Resumo
Este artigo analisa a tese do capitalismo superindustrial como chave interpretativa para compreender a reconfiguração contemporânea do capitalismo em torno da articulação entre indústria, ciência, infraestrutura digital, dados, finanças programáveis e disputa geopolítica. O objetivo central consiste em examinar em que medida essa formulação contribui para interpretar a ascensão da China, o problema da soberania digital, o papel do Drex e os movimentos de reorganização da infraestrutura financeira internacional no âmbito do Sul Global. Metodologicamente, trata-se de pesquisa qualitativa, de natureza teórico-analítica, apoiada em revisão bibliográfica, documental e interpretativa, com suporte em dados institucionais e macroeconômicos recentes. A análise demonstra que a digitalização da economia não representa o fim da indústria, mas sua reorganização em uma etapa historicamente mais complexa, na qual software, semicondutores, plataformas, sistemas de pagamento e infraestrutura lógica tornam-se elementos centrais da acumulação e do poder. A China aparece como expressão histórica mais avançada desse processo, ao combinar planejamento estatal, manufatura avançada, digitalização e estratégia tecnológica. No caso brasileiro, argumenta-se que soberania digital, infraestrutura pública financeira e política industrial articulada são condições decisivas para evitar aprofundamento da dependência e construir uma inserção menos subordinada no capitalismo do século XXI.
Palavras-chave: Capitalismo superindustrial; soberania digital; China; Drex; Sul Global.
Abstract
This article examines the thesis of superindustrial capitalism as an interpretive framework for understanding the contemporary reconfiguration of capitalism through the articulation of industry, science, digital infrastructure, data, programmable finance, and geopolitical competition. Its main objective is to assess the extent to which this formulation helps explain China’s rise, the problem of digital sovereignty, the role of Drex, and the ongoing transformation of international financial infrastructure within the Global South. Methodologically, the study adopts a qualitative, theoretical-analytical approach based on bibliographical, documentary, and interpretive review, supported by recent institutional and macroeconomic data. The analysis argues that the digitalization of the economy does not signal the end of industry, but rather its reorganization into a historically more complex stage in which software, semiconductors, platforms, payment systems, and digital infrastructure become central to accumulation and power. China emerges as the most advanced historical expression of this process by combining state planning, advanced manufacturing, digitalization, and technological strategy. In the Brazilian case, the article argues that digital sovereignty, public financial infrastructure, and an articulated industrial policy are decisive conditions for avoiding deeper dependency and for building a less subordinate position within twenty-first-century capitalism.
Keywords: Superindustrial capitalism; digital sovereignty; China; Drex; Global South.
1 Introdução
Nas primeiras décadas do século XXI, o capitalismo passou a operar por meio de uma articulação cada vez mais estreita entre produção industrial, ciência aplicada, infraestrutura digital, plataformas, finanças programáveis e disputa geopolítica por padrões tecnológicos. A antiga separação analítica entre indústria, serviços e finanças tornou-se insuficiente para compreender um sistema em que o valor é produzido simultaneamente na fábrica, no laboratório, no data center, no protocolo informacional e na arquitetura de liquidação financeira. A manufatura não desapareceu; ela foi reconfigurada. O que emerge, nesse cenário, é uma forma histórica em que o comando econômico depende crescentemente da capacidade de integrar matéria, energia, software, dados, redes e inteligência computacional em cadeias de acumulação altamente coordenadas. É nesse horizonte que ganha relevo a noção de capitalismo superindustrial, mobilizada por Fernando Haddad para interpretar a mutação contemporânea do capitalismo e suas implicações para países periféricos e semiperiféricos (Haddad, 2025).
A força analítica dessa formulação reside no fato de que ela desloca o debate para além de oposições já desgastadas, como indústria versus serviços, economia material versus economia imaterial ou Estado versus mercado. O capitalismo superindustrial não designa uma etapa “pós-industrial” no sentido clássico, mas uma fase em que a própria indústria se amplia e se complexifica por meio da incorporação intensiva de conhecimento científico, automação, infraestrutura lógica, controle algorítmico e capacidade de programar fluxos econômicos. O centro dinâmico da acumulação deixa de residir apenas no objeto físico acabado e passa a incluir, de modo decisivo, o projeto, o código, a plataforma, o chip, a arquitetura de rede, a propriedade intelectual e os sistemas de coordenação digital. Em termos mais precisos, o valor econômico já não se concentra somente na produção da mercadoria, mas também no domínio dos meios cognitivos, informacionais e infraestruturais que organizam sua concepção, circulação, rastreabilidade, monetização e governança (Haddad, 2025; Zuboff, 2021).
Essa inflexão ajuda a explicar por que a competição internacional recente deixou de ser apenas comercial e passou a assumir a forma de uma disputa por semicondutores, inteligência artificial, computação em nuvem, redes 5G, baterias, infraestrutura energética, plataformas digitais, sistemas de pagamento e padrões tecnológicos. O dado decisivo do presente não é apenas que a tecnologia ganhou centralidade, mas que ela se converteu em elemento estruturante da soberania econômica. O poder, hoje, depende cada vez mais da capacidade de produzir e controlar as infraestruturas que conectam indústria, finanças e informação. Por isso, a discussão sobre desenvolvimento não pode mais limitar-se à expansão da capacidade produtiva em sentido tradicional; ela precisa incorporar o problema do domínio sobre dados, circuitos, protocolos, meios de liquidação e ecossistemas digitais. Em outras palavras, a questão da soberania nacional passa a incluir, de maneira incontornável, a soberania digital (OECD, 2026; World Bank, 2025).
Nesse ponto, a ascensão da China assume papel decisivo. Mais do que um caso nacional de crescimento acelerado, a experiência chinesa se impõe como evidência histórica de que a reorganização contemporânea do capitalismo não corresponde à simples vitória do mercado desregulado nem ao retorno mecânico do planejamento clássico. O caso chinês revela um arranjo híbrido, no qual planejamento estatal, política industrial, crédito direcionado, expansão da manufatura avançada, domínio tecnológico e digitalização em larga escala se articulam de forma estratégica. Isso torna a China um caso-chave para compreender a passagem a uma economia em que indústria pesada, alta tecnologia, coordenação estatal e sistemas digitais não são esferas separadas, mas dimensões complementares de uma mesma arquitetura de poder (National Bureau of Statistics of China, 2026; OECD, 2025b).
A centralidade da China também desafia o imaginário liberal que, por décadas, associou inovação de ponta à retração do Estado. Ao contrário, a experiência chinesa sugere que a nova etapa do capitalismo demanda instituições capazes de coordenar investimento, infraestrutura, pesquisa, financiamento e estratégia tecnológica em escala nacional. Não se trata de idealizar esse modelo, tampouco de ignorar suas contradições internas, mas de reconhecer que ele evidencia uma transformação estrutural: a competitividade contemporânea não se define apenas pela eficiência microeconômica das firmas, mas pela capacidade sistêmica de organizar ecossistemas tecnoindustriais. Para o Sul Global, essa constatação é particularmente relevante, pois expõe o risco de permanência em posições subordinadas da divisão internacional do trabalho: exportação de bens primários, importação de tecnologia de alto valor agregado e dependência crescente de plataformas, protocolos e infraestruturas controladas externamente (Mazzucato, 2014; OECD, 2025b).
É nesse contexto que o debate sobre o Brasil adquire urgência analítica e política. A trajetória recente da economia brasileira foi marcada por desindustrialização relativa, reprimarização exportadora, dependência tecnológica e forte vulnerabilidade às oscilações cambiais e financeiras internacionais. Ao mesmo tempo, o país dispõe de atributos estratégicos de grande relevância: escala territorial, matriz energética relativamente diversificada, base científica instalada, sistema financeiro sofisticado, mercado interno expressivo e posição destacada em cadeias ligadas a recursos naturais críticos e transição ecológica. O problema central reside em saber se tais atributos poderão ser convertidos em projeto de desenvolvimento soberano ou se permanecerão subsumidos a uma inserção periférica, tecnologicamente dependente e financeiramente subordinada. Em outras palavras, a questão brasileira não é apenas crescer, mas definir em que estrutura de poder esse crescimento será inscrito.
Nessa inflexão, o debate sobre o Drex e sobre novas infraestruturas de liquidação financeira ganha densidade estratégica. O Banco Central do Brasil, ao consolidar a primeira fase do Piloto Drex, explicitou que a iniciativa não se resume à criação de uma versão digital da moeda, mas à experimentação de uma infraestrutura programável voltada à tokenização de ativos, contratos inteligentes, interoperabilidade institucional e novas formas de prestação de serviços financeiros em ambiente regulado (Banco Central do Brasil, 2025). A relevância dessa iniciativa está em que ela desloca a moeda do plano estritamente transacional para o plano infraestrutural: não se trata apenas de pagar digitalmente, mas de construir condições institucionais para programar e liquidar relações econômicas complexas em ambiente digital seguro. Nesse sentido, o Drex pode ser interpretado como uma peça de uma infraestrutura pública digital mais ampla, potencialmente vinculada à soberania tecnológica, à eficiência financeira e à reconfiguração da inserção internacional do país.
A discussão se amplia ainda mais quando associada ao movimento dos BRICS e ao debate sobre a arquitetura financeira internacional. O sistema global de pagamentos e mensageria permanece fortemente concentrado, com o SWIFT ocupando papel central na comunicação entre instituições financeiras. Entretanto, a crescente busca por mecanismos complementares de liquidação, especialmente no campo das moedas digitais de bancos centrais, revela que a infraestrutura monetária também se tornou terreno de disputa geopolítica. O projeto mBridge, por exemplo, alcançou estágio de minimum viable product com o objetivo de explorar pagamentos e liquidações transfronteiriças com múltiplas CBDCs, sinalizando que a experimentação institucional nessa área deixou de ser apenas teórica e passou a integrar agendas concretas de reorganização financeira internacional (Bank for International Settlements, 2024). Para países do Sul Global, esse movimento importa porque recoloca a questão da soberania não apenas em termos cambiais, mas também em termos de acesso, controle e participação nas infraestruturas por onde circula o valor.
Diante desse quadro, a questão de pesquisa que orienta este artigo pode ser formulada nos seguintes termos: em que medida a tese do capitalismo superindustrial ajuda a compreender a reorganização contemporânea do poder econômico, tecnológico e monetário no Sul Global, especialmente a partir da ascensão da China, da emergência da soberania digital e das novas infraestruturas financeiras em debate no Brasil e no âmbito dos BRICS? A partir dessa questão, o objetivo geral consiste em analisar o alcance interpretativo da noção de capitalismo superindustrial para compreender a mutação contemporânea do capitalismo e suas implicações para a soberania digital e o desenvolvimento periférico. Como objetivos específicos, pretende-se: examinar o significado teórico do conceito de capitalismo superindustrial; analisar a China como expressão histórica de um modelo híbrido de articulação entre Estado, mercado, indústria e tecnologia; discutir o conceito de soberania digital como novo eixo da disputa pelo desenvolvimento; investigar o papel do Drex como infraestrutura financeira programável no contexto brasileiro; e refletir sobre os BRICS e a disputa por alternativas ou complementações à arquitetura financeira internacional dominante.
