua submetida às mesmas pressões de insegurança, dívida e precarização. O progresso, então, ocorre mais no plano do reconhecimento que no da redistribuição. Há mobilidade seletiva, não democratização estrutural.
Como surgiu historicamente
Historicamente, o neoliberalismo ganhou força a partir da crise do modelo fordista-keynesiano nas décadas de 1970 e 1980. Estagflação, crise fiscal, queda de produtividade, reestruturação produtiva e ascensão do capital financeiro abriram espaço para uma ofensiva intelectual e política favorável à liberalização econômica. Esse movimento foi politicamente identificado em experiências como as de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, que ajudaram a consolidar a gramática da desregulação, da austeridade e da supremacia do mercado. A literatura filosófica e histórica sobre neoliberalismo sublinha que se tratou de um projeto coerente de reorganização institucional do capitalismo, e não de mera improvisação conjuntural (Vallier, 2021).
O passo seguinte foi ainda mais importante. Nas décadas de 1990 e 2000, parte da centro-esquerda e do liberalismo reformista deixou de confrontar estruturalmente essa ordem e passou a administrá-la. Em vez de propor outro modelo de desenvolvimento, buscou compatibilizar globalização, inovação, financeirização e reformas pró-mercado com discursos de tolerância, pluralismo e modernização social. Foi nesse ambiente que a fórmula descrita por Fraser adquiriu densidade histórica: o mercado seria mantido como princípio organizador da economia, enquanto a legitimidade moral do sistema passaria a depender de uma narrativa de abertura, diversidade e mobilidade (Fraser, 2017).
Em termos simples: o neoliberalismo deixou de ter apenas rosto conservador e passou a exibir também um rosto cosmopolita. A mudança não foi superficial. Ela ampliou sua capacidade de consenso. Já não se tratava apenas de defender reformas de mercado em nome da eficiência; tratava-se de defendê-las em nome do futuro, da inovação e da inclusão. O vocabulário mudou, e isso mudou também o tipo de adesão social possível.
A lógica de funcionamento do neoliberalismo progressista
Como esse arranjo funciona concretamente? Funciona por meio de uma dupla operação. A primeira é econômica: preserva-se a dinâmica neoliberal de financeirização, desregulamentação, flexibilização e subordinação da política social às restrições dos mercados. A segunda é simbólica: recobre-se essa dinâmica com uma gramática de emancipação, diversidade e direitos individuais. O sistema não renuncia à desigualdade; ele a reorganiza sob uma moldura moralmente palatável.
Esse é o segredo de sua eficácia. A dominação torna-se menos grosseira e mais inteligente. Em vez de dizer “aceitem a desigualdade”, diz-se “ampliemos oportunidades”. Em vez de enfrentar a questão da propriedade, da renda e da estrutura produtiva, enfatiza-se a ocupação plural dos espaços de comando. Em vez de universalizar proteção, celebra-se a superação individual. O foco desloca-se da transformação das bases materiais para a circulação dos sujeitos dentro da mesma estrutura.
A meritocracia inclusiva torna-se, nesse cenário, um dispositivo central. Não importa tanto se a ordem continua brutal; importa que seus vencedores sejam mais diversos. Há algo de revelador nisso. Quando uma sociedade passa a considerar justiça o fato de haver maior pluralidade entre executivos, ministros, CEOs ou formadores de opinião, mas não altera radicalmente o modo como trabalho, renda e poder são distribuídos, ela não superou a desigualdade. Apenas a tornou mais representativamente administrada.
Reconhecimento sem redistribuição
Aqui está o coração teórico do problema. Nancy Fraser construiu parte importante de sua reflexão distinguindo dois eixos normativos fundamentais: redistribuição e reconhecimento. Redistribuição refere-se à correção das desigualdades socioeconômicas; reconhecimento, à superação de padrões de desvalorização cultural, hierarquia simbólica e inferiorização de grupos. O erro do neoliberalismo progressista foi não exatamente defender o reconhecimento, mas fazê-lo de forma separada — e muitas vezes funcional — à retirada da redistribuição do centro da política (Fraser, 2017).
