domingo, 15 de março de 2026

2. Democracia ferida - O pequeno empresário e o espelho torto dos impostos: Entre custo real, arrecadação federal e propaganda digital, a pequena oficina virou alvo perfeito da simplificação política

 


No Brasil recente, poucas frases circularam com tanta força quanto esta: “no governo Lula subiram os impostos e as taxas para quem trabalha”. A fórmula é eficiente. Cabe em vídeo curto, funciona em conversa de bar, rende indignação instantânea e transforma desconforto econômico em munição política. O problema começa quando esse bordão passa a ocupar o lugar da análise. Porque uma coisa é registrar que o governo federal buscou elevar a arrecadação em diferentes frentes entre 2023 e 2025. Outra, muito diferente, é afirmar que uma pequena oficina passou a pagar mais imposto, de modo direto e uniforme, apenas por causa disso (Brasil, 2025a). 


É justamente aí que a discussão pública costuma fracassar. O pequeno empresário sente o caixa apertar e conclui, quase sempre de forma intuitiva, que o aperto veio de “mais imposto”. Essa percepção não surge do nada. Combustível, crédito, salário, logística, peças, energia e frete pesam no resultado do mês. Mas transformar toda pressão econômica em aumento tributário direto é uma confusão recorrente: o caixa registra saídas, mas não identifica, por si só, a natureza exata de cada custo. Para distinguir aumento de tributo, encarecimento do crédito, custo do trabalho e pressão inflacionária, é preciso examinar o enquadramento fiscal e a estrutura de despesas da empresa, não apenas a sensação imediata de aperto (Brasil, 2026a). 



O primeiro truque do debate ruim: chamar tudo de imposto



Uma pequena oficina com menos de 10 funcionários pode estar no Simples Nacional, no Lucro Presumido ou em outro enquadramento, a depender do faturamento, da atividade efetiva e da composição da receita. Em negócios como oficina mecânica, isso importa ainda mais, porque costuma haver mistura entre prestação de serviço e venda de peças. O dado essencial, portanto, não é apenas o porte aparente da empresa, mas o modo como ela se enquadra juridicamente e como sua receita é formada. O material oficial do Ministério da Fazenda sobre a reforma tributária e as pequenas empresas reforça a manutenção do Simples Nacional e a importância do enquadramento adequado para compreender os efeitos do sistema tributário sobre esse universo empresarial (Brasil, 2026a). 


Isso significa algo muito simples, mas frequentemente ignorado: ter poucos empregados não basta para provar aumento direto de imposto. Sem examinar regime tributário, faturamento, CNAE, guias recolhidas e evolução concreta dos custos, a frase “o governo aumentou o imposto da oficina” permanece mais próxima do palanque do que da contabilidade.



O que de fato aconteceu: arrecadação maior não significa imposto maior para todos



Entre 2023 e 2025, o governo federal adotou medidas voltadas à recomposição e à ampliação da arrecadação. Isso aparece de forma clara no debate sobre o IOF, nas tentativas de reforçar receitas e em outras iniciativas fiscais do período. O Senado registrou essas discussões ao tratar das medidas sobre operações financeiras em 2025, inclusive com reação política, contestação e recuos parciais. Portanto, negar o movimento arrecadatório seria falsificar a realidade (Brasil, 2025a). 


Mas o erro inverso é tão problemático quanto. Aumentar a arrecadação federal não significa, automaticamente, elevar o imposto principal de toda pequena empresa. O salto da propaganda acontece exatamente nesse ponto: pegar uma medida macrofiscal e vendê-la como prova universal de que “o governo passou a cobrar mais da oficina do bairro”. Esse raciocínio é politicamente útil e tecnicamente precário.



A oficina sente o caixa, mas o caixa não fala sozinho



Para uma oficina pequena, o aperto financeiro pode vir de vários lados ao mesmo tempo. O crédito pode encarecer. A logística pode pesar mais. O custo das peças pode oscilar. O combustível pode pressionar fornecedores e deslocamentos. Tudo isso deteriora a margem do negócio. E, quando a margem encolhe, a sensação subjetiva é imediata: “estão tirando mais de mim”.


Só que o caixa, sozinho, não distingue a natureza econômica do problema. Ele mostra saída de dinheiro, não explica sua causa. É justamente aí que a desinformação encontra terreno fértil. Em vez de perguntar se a pressão veio do IOF, dos insumos, dos salários, do frete, da energia, dos fornecedores ou da tributação municipal, a narrativa pronta oferece uma resposta total: “foi o governo”. O desconforto é real. O diagnóstico, muitas vezes, não.



O Simples Nacional não desapareceu — e isso desmonta parte do slogan



Outro ponto importante consiste em não transformar a reforma tributária em espantalho retroativo. O Ministério da Fazenda afirma que o Simples Nacional foi mantido e que as pequenas empresas podem seguir no regime, com regras específicas de convivência com o novo modelo. Além disso, a transição do IBS e da CBS se projeta em um calendário mais longo, não funcionando como explicação direta para dificuldades sentidas por pequenos negócios em 2023, 2024 e 2025. O Senado, ao tratar da regulamentação, também indicou cronograma escalonado para essa transição (Brasil, 2026a; Brasil, 2025b). 


Em linguagem direta: não se sustenta usar a futura arquitetura do novo sistema tributário como prova imediata de que a pequena oficina já teria sido esmagada pela reforma nesses anos. Esse argumento pode funcionar em vídeo de 40 segundos. Fora dele, perde consistência.



O custo do trabalho subiu — e muita gente chama isso, impropriamente, de imposto



Há outro elemento concreto a considerar. O salário mínimo subiu no período: R$ 1.320 em 2023, R$ 1.412 em 2024 e R$ 1.518 em 2025, segundo registros oficiais do governo. Para pequenos negócios, isso pressiona a folha, as férias, o 13º salário e os encargos vinculados à remuneração. O impacto financeiro existe e pode ser significativo em empresas de margem curta (Brasil, 2026b). 


Mas é preciso manter as categorias no lugar. Isso não equivale, em sentido estrito, a aumento de imposto da oficina. Trata-se de elevação do custo trabalhista e previdenciário associada ao reajuste do piso salarial. No cotidiano, tudo isso vira “mais gasto”. Na análise econômica, não deveria virar a mesma coisa. Quando toda despesa adicional recebe o mesmo nome, o debate perde precisão e ganha raiva.



A pequena oficina como personagem ideal da guerra de narrativas



Há uma razão política para o pequeno empresário aparecer tanto nesse tipo de discurso. Ele ocupa um lugar simbólico poderoso: trabalha muito, lida com incerteza, sente no corpo a oscilação da economia e costuma desconfiar de abstrações estatais. É, por isso mesmo, personagem ideal para slogans sobre imposto, sufocamento e perseguição ao trabalho.


A política digital entendeu esse perfil com rapidez. Em vez de oferecer explicação estrutural, oferece reconhecimento emocional. Diz ao pequeno empreendedor que seu aperto tem um rosto, um culpado e um campo ideológico responsável. A fórmula é eficaz porque substitui complexidade por narrativa moral. O empresário deixa de ser alguém pressionado por múltiplos fatores econômicos e passa a ser convocado como prova viva de uma tese política pronta.



O ponto decisivo: distinguir aperto econômico de mentira simplificadora



Negar que o pequeno negócio tenha enfrentado dificuldades seria erro analítico. O aperto existiu. O que não se sustenta é transformá-lo, sem demonstração específica, em prova automática de aumento direto e linear da carga tributária principal de qualquer oficina com menos de 10 funcionários. Para afirmar isso com rigor, seria necessário examinar documentos: enquadramento, faturamento, guias, operações de crédito, taxas locais, evolução dos custos e composição da receita.


Sem esse percurso, o que resta é slogan. E slogan não substitui balanço.



Mais contabilidade, menos catecismo econômico



O debate público brasileiro se acostumou a falar de imposto sem regime tributário, de custo sem planilha, de oficina sem demonstração contábil e de reforma sem calendário de transição. O resultado é previsível: a indignação cresce, mas a compreensão diminui.


Uma leitura mais séria precisa começar por uma distinção básica. Entre 2023 e 2025, o governo Lula de fato buscou ampliar a arrecadação em algumas frentes. Isso é verificável. Mas converter esse dado em sentença geral contra qualquer pequeno negócio é trocar análise por propaganda. O que pesa sobre uma pequena oficina pode incluir tributos, sim, mas também crédito, logística, insumos, combustível, salários e estrutura local de custos. Misturar tudo isso e dar-lhe um único nome pode render engajamento. Não rende verdade (Brasil, 2025a; Brasil, 2026a; Brasil, 2026b). 



Conclusão



O pequeno negócio brasileiro merece mais do que um bordão. Merece leitura técnica, distinção conceitual e honestidade analítica. Dizer que “subiu tudo por culpa do governo” pode funcionar como desabafo e até como peça de guerra política. Mas não basta como explicação. No caso de uma pequena oficina, a afirmação só se sustenta com prova concreta, não com repetição.


No fundo, o debate sobre impostos revela um problema maior do país: a facilidade com que desconfortos reais são capturados por narrativas fáceis. O aperto existe. O boato também. Confundir os dois tem sido uma das formas mais eficientes de empobrecer a discussão econômica brasileira.



Referências



BRASIL. Ministério da Fazenda. Mitos e verdades sobre a reforma tributária. Brasília, DF: Ministério da Fazenda, 2026a. Disponível em: portal Gov.br. Acesso em: 15 mar. 2026. 


BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Salário mínimo nacional.xlsx. Brasília, DF: Ministério do Trabalho e Emprego, 2026b. Planilha eletrônica. Disponível em: portal Gov.br. Acesso em: 15 mar. 2026. 


BRASIL. Senado Federal. Discussões sobre IOF continuam no segundo semestre do Legislativo. Brasília, DF: Senado Federal, 25 jul. 2025a. Disponível em: portal Senado Notícias. Acesso em: 15 mar. 2026. 


BRASIL. Senado Federal. Reforma tributária: segunda parte da regulamentação será votada em 2025. Brasília, DF: Senado Federal, 3 jan. 2025b. Disponível em: portal Senado Notícias. Acesso em: 15 mar. 2026. 

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