quarta-feira, 18 de março de 2026

Faixa de Gaza: origem histórica, posição geopolítica e a construção de um território em conflito

Como um pequeno enclave costeiro se tornou um dos centros mais explosivos da política internacional contemporânea



Introdução


A Faixa de Gaza costuma aparecer no noticiário como sinônimo de bombardeio, crise humanitária e colapso. Essa imagem é real, mas é insuficiente. Gaza não pode ser entendida apenas pelo que aconteceu em 7 de outubro de 2023 ou pela guerra que se seguiu. Para compreender de fato o que é Gaza, é preciso voltar antes: ao fim do Império Otomano, ao Mandato Britânico, à Declaração Balfour, à partilha da Palestina, à guerra de 1948, à Nakba, à ocupação de 1967, ao fracasso dos Acordos de Oslo, à ascensão do Hamas e ao bloqueio prolongado que transformou o território em um enclave sitiado (Britannica, 2026a; Britannica, 2026b; Britannica, 2026c; CFR, 2026). 


Em termos físicos, a Faixa de Gaza é um território muito pequeno, na costa leste do Mediterrâneo, entre Israel e o Egito. Em termos políticos, porém, ela é muito maior do que seu tamanho sugere. Gaza concentra, em poucos quilômetros quadrados, quase todos os impasses centrais da questão palestina: refugiados, ocupação, soberania bloqueada, militarização, colapso diplomático e sofrimento civil em larga escala (Britannica, s.d.; Britannica, 2026d). 


Este artigo reconstrói, em linguagem didática e tom crítico, como a Faixa de Gaza foi sendo formada historicamente e por que se tornou um dos lugares mais tensos do mundo.





1. Onde fica Gaza e o que ela é politicamente



A Faixa de Gaza é uma estreita faixa de terra banhada pelo Mar Mediterrâneo. Ao norte e a leste, faz fronteira com Israel; ao sul, com o Egito. Seu tamanho reduzido contrasta com sua densidade populacional e com sua centralidade política. Gaza faz parte dos territórios palestinos, junto com a Cisjordânia, mas não constitui um Estado palestino soberano e plenamente autônomo (Britannica, s.d.; CFR, 2026). 


Esse ponto é essencial. Gaza é palestina em termos de identidade nacional e reivindicação política, mas sua soberania é fortemente limitada. O Hamas governa internamente o território desde 2007, enquanto Israel mantém amplo controle sobre acesso marítimo, espaço aéreo e vários fluxos de entrada e saída; o Egito também controla sua fronteira meridional. Em linguagem simples, Gaza não é Israel, não é Egito e também não é um Estado palestino plenamente livre. É um território palestino sob bloqueio, sob forte controle externo e inserido em uma disputa histórica ainda não resolvida (CFR, 2025; CFR, 2026). 





2. Antes de Gaza: a formação da questão palestina



Para entender Gaza, é preciso começar pela Palestina histórica. Até a Primeira Guerra Mundial, a região fazia parte do Império Otomano. Com a derrota otomana, as potências europeias redesenharam o Oriente Médio segundo seus próprios interesses estratégicos. A Palestina passou ao controle britânico, e foi nesse contexto que se consolidou a base moderna do conflito (Britannica, 2026a). 


Em 1917, o governo britânico publicou a Declaração Balfour, apoiando o estabelecimento de um “lar nacional” para o povo judeu na Palestina. O problema histórico estava justamente aí: a região já era habitada majoritariamente por árabes palestinos. Assim, a política britânica empurrou a mesma terra para duas aspirações nacionais concorrentes, sem resolver legitimamente a tensão entre elas (Britannica, 2026b; Britannica, 2026d). 