A hipótese central do artigo sustenta que o capitalismo contemporâneo atravessa uma reconfiguração estrutural em que indústria, ciência, infraestrutura digital e finanças programáveis se tornam dimensões interdependentes da acumulação e do poder, de modo que a soberania econômica passa a depender, cada vez mais, da capacidade de controlar não apenas meios tradicionais de produção, mas também dados, protocolos, sistemas de liquidação, capacidades computacionais e ecossistemas tecnológicos. Nessa chave, a China aparece como a expressão histórica mais avançada dessa mutação, enquanto iniciativas como o Drex e os debates travados no âmbito dos BRICS indicam que a disputa pela soberania no século XXI envolve, crescentemente, o controle das infraestruturas digitais e monetárias que organizam a circulação do valor. Para o Brasil, isso implica que desenvolvimento e autonomia não poderão ser pensados sem uma estratégia articulada de neoindustrialização, política tecnológica e soberania digital.
Além desta introdução, o artigo está estruturado em cinco movimentos principais. A próxima seção apresenta a metodologia da pesquisa e delimita seu percurso analítico. Em seguida, desenvolve-se o referencial teórico do capitalismo superindustrial, articulando a formulação de Haddad a debates mais amplos sobre digitalização, financeirização e economia política da tecnologia. Na sequência, examina-se a China como modelo híbrido e caso histórico decisivo da nova etapa do capitalismo. Depois, discutem-se a soberania digital, o Drex e a disputa pela infraestrutura financeira internacional no contexto dos BRICS e do sistema monetário contemporâneo. Por fim, a seção de discussão integra criticamente esses eixos e a conclusão sintetiza os achados centrais do estudo, indicando seus desdobramentos para o debate sobre desenvolvimento, autonomia e reposicionamento estratégico do Brasil no século XXI.
2 Metodologia
Este artigo adota uma abordagem qualitativa, de natureza teórico-analítica, fundamentada em revisão bibliográfica, documental e interpretativa, com o objetivo de examinar a tese do capitalismo superindustrial e suas implicações para a soberania digital, a reorganização da economia política contemporânea e a reconfiguração estratégica do Sul Global. A escolha por essa orientação metodológica decorre da própria natureza do problema investigado. Trata-se de um objeto que não pode ser adequadamente apreendido apenas por mensuração estatística isolada, uma vez que envolve categorias históricas, estruturas de poder, disputas geopolíticas, transformações tecnológicas e mediações institucionais que exigem leitura relacional, crítica e conceitualmente densa. Em pesquisas dessa natureza, o método qualitativo mostra-se especialmente adequado por permitir a compreensão de processos complexos, relações estruturais e sentidos históricos que extrapolam a observação imediata dos fenômenos (Minayo, 2014; Severino, 2017).
Do ponto de vista de sua configuração epistemológica, a pesquisa é também teórico-analítica, porque se volta à interpretação de categorias, conceitos, estratégias institucionais e tendências históricas do capitalismo contemporâneo, sem se restringir à descrição empírica de eventos isolados. Seu núcleo está na construção de uma leitura articulada entre economia política, teoria do desenvolvimento, geopolítica e crítica da tecnologia. Essa opção parte do entendimento de que fenômenos como digitalização da economia, financeirização, ascensão chinesa, soberania digital e transformação das infraestruturas monetárias não podem ser tratados como variáveis independentes ou compartimentos analíticos estanques. Ao contrário, exigem uma perspectiva capaz de relacionar Estado, mercado, técnica, território, poder monetário e divisão internacional do trabalho em uma mesma moldura interpretativa.
O percurso investigativo foi estruturado a partir de quatro conjuntos principais de fontes. O primeiro conjunto é composto por obras de Fernando Haddad relacionadas ao eixo temático do artigo, tomadas não como objeto de exegese isolada, mas como base para reconstruir a noção de capitalismo superindustrial e situá-la no interior de um debate mais amplo sobre transformação produtiva, tecnologia, dependência e soberania. O segundo conjunto reúne bibliografia crítica nacional e internacional sobre capitalismo contemporâneo, economia digital, soberania tecnológica, capitalismo de vigilância, financeirização, política industrial, infraestrutura e geopolítica. Nesse eixo, foram privilegiados autores e obras capazes de oferecer densidade conceitual à discussão, bem como interpretações estruturais sobre a mutação recente do capitalismo, a centralidade das infraestruturas digitais e a reorganização das hierarquias globais.
O terceiro conjunto é formado por documentos institucionais e técnicos, especialmente aqueles produzidos por organismos públicos, bancos centrais, instituições multilaterais e entidades com reconhecida relevância normativa ou analítica no campo investigado. Inserem-se aqui documentos relativos ao Drex, ao Banco Central do Brasil, a iniciativas ligadas aos BRICS, à arquitetura do SWIFT, ao projeto mBridge, bem como relatórios sobre economia digital, sistemas de pagamento, inovação tecnológica, transformação produtiva e reconfiguração monetária internacional. O uso desse material documental não tem função meramente ilustrativa. Ele permite apreender como determinados conceitos e projetos são formulados institucionalmente, quais são seus limites normativos e operacionais, e de que modo passam a integrar estratégias mais amplas de reorganização do poder econômico e tecnológico. A pesquisa documental, nesse sentido, mostra-se apropriada quando o investigador busca compreender fenômenos por meio de registros oficiais, normas, relatórios, diretrizes e materiais institucionais que expressam decisões, orientações e racionalidades históricas concretas (Cellard, 2008; Gil, 2022).
O quarto conjunto mobilizado corresponde a dados macroeconômicos e institucionais recentes, utilizados como suporte contextual e como elemento de ancoragem empírica da interpretação. Esses dados não constituem, aqui, um corpus para modelagem quantitativa ou teste estatístico de hipóteses, mas funcionam como base de contextualização histórica e estrutural. Sua função é sustentar a análise de tendências, ilustrar assimetrias, situar a trajetória de economias específicas e oferecer lastro empírico à discussão sobre transformação tecnológica, organização produtiva, arquitetura monetária e reposicionamento estratégico do Sul Global. Em termos metodológicos, trata-se de uso contextual de dados secundários, articulado à interpretação teórica e institucional do problema.
A escolha por uma análise crítica e interpretativa foi motivada pelo entendimento de que o objeto investigado exige mais do que compilação descritiva de fontes. A tese do capitalismo superindustrial, quando tomada em diálogo com a ascensão da China, com o debate sobre soberania digital e com a emergência de novas infraestruturas financeiras, demanda uma leitura que conecte níveis distintos de realidade: o plano conceitual, o plano institucional, o plano geopolítico e o plano histórico-estrutural. A análise crítica, nesse contexto, permite interrogar não apenas o conteúdo manifesto das fontes, mas também seus pressupostos, suas implicações e sua inserção em relações mais amplas de poder. Já a análise interpretativa possibilita construir nexos entre fenômenos que, embora frequentemente examinados de modo fragmentado, integram uma mesma reconfiguração do capitalismo contemporâneo. A articulação entre esses procedimentos é coerente com investigações em economia política e ciências sociais aplicadas que buscam apreender processos históricos em sua multidimensionalidade, evitando tanto o impressionismo ensaístico quanto o reducionismo tecnicista (Kosik, 1976; Harvey, 2018).
A seleção das fontes observou quatro critérios centrais. O primeiro foi a relevância teórica, isto é, a capacidade da obra ou documento de contribuir diretamente para a compreensão dos eixos estruturantes do artigo: capitalismo superindustrial, reconfiguração produtiva, soberania digital, transformação monetária e geopolítica tecnológica. O segundo critério foi a consistência institucional e analítica, com preferência por documentos oficiais, relatórios de organismos reconhecidos, publicações de autores consolidados e materiais capazes de sustentar argumentação acadêmica robusta. O terceiro critério foi a atualidade, especialmente importante nos temas vinculados a tecnologia digital, CBDCs, infraestrutura de pagamentos, política industrial contemporânea e dinâmica geoeconômica recente. O quarto critério foi a capacidade de articulação interdisciplinar, uma vez que o objeto estudado não se deixa reduzir nem à economia, nem ao direito monetário, nem à ciência política, nem à sociologia da tecnologia, exigindo o diálogo entre esses campos.
Cumpre esclarecer que o artigo não realiza experimento empírico, levantamento de campo, survey, entrevistas ou modelagem econométrica. Também não se propõe a estimar causalidades quantitativas entre variáveis macroeconômicas ou tecnológicas. Seu propósito é distinto: trata-se de oferecer uma interpretação estruturada, crítica e fundamentada de um problema histórico em curso, a partir da combinação entre categorias analíticas, bibliografia especializada, documentação institucional e dados contextuais. Essa delimitação é importante porque evita atribuir ao texto uma pretensão metodológica que ele não assume. O objetivo não é produzir inferência estatística, mas construir inteligibilidade sobre uma transformação histórica complexa, articulando teoria e materialidade institucional.
Essa opção metodológica não implica fragilidade; ao contrário, responde à especificidade do objeto. Questões como soberania digital, domínio sobre infraestruturas de liquidação, papel geopolítico dos BRICS ou natureza híbrida do desenvolvimento chinês não se esgotam em séries numéricas, ainda que estas possam auxiliar na contextualização. O desafio central está em interpretar a forma pela qual esses processos se conectam, redefinindo padrões de dependência, novas possibilidades de autonomia e os contornos contemporâneos do desenvolvimento periférico. Nessa perspectiva, a metodologia adotada busca oferecer coerência analítica, densidade conceitual e rigor na mediação entre teoria e realidade histórica.
A pesquisa reconhece, todavia, limites importantes. O primeiro deles decorre do caráter dinâmico e inacabado dos processos tecnológicos e monetários em curso. Iniciativas como o Drex, projetos de interoperabilidade com moedas digitais de bancos centrais, transformações na arquitetura financeira internacional e estratégias de soberania digital ainda estão em desenvolvimento, sujeitos a mudanças regulatórias, técnicas e geopolíticas. Isso significa que qualquer interpretação produzida neste momento deve ser compreendida como analiticamente situada, e não como formulação definitiva sobre tendências ainda em consolidação. O segundo limite reside na própria heterogeneidade das fontes disponíveis: enquanto certos temas contam com ampla produção acadêmica consolidada, outros dependem mais fortemente de documentos institucionais, relatórios técnicos e materiais de divulgação estratégica, o que exige cautela hermenêutica na leitura e na generalização dos achados. O terceiro limite está no fato de que o artigo privilegia uma abordagem estrutural e interpretativa, não se dedicando ao exame minucioso de estudos de caso setoriais específicos, o que poderá ser desenvolvido em pesquisas posteriores.
Para dar unidade ao argumento, a interpretação foi organizada em seis eixos interdependentes. O primeiro eixo examina o capitalismo superindustrial como categoria analítica para compreender a integração entre indústria, ciência, software, finanças programáveis e infraestrutura digital. O segundo aborda o modelo chinês como expressão histórica de uma forma híbrida de articulação entre mercado, Estado, política industrial e domínio tecnológico. O terceiro desenvolve o conceito de soberania digital, entendido como capacidade de controlar dados, protocolos, conectividade, infraestrutura computacional e sistemas estratégicos. O quarto eixo analisa o Drex como componente de uma infraestrutura financeira programável em construção no Brasil. O quinto discute os BRICS, o SWIFT e os ensaios de reconfiguração da arquitetura financeira internacional. O sexto, por fim, articula esses elementos na chave da reconfiguração do Sul Global, buscando compreender em que medida as novas disputas por tecnologia, moeda e infraestrutura alteram as possibilidades de desenvolvimento, autonomia e reposicionamento estratégico de economias periféricas e semiperiféricas.
