terça-feira, 24 de março de 2026

Quando a política vira profecia, quando a profecia vira política

Devoção, poder, misticismo e pseudociência na construção de narrativas políticas e geopolíticas



Índice

  1. Lide
  2. Introdução: o problema de fundo
  3. Profecia, religião, misticismo e pseudociência: distinções necessárias
    3.1 Profecia como linguagem moral
    3.2 Misticismo como busca humana de sentido
    3.3 Pseudociência como simulação de conhecimento
  4. Quando a política se veste de sagrado
    4.1 O líder ungido
    4.2 A eleição como batalha escatológica
    4.3 O inimigo como força demonizada
  5. Casos contemporâneos no mundo
    5.1 Estados Unidos: Trump, profecias e nacionalismo cristão
    5.2 Brasil: devoção, guerra cultural e imaginação providencial
    5.3 Nigéria: o “profeta eleitoral”
    5.4 Rússia: guerra, missão civilizacional e sacralização do Estado
    5.5 Índia: mito, maioria religiosa e poder nacional
    5.6 Oriente Médio e sionismo cristão: geopolítica como cumprimento profético
  6. Por que isso funciona? Psicologia social, medo e necessidade de certeza
  7. O elo com a pseudociência e com a desinformação
  8. Geopolítica, narrativa e manipulação simbólica do futuro
  9. Conclusão
  10. Perguntas frequentes
  11. Pontos centrais do artigo
  12. Indicação de livros
  13. Referências




Lide



Em períodos de crise, insegurança e polarização, sociedades inteiras se tornam mais receptivas a narrativas que prometem decifrar o futuro. É nesse terreno que profecias, profetas midiáticos, líderes “ungidos”, astrologias políticas, visões apocalípticas e discursos pseudocientíficos deixam de ser apenas expressões marginais de crença e passam a disputar o centro do poder. A política, então, deixa de ser apresentada como arena de escolhas humanas, conflito de interesses e deliberação democrática, para ser convertida em destino, revelação ou missão sagrada. O problema não está apenas na fé. Está no momento em que o sagrado se transforma em instrumento de legitimação do poder e no instante em que o poder se apropria do sagrado para blindar líderes, guerras, projetos nacionais e agendas geopolíticas contra a crítica racional. 



1. Introdução: o problema de fundo



Há uma diferença decisiva entre religião como experiência humana de transcendência e religião como tecnologia simbólica de poder. A primeira pertence ao campo da consciência, da ética, da comunidade e da espiritualidade. A segunda opera como linguagem de mobilização coletiva, disciplina afetiva e legitimação política. Quando se diz que determinado governante foi “escolhido por Deus”, que certa guerra cumpre “um plano superior” ou que uma nação está destinada a exercer uma missão redentora sobre o mundo, o debate político sofre uma mutação profunda: sai do plano da responsabilidade humana e entra no plano do destino sacralizado. 


Esse deslocamento não é periférico. Ele aparece em democracias, regimes híbridos, conflitos internacionais e campanhas eleitorais. Em contextos distintos, a retórica profética pode sustentar populismos, nacionalismos religiosos, guerras culturais, leituras conspiratórias da história e projetos geopolíticos apresentados como inevitáveis. O que está em jogo, portanto, não é somente a crença em profecias, mas a transformação da narrativa religiosa em mecanismo de gestão simbólica do poder. 


A questão central deste artigo é a seguinte: por que, em pleno século XXI, com abundância de dados, redes digitais, instituições científicas e sistemas de informação globais, tantas pessoas ainda aderem a discursos políticos estruturados por profecias, misticismo e pseudociência? A resposta exige uma abordagem cruzada entre sociologia da religião, ciência política, psicologia social e estudos da desinformação. O ser humano não busca apenas fatos; busca sentido. E, em tempos de medo, o sentido simples costuma derrotar a complexidade verdadeira. 



2. Profecia, religião, misticismo e pseudociência: distinções necessárias



Antes de aprofundar o tema, convém separar conceitos que frequentemente aparecem misturados no debate público.