Essa contradição foi institucionalizada no Mandato Britânico. A partir daí, a Palestina passou a ser governada por uma potência imperial que, ao mesmo tempo, favorecia a construção de um lar nacional judaico e administrava uma população árabe que também reivindicava autodeterminação. O conflito moderno entre israelenses e palestinos, portanto, não nasce como mera disputa religiosa. Ele se forma como disputa territorial, política e nacional sob condições coloniais e imperiais (Britannica, 2026a; Britannica, 2026b). 





3. 1947–1948: partilha, guerra, Nakba e o nascimento político de Gaza



A ONU aprovou, em 1947, um plano de partilha da Palestina em dois Estados, um judeu e um árabe. A proposta pretendia resolver a disputa, mas precipitou a guerra. Com o fim do Mandato Britânico e a criação de Israel em 1948, o conflito se transformou em guerra aberta entre Israel e países árabes vizinhos (Britannica, 2026c). 


Para os israelenses, essa guerra é associada à independência. Para os palestinos, ela é marcada pela Nakba, a “catástrofe”. O conflito produziu deslocamento em massa de palestinos, e a Faixa de Gaza tornou-se um dos principais destinos dessa população expulsa ou fugida. É aqui que Gaza passa a adquirir seu papel histórico próprio: deixa de ser apenas uma localização geográfica e passa a ser um território-refúgio, concentrando em espaço muito pequeno uma população marcada por perda, exílio e reivindicação nacional (Britannica, 2026c; Britannica, s.d.). 


Após a guerra, Gaza ficou sob administração egípcia. Mas isso não significou a criação de um Estado palestino. O Estado árabe-palestino previsto na partilha não nasceu. A Palestina fragmentou-se, e Gaza surgiu politicamente como território palestino sem soberania palestina. Essa condição de suspensão política é decisiva para toda a sua história posterior (Britannica, 2026c). 





4. 1967: a ocupação israelense e a transformação de Gaza em território ocupado



Se 1948 deu a Gaza a marca de território-refúgio, 1967 acrescentou outra: a de território ocupado. Na Guerra dos Seis Dias, Israel derrotou Egito, Jordânia e Síria e passou a controlar Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental e outros territórios (Britannica, 2026e; Britannica, 2026f). 


Com isso, Gaza deixou de estar sob administração egípcia e passou a viver sob ocupação israelense direta. A partir daí, a população palestina em Gaza experimentou não apenas o trauma histórico da Nakba, mas também a realidade cotidiana da ocupação: controle territorial, presença militar e, por um período, assentamentos israelenses no interior da faixa. A questão palestina passou a girar cada vez mais em torno dos territórios ocupados (Britannica, s.d.; Britannica, 2026f). 


Essa sobreposição é crucial: 1948 criou a Gaza dos refugiados; 1967 criou a Gaza ocupada. A combinação dessas duas camadas tornou o território especialmente explosivo.





5. Da ocupação à revolta: Intifadas, OLP e a emergência do Hamas



A ocupação não trouxe pacificação. Ao contrário, deslocou o centro do conflito para dentro dos próprios territórios palestinos, especialmente Gaza e Cisjordânia. Foi nesse contexto que a OLP se consolidou como principal representante política dos palestinos, defendendo autodeterminação e um Estado próprio (Britannica, 2026g). 


Em 1987, eclodiu a Primeira Intifada, levante palestino iniciado em Gaza e depois espalhado para a Cisjordânia. A Intifada expressou o esgotamento da vida sob ocupação e marcou a entrada mais visível da resistência popular palestina na cena internacional (Britannica, 2026h). 


Também em 1987 surgiu o Hamas, movimento islamista palestino originado na Irmandade Muçulmana. Ele combinou assistência social, ação política e resistência armada, tornando-se, ao longo do tempo, o principal rival da Fatah e da OLP dentro da política palestina (CFR, 2025). 


Esse é um ponto importante para evitar simplificações. O Hamas não é sinônimo da sociedade palestina, mas sua ascensão alterou profundamente a política de Gaza. A partir daí, a questão palestina passou a ser atravessada não apenas pelo conflito com Israel, mas também por uma disputa interna entre estratégias distintas: negociação diplomática ou resistência armada; nacionalismo secular ou islamismo político (CFR, 2025; CFR, 2026). 





6. Oslo: a promessa de paz que não se completou



Nos anos 1990, os Acordos de Oslo pareciam abrir uma saída. Israel e a OLP reconheceram-se mutuamente, e foi criada a Autoridade Palestina, com formas limitadas de autogoverno em partes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. A ideia era que esse processo levasse, gradualmente, a uma solução de dois Estados (Britannica, 2026g; Britannica, 2026f). 


Mas o ponto decisivo é que Oslo não resolveu as questões centrais: fronteiras finais, Jerusalém, refugiados, assentamentos e soberania plena. Em vez de concluir o conflito, congelou-o em uma transição que nunca chegou ao fim. Para muitos palestinos, especialmente em Gaza, a via diplomática prometia emancipação, mas entregava administração limitada, dependência e continuidade da instabilidade (Britannica, 2026g; CFR, 2026). 


Esse descompasso corroeu a legitimidade da via negociada e ampliou o espaço do Hamas.





7. 2005–2007: retirada israelense, vitória do Hamas e o bloqueio



Em 2005, Israel retirou seus assentamentos e suas forças permanentes do interior de Gaza. A retirada, porém, não significou independência plena do território. Israel continuou exercendo controle decisivo sobre vários acessos e sobre o entorno estratégico da faixa (Britannica, 2026i; CFR, 2026). 


Em 2006, o Hamas venceu as eleições legislativas palestinas. Em 2007, após confronto com a Fatah, assumiu o controle efetivo de Gaza. A partir daí consolidou-se a divisão política palestina que persiste até hoje: Gaza sob domínio do Hamas; partes da Cisjordânia sob administração da Autoridade Palestina/Fatah (CFR, 2025; CFR, 2026). 


Depois da tomada do território pelo Hamas, Israel impôs severas restrições à circulação de bens e pessoas; o Egito também passou a restringir fortemente sua fronteira. Gaza entrou, então, na fase do bloqueio prolongado e passou a operar como um enclave sitiado (Britannica, s.d.; CFR, 2025). 





8. Gaza antes de 2023: enclave sitiado, guerras recorrentes e crise crônica



Entre 2007 e 2023, Gaza viveu sob uma combinação de bloqueio, fragilidade econômica e confrontos recorrentes com Israel. Houve grandes escaladas armadas em diferentes momentos, e o território foi sendo repetidamente destruído e parcialmente reconstruído sob condições de enorme precariedade (Britannica, s.d.; CFR, 2026). 


Essa é uma chave didática fundamental: a crise humanitária de Gaza não começou em 2023. Ela já era estrutural. O território vivia com mobilidade restrita, forte dependência de ajuda, infraestrutura frágil e expectativa permanente de nova guerra. Gaza já era, antes da fase mais recente, um símbolo do fracasso da arquitetura pós-Oslo e da incapacidade internacional de transformar administração precária em soberania real (Britannica, s.d.; CFR, 2026). 





9. 2023 em diante: ataque do Hamas, resposta israelense e devastação ampliada



Em 7 de outubro de 2023, o Hamas lançou um ataque de grande escala contra Israel. Israel respondeu declarando guerra ao grupo e iniciou uma campanha militar devastadora sobre Gaza. O que veio depois foi a transformação de uma crise estrutural em colapso aberto (CFR, 2026; CFR, 2024). 


Relatórios recentes do OCHA mostram a profundidade da crise humanitária. Em 27 de fevereiro de 2026, apenas 260 dos 619 pontos de serviço de saúde em Gaza estavam funcionando, e 90% desses apenas parcialmente. Os relatórios também registram severas dificuldades de abrigo, circulação de ajuda e funcionamento dos serviços básicos (OCHA, 2026a; OCHA, 2026b). 


Houve tentativas de cessar-fogo em 2025 e 2026, mas o quadro permaneceu instável. O próprio CFR registra que o conflito entrou em fases de trégua frágil e rearranjos políticos sem solução definitiva, enquanto Gaza seguia profundamente devastada (CFR, 2026). 


Ao mesmo tempo, o conflito foi deslocado para o plano jurídico internacional. O caso África do Sul v. Israel segue na Corte Internacional de Justiça, e a situação do Estado da Palestina permanece no Tribunal Penal Internacional, mostrando que Gaza se tornou também centro de disputa jurídica sobre responsabilidade, uso da força e proteção de civis (ICJ, 2026; ICC, 2026). 





10. Leitura crítica: por que Gaza se tornou um dos lugares mais dramáticos do século XXI



A melhor forma de compreender Gaza é vê-la como a condensação de um fracasso histórico múltiplo. Fracasso da ordem imperial que reorganizou a Palestina sem resolver legitimamente sua soberania. Fracasso da partilha de 1947 como fórmula aceita por todos. Fracasso da ocupação em produzir paz. Fracasso de Oslo em converter autogoverno limitado em Estado palestino real. Fracasso da política palestina em manter unidade estratégica. E fracasso da comunidade internacional em impedir que um território inteiro fosse sendo empurrado, ao longo de décadas, para bloqueio, ruína e guerra repetida (Britannica, 2026a; Britannica, 2026c; CFR, 2026; OCHA, 2026a). 


Há, ainda, um erro recorrente no debate público: tratar Gaza apenas pelo instantâneo. Quando se faz isso, parece que a história começou ontem. Não começou. Gaza é um território em que geografia e política foram sendo comprimidas ao longo de mais de um século. O presente é explosivo porque o passado foi empilhando camadas de impasse sem solução.





Conclusão



A Faixa de Gaza deve ser entendida simultaneamente em três planos.


No plano espacial, é uma estreita faixa costeira entre Israel, Egito e o Mediterrâneo.

No plano histórico, é produto da desintegração da Palestina otomana, da política britânica, da guerra de 1948, da Nakba, da ocupação de 1967, do fracasso de Oslo e da cisão palestina entre Hamas e Fatah.

No plano geopolítico contemporâneo, é um enclave sitiado, devastado por guerra recente, central para a segurança israelense, para a causa palestina e para o debate internacional sobre soberania, proteção de civis e limites do uso da força (Britannica, s.d.; Britannica, 2026a; CFR, 2026; OCHA, 2026a). 


Entender Gaza desde a origem é a condição mínima para não confundir a explosão visível do presente com as estruturas profundas que a produziram. O território não é apenas um campo de batalha. É uma ferida histórica aberta, um nó geopolítico e um retrato extremo do que acontece quando soberania, ocupação, deslocamento e fracasso diplomático atravessam gerações sem resolução.





Referências



BRITANNICA. 1948 Arab-Israeli War. Encyclopaedia Britannica, 2026c. Disponível em: https://www.britannica.com/event/1948-Arab-Israeli-War. Acesso em: 18 mar. 2026. 


BRITANNICA. Gaza Strip. Encyclopaedia Britannica, s.d. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Gaza-Strip. Acesso em: 18 mar. 2026. 


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BRITANNICA. Palestine: World War I and after. Encyclopaedia Britannica, 2026a. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Palestine/World-War-I-and-after. Acesso em: 18 mar. 2026. 


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INTERNATIONAL COURT OF JUSTICE. Application of the Convention on the Prevention and Punishment of the Crime of Genocide in the Gaza Strip (South Africa v. Israel). Haia: ICJ, 2026. Disponível em: https://www.icj-cij.org/case/192. Acesso em: 18 mar. 2026. 


INTERNATIONAL COURT OF JUSTICE. The Court indicates provisional measures. Haia: ICJ, 26 jan. 2024. Disponível em: https://www.icj-cij.org/node/203453. Acesso em: 18 mar. 2026. 


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