Essa cisão produz efeitos profundos. Uma empresa pode promover campanhas antidiscriminatórias e, simultaneamente, terceirizar relações de trabalho em condições degradadas. Uma universidade pode aperfeiçoar sua linguagem inclusiva e, ao mesmo tempo, submeter docentes e estudantes a uma lógica de desempenho, competição e exaustão. Um governo pode ampliar discursos de diversidade e seguir comprometido com austeridade que corrói serviços públicos essenciais. Em todos esses casos, há reconhecimento sem redistribuição.
A imagem adequada talvez seja a de uma balança adulterada. Em um prato, colocam-se símbolos, narrativas e representações; no outro, pesam salário, moradia, trabalho, crédito, tempo de vida, acesso universal a bens públicos. Quando o primeiro prato é moralmente valorizado e o segundo é tratado como tecnicalidade econômica, a política passa a parecer mais justa do que realmente é. O neoliberalismo progressista prospera exatamente nessa discrepância entre aparência normativa e realidade material.
Empresas, universidades, mídia e a moralização do mercado
Um dos traços mais notáveis desse fenômeno é sua capacidade de capilarização institucional. O neoliberalismo progressista não se expressa apenas em governos ou partidos. Ele circula por empresas, universidades, organismos internacionais, mídia, plataformas digitais e setor cultural. Em todos esses espaços, a linguagem da diversidade, da inclusão e do empoderamento pode ser absorvida como capital reputacional.
Corporações compreenderam rapidamente a utilidade política dessa linguagem. Defender causas sociais tornou-se compatível com maximização de valor ao acionista, externalização de custos sociais e intensificação da lógica financeira. O mercado aprendeu a parecer sensível. A crítica passou a ser traduzida em branding, relatórios, governança simbólica e gestão de reputação. A empresa já não precisa negar a existência de desigualdades; basta demonstrar consciência sobre elas sem tocar em seus mecanismos de produção.
Algo semelhante ocorreu em setores universitários e midiáticos. A autoridade moral passou a ser frequentemente exercida por meio da correção discursiva, da pedagogia pública da sensibilidade e da gestão de códigos simbólicos. Tudo isso pode ter valor civilizatório real. O problema surge quando tal dinâmica substitui o conflito distributivo, como se o refinamento moral do discurso bastasse para resolver a deterioração objetiva das condições de vida. A sociedade passa a falar melhor sobre diferença, mas continua incapaz de reorganizar o trabalho, a renda e a segurança social.
Em sua forma extrema, o sistema aprende a falar a língua da crítica para neutralizar a crítica. Esse talvez seja seu gesto mais engenhoso: não reprimir frontalmente as demandas de emancipação, mas incorporá-las de forma seletiva, esvaziando sua potência transformadora.
Crise de representação e reação política
Nenhuma hegemonia é eterna. O neoliberalismo progressista começou a entrar em crise quando amplos setores sociais perceberam que a celebração pública da inclusão não era acompanhada de melhora proporcional de suas condições materiais. Fraser relaciona esse esgotamento à erosão de legitimidade do bloco político que articulava financeirização com reconhecimento liberal-progressista, abrindo espaço para respostas reativas e autoritárias (Fraser, 2017).
A consequência foi explosiva. Trabalhadores precarizados, classes médias endividadas, populações territorialmente abandonadas e setores afetados por desindustrialização e desproteção social passaram a enxergar elites progressistas como moralmente altivas, culturalmente distantes e materialmente indiferentes. Esse ressentimento foi então capturado por direitas radicais, populismos regressivos e lideranças dispostas a transformar frustração social em guerra cultural.
Eis a tragédia: a crítica à insuficiência material do neoliberalismo progressista não foi necessariamente apropriada por projetos democratizantes. Em muitos casos, foi sequestrada por forças que combinaram nacionalismo, autoritarismo, pânico moral e ataque a direitos. A conta política da separação entre reconhecimento e redistribuição não foi paga apenas pelo centro liberal; foi paga também pela própria democracia.
O neoliberalismo progressista no Brasil
No Brasil, a noção exige uso cuidadoso. O país possui uma formação social profundamente marcada por desigualdade histórica, racismo estrutural, dependência, informalidade e precariedade persistente. Isso significa que qualquer importação conceitual precisa ser ajustada à periferia. Ainda assim, o conceito ajuda a ler certos fenômenos contemporâneos.