Em síntese, a metodologia adotada procura ser coerente com a complexidade do objeto investigado. Ao combinar revisão bibliográfica, pesquisa documental, dados contextuais e análise crítica interpretativa, o artigo busca construir uma leitura rigorosa da transformação contemporânea do capitalismo, evitando tanto a abstração desvinculada da realidade institucional quanto o empirismo fragmentado incapaz de apreender as mediações estruturais do problema. Trata-se, portanto, de um caminho metodológico orientado não pela quantificação do fenômeno em sentido estreito, mas pela produção de inteligibilidade histórica sobre as novas formas de articulação entre tecnologia, poder, soberania e desenvolvimento.
3 Referencial teórico: capitalismo superindustrial
A noção de capitalismo superindustrial parte de uma recusa conceitual decisiva: a ideia de que a digitalização da economia teria conduzido o mundo a uma era “pós-industrial”. Na formulação associada a Fernando Haddad, o que ocorre não é o desaparecimento da indústria, mas sua reorganização em patamar superior de complexidade, no qual ciência, conhecimento, software, dados, logística inteligente, automação, propriedade intelectual e finanças programáveis passam a integrar o próprio núcleo do processo de acumulação (Haddad, 2025). Em termos teóricos, isso significa que o capitalismo contemporâneo não deve ser descrito apenas como economia de serviços, economia de plataformas ou simples financeirização. Essas dimensões existem, mas são insuficientes se tomadas isoladamente. O adjetivo superindustrial é relevante justamente porque conserva a centralidade da produção material ao mesmo tempo que a reinscreve em uma arquitetura ampliada de poder.
A mercadoria continua existindo, mas seu valor depende cada vez mais de cadeias cognitivas e infraestruturais que antecedem e excedem sua materialidade imediata. Um automóvel elétrico, por exemplo, já não é apenas um bem manufaturado: ele incorpora semicondutores, software embarcado, sistemas de coleta de dados, plataformas de atualização remota, redes elétricas inteligentes e cadeias globais de propriedade intelectual. O mesmo vale para equipamentos médicos, drones, satélites, fertilizantes de precisão, robótica industrial e sistemas logísticos. Em todos esses casos, a indústria permanece central, porém atravessada por camadas lógicas e informacionais sem as quais a própria produção se torna inviável. A leitura de Haddad, portanto, conserva a indústria, mas a desloca de sua forma clássica para uma configuração mais ampla, cognitivamente intensiva e digitalmente coordenada (Haddad, 2025; Miller, 2023).
A força dessa categoria está em recuperar, sob chave atualizada, uma intuição clássica da economia política: o capitalismo não se define apenas por trocar mercadorias, mas por reorganizar continuamente os meios de produção, os mecanismos de controle e as formas de extração de valor. O que muda, agora, é a qualidade histórica dos meios incorporados ao processo produtivo. Se a grande indústria do século XIX foi inseparável da máquina, da fábrica e da disciplina do trabalho, o capitalismo superindustrial é inseparável do domínio sobre infraestruturas digitais, do controle de cadeias informacionais e da capacidade de programar a coordenação econômica em tempo real. A fábrica não desaparece; ela é conectada. O mercado não desaparece; ele é sensorizado, previsto e administrado por arquiteturas computacionais. A circulação não desaparece; ela se torna rastreável, automatizada e monetizável por protocolos. O capital, portanto, amplia sua base técnica sem renunciar à sua lógica de concentração e desigualdade. A novidade não é o fim da exploração, mas sua sofisticação.
Sob essa perspectiva, a digitalização deve ser compreendida como momento interno da reorganização industrial, e não como sua negação. Esse ponto exige cuidado analítico, porque grande parte do discurso econômico das últimas décadas difundiu a ideia de que a “nova economia” estaria fundada na desmaterialização da produção. No entanto, a economia digital depende de data centers, cabos submarinos, infraestrutura elétrica, mineração de minerais críticos, semicondutores, sistemas de resfriamento, redes logísticas e bases manufatureiras altamente complexas. Miller (2023) mostra, em sua análise sobre a indústria de chips, que os semicondutores se tornaram a tecnologia crítica do sistema mundial precisamente porque organizam desde armamentos e telecomunicações até automóveis, computação em nuvem e inteligência artificial. Isso revela que o “imaterial” da economia digital repousa sobre uma materialidade altamente densa e geopoliticamente disputada. A nuvem, nesse sentido, não substitui a indústria; ela a pressupõe.
A categoria de capitalismo superindustrial também dialoga diretamente com o debate sobre economia do conhecimento. Contudo, ao contrário de abordagens celebratórias, ela não trata conhecimento, inovação ou criatividade como bens neutros ou espontaneamente democratizantes. O conhecimento aparece aqui como força produtiva mercantilizada. Isso significa que ciência, pesquisa, design, software, engenharia e dados deixam de ser simples apoios externos ao processo econômico e passam a constituir ativos centrais da acumulação. Nessa inflexão, o valor não se desloca integralmente do mundo físico para o mundo abstrato, mas passa a depender mais intensamente de quem controla o projeto, a patente, o protocolo, o algoritmo, a arquitetura de rede e a camada de coordenação informacional do sistema. A mercadoria física continua sendo produzida, mas parcela crescente do excedente é apropriada por quem detém os meios cognitivos e infraestruturais de sua concepção e governança. É nesse sentido que a tese de Haddad pode ser lida como crítica à ilusão de que a economia do conhecimento representaria superação da lógica capitalista. Ao contrário, ela expressa sua capacidade de absorver o conhecimento como mercadoria, como ativo estratégico e como mecanismo de comando.
Essa interpretação encontra ponto de contato importante com Mazzucato (2014). Em O Estado empreendedor, a autora sustenta que a inovação de ponta não nasce apenas do risco privado, mas de ecossistemas historicamente estruturados por investimento público, burocracias capacitadas e missões estatais de longo prazo. Seu argumento é decisivo para o referencial aqui desenvolvido porque desmonta a fantasia liberal segundo a qual o setor privado inovaria sozinho, enquanto o Estado apenas corrigiria falhas de mercado. Ao mostrar que internet, GPS, microeletrônica e inúmeros avanços tecnológicos dependeram de ação estatal empreendedora, Mazzucato fornece base para compreender que o capitalismo superindustrial é inseparável de infraestruturas públicas de conhecimento, financiamento e coordenação. Em outras palavras, o mercado digital não flutua no vazio; ele repousa sobre capacidades estatais e coletivas frequentemente apagadas pelo discurso privatista.
Ao mesmo tempo, a contribuição de Mazzucato precisa ser tensionada a partir da economia política crítica. Reconhecer o papel empreendedor do Estado não basta; é necessário perguntar quem apropria os frutos da inovação. No capitalismo superindustrial, o risco tende a ser socializado, enquanto a apropriação dos ganhos permanece fortemente privatizada. Esse descompasso ajuda a explicar por que a revolução tecnológica pode conviver com concentração patrimonial, oligopolização de mercados e aprofundamento das assimetrias globais. O Estado financia infraestrutura, ciência e ambiente regulatório; grandes corporações capturam renda de rede, propriedade intelectual e controle de plataforma. A análise de Haddad ganha densidade exatamente quando lida nesse cruzamento: o conhecimento se torna central, mas sua centralidade não dissolve relações de classe nem hierarquias interestatais; antes, reorganiza-as em patamar mais complexo.
É nesse ponto que o diálogo com Zuboff (2021) se torna especialmente fecundo. Em sua formulação do capitalismo de vigilância, a autora descreve uma mutação em que dados comportamentais são extraídos, tratados e convertidos em insumo para previsão e modulação de condutas. Seu argumento enfatiza que o poder contemporâneo não se limita à venda de mercadorias, mas inclui a apropriação de experiências humanas como matéria-prima para mercados de previsão. Embora Haddad trabalhe noutra chave, há convergência importante: ambos reconhecem que o capitalismo contemporâneo avança sobre a informação, transforma-a em ativo estratégico e reorganiza a acumulação a partir do controle de infraestruturas digitais. A diferença decisiva está no recorte analítico. Zuboff enfatiza sobretudo a dimensão comportamental e societária da extração de dados; a noção de capitalismo superindustrial permite reinscrever esse processo no interior de uma transformação mais ampla da própria produção, da logística, das finanças e da geopolítica industrial.
Isso ajuda a compreender por que o valor econômico se desloca, ao menos parcialmente, do objeto físico para o projeto, o protocolo, o algoritmo e o controle da informação. A forma mercadoria permanece, mas a captura do excedente passa cada vez mais por ativos intangíveis protegidos juridicamente e operacionalizados tecnicamente. Não se trata de afirmar que a materialidade perdeu relevância, mas de reconhecer que a hierarquia do valor mudou. Quem fabrica um equipamento sem dominar seu software crítico, sua arquitetura de semicondutores, seu padrão de interoperabilidade e seus sistemas de atualização ocupa posição subordinada na cadeia. Quem exporta matéria-prima sem controlar os meios técnicos de processamento, certificação e integração digital captura parcela menor do valor total. Quem provê trabalho e território sem dominar os protocolos de circulação, pagamento e dados permanece dependente. O capitalismo superindustrial, portanto, introduz uma mutação na geografia do valor: ela se concentra em pontos de comando cognitivo, infraestrutural e financeiro, mesmo quando a produção física se distribui globalmente.
Essa transformação tem implicações diretas para a dependência tecnológica e para a nova divisão internacional do trabalho. O padrão clássico da dependência opunha, em linhas gerais, centro industrial e periferia primário-exportadora. Esse esquema continua útil, mas já não basta. Hoje, a dependência não se exprime apenas na incapacidade de manufaturar bens complexos, e sim na dificuldade de controlar software, chips, redes, nuvem, sistemas operacionais, plataformas, protocolos financeiros e infraestrutura de dados. Uma economia pode até exportar muito, industrializar parcialmente certos setores e ainda assim permanecer subordinada se não dominar os pontos de maior densidade tecnológica e informacional da cadeia. A periferia contemporânea corre o risco de deixar de ser apenas fornecedora de commodities para se tornar também consumidora estrutural de protocolos, licenças, serviços em nuvem, arquiteturas de pagamento e inteligência computacional produzidos alhures. Nessa configuração, a dependência assume forma mais difusa, porém talvez mais profunda, pois se instala dentro da própria infraestrutura que organiza a produção, a circulação e a decisão econômica.
Essa leitura aproxima a tese de Haddad dos debates sobre reindustrialização tecnológica. Em vez de aceitar a desindustrialização como etapa inevitável do progresso, o capitalismo superindustrial recoloca a indústria no centro, mas sob outra chave: não basta recuperar capacidade fabril em termos quantitativos; é preciso disputar os elos de maior intensidade tecnológica e cognitiva. Isso envolve semicondutores, infraestrutura digital, energia, ciência aplicada, sistemas de pagamento, computação de alto desempenho, inteligência artificial e cadeias de valor verdes. O desafio, portanto, não é simplesmente “ter indústria”, mas ter indústria articulada a conhecimento, Estado, financiamento, dados e soberania infraestrutural. A crítica ao pós-industrialismo se converte, assim, em crítica à aceitação passiva de uma inserção periférica baseada em montagem, extração primária ou consumo dependente de tecnologia externa.
Nesse debate, a infraestrutura digital assume estatuto central. Cabos, satélites, chips, nuvem, data centers, sistemas de autenticação, meios de pagamento, padrões de interoperabilidade e plataformas deixam de ser meros suportes técnicos para aparecer como meios estratégicos de organização do poder econômico. A digitalização da economia não se resume à informatização de rotinas; ela institui uma camada infraestrutural que mede, coordena, autentica, acelera e condiciona a circulação do valor. Isso vale para cadeias industriais, comércio eletrônico, serviços públicos, mercados financeiros e sistemas monetários. Por isso, a categoria de capitalismo superindustrial não é apenas produtiva; ela é também infraestrutural. O que está em disputa não é apenas quem fabrica, mas quem define a arquitetura através da qual fabricar, conectar, certificar, financiar e liquidar se tornam possíveis.
A dimensão financeira desse processo não pode ser negligenciada. A financeirização continua sendo traço constitutivo do capitalismo contemporâneo, mas sua forma atual se torna cada vez mais inseparável da digitalização. Finanças programáveis, tokenização, contratos inteligentes, plataformas de pagamento e extração algorítmica de valor ampliam a capacidade de coordenação e monetização do capital. A noção de capitalismo superindustrial é útil justamente porque impede que se trate finança e produção como esferas apartadas. No novo regime, a produção é financeirizada e a finança é infraestruturalmente digital. A valorização passa a ocorrer tanto na circulação quanto no controle das condições técnicas que tornam a circulação automatizável, rastreável e escalável.
Do ponto de vista filosófico e político, isso recoloca a questão da técnica. A técnica não aparece aqui como instrumento neutro nem como fatalidade autônoma. Ela é mediação social e histórica. Sua forma concreta depende de relações de poder, de instituições, de escolhas regulatórias e de estratégias nacionais. O capitalismo superindustrial não deve ser lido como determinismo tecnológico, mas como configuração histórica em que o capital incorpora novas camadas técnicas para aprofundar sua capacidade de coordenação, previsão e apropriação. Isso impede tanto o tecnofetichismo quanto a nostalgia. A questão central não é celebrar ou demonizar a tecnologia em abstrato, mas compreender quem a controla, para que fins, sob quais instituições e com quais efeitos distributivos e geopolíticos.
Em síntese, o conceito de capitalismo superindustrial permite compreender o presente como uma etapa em que o capitalismo rearticula sua base industrial a partir de ciência, software, dados, automação, plataformas, semicondutores, infraestrutura digital e finanças programáveis. Nessa etapa, o valor econômico se desloca parcialmente da mercadoria física para a arquitetura cognitiva e infraestrutural que a torna possível; a dependência tecnológica torna-se mais profunda e capilar; e a nova divisão internacional do trabalho passa a ser organizada não apenas pela capacidade de produzir bens, mas pela capacidade de controlar protocolos, padrões, dados e meios de coordenação sistêmica. Em diálogo crítico com Mazzucato, Zuboff e Miller, a tese de Haddad oferece, assim, uma chave relevante para ler a mutação contemporânea do capitalismo: não como abandono da indústria, mas como sua superação dialética em uma forma historicamente mais ampla, mais concentradora e mais geopoliticamente disputada.
4 A China como modelo híbrido no capitalismo superindustrial
A ascensão da China constitui, no debate contemporâneo, um dos testes históricos mais importantes para a compreensão do capitalismo superindustrial. Isso ocorre porque a experiência chinesa tensiona simultaneamente dois lugares-comuns do pensamento econômico recente: de um lado, a ideia de que a modernização capitalista tenderia necessariamente à desindustrialização; de outro, a crença de que inovação tecnológica de ponta depende, em essência, de Estado mínimo e de alocação espontânea pelo mercado. O caso chinês mostra exatamente o contrário: a combinação entre escala manufatureira, coordenação estatal, infraestrutura digital, financiamento direcionado e estratégia tecnológica nacional pode produzir um arranjo de enorme capacidade competitiva, ainda que permeado por contradições e tensões (National Bureau of Statistics of China, 2026; Reuters, 2026).
Chamar a China de modelo híbrido não significa apenas reconhecer a coexistência entre mercado e Estado. Significa, em sentido mais forte, compreender que sua dinâmica de desenvolvimento resulta da articulação estratégica entre mecanismos concorrenciais, planejamento de longo prazo, instrumentos financeiros públicos, política industrial, controle ou direcionamento de dados em setores-chave e formação de ecossistemas tecnológicos nacionais. Nesse arranjo, o mercado não é abolido, mas tampouco é tratado como instância soberana e autoorganizadora. Ele é calibrado, induzido e, quando necessário, subordinado a metas nacionais de upgrading produtivo, segurança tecnológica e posicionamento geoeconômico. Essa característica aproxima a experiência chinesa daquilo que o conceito de capitalismo superindustrial procura nomear: uma etapa em que a superioridade econômica não decorre apenas da posse de fábricas, mas da capacidade de coordenar, em escala sistêmica, indústria, ciência, software, crédito, logística e infraestrutura digital (OECD, 2025b).
Do ponto de vista teórico, a China desafia o dualismo simplificador que opõe liberalismo econômico a planificação rígida. Seu percurso histórico recente indica outra possibilidade: a constituição de uma economia politicamente dirigida, tecnologicamente ambiciosa e mercantilmente competitiva. Essa configuração não elimina as categorias do capitalismo; ao contrário, as reinscreve em uma estrutura em que o Estado atua como arquitetura de coordenação, e não apenas como regulador corretivo. A força do caso chinês está em demonstrar que, no capitalismo superindustrial, a disputa principal não se trava apenas no nível da firma individual, mas no plano dos ecossistemas tecnoindustriais nacionais. É nesse terreno que se definem acesso a semicondutores, poder computacional, cadeias de suprimento, padrões técnicos, finanças para inovação e capacidade de absorção tecnológica. A experiência chinesa sugere, portanto, que a concorrência contemporânea deixou de ser estritamente microeconômica e passou a ser também infraestrutural, institucional e geopolítica.
Essa leitura ajuda a compreender por que a China permaneceu fortemente industrial justamente no período em que grande parte do Ocidente naturalizou a ideia de “economia pós-industrial”. A produção industrial, a manufatura de equipamentos eletrônicos, o comércio eletrônico e a indústria de software avançam de forma articulada, não competitiva. A China não substituiu a indústria pelo digital; ela integrou o digital à indústria, convertendo a conectividade, os dados e o software em extensões do poder produtivo (National Bureau of Statistics of China, 2026). É precisamente nesse ponto que a China se torna exemplar para a tese do capitalismo superindustrial. A digitalização, aqui, não aparece como esfera separada da produção, mas como seu novo princípio organizador. A fábrica torna-se sensorizada, conectada, automatizada e financeiramente articulada; a logística é monitorada em tempo real; a inovação deixa de ser episódica e passa a integrar estratégias industriais permanentes; o comércio eletrônico conecta produção, distribuição, pagamento e comportamento do consumidor em plataformas de escala continental.
Outro aspecto decisivo do modelo híbrido chinês é o papel do crédito direcionado e da política financeira como instrumentos de transformação estrutural. O deslocamento deliberado do financiamento para setores de tecnologia, inteligência artificial, semicondutores e manufatura avançada mostra que o Estado chinês não opera apenas por regulação ou planejamento indicativo; ele reorganiza a própria alocação de capital, deslocando recursos de setores considerados esgotados para segmentos tidos como decisivos para a soberania tecnológica (Reuters, 2026). Esse ponto é teoricamente central porque confronta a narrativa segundo a qual o mercado, por si só, alocaria de forma ótima os recursos necessários à inovação de fronteira. O caso chinês sugere o contrário: em contextos de alta incerteza tecnológica, competição geopolítica e necessidade de construir capacidades nacionais, o capital privado tende a ser insuficiente, tardio ou excessivamente avesso ao risco.
A hibridização chinesa também se manifesta no campo dos dados e da infraestrutura digital. A China trata infraestrutura digital, conectividade, plataformas e informação como ativos de segurança e desenvolvimento nacional, e não simplesmente como bens privados indiferentes à soberania. Isso ajuda a explicar por que o país conseguiu transformar digitalização em vetor de escala econômica, em vez de deixar que ela produzisse apenas dependência de plataformas externas. No capitalismo superindustrial, o controle da camada digital da economia é tão importante quanto o controle das usinas, dos portos ou das siderúrgicas foi em etapas anteriores. A vantagem chinesa está em ter compreendido, relativamente cedo, que nuvem, IA, comércio eletrônico, telecomunicações e dados não são “serviços modernos” acessórios, mas componentes centrais da soberania produtiva.
Todavia, qualquer leitura séria da China precisa evitar idealização. O modelo híbrido não é sinônimo de ausência de contradições. O próprio Banco Mundial, em seu China Economic Update, e a OECD apontam a persistência de fragilidades como fraqueza da demanda doméstica, dificuldades ligadas ao setor imobiliário, necessidade de equilibrar suporte ao crescimento com riscos financeiros e tensões externas crescentes (World Bank, 2025; OECD, 2025b). Essas fragilidades importam porque revelam que o modelo chinês não é um arranjo harmônico, mas uma síntese contraditória. Seu sucesso industrial e tecnológico convive com problemas de reequilíbrio macroeconômico, desafios demográficos, tensões comerciais e necessidade de reconfigurar a relação entre investimento, consumo interno e produtividade.
Para o Sul Global, a principal lição da China não é a possibilidade de copiar um modelo institucional específico, mas a evidência de que o desenvolvimento contemporâneo exige domínio de ecossistemas produtivos e digitais, e não mera inserção passiva nas cadeias internacionais. O caso chinês mostra que a ascensão em um capitalismo superindustrial depende de coordenação entre indústria, infraestrutura, ciência, finanças e política tecnológica. Países que permanecem restritos à exportação de bens primários ou à montagem de baixo valor agregado tendem a ocupar posições subordinadas justamente porque não controlam os pontos de comando informacional, financeiro e tecnológico da cadeia. A nova divisão internacional do trabalho não separa apenas produtores industriais de exportadores de commodities; ela separa, crescentemente, economias que controlam chips, protocolos, dados, plataformas e crédito estratégico daquelas que consomem tais infraestruturas de maneira dependente.
No caso brasileiro, essa constatação é particularmente incisiva. A comparação com a China evidencia o custo histórico de uma trajetória marcada por desindustrialização relativa, vulnerabilidade cambial, baixa densidade tecnológica em segmentos críticos e dependência de cadeias externas para insumos estratégicos. Enquanto a China aprofundou a integração entre manufatura avançada, software, crédito e política industrial, o Brasil oscilou entre reprimarização, financeirização defensiva e políticas descontínuas de desenvolvimento produtivo. A relevância teórica do modelo híbrido chinês, portanto, não está em oferecer um roteiro pronto, mas em expor que a neutralidade estatal é uma ficção cara às periferias: quem não organiza sua infraestrutura produtiva e digital tende a ser organizado por infraestruturas alheias.
Em síntese, a China é central para compreender o capitalismo superindustrial porque demonstra que a etapa atual do capitalismo não dissolve a indústria, mas a reconstrói em torno de ciência, dados, software, automação, crédito orientado e infraestrutura digital. Seu modelo híbrido combina mercado e direção estatal, competição global e planejamento estratégico, manufatura pesada e serviços digitais de alta escala. Ao mesmo tempo, suas contradições lembram que essa forma histórica é instável, desigual e atravessada por pressões macroeconômicas e geopolíticas. Ainda assim, a principal conclusão permanece: no século XXI, soberania produtiva e soberania digital tornaram-se inseparáveis. E é precisamente por isso que a experiência chinesa interessa tanto ao debate sobre desenvolvimento periférico: ela torna visível que o poder contemporâneo não se mede apenas por PIB ou comércio, mas pela capacidade de organizar, em escala nacional, a infraestrutura material e lógica da economia.
5 Soberania digital como novo eixo do desenvolvimento
A noção de soberania digital tornou-se incontornável porque a estrutura do poder econômico contemporâneo passou a depender, de modo crescente, do controle sobre infraestruturas técnicas, fluxos de dados, capacidades computacionais, sistemas de pagamento, protocolos de interoperabilidade e cadeias estratégicas de semicondutores. Em termos analíticos, isso significa que a soberania já não pode ser compreendida apenas como atributo territorial, jurídico ou militar. Ela passa a envolver a capacidade de uma sociedade organizar, em bases próprias ou sob governança efetiva, os meios digitais pelos quais circulam informação, valor, coordenação produtiva e decisão econômica. Relatórios recentes da OECD e do World Bank convergem nessa direção ao enfatizar que economias digitais e ecossistemas de IA dependem de pilares interligados como conectividade, dados, computação, nuvem, chips, centros de dados e competências tecnológicas, isto é, de uma infraestrutura sistêmica cuja distribuição é profundamente desigual no mundo contemporâneo (OECD, 2026; World Bank, 2025).
Essa inflexão é decisiva para o argumento deste artigo porque o capitalismo superindustrial desloca o eixo do desenvolvimento para além da posse de ativos físicos tradicionais. A capacidade de produzir aço, energia, alimentos ou automóveis continua relevante, mas já não basta para definir posição estratégica no sistema mundial. O poder econômico passa a depender também de quem controla a camada lógica da produção: software, nuvem, semicondutores, redes, autenticação, logística de dados, pagamento digital e inteligência computacional. Em outras palavras, a base material da economia permanece, porém sua eficiência, sua rentabilidade e sua autonomia tornam-se progressivamente condicionadas por infraestruturas digitais que medem, coordenam, certificam e monetizam a atividade produtiva. É por isso que soberania digital não é um tema setorial de telecomunicações ou tecnologia da informação; ela é uma categoria central da economia política do século XXI.
Do ponto de vista conceitual, soberania digital pode ser entendida, em sentido amplo, como a capacidade estatal e social de definir, governar e proteger os meios técnicos essenciais à produção, circulação, armazenamento, processamento e uso estratégico de dados, serviços digitais e infraestruturas computacionais. Essa definição abrange, no mínimo, seis dimensões interdependentes: a governança dos dados; a capacidade de conectividade e comunicação; o acesso a computação e nuvem; a presença em segmentos críticos da cadeia de semicondutores; o controle ou regulação robusta de plataformas e sistemas de pagamento; e a formação de competências técnicas e institucionais capazes de sustentar tais estruturas. O próprio World Bank, ao tratar das bases da adoção de IA nos países em desenvolvimento, sintetiza esse desafio por meio dos “quatro Cs” — conectividade, compute, contexto e competência —, deixando claro que o desenvolvimento digital depende não apenas de uso de tecnologia, mas de infraestrutura, dados e capacitação em escala sistêmica (World Bank, 2025).
Essa definição exige uma distinção importante. Soberania digital não equivale a autarquia tecnológica absoluta, nem pressupõe isolamento nacional completo diante das redes globais. Em um sistema internacional profundamente interdependente, nenhuma economia de grande porte — e menos ainda as economias periféricas — controla integralmente todas as camadas do ecossistema digital. O conceito diz respeito, antes, à capacidade de evitar dependência estrutural em pontos sensíveis, de construir graus relevantes de autonomia estratégica e de exercer poder regulatório e produtivo sobre infraestruturas críticas. Em termos mais concretos, trata-se de saber se um país pode formular regras sobre o uso dos dados que sua economia produz, se possui capacidade nacional ou regional de processamento e armazenamento, se participa dos segmentos de maior densidade tecnológica das cadeias digitais, e se consegue reduzir vulnerabilidades diante de oligopólios privados ou pressões geopolíticas externas. Essa é a dimensão prática da soberania digital no capitalismo superindustrial.
Nesse contexto, a digitalização desloca o problema clássico da dependência para um nível mais profundo. A periferia já não enfrenta apenas a velha subordinação baseada na exportação de bens primários e na importação de manufaturas complexas. Ela enfrenta também uma dependência infraestrutural e protocolar, na qual plataformas estrangeiras, serviços em nuvem, padrões técnicos, chips, meios de autenticação, sistemas operacionais e arquiteturas de pagamento condicionam o funcionamento interno de sua economia. A UNCTAD observa que a economia digital cresce rapidamente, mas permanece altamente concentrada em poucos países e empresas, deixando muitos países em desenvolvimento em posição subordinada, frequentemente reduzidos à condição de fornecedores de dados ou de consumidores de serviços digitais de alto valor agregado (UNCTAD, 2025a; UNCTAD, 2025b).
Essa nova dependência se agrava porque as infraestruturas digitais são cumulativas. Quem domina centros de dados, chips avançados, nuvem, plataformas, sistemas de pagamento e inteligência artificial tende a capturar mais dados, mais escala, mais aprendizado e mais capacidade de financiar inovações adicionais. O resultado é um circuito de reforço assimétrico: países e corporações que já ocupam posições centrais consolidam vantagens, enquanto economias periféricas enfrentam custos elevados de entrada, restrições de financiamento, déficit de infraestrutura energética e digital, além de dependência regulatória e tecnológica. O World Bank sublinha esse ponto ao registrar que, fora alguns casos excepcionais como a própria China, a maior parte dos países de baixa e média renda permanece amplamente excluída da capacidade global de computação avançada e de data centers. Sem essa base, a adoção soberana de IA e de serviços digitais complexos torna-se estruturalmente limitada (World Bank, 2026).
A questão da soberania digital, portanto, não é apenas econômica; ela é também geopolítica. O controle de semicondutores, nuvem, telecomunicações, dados e padrões técnicos redefine a hierarquia internacional de poder. A OECD, em estudos sobre infraestrutura de IA e cadeia de semicondutores, chama atenção para a forte concentração de insumos intermediários, data centers, cloud e capacidade computacional em poucos polos, o que cria dependências sensíveis e reduz a margem de manobra de várias economias (OECD, 2025a; OECD, 2025c). Da mesma forma, a centralização dos serviços digitais em grandes corporações transnacionais transforma infraestrutura em instrumento potencial de poder econômico e político. Em consequência, discussões sobre segurança nacional, política industrial, regulação concorrencial e desenvolvimento passaram a convergir em torno de um mesmo ponto: quem não controla minimamente sua infraestrutura digital crítica dificilmente conseguirá sustentar autonomia estratégica em outras áreas.
No plano teórico, isso recoloca a crítica da dependência em linguagem atualizada. A assimetria entre centro e periferia já não pode ser descrita apenas por termos como produtividade industrial, deterioração dos termos de troca ou déficit tecnológico em sentido clássico. É preciso incorporar a materialidade contemporânea do poder: servidores, chips, padrões de software, plataformas de intermediação, camadas de autenticação, protocolos financeiros, mineração e processamento de dados. A periferia pode até ampliar suas exportações ou digitalizar segmentos do consumo sem, por isso, reduzir sua subordinação. Quando o núcleo decisório da economia digital permanece no exterior, a digitalização pode inclusive aprofundar a dependência, porque internaliza na vida cotidiana e produtiva infraestruturas que não são localmente controladas. Em vez de emancipação automática, pode haver uma forma renovada de colonialidade técnica: a economia nacional funciona, mas sua lógica profunda é operada por arquiteturas exógenas.
É nesse ponto que o debate sobre soberania digital se conecta à crítica da reprimarização. Em economias como a brasileira, o problema não está apenas na exportação de bens primários, mas no fato de que a agregação de valor, a certificação, a rastreabilidade, o financiamento e a inteligência aplicados a essas cadeias dependem cada vez mais de sistemas digitais complexos. Quem produz grãos, carnes, minérios ou energia sem controlar a camada de software, processamento, certificação e infraestrutura de dados tende a capturar parcela reduzida do valor total. No capitalismo superindustrial, não basta possuir recursos naturais abundantes; é preciso governar os meios digitais que organizam sua transformação econômica. Caso contrário, a riqueza material continua sendo gerada localmente, enquanto a renda estratégica se desloca para os centros que controlam protocolos, plataformas, computação e sistemas financeiros. A UNCTAD, ao discutir investimento na economia digital, observa justamente que muitas estratégias digitais em países em desenvolvimento permanecem desconectadas de políticas industriais mais amplas, o que limita sua capacidade de gerar transformação estrutural efetiva (UNCTAD, 2025b).
No caso do Brasil, essa problemática assume forma particularmente aguda. O país dispõe de ativos relevantes: mercado interno de grande escala, sistema financeiro sofisticado, base científica significativa, experiência regulatória acumulada em pagamentos digitais, capacidade energética comparativamente favorável e posição estratégica em cadeias ligadas à transição ecológica. Entretanto, sua vulnerabilidade permanece elevada em segmentos decisivos da infraestrutura digital. A dependência de semicondutores importados, de serviços globais de nuvem, de ecossistemas externos de software e de plataformas transnacionais limita a capacidade nacional de converter digitalização em autonomia. Mesmo iniciativas importantes no campo dos semicondutores e da política digital ainda enfrentam descontinuidade, baixa densidade industrial e dificuldades de coordenação em escala nacional, o que mantém o país em posição delicada diante das novas formas de concentração de poder tecnológico.
A fragilidade brasileira fica ainda mais evidente quando se observa a centralidade contemporânea da infraestrutura pública digital. Não se trata apenas de estimular startups ou ampliar conectividade do consumidor final. O desafio é estruturar capacidades nacionais em torno de identificação digital, sistemas de pagamento, segurança cibernética, regulação de dados, governança de nuvem, armazenamento, computação e presença em segmentos estratégicos da indústria eletrônica. A OECD tem insistido que políticas digitais eficazes exigem abordagem integrada, articulando acesso à infraestrutura, dados, concorrência, inovação, confiança, mercado de trabalho e prosperidade social (OECD, 2026). Esse enfoque é crucial porque impede a redução da soberania digital a uma agenda tecnocrática estreita. O problema é sistêmico: envolve instituições, financiamento, energia, indústria, educação, regulação e estratégia internacional.
Sob esse prisma, soberania digital também deve ser lida como condição do desenvolvimento, e não como luxo de países ricos. O desenvolvimento no século XXI depende da possibilidade de participar ativamente dos circuitos de produção e decisão que estruturam a economia digital. Sem capacidade de processar dados, acessar computação, formar talentos, desenvolver ou internalizar parte das cadeias críticas e regular plataformas e fluxos financeiros em seu território, uma economia periférica tende a digitalizar seu consumo sem transformar sua estrutura produtiva. Isso gera um paradoxo recorrente: expansão do uso de tecnologia combinada com persistência — ou aprofundamento — da dependência. O avanço do comércio eletrônico, dos serviços digitais e da automação não garante, por si só, autonomia; tudo depende de quem domina a infraestrutura subjacente e de como a digitalização se conecta a um projeto nacional de transformação produtiva.
É por isso que a soberania digital deve ser articulada à política industrial e tecnológica. A experiência internacional mais consistente sugere que estratégias digitais desconectadas de política de desenvolvimento produzem resultados limitados, frequentemente concentrados em consumo, intermediação e financeirização. Em contrapartida, quando infraestrutura digital, indústria, ciência, financiamento e regulação são tratados como dimensões articuladas, a tecnologia pode funcionar como alavanca de upgrading produtivo e redução de vulnerabilidades externas. Nesse sentido, a lição mais importante do debate contemporâneo não é a defesa de um nacionalismo tecnológico simplista, mas o reconhecimento de que nenhuma inserção soberana no capitalismo superindustrial ocorrerá sem capacidade pública e privada de organizar ecossistemas digitais em bases relativamente autônomas.
Em síntese, a soberania digital emerge como novo eixo do desenvolvimento porque o capitalismo contemporâneo passou a depender da governança sobre dados, computação, conectividade, nuvem, semicondutores, plataformas e sistemas financeiros programáveis. A antiga soberania territorial continua necessária, mas já não é suficiente. O poder econômico e geopolítico deslocou-se também para a infraestrutura lógica que organiza a produção, a circulação e a monetização do valor. Para economias periféricas, esse deslocamento produz uma bifurcação histórica: ou a digitalização será incorporada a um projeto de transformação estrutural, com política industrial, infraestrutura pública digital e redução de dependências críticas, ou ela aprofundará a condição subordinada, convertendo o país em usuário intensivo de sistemas que não controla. É nesse horizonte que a soberania digital deixa de ser questão técnica e se afirma como categoria decisiva da teoria do desenvolvimento no século XXI.
6 DREX, tokenização e infraestrutura financeira programável
A discussão sobre o Drex exige precisão conceitual, porque uma parte relevante do debate público ainda o reduz, de modo inadequado, à ideia genérica de “moeda digital”. Na formulação oficial do Banco Central do Brasil, o Drex deve ser compreendido como parte de uma infraestrutura digital de liquidação e de prestação de serviços financeiros inteligentes, orientada à tokenização de ativos, ao uso de contratos inteligentes e à interoperabilidade entre instituições autorizadas (Banco Central do Brasil, [s. d.]). Essa definição é decisiva porque desloca o Drex do plano estritamente monetário para o plano infraestrutural. O ponto central não é apenas a existência de uma representação digital da moeda soberana, mas a criação de uma camada institucional capaz de registrar, mover, liquidar e condicionar ativos digitais em ambiente regulado.
A própria documentação do Banco Central distingue o Drex de uma simples digitalização do numerário e enfatiza que seu desenho está voltado à viabilização de novos modelos de negócio, serviços programáveis e integração entre diferentes ativos tokenizados. Em termos analíticos, isso significa que o Drex deve ser lido como parte da mutação do capitalismo superindustrial: a moeda deixa de ser apenas meio de pagamento e passa a integrar a arquitetura técnica que organiza fluxos de valor, garantias, contratos e intermediação financeira (Banco Central do Brasil, 2025). O relatório da fase 1 do piloto explicita ainda o chamado trilema que estruturou os testes iniciais: compatibilizar privacidade, descentralização na oferta de produtos e serviços e programabilidade em conformidade com o arcabouço jurídico brasileiro. Esse elemento é central para o argumento do presente artigo, porque demonstra que o Drex não é uma inovação simplesmente operacional; ele envolve escolhas institucionais sobre governança, segurança, arquitetura de mercado e desenho da intermediação financeira.
No quadro do capitalismo superindustrial, essa infraestrutura programável adquire relevância especial porque a economia contemporânea depende, cada vez mais, da capacidade de tokenizar direitos, ativos e garantias, reduzindo fricções de registro, liquidação e coordenação contratual. A tokenização, aqui, não deve ser compreendida como mera moda financeira, mas como processo pelo qual ativos e relações econômicas passam a ser estruturados em linguagem digital interoperável, passível de automação e de validação por regras codificadas. Quando essa possibilidade é integrada a um sistema financeiro regulado e à moeda soberana, abre-se espaço para novas formas de organização de crédito, garantias, mercado de capitais e circulação de ativos do mundo real.
A relação entre Drex e capitalismo superindustrial torna-se mais evidente quando se observa que a nova etapa do capitalismo não é definida apenas por inovação produtiva, mas também por infraestruturas digitais de coordenação econômica. Se dados, software, protocolos e nuvem passaram a estruturar a produção e a logística, as finanças também caminham para uma reorganização em que liquidação, garantias e circulação de ativos dependem crescentemente de arquiteturas programáveis. O Drex se insere justamente nessa transformação: ele representa a tentativa de construir uma base pública e regulada para que a digitalização financeira avance não apenas sob a forma de criptoativos privados ou plataformas descoordenadas, mas como componente da infraestrutura nacional de serviços financeiros. A leitura de Gabriel Galípolo, ao destacar o Drex como projeto voltado a melhorar mercados de crédito por meio de ativos tokenizados e garantias colateralizadas, vai na mesma direção (Reuters, 2025).
Sob o prisma funcional, o potencial do Drex pode ser organizado em quatro dimensões principais. A primeira é a redução de fricções operacionais em processos de registro, validação e liquidação, sobretudo quando ativos tokenizados e contratos inteligentes puderem ser integrados de forma segura ao ambiente regulado. A segunda é a possibilidade de aumentar a eficiência de liquidação, reduzindo etapas redundantes de reconciliação entre partes e sistemas. A terceira é a capacidade de integrar ativos tokenizados a novos serviços financeiros, o que pode ampliar a sofisticação de operações em crédito, mercado de capitais e finanças lastreadas em ativos reais. A quarta é a contribuição potencial para a modernização da intermediação financeira, ao criar ambiente institucional em que bancos, cooperativas, fintechs e outras instituições autorizadas possam desenvolver novos arranjos sob supervisão do Banco Central. Esses potenciais aparecem de forma recorrente na documentação oficial do Drex, ainda que como possibilidades a serem testadas e maturadas, e não como resultados já consolidados.
Ao mesmo tempo, é metodologicamente indispensável evitar extrapolações. O Drex não deve ser apresentado como solução automática para inflação, juros elevados, escassez de crédito ou atraso produtivo. O próprio Banco Central trata o projeto como piloto em desenvolvimento, com etapas sucessivas de teste e aperfeiçoamento. Isso significa que o Drex ainda se encontra em processo de construção institucional e tecnológica, e seus efeitos dependerão de desenho regulatório, adoção pelos agentes, maturação dos casos de uso, interoperabilidade e qualidade da governança (Banco Central do Brasil, 2025). Essa cautela é ainda mais importante porque parte do imaginário público tende a associar o Drex a vigilância irrestrita, substituição do dinheiro em espécie ou controle direto das finanças cotidianas da população. A comunicação oficial do Banco Central insiste que o projeto está menos orientado à substituição direta do numerário e mais à constituição de uma nova camada de infraestrutura financeira.
Do ponto de vista do desenvolvimento, o Drex interessa porque pode fortalecer uma dimensão específica da soberania digital brasileira: a capacidade de construir infraestrutura pública digital em um domínio sensível, o das finanças e dos pagamentos. O Brasil já havia demonstrado capacidade institucional relevante com o Pix. No caso do Drex, a ambição é mais complexa, porque não se trata apenas de pagamentos instantâneos, mas da organização programável de ativos e serviços financeiros. Se bem desenhado, o projeto pode ampliar a capacidade nacional de oferecer inovação regulada, criar padrões domésticos de interoperabilidade e reduzir dependência de soluções privadas externas em segmentos estratégicos do sistema financeiro. Essa potencialidade é coerente com a interpretação do Banco Central de que o Drex constitui passo adicional na evolução da infraestrutura financeira brasileira.
A conexão entre Drex e inserção internacional também merece atenção. Embora o projeto tenha foco primordialmente doméstico, ele se situa em um contexto global em que bancos centrais e instituições multilaterais exploram novas arquiteturas de liquidação digital. O caso mais conhecido é o mBridge, iniciativa acompanhada pelo BIS para explorar uma plataforma multi-CBDC baseada em DLT, voltada a pagamentos e liquidações transfronteiriças instantâneas (Bank for International Settlements, 2024). A relevância desse dado para o presente artigo está em mostrar que o Drex não emerge isoladamente, mas no interior de uma tendência mais ampla de experimentação institucional em torno de infraestrutura financeira digital programável.
Ainda assim, convém manter rigor analítico: mBridge e Drex não devem ser fundidos indevidamente, nem tratados como evidência de substituição iminente da arquitetura financeira internacional existente. A digitalização das finanças internacionais está em fase de aprendizado institucional, marcada por testes, ajustes e diferentes desenhos nacionais (Reuters, 2024a). Assim, a relevância do Drex para o Brasil deve ser lida sobretudo como fortalecimento de capacidade doméstica e preparação estratégica para um ambiente financeiro internacional em transformação, e não como atalho imediato para desintermediação global.
Em síntese, o Drex pode ser interpretado como infraestrutura financeira programável em construção, voltada à tokenização de ativos, à automação contratual e à ampliação da capacidade institucional do sistema financeiro brasileiro. Sua importância teórica, no âmbito deste artigo, reside no fato de que ele materializa uma dimensão central do capitalismo superindustrial: a passagem de uma economia em que a moeda servia predominantemente como meio de troca para outra em que a própria infraestrutura monetária e financeira passa a ser programável, interoperável e integrada a ecossistemas digitais mais amplos. Se tal projeto contribuirá, no futuro, para maior eficiência, inovação regulada e fortalecimento da soberania digital brasileira, isso dependerá menos de promessas abstratas e mais da qualidade de sua governança, de sua arquitetura institucional e de sua articulação com uma estratégia mais ampla de desenvolvimento tecnológico e produtivo.
7 BRICS, SWIFT e a disputa pela infraestrutura financeira internacional
A infraestrutura financeira internacional tornou-se um dos terrenos centrais da disputa geoeconômica contemporânea porque a circulação global do valor depende menos de abstrações monetárias isoladas do que de redes técnicas, protocolos de mensageria, sistemas de liquidação, bancos correspondentes e padrões operacionais que definem quem pode pagar, receber, compensar e financiar em escala transnacional. Em outras palavras, o poder monetário contemporâneo não se limita à emissão de moeda ou à profundidade dos mercados financeiros; ele envolve também o controle sobre os circuitos institucionais e tecnológicos pelos quais os fluxos financeiros são processados. É nesse sentido que a discussão sobre BRICS, SWIFT, CBDCs e novas arquiteturas de pagamento deve ser inserida no debate sobre capitalismo superindustrial: trata-se de compreender como a infraestrutura financeira passa a integrar a própria materialidade do poder global.
O SWIFT continua sendo a principal infraestrutura de mensageria financeira do sistema internacional. Seu crescimento de tráfego, a consolidação do padrão ISO 20022 e a capilaridade de sua rede mostram que, apesar das discussões sobre alternativas, o sistema dominante permanece amplamente funcional, escalável e central para a coordenação das finanças internacionais (SWIFT, 2025). Esses dados são importantes porque mostram que qualquer análise séria sobre rearranjos monetários deve partir da constatação de que o SWIFT não está “superado”; ele segue como eixo estruturante da arquitetura financeira global.
Entretanto, reconhecer a centralidade do SWIFT não significa ignorar seu significado geopolítico. Como rede de mensageria que conecta instituições financeiras globais, o sistema se tornou também peça sensível de uma ordem internacional fortemente marcada pela centralidade do dólar, pelos mecanismos de correspondent banking e pela capacidade de alguns polos estatais e financeiros influenciarem ou condicionarem o acesso aos fluxos internacionais. A crítica que emerge em parte do Sul Global não é, em geral, uma crítica à eficiência técnica do SWIFT em si, mas à concentração de poder e à vulnerabilidade que decorre da dependência de infraestruturas sobre as quais economias periféricas possuem pouca capacidade de influência. É exatamente nesse ponto que o debate sobre soberania monetária passa a se cruzar com o debate sobre soberania digital e infraestrutural.
É nesse contexto que os BRICS ganham relevância analítica. O bloco não deve ser lido como uma coalizão homogênea nem como embrião automático de uma nova ordem financeira plenamente consolidada. Ainda assim, suas declarações recentes revelam crescente preocupação com o fortalecimento de liquidações em moedas locais, com a ampliação de redes de bancos correspondentes entre os próprios membros e com a criação de condições institucionais para pagamentos transfronteiriços menos dependentes das camadas tradicionais da arquitetura dominada pelo Ocidente (Reuters, 2024b; Reuters, 2024c). Essa movimentação precisa ser interpretada com rigor. O debate em torno dos BRICS não autoriza, por si só, afirmações simplistas sobre um iminente “fim do dólar”. O que se observa é um processo mais gradual e institucionalmente cauteloso: expansão do uso de moedas locais em determinadas relações bilaterais ou regionais, fortalecimento de instituições próprias, busca por maior autonomia operacional e experimentação com novos arranjos técnicos.
A importância teórica desse processo está em que ele recoloca a infraestrutura financeira no centro da economia política internacional. Durante muito tempo, grande parte do debate público tratou moeda e pagamentos como temas eminentemente monetários ou bancários. No entanto, no capitalismo superindustrial, sistemas de pagamento, liquidação e autenticação financeira tornam-se também infraestruturas digitais críticas, integradas a redes de dados, plataformas, protocolos e regras de interoperabilidade. Isso significa que a disputa por autonomia financeira deixa de ser apenas cambial e passa a envolver capacidade de participar, moldar ou construir sistemas pelos quais o valor circula. Em outras palavras, a soberania monetária do século XXI depende crescentemente de soberania infraestrutural.
É nesse ponto que entram as CBDCs e, de modo particular, o projeto mBridge. O fato de o BIS ter levado o projeto ao estágio de minimum viable product é relevante não porque já teria substituído a infraestrutura dominante, mas porque demonstra que a experimentação institucional em torno de liquidação digital programável já deixou de ser especulação teórica. Trata-se de um laboratório concreto de reorganização potencial da camada operacional das finanças internacionais (Bank for International Settlements, 2024). Ao mesmo tempo, o caso mBridge confirma a necessidade de cautela analítica. Sua evolução mostra que a transição para novas arquiteturas financeiras será longa, experimental e marcada por diferentes arranjos concorrentes ou complementares (Reuters, 2024a).
A relação entre BRICS e mBridge também exige precisão. Embora parte do debate público tenda a fundi-los sob a rubrica genérica de “alternativa ao Ocidente”, eles pertencem a planos distintos: o BRICS funciona mais como espaço político de convergência estratégica e pressão por reforma da governança financeira internacional, enquanto iniciativas como o mBridge pertencem ao campo da experimentação técnico-institucional específica. A articulação entre ambos é indireta, não orgânica nem automática.
Ainda assim, há uma afinidade estrutural entre esses movimentos. Tanto o debate político dos BRICS quanto os testes com plataformas multi-CBDC expressam uma mesma inquietação histórica: a necessidade de reduzir custos, dependências e vulnerabilidades nas liquidações transfronteiriças. Para economias emergentes, isso é particularmente importante porque a intermediação por moedas fortes, bancos correspondentes e camadas técnicas centralizadas pode elevar custos de transação, ampliar exposição cambial e restringir margens de manobra em situações de tensão geopolítica. Daí a importância de iniciativas que busquem maior uso de moedas locais, melhor integração entre sistemas nacionais e novas formas de liquidação. Não se trata de uma revolução consumada, mas de um reposicionamento gradual em torno da infraestrutura do pagamento internacional.
Para o Brasil, essa discussão é estratégica em pelo menos três sentidos. Primeiro, porque o país possui interesse objetivo em reduzir custos de transação e ampliar autonomia operacional em suas relações com parceiros do Sul Global. Segundo, porque a existência de um sistema financeiro doméstico relativamente sofisticado, somada à experiência institucional acumulada com o Pix e com o desenvolvimento do Drex, oferece base para participação qualificada nesse debate. Terceiro, porque o reposicionamento internacional brasileiro depende não apenas de política comercial ou diplomacia multilateral, mas também de presença nas infraestruturas que organizarão pagamentos, liquidações e ativos digitais nas próximas décadas. Nesse cenário, a agenda do BRICS não é periférica à discussão sobre desenvolvimento; ela toca diretamente a capacidade brasileira de atuar em um ambiente monetário e financeiro em transformação.
Essa conexão entre BRICS, SWIFT e novas arquiteturas de pagamento é plenamente compatível com a tese do capitalismo superindustrial. Se, como sustentado nas seções anteriores, o capitalismo contemporâneo integra indústria, ciência, dados, infraestrutura digital e finanças programáveis, então a disputa pela infraestrutura financeira internacional deve ser lida como parte da reorganização mais ampla do poder global. Quem controla os sistemas de mensageria, liquidação, autenticação e interoperabilidade controla, em medida significativa, as condições sob as quais o valor circula. Isso confere às finanças internacionais uma materialidade técnica que as aproxima das demais infraestruturas estratégicas do século XXI, como semicondutores, nuvem e telecomunicações.
Em síntese, a disputa atual não opõe, de maneira simples, um velho sistema condenado a desaparecer e um novo sistema pronto para substituí-lo. O que existe é uma tensão histórica entre centralização consolidada e experimentação institucional emergente. O SWIFT segue dominante e tecnicamente robusto; os BRICS ampliam o debate político sobre liquidações em moedas locais e maior autonomia financeira; e projetos como o mBridge sinalizam possibilidades de reorganização da infraestrutura de pagamentos em ambiente digital programável. O ponto decisivo, para este artigo, é que tais movimentos evidenciam uma mutação mais profunda: no capitalismo superindustrial, a infraestrutura financeira internacional deixa de ser pano de fundo e passa a ser objeto direto de disputa estratégica. É nesse terreno que soberania monetária, soberania digital e reposicionamento do Sul Global se encontram de forma mais nítida.
8 Discussão
A articulação entre capitalismo superindustrial, ascensão chinesa, soberania digital, Drex e disputa pela infraestrutura financeira internacional permite sustentar que o capitalismo contemporâneo atravessa uma transformação qualitativa que não pode ser reduzida nem à velha oposição entre indústria e serviços nem ao vocabulário genérico da digitalização. O que está em curso é uma reconfiguração estrutural em que a produção material permanece central, mas passa a depender cada vez mais de ciência aplicada, software, dados, semicondutores, sistemas de pagamento, nuvem, logística inteligente e arquiteturas institucionais capazes de coordenar fluxos complexos de valor. A força interpretativa da tese do capitalismo superindustrial está justamente em captar essa fusão entre base produtiva e infraestrutura lógica. A China fornece a evidência histórica mais robusta dessa mutação, ao combinar crescimento industrial, expansão do software, comércio eletrônico em escala massiva e financiamento direcionado para tecnologia em um mesmo arranjo estratégico (National Bureau of Statistics of China, 2026; Reuters, 2026).
Essa transformação tem implicação direta para a teoria do desenvolvimento. Se, em etapas anteriores, o atraso periférico podia ser descrito principalmente pela insuficiência industrial ou pela deterioração dos termos de troca, no capitalismo superindustrial a dependência assume forma mais profunda: ela se instala nas camadas que organizam a produção, a circulação e a monetização do valor. Não basta produzir mercadorias; é preciso participar do controle sobre chips, padrões de software, sistemas de nuvem, dados, certificação digital, infraestrutura de pagamentos e meios de computação. O World Bank e a OECD têm insistido que a capacidade de participar da economia digital e da IA depende de conectividade, computação, dados, competências e infraestrutura, todos elementos fortemente concentrados em poucos países. Esse cenário confirma que a desigualdade contemporânea não é apenas distributiva, mas também infraestrutural (World Bank, 2025; OECD, 2026).
Nesse quadro, a China aparece menos como exceção exótica e mais como demonstração histórica de que a soberania produtiva do século XXI exige articulação entre indústria, finanças, tecnologia e Estado. Seu modelo híbrido desafia frontalmente a narrativa liberal segundo a qual a inovação de ponta decorreria espontaneamente de mercados desregulados. Ao contrário, o caso chinês mostra que a competição contemporânea se trava entre ecossistemas nacionais capazes de combinar crédito, política industrial, infraestrutura digital, capacidade estatal e estratégia tecnológica. Isso não implica romantização. Como indicam o World Bank e a OECD, a economia chinesa enfrenta desaceleração, fragilidade do setor imobiliário, consumo doméstico ainda insuficiente e tensões externas crescentes. Ainda assim, essas contradições não anulam o ponto principal: a China internalizou que a disputa por poder passa pelo controle da arquitetura tecnoindustrial da economia (World Bank, 2025; OECD, 2025b).
Quando essa leitura é deslocada para o Brasil, o contraste torna-se eloquente. O país possui ativos relevantes: escala territorial, base científica não desprezível, sistema financeiro sofisticado, capacidade energética relativamente favorável e posição estratégica em recursos críticos à transição ecológica. Também apresenta iniciativas institucionais relevantes no campo digital, como o Pix e o Drex, este último concebido pelo Banco Central como infraestrutura de serviços financeiros inteligentes e tokenização de ativos, e não como mera versão digital do numerário. Entretanto, esses ativos convivem com limites estruturais profundos: desindustrialização relativa, baixa densidade tecnológica em semicondutores e software de base, dependência de nuvem e plataformas externas, vulnerabilidade cambial e inserção internacional marcada por reprimarização exportadora. O problema brasileiro, portanto, não é ausência completa de capacidades, mas a falta de articulação sistêmica entre essas capacidades e um projeto nacional de transformação produtiva e digital.
É precisamente nesse ponto que a soberania digital deixa de ser uma agenda técnica e passa a ser uma agenda estratégica de desenvolvimento. Se a produção contemporânea depende de controle sobre dados, protocolos, conectividade, computação, sistemas financeiros programáveis e infraestrutura crítica, então a soberania econômica torna-se impossível sem algum grau de soberania digital. A literatura recente da OECD e do World Bank reforça essa conclusão ao mostrar que os países que não possuem acesso estável a capacidade computacional, data centers, chips e ecossistemas regulatórios adequados ficam condenados a consumir tecnologias produzidas por outros, sem transformar digitalização em autonomia. No caso brasileiro, isso significa que a adoção intensiva de tecnologias digitais pode tanto ampliar produtividade quanto aprofundar dependência, a depender de quem controla a infraestrutura subjacente.
O Drex, nesse contexto, é um exemplo útil de ambivalência histórica. De um lado, ele sinaliza capacidade institucional brasileira de inovar em infraestrutura pública digital e de projetar uma camada programável para liquidação e tokenização em ambiente regulado. Isso é relevante porque insere o país em um debate internacional cada vez mais importante sobre ativos digitais, contratos inteligentes e novas formas de intermediação financeira. De outro lado, o Drex, por si só, não resolve os entraves estruturais do desenvolvimento brasileiro. Não há base empírica para tratá-lo como solução automática para juros altos, inflação, atraso industrial ou insuficiência de crédito. Seu potencial dependerá da governança institucional, da aderência regulatória, da capacidade de integração com casos de uso economicamente relevantes e, sobretudo, de sua conexão com uma estratégia mais ampla de política industrial, tecnológica e financeira (Banco Central do Brasil, 2025).