2.1 Profecia como linguagem moral



Em tradições religiosas, a profecia nem sempre significa previsão literal do futuro. Muitas vezes, ela é denúncia ética do presente. O profeta, nesse sentido clássico, não é apenas alguém que antecipa eventos, mas alguém que lê o seu tempo à luz de um horizonte moral e convoca a comunidade à responsabilidade. O problema começa quando essa linguagem deixa de interpelar a consciência e passa a funcionar como chancela política: o governante é justificado porque seria “enviado”, o programa de governo se torna “vontade superior”, e o conflito histórico é reconfigurado como roteiro já escrito. 



2.2 Misticismo como busca humana de sentido



O misticismo, em sentido amplo, decorre da tendência humana de buscar conexões ocultas, sinais, correspondências, ciclos e significados profundos por trás da realidade visível. Em momentos de instabilidade, essa busca se intensifica. Crises econômicas, guerras, pandemias, transformações tecnológicas e colapsos institucionais ampliam a ansiedade coletiva. Quando o mundo parece opaco, as pessoas passam a valorizar narrativas que prometem revelar a “verdade escondida” dos acontecimentos. Essa necessidade psicológica de previsibilidade e coerência é amplamente reconhecida na literatura sobre crenças conspiratórias e adesão a explicações simplificadas em contextos de incerteza. 



2.3 Pseudociência como simulação de conhecimento



A pseudociência, por sua vez, não é mera crença religiosa. Trata-se de algo mais específico: um sistema que pretende explicar fenômenos com aparência de método, mas sem atender aos critérios de validação científica. A Encyclopaedia Britannica define pseudociência como um sistema que tenta explicar fenômenos físicos, mas que não pode ser demonstrado pelo método científico. Quando astrologia política, numerologia eleitoral, “mapas vibracionais de governos”, videntes de mercado ou “analistas místicos da geopolítica” são apresentados como fontes confiáveis de previsão objetiva, o que se tem não é ciência, mas simulação de ciência. 


Essa distinção é crucial. A fé pertence ao campo do sentido; a ciência, ao da verificação empírica; a pseudociência ocupa indevidamente o lugar da explicação objetiva sem aceitar os controles do conhecimento rigoroso. É exatamente por isso que ela é tão funcional politicamente: oferece certeza forte, linguagem técnica aparente e baixa exigência de comprovação. 



3. Quando a política se veste de sagrado




3.1 O líder ungido



Um dos mecanismos mais poderosos da política sacralizada é a figura do líder ungido. O governante não aparece apenas como administrador ou representante, mas como instrumento providencial da história. Essa operação é extremamente eficaz porque desloca a crítica política para o campo da blasfêmia simbólica. Criticar o líder passa a soar, para sua base, como atacar uma missão transcendente. Pesquisas recentes sobre populismo mostram justamente que muitas experiências populistas contemporâneas assumem dimensões sagradas, carismáticas, redentivas e até apocalípticas. 



3.2 A eleição como batalha escatológica



Outro mecanismo recorrente é a transformação da eleição em guerra espiritual ou batalha final entre bem e mal. A disputa entre projetos de sociedade é recodificada como confronto absoluto entre salvação e perdição. Nesse enquadramento, o voto deixa de ser ato político deliberativo e vira gesto de fidelidade moral, religiosa ou civilizacional. O eleitor não escolhe apenas um programa; ele “toma partido” numa narrativa totalizante. Esse recurso retórico produz altíssimo engajamento, porque simplifica o mundo e atribui ao ato político uma gravidade cósmica. 



3.3 O inimigo como força demonizada



Quando a política entra nesse registro, o adversário não é apenas errado: ele é impuro, maligno, anticristão, antinacional ou anticivilizacional. A demonização do outro reduz a possibilidade de mediação democrática e legitima práticas de exclusão mais duras. Se o inimigo representa uma ameaça cósmica, quase tudo passa a parecer permitido em nome da “defesa da verdade”. A retórica religiosa, então, deixa de ser linguagem de comunidade e se transforma em combustível para intolerância, autoritarismo e suspensão prática do pluralismo. 