Em ambientes urbanos, institucionais e corporativos, tornou-se relativamente comum a convivência entre discursos fortes de diversidade, inovação, empreendedorismo e inclusão com estruturas econômicas incapazes de garantir cidadania material ampla. A linguagem da oportunidade individual, da adaptabilidade e da modernização tecnológica frequentemente aparece desvinculada de reformas redistributivas robustas. Isso não invalida agendas de reconhecimento; apenas revela que elas podem ser absorvidas por dinâmicas de mercado e por uma racionalidade de gestão.
No caso brasileiro, há um agravante: a distância entre linguagem pública e infraestrutura real de cidadania é enorme. Fala-se em protagonismo sem escola adequada, em empreendedorismo sem crédito justo, em inovação sem base científica massificada, em inclusão sem universalização consistente de proteção social. O risco, portanto, é transformar a promessa de emancipação em narrativa compensatória. O país parece avançar no espelho da linguagem enquanto permanece preso às velhas engrenagens da desigualdade.
Limites do conceito e horizonte crítico
Todo conceito forte corre o risco de exagerar sua própria abrangência. O mesmo vale aqui. Nem toda pauta progressista é neoliberalizada. Nem toda luta por reconhecimento é capturada pelo mercado. Feminismos, movimentos negros, lutas LGBTQIA+, reivindicações indígenas e agendas democráticas possuem densidade histórica própria, frequentemente antissistêmica, e não podem ser reduzidas a dispositivos de legitimação do capital.
Por isso, a crítica ao neoliberalismo progressista precisa ser precisa. O alvo não são os direitos, mas sua incorporação seletiva por uma ordem econômica excludente. O ponto não é opor igualdade material a liberdade cultural, mas insistir que emancipação real exige sua articulação. Separadas, ambas adoecem: a redistribuição sem reconhecimento pode reproduzir hierarquias e silenciamentos; o reconhecimento sem redistribuição pode virar moral sem justiça.
O horizonte crítico, então, não está em abandonar as conquistas civilizatórias do pluralismo, mas em reinscrevê-las numa política socialmente substantiva. Democratizar não é apenas diversificar elites. É redistribuir poder, tempo, renda, segurança e capacidade efetiva de viver com dignidade. Sem isso, a linguagem do progresso torna-se um verniz elegante sobre a continuidade da exclusão.
Conclusão
O neoliberalismo progressista surgiu como uma solução histórica de grande eficácia simbólica. Ele prometeu conciliar abertura cultural, diversidade e modernização com a continuidade de uma economia orientada por mercado, finanças e competição. Por algum tempo, pareceu oferecer uma síntese plausível entre liberdade e eficiência. Mas sua estabilidade era ilusória. Ao deslocar a política da redistribuição para o reconhecimento, produziu uma forma refinada de legitimação da desigualdade.
Sua sofisticação residiu em não rejeitar a linguagem da emancipação, mas em administrá-la. Em vez de combater frontalmente as demandas por inclusão, absorveu-as como gramática moral compatível com a continuidade da precarização, da austeridade e da financeirização. O resultado foi uma sociedade mais sensível em suas palavras do que justa em suas estruturas.
A crítica ao neoliberalismo progressista não deve servir de munição contra direitos, pluralismo ou lutas históricas por reconhecimento. Deve servir, isto sim, para recordar uma verdade elementar: uma sociedade não se torna justa porque aperfeiçoa seu vocabulário moral, mas porque reorganiza concretamente as condições de existência. Quando o discurso da inclusão deixa intactas as engrenagens da desigualdade, o progresso vira aparência. E aparências, por mais sedutoras que sejam, não sustentam por muito tempo uma ordem social ferida em sua base.
Referências
Brown, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. São Paulo: Politeia, 2019.
Fraser, Nancy. The end of progressive neoliberalism. Dissent Magazine, New York, 2 jan. 2017. Disponível em: Dissent Magazine. Acesso em: 17 mar. 2026.
Harvey, David. Breve história do neoliberalismo. São Paulo: Loyola, 2008.
Vallier, Kevin. Neoliberalism. In: Zalta, Edward N.; Nodelman, Uri (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford: Metaphysics Research Lab, Stanford University, 2021. Disponível em: Stanford Encyclopedia of Philosophy. Acesso em: 17 mar. 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário