Imagine um país qualquer. Não importa o nome, porque a lógica pode aparecer em muitos lugares ao mesmo tempo.
Nesse país, existe um grande banco, chamado aqui de M, uma instituição poderosa, influente, com ramificações profundas na economia, no crédito, na mídia especializada e nos bastidores do poder. Em torno desse banco surge um escândalo financeiro de grandes proporções. Documentos, movimentações suspeitas, conexões impróprias e relações políticas começam a vir à tona. O caso explode. O assunto ocupa jornais, redes sociais, rodas de conversa e os corredores das instituições públicas.
No centro desse escândalo aparece N, um dos nomes mais conhecidos e mais barulhentos do partido da Direita (D). N não é um militante qualquer. É uma voz influente, um defensor aguerrido do partido, alguém que durante anos ajudou a moldar discursos, mobilizar apoiadores e atacar adversários. Só que, desta vez, os fatos pesam demais. As evidências são fortes. O partido D percebe, cedo ou tarde, que não conseguirá negar com credibilidade o envolvimento de N.
É nesse momento que a operação muda de natureza.
Como não é mais possível salvar N integralmente, a direção política do partido D passa a enxergá-lo de outra forma: não mais como um quadro a ser preservado, mas como uma peça a ser administrada. N está queimado, mas ainda pode servir. Pode funcionar como amortecedor, cortina de fumaça e instrumento de ataque. É então que o partido D lança uma segunda narrativa: a de que H, um nome do partido da Esquerda (E), também estaria envolvida no mesmo escândalo com o banco M.
O problema é que essa segunda acusação não nasce de prova robusta. Ela nasce de conveniência.
Toda vez que jornalistas, opositores ou cidadãos falam sobre a participação de N no escândalo, a resposta passa a ser quase automática: “Sim, N está envolvido, mas H também está”. Repare no movimento. Não se tenta mais mostrar que N é inocente. Tenta-se construir a ideia de que o adversário é igualmente culpado. A meta deixa de ser limpar o próprio campo; passa a ser sujar o campo inteiro.
Aos poucos, o debate público começa a mudar de eixo. O que antes era uma discussão sobre um escândalo real vai sendo transformado numa disputa difusa entre versões rivais. A pergunta “o que N fez?” começa a perder espaço para outra: “afinal, quem é menos corrupto?”. Em seguida vem a conclusão mais corrosiva de todas, aquela que interessa profundamente a quem já perdeu a batalha factual: “no fundo, todo mundo é igual”.
É aqui que a história deixa de ser apenas uma história. Ela se torna um retrato didático de uma técnica recorrente na política contemporânea e, em muitos casos, também nas guerras narrativas entre Estados, governos, facções e aparelhos de propaganda.
A engrenagem política da falsa equivalência
Essa estratégia tem nome e tem método. Uma das formas mais conhecidas desse expediente é aquilo que a literatura pública internacional chama de whataboutism: responder a uma acusação não com explicação, prova ou refutação direta, mas com uma contra-acusação, um desvio ou um “mas e o outro?” (Encyclopaedia Britannica, 2026). Em vez de enfrentar o problema, desloca-se o foco.
No caso narrado, o partido D percebe que perdeu o controle sobre os fatos relacionados a N. Como não pode apagar o incêndio, tenta provocar outro. A ideia é simples e brutal: se a culpa não pode ser removida, ela pode ao menos ser diluída. Se o nome de N cair sozinho, o prejuízo político será concentrado. Mas, se o nome de H cair junto, ainda que por arrastamento artificial, o escândalo deixa de ser um problema exclusivo de D e passa a parecer um retrato geral da política. O caso real se mistura com a suspeita fabricada. A verdade documentada e a insinuação interessada passam a circular lado a lado.
Do ponto de vista estritamente político, essa é uma estratégia racional, embora profundamente degradante. Ela busca três ganhos ao mesmo tempo.
O primeiro é proteger a estrutura do partido. N pode até cair, mas o partido tenta impedir que a sua queda seja lida como sintoma de um problema maior dentro de D.
O segundo é impedir que o adversário capitalize moralmente o escândalo. Se H também for percebida como suspeita, mesmo sem prova equivalente, E perde a posição de crítica limpa e se vê obrigada a se defender.
O terceiro é talvez o mais importante: reconfigurar o ambiente emocional do eleitorado. Em vez de indignação concentrada contra um culpado específico, instala-se uma sensação difusa de podridão generalizada. E, quando tudo parece igualmente podre, a responsabilização perde força.
No vocabulário da análise econômica e política, esse tipo de operação funciona como uma espécie de gestão do dano reputacional por contaminação cruzada. Em mercados, uma empresa em crise pode tentar reduzir perdas alterando a percepção relativa do setor. Na política, partidos fazem algo semelhante: se não conseguem restaurar a própria credibilidade, tentam rebaixar a credibilidade média do sistema. Não é uma reconstrução de confiança. É uma sabotagem do critério de julgamento.
O cálculo econômico por trás da manobra
Quando um escândalo financeiro envolve um banco grande e atores políticos relevantes, não se trata apenas de um problema moral ou jurídico. Trata-se também de um problema de expectativas, percepções de risco, estabilidade institucional e confiança pública.
Mercados funcionam, em larga medida, sobre confiança. Democracias também. Quando um grande banco aparece associado a um escândalo e um líder político influente é implicado, o sistema inteiro entra em estado de alerta. Investidores avaliam risco regulatório, agentes econômicos reavaliam credibilidade institucional, cidadãos desconfiam das autoridades e o ambiente público se torna mais volátil.
Nesse contexto, a narrativa política deixa de ser acessória. Ela passa a interferir no próprio funcionamento da vida econômica. Se o partido D consegue transformar um caso concreto em um pântano generalizado de acusações mútuas, ele modifica o ecossistema de interpretação do escândalo. Em vez de um evento delimitado, com responsáveis identificáveis, o caso vira névoa. E a névoa tem utilidade política porque embaralha culpa, dispersa responsabilização e enfraquece a pressão por reformas, investigações sérias ou punições consistentes.
Esse movimento é especialmente perigoso porque produz uma espécie de inflação moral da suspeita. Quanto mais nomes são jogados no mesmo saco, menos capacidade a sociedade tem de diferenciar graus de responsabilidade. Tudo vira ruído. Tudo vira rumor. Tudo vira aparência de equivalência. Nessa situação, até mesmo agentes econômicos passam a reagir mais à atmosfera de instabilidade do que aos fatos propriamente demonstrados.
É aqui que a política toca a guerra informacional. Christopher Paul e Miriam Matthews, em estudo da RAND Corporation, mostraram como certos modelos de propaganda operam por alto volume, repetição, rapidez e baixa preocupação com consistência factual, justamente para saturar o espaço público e tornar a refutação menos eficiente (Paul; Matthews, 2016). Em outras palavras, não é preciso construir uma mentira perfeita; basta produzir versões suficientes para enfraquecer a centralidade da verdade.
Isso vale para disputas partidárias internas, mas vale também para conflitos internacionais. Em guerras, governos e máquinas de propaganda frequentemente usam contra-acusações, meias-verdades, episódios deslocados e narrativas paralelas para relativizar massacres, esconder interesses estratégicos, justificar agressões ou confundir a opinião pública global. O método é semelhante ao do partido D: quando um fato ameaça demais, tenta-se submergir esse fato em um mar de versões concorrentes.
Por que essa estratégia funciona na cabeça das pessoas?
A resposta não está apenas na malícia de quem cria a narrativa. Está também nos limites normais da cognição humana.
As pessoas vivem sob excesso de informação, pressa, cansaço, medo, pertencimento ideológico e necessidade de orientação simplificada. Ninguém examina tudo com a mesma calma de um investigador ou de um tribunal. Em ambientes polarizados, a mente humana tende a recorrer a atalhos. E um dos atalhos mais conhecidos é a familiaridade: aquilo que ouvimos muitas vezes pode passar a parecer mais plausível do que realmente é.
Foi isso que demonstraram Fazio et al. (2015), ao estudar o chamado efeito de verdade ilusória. Os autores mostram que a repetição de uma informação aumenta sua fluência cognitiva, isto é, facilita seu processamento mental, e essa facilidade pode ser confundida com veracidade, inclusive quando as pessoas já possuem conhecimento prévio que deveria ajudá-las a rejeitar a afirmação falsa (Fazio et al., 2015).
Agora volte à história de N e H. A acusação contra H não precisa nascer forte. Ela precisa apenas ser repetida. Precisa ser colocada em manchetes, vídeos curtos, cortes de entrevistas, mensagens de aplicativos, comentários de apoiadores, falas de porta-vozes e postagens de influência. Não é a robustez da prova que move a operação; é a insistência da associação. Depois de algum tempo, parte do público já não se lembra exatamente de onde veio a acusação, que grau de prova havia, ou se houve prova alguma. Lembra apenas que “o nome de H apareceu no caso”.
Aí está a eficácia psicológica da manobra: não se busca convencer plenamente, mas contaminar a memória pública.
O consolo psicológico do “o outro também”
Existe ainda outro aspecto importante. Essa estratégia oferece um alívio emocional para quem apoia o partido D.
Quando alguém se identifica fortemente com um grupo político, descobrir que um líder importante desse grupo está envolvido em corrupção, fraude ou escândalo provoca desconforto, vergonha e dissonância cognitiva. É uma espécie de conflito interno: “se meu grupo representa aquilo em que acredito, como pode ter feito isso?”. Esse conflito é doloroso. E é justamente aí que a contra-acusação cumpre uma função psicológica poderosa.
Ao ouvir que H também estaria envolvida, o apoiador de D experimenta uma forma de compensação emocional. O problema não desaparece, mas fica menos humilhante. A queda de N já não é sentida como derrota moral isolada; ela passa a parecer parte de um empate sujo. O raciocínio vira algo como: “sim, houve erro aqui, mas lá também houve; então ninguém pode apontar o dedo”.
Do ponto de vista clínico e social, isso reduz a angústia de pertencimento. A mentira ou a suspeita fabricada funciona como analgésico moral coletivo. Ela protege a identidade do grupo, não por limpar a realidade, mas por relativizar o peso da culpa. Essa dinâmica ajuda a explicar por que desinformação política não se espalha apenas porque engana; ela também se espalha porque consola identidades feridas.
O dano social: quando todos passam a parecer iguais
O problema é que esse tipo de prática não atinge apenas os protagonistas diretos do conflito. Ela modifica a textura moral da sociedade.
Quando um partido transforma um escândalo real em arma para fabricar uma equivalência falsa, ele não está apenas atacando um adversário. Está ensinando a sociedade a pensar de forma degradada. Está ensinando que prova e boato podem disputar o mesmo espaço. Que fato e insinuação podem receber tratamento semelhante. Que a verdade não precisa ser refutada; basta ser relativizada.
Com o tempo, isso produz efeitos profundos na vida comum. O cidadão que trabalha, paga contas, cria filhos, enfrenta transporte ruim, escola precária, atendimento de saúde incerto e insegurança econômica passa a olhar a política com um sentimento cada vez mais cínico. Não porque investigou todos os casos a fundo, mas porque foi socializado num ambiente em que todo escândalo logo vira guerra de versões. O resultado psicológico é previsível: exaustão, desconfiança, retraimento e, em muitos casos, indiferença defensiva.
Essa é uma das consequências mais sérias da desinformação politicamente orientada: ela não produz apenas erro informacional; ela produz desistência cívica.
A Brookings Institution, ao discutir guerra informacional e desinformação, chama atenção para o modo como esses processos enfraquecem a confiança pública e comprometem a capacidade de sociedades democráticas distinguirem entre informação confiável e operações de manipulação (Brookings Institution, 2020). Quando isso acontece, as pessoas comuns deixam de decidir apenas com base em preferências políticas; passam a decidir também sob neblina cognitiva e saturação emocional.
Política e guerra: a mesma lógica de contaminação
É importante sublinhar isso com clareza: a tática do partido D não pertence só ao mundo das campanhas eleitorais ou dos escândalos partidários. Ela aparece também nas guerras.
Quando um governo é acusado de atacar civis, esconder interesses econômicos, manipular informações de inteligência ou usar força desproporcional, uma resposta comum não é esclarecer imediatamente o ponto central. Muitas vezes a reação é acusar o adversário de algo paralelo, deslocar o eixo da conversa, misturar eventos distintos, lançar dúvidas sobre fontes e multiplicar interpretações concorrentes. A finalidade é quebrar a nitidez moral do fato original.
Em guerras, isso é ainda mais grave, porque vidas humanas já estão em jogo enquanto a disputa pela narrativa acontece. Se a verdade sobre o conflito é soterrada por propaganda, meias-verdades e equivalências oportunistas, as populações civis ficam duplamente vulneráveis: primeiro à violência material, depois à violência informacional.
Nessa chave, a história de N, H, D, E e do banco M funciona como miniatura de um fenômeno maior. O mecanismo é o mesmo em escalas diferentes: diante de um fato perigoso, o poder tenta não apenas se defender, mas embaralhar o padrão pelo qual a sociedade julga o que é real, relevante e condenável.
A crítica final: o perigo para as decisões das pessoas comuns
A grande preocupação com esse tipo de ação não é apenas que ela destrua reputações ou distorça um caso específico. O problema mais profundo é que ela altera o modo como milhões de pessoas comuns passam a decidir.
Uma pessoa comum não dispõe, em regra, de equipe técnica, tempo investigativo, acesso integral a documentos, treinamento forense ou condições de verificar minuciosamente cada alegação política que recebe. Ela decide com base em informações fragmentadas, impressões, confiança relativa, sinais de credibilidade, repetição e vínculos afetivos. É exatamente por isso que estratégias de confusão são tão eficazes. Elas não precisam convencer completamente; basta que consigam desorganizar o critério de decisão.
Quando isso acontece, o eleitor já não escolhe apenas entre propostas, programas ou trajetórias. Ele escolhe sob bombardeio de equivalências artificiais, sob sensação de que tudo é sujo, sob fadiga moral, sob medo de ser manipulado e, paradoxalmente, já manipulado por esse medo. A consequência política é gravíssima: em vez de premiar quem apresenta mais integridade, parte da sociedade passa a premiar quem consegue manejar melhor a confusão.
É uma inversão perversa.
Em sociedades assim, a mentira deixa de ser apenas desvio ético e se torna ativo estratégico. A propaganda deixa de ser complemento e se torna método de governo. O debate público perde densidade, as instituições perdem legitimidade, os culpados ganham espaço para se diluir e os inocentes se veem forçados a lutar não só por justiça, mas por simples legibilidade.
No fim, o que está em risco é a própria capacidade coletiva de construir juízo. E, sem juízo minimamente compartilhado, não há democracia robusta, não há cidadania madura, não há responsabilização estável. Há apenas disputa permanente por percepção, por ruído e por sobrevivência narrativa.
Por isso, a história de N e H deve ser lida como advertência. Quando um grupo admite o próprio escândalo, mas corre para fabricar um escândalo espelhado no adversário, não está apenas praticando cinismo. Está participando de um processo mais amplo de corrosão social. Está treinando a população a desconfiar de tudo, a equiparar fatos distintos, a abandonar a exigência de prova e a conviver com a degradação da verdade como se ela fosse inevitável.
E uma sociedade que se acostuma a viver assim se torna mais fácil de conduzir, mais fácil de dividir e mais fácil de dominar.
Referências
BROOKINGS INSTITUTION. Disinformed democracy: the past, present, and future of information warfare. Washington, D.C., 2020. Disponível em: https://www.brookings.edu/wp-content/uploads/2020/10/fp_20201002_disinformed_democracy_transcript.pdf. Acesso em: 11 mar. 2026.
ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Whataboutism. 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/whataboutism. Acesso em: 11 mar. 2026.
FAZIO, Lisa K. et al. Knowledge does not protect against illusory truth. Journal of Experimental Psychology: General, Washington, v. 144, n. 5, p. 993-1002, 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26301795/. Acesso em: 11 mar. 2026.
PAUL, Christopher; MATTHEWS, Miriam. The Russian “firehose of falsehood” propaganda model: why it might work and options to counter it. Santa Monica: RAND Corporation, 2016. Disponível em: https://www.rand.org/pubs/perspectives/PE198.html. Acesso em: 11 mar. 2026.
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