Essa ressalva é importante porque evita uma forma comum de fetichismo tecnológico. No capitalismo superindustrial, a tecnologia é condição necessária, mas não suficiente. Nenhuma infraestrutura digital, por mais sofisticada que seja, substitui por si só a necessidade de coordenação estatal, financiamento de longo prazo, política industrial, formação científica e decisão estratégica sobre setores prioritários. O caso chinês confirma isso: a superioridade relativa não decorre de um único instrumento, mas da integração entre muitos deles. O risco brasileiro reside justamente em adotar tecnologias de fronteira de maneira fragmentária, como ilhas de inovação cercadas por uma estrutura econômica ainda marcada por baixa densidade manufatureira, dependência externa e fraca coordenação nacional.
A discussão sobre BRICS, SWIFT e novas arquiteturas de pagamento amplia essa análise para o plano geopolítico. O SWIFT segue como infraestrutura dominante, com escala global e capacidade técnica robusta, mas a busca por liquidações em moedas locais, redes próprias de correspondência e plataformas de múltiplas CBDCs revela um movimento gradual de diversificação. As declarações recentes do BRICS e o desenvolvimento do mBridge mostram que parte do Sul Global tenta reduzir custos, vulnerabilidades e dependência excessiva de camadas tradicionais do sistema financeiro internacional. Ainda assim, seria analiticamente frágil anunciar uma ruptura iminente com a centralidade do dólar ou com a infraestrutura vigente. O mais adequado é reconhecer um processo incremental: o sistema dominante permanece, enquanto surgem mecanismos complementares e experiências institucionais que podem, a longo prazo, alterar as margens de autonomia de países emergentes.
Para o Brasil, esse ponto é particularmente sensível. A eventual ampliação do uso de moedas locais, a participação em novos arranjos de liquidação e a construção de competências em infraestrutura financeira digital podem reduzir custos operacionais e aumentar margem diplomática e econômica. No entanto, esses ganhos só serão estrategicamente relevantes se acompanhados por densificação produtiva e tecnológica doméstica. Uma economia que liquide melhor suas transações internacionais, mas continue dependente de chips, nuvem, plataformas, máquinas e software críticos importados, altera apenas parcialmente sua posição estrutural. Em termos diretos: soberania financeira sem soberania tecnológica é incompleta; soberania tecnológica sem base produtiva também é frágil. O capitalismo superindustrial exige a articulação simultânea dessas dimensões.
Esse diagnóstico permite identificar com maior nitidez os obstáculos estruturais brasileiros. O primeiro é a dependência tecnológica, que não se restringe à importação de bens complexos, mas alcança infraestrutura digital, serviços em nuvem, semicondutores, plataformas e sistemas críticos. O segundo é a fragilidade industrial, resultado de décadas de desarticulação entre política macroeconômica, investimento produtivo e estratégia de inovação. O terceiro é a reprimarização, que amplia a exposição aos ciclos externos e reduz a captura doméstica de valor tecnológico. O quarto é a vulnerabilidade cambial, que encarece importações estratégicas e afeta a previsibilidade de investimentos de longo prazo. O quinto é a baixa densidade em setores-chave, como microeletrônica, computação avançada, software de base e infraestrutura crítica. Esses fatores não operam isoladamente; eles se reforçam mutuamente, reproduzindo uma inserção subordinada no sistema mundial.
Disso decorre o risco central destacado ao longo deste artigo: o Brasil pode se converter em grande usuário de tecnologias avançadas sem se tornar produtor relevante das infraestruturas que as sustentam. Esse é o perigo de uma modernização dependente em chave digital. A economia torna-se mais conectada, mais automatizada e mais financeiramente sofisticada, mas continua operando com centros decisórios externos nos pontos de maior intensidade tecnológica e informacional. Nessa hipótese, o país digitaliza sua periferia sem superar sua periferização. O consumo tecnológico se expande, mas a soberania não.
Ao mesmo tempo, seria equivocado concluir que o quadro é inteiramente fechado. A posição brasileira ainda comporta possibilidades históricas reais. O país dispõe de mercado, energia, instituições financeiras, base universitária e inserção geopolítica que podem sustentar um projeto de neoindustrialização soberana, especialmente se articulado à transição ecológica, à infraestrutura pública digital e à cooperação Sul-Sul. A relevância do conceito de capitalismo superindustrial está justamente em mostrar que a disputa do presente não se limita a “ter mais indústria”, mas a construir capacidade nacional sobre os nexos entre indústria, ciência, dados, finanças e infraestrutura. Nessa chave, a política de desenvolvimento do século XXI precisa ser simultaneamente industrial, tecnológica, financeira e digital.
Por fim, é necessário reconhecer os limites da própria tese de Haddad. Seu principal mérito está em recusar o mito do pós-industrialismo e em recolocar a centralidade da produção e da infraestrutura no coração do capitalismo contemporâneo. Contudo, o conceito de capitalismo superindustrial pode correr o risco de tornar-se excessivamente abrangente se não forem preservadas distinções analíticas entre produção, extração de dados, financeirização e formas diferenciadas de poder corporativo e estatal. Além disso, a ênfase na mutação tecnológica precisa sempre ser reinscrita em relações de classe, em conflitos distributivos e em assimetrias interestatais concretas, para que a técnica não apareça como força autônoma. Ainda assim, esses limites não invalidam a potência da categoria; ao contrário, indicam a necessidade de desenvolvê-la criticamente.
Em síntese, a discussão permite sustentar que a soberania digital não é acessório nem luxo, mas condição estratégica do desenvolvimento em uma era em que o capitalismo reorganiza a produção e o poder por meio de infraestruturas lógicas, monetárias e tecnológicas. A China demonstra que a articulação entre Estado, indústria, finanças e tecnologia pode produzir capacidades sistêmicas; o Drex mostra que o Brasil possui ilhas institucionais relevantes; os BRICS indicam que a infraestrutura financeira internacional tornou-se campo aberto de disputa. O desafio brasileiro é transformar esses elementos dispersos em projeto coerente. Sem isso, a digitalização tenderá a aprofundar a dependência. Com isso, poderá abrir caminho para uma inserção menos subordinada no capitalismo superindustrial.
9 Conclusão
A análise desenvolvida ao longo deste artigo permitiu sustentar que a tese do capitalismo superindustrial oferece uma chave interpretativa consistente para compreender a reorganização contemporânea do capitalismo em torno da integração entre indústria, ciência, infraestrutura digital, dados, finanças programáveis e disputa geopolítica. A hipótese central foi confirmada no sentido de que a economia mundial já não pode ser explicada adequadamente por categorias que separam rigidamente produção material, serviços, tecnologia e finança. O que se observa é uma nova etapa histórica em que a base industrial permanece decisiva, mas passa a operar articulada a software, semicondutores, plataformas, nuvem, sistemas de pagamento e formas sofisticadas de coordenação informacional. A digitalização, nesse quadro, não representa o fim da indústria, mas sua reconfiguração em um patamar superior de complexidade e controle.
A centralidade da China na discussão confirmou-se como um dos pontos mais fortes do argumento. O caso chinês mostrou que a mutação contemporânea do capitalismo não se realiza pela simples retração do Estado nem pela espontaneidade dos mercados, mas por meio de combinações historicamente específicas entre política industrial, crédito direcionado, infraestrutura digital, manufatura avançada e estratégia tecnológica. A economia chinesa tornou-se a expressão mais visível de um modelo híbrido que desafia tanto o liberalismo econômico convencional quanto a ideia de um mundo pós-industrial. Suas contradições persistem, mas não anulam o ponto essencial: o poder contemporâneo depende crescentemente da capacidade de organizar ecossistemas tecnoindustriais em escala nacional.
Nesse horizonte, a categoria de soberania digital revelou-se indispensável. O desenvolvimento no século XXI não pode mais ser pensado apenas em função de território, população, recursos naturais ou capacidade militar. Ele depende também do controle relativo sobre dados, computação, conectividade, plataformas, sistemas de pagamento, infraestrutura de nuvem e cadeias críticas de semicondutores. Países que não participam minimamente dessas camadas da economia digital tendem a permanecer subordinados, ainda que ampliem exportações ou intensifiquem o consumo de tecnologias avançadas. A dependência, portanto, torna-se mais profunda: deixa de residir apenas no produto final e passa a habitar a infraestrutura que organiza a produção, a circulação e a monetização do valor.
No caso brasileiro, a discussão sobre o Drex mostrou que há capacidades institucionais relevantes em construção. O projeto, concebido pelo Banco Central como infraestrutura financeira programável voltada à tokenização de ativos e à prestação de serviços financeiros inteligentes, indica que o país não está inteiramente ausente das transformações em curso. Contudo, a análise também mostrou que o Drex, isoladamente, não constitui solução para os problemas estruturais da economia brasileira. Seu potencial depende de integração com política industrial, estratégia tecnológica, governança regulatória e fortalecimento da infraestrutura pública digital. Sem essa articulação, corre o risco de permanecer como inovação relevante, porém insuficiente para alterar a posição estrutural do país na divisão internacional do valor.
Da mesma forma, o debate sobre BRICS, SWIFT e novas arquiteturas de pagamento evidenciou que a infraestrutura financeira internacional se tornou parte constitutiva da disputa por autonomia no capitalismo superindustrial. O SWIFT continua dominante, técnica e institucionalmente robusto, mas cresce a busca por mecanismos complementares que ampliem liquidações em moedas locais, reduzam fricções transfronteiriças e diversifiquem a dependência excessiva de camadas tradicionais do sistema financeiro global. Não há base para proclamar ruptura imediata da ordem monetária vigente, mas há evidências suficientes para afirmar que a infraestrutura dos pagamentos e da liquidação financeira entrou definitivamente no campo da disputa estratégica do Sul Global.
A principal implicação para o Brasil é clara: o país só poderá converter seu potencial em projeto nacional efetivo se conseguir articular neoindustrialização, soberania digital, política tecnológica, infraestrutura financeira pública e inserção internacional estratégica. O desafio não é apenas crescer, mas crescer com densidade tecnológica, capacidade decisória e menor vulnerabilidade infraestrutural. Isso exige superar a combinação perversa entre desindustrialização relativa, reprimarização exportadora, dependência de plataformas e baixa presença nos segmentos críticos da economia digital. Sem enfrentar esses obstáculos, a modernização tecnológica tenderá a aprofundar a dependência em vez de reduzi-la.
Em última instância, o lugar do Brasil no século XXI dependerá de sua capacidade de compreender que desenvolvimento e soberania já não podem ser dissociados do controle sobre as infraestruturas lógicas da economia. O país seguirá sendo grande, mas estrategicamente limitado, se permanecer apenas como exportador de recursos, consumidor de tecnologias e usuário de sistemas concebidos externamente. Em contrapartida, poderá reposicionar-se de forma mais autônoma se tratar indústria, dados, finanças programáveis, computação e infraestrutura digital como partes de uma mesma agenda de transformação histórica. É nesse ponto que a tese do capitalismo superindustrial revela sua força maior: ela recoloca o desenvolvimento brasileiro no terreno onde ele efetivamente será decidido — o da disputa pelo comando material e lógico da economia contemporânea.
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