4. Casos contemporâneos no mundo




4.1 Estados Unidos: Trump, profecias e nacionalismo cristão



Nos Estados Unidos, a relação entre profecia e política tornou-se particularmente visível no entorno de Donald Trump. Pesquisas acadêmicas analisaram o fenômeno das chamadas “Trump prophecies”, isto é, declarações de lideranças evangélicas carismáticas que apresentaram Trump como escolhido por Deus para restaurar a nação. Um dos enquadramentos mais conhecidos foi a analogia com Ciro, rei persa do texto bíblico: alguém moralmente imperfeito, mas usado por Deus para cumprir um propósito histórico. Esse enquadramento teve forte efeito político, porque ofereceu uma solução teológica para a contradição entre o perfil pessoal do líder e a expectativa religiosa de parte de sua base. 


Não se tratou de detalhe retórico. A literatura também relaciona esse fenômeno ao nacionalismo cristão norte-americano e ao crescimento de formas de dominionismo carismático, nas quais a política é vista como espaço de conquista espiritual e restauração moral da nação. A noção de que os Estados Unidos teriam um destino providencial, somada à crença em líderes ungidos, fortalece a disposição para enxergar derrotas eleitorais, decisões judiciais ou críticas da imprensa como ataques a uma missão divina, e não como parte normal da vida democrática. 



4.2 Brasil: devoção, guerra cultural e imaginação providencial



No Brasil, o entrelaçamento entre devoção e política ganhou enorme intensidade nas últimas décadas, especialmente com o crescimento da presença evangélica na esfera pública e a consolidação de discursos de guerra cultural. Pesquisas recentes mostram que, em determinados setores, a política externa, o debate moral e a própria identidade nacional foram articulados à ideia de defesa da “civilização judaico-cristã” e da nação como espaço de combate espiritual. A figura do governante como “defensor da fé” ajuda a sacralizar agendas políticas e a reduzir a crítica a elas a um suposto ataque à religião. 


Esse processo não se limita à teologia. Ele se conecta à lógica da mídia digital, da circulação de símbolos religiosos e da estética emocional da política. Fotografias, gestos, orações públicas, slogans religiosos e interpretações providencialistas da história funcionam como marcadores de autenticidade. Em vez de demonstração programática, oferece-se identificação moral. Em vez de análise complexa, entrega-se pertencimento espiritual. É uma política de afeto, mas também uma política de blindagem. 



4.3 Nigéria: o “profeta eleitoral”



A Nigéria fornece um caso particularmente didático do chamado “electoral prophetism”. Estudos mostram que períodos eleitorais são marcados por profecias públicas sobre vencedores, derrotas, tragédias e mudanças de poder. Nesse contexto, profetas religiosos não atuam apenas como líderes espirituais, mas como atores de influência política, capazes de produzir expectativas, tensionar reputações e disputar capital simbólico no espaço público. 


O elemento sociologicamente mais importante é que a profecia eleitoral não depende apenas de acerto empírico. Mesmo previsões equivocadas podem ser reinterpretadas, adiadas ou justificadas em termos espirituais. Isso preserva o prestígio do profeta e demonstra que seu valor social não está somente em prever, mas em organizar narrativas de sentido. O profeta, nesse cenário, funciona como mediador entre o caos do presente e a promessa de inteligibilidade do futuro. 



4.4 Rússia: guerra, missão civilizacional e sacralização do Estado



No caso russo, estudos recentes mostram a persistência de narrativas religiosas e civilizacionais que vinculam o Estado a uma missão histórica superior. A ideia de Moscou como “Terceira Roma”, embora antiga, continua relevante como imaginário político. Mais recentemente, análises sobre o Conselho Mundial do Povo Russo e a retórica da Igreja Ortodoxa Russa destacaram enquadramentos da guerra contra a Ucrânia como “guerra santa”, com componentes escatológicos e apocalípticos. Isso revela uma perigosa fusão entre religião, nacionalismo e militarização do destino coletivo. 


Quando a guerra é narrada como missão civilizacional, ela deixa de aparecer como decisão humana sujeita a julgamento moral e passa a adquirir ares de necessidade histórica sagrada. O sofrimento concreto de populações civis, a devastação material e a responsabilidade política tendem a ser absorvidos por uma gramática de grandeza, defesa espiritual e combate metafísico. Esse tipo de sacralização da guerra é uma das formas mais perigosas de teologização da política contemporânea. 



4.5 Índia: mito, maioria religiosa e poder nacional



Na Índia, o crescimento do nacionalismo hindu associado ao ciclo político de Narendra Modi reforçou debates sobre o papel dos mitos e narrativas civilizacionais na legitimação do poder. A noção de “mythopolitics”, discutida em estudos recentes, ajuda a compreender como histórias sagradas, memórias civilizacionais e imaginários de restauração nacional passam a operar como instrumentos de disputa política concreta. O mito, nesse caso, não é resíduo do passado; é tecnologia contemporânea de mobilização. 


O ponto decisivo aqui é que a política se apresenta menos como gestão plural de uma sociedade complexa e mais como recuperação de uma essência perdida da nação. A maioria religiosa torna-se sujeito histórico privilegiado, e as minorias podem ser tratadas como obstáculos à realização dessa verdade nacional. Não se trata apenas de fé. Trata-se de transformar identidade religiosa em fundamento de hierarquia política. 



4.6 Oriente Médio e sionismo cristão: geopolítica como cumprimento profético



No campo geopolítico, poucas convergências entre religião e estratégia são tão visíveis quanto o sionismo cristão. Pesquisas recentes mostram sua expansão no Sul Global e seu impacto sobre imaginários políticos em diferentes países. Para muitos grupos, Israel não é visto apenas como ator estatal do sistema internacional, mas como peça central de uma narrativa profética sobre o fim dos tempos e o cumprimento da história sagrada. 


Essa leitura tem efeitos políticos reais. Quando conflitos, ocupações, deslocamentos populacionais e alianças militares são absorvidos por uma gramática profética, o debate diplomático tende a perder espaço para a lógica do destino. A geopolítica é reescrita como escatologia. E, nesse registro, a dor humana corre o risco de ser narrada como etapa necessária de um roteiro transcendente. É justamente aí que o sagrado deixa de ser consolo e passa a funcionar como legitimador de violência histórica. 



5. Por que isso funciona? Psicologia social, medo e necessidade de certeza



A força dessas narrativas não pode ser explicada apenas por manipulação externa. Elas funcionam porque dialogam com necessidades humanas profundas. Em tempos de crise, as pessoas procuram coerência, previsibilidade e pertencimento. Explicações simplificadas, com culpados claros e futuros inteligíveis, oferecem alívio cognitivo. Pesquisas em psicologia social mostram que crenças conspiratórias e formas correlatas de raciocínio ganham força em contextos de incerteza porque fornecem sensação de ordem diante do caos. 


Há também a dimensão carismática. Lideranças associadas a profecias, sinais e missões sagradas parecem maiores do que os próprios cargos que ocupam. Elas não se apresentam como meros administradores, mas como intérpretes privilegiados de uma história oculta. Isso fortalece o vínculo afetivo com a base e enfraquece o papel de instituições impessoais, regras procedimentais e critérios técnicos. A autoridade deixa de se apoiar apenas no direito ou no desempenho e passa a se apoiar em excepcionalidade simbólica. 


Além disso, a mente humana possui forte tendência a reconhecer padrões, inclusive quando eles são frágeis, arbitrários ou inexistentes. Coincidências, datas, gestos, doenças, tragédias e resultados eleitorais podem ser encaixados numa narrativa providencial. Esse processo transforma o acaso em sinal e a analogia em suposta prova. Em um ambiente digital saturado por imagens, cortes e repetições emocionais, a circulação desse tipo de interpretação se torna ainda mais veloz. 



6. O elo com a pseudociência e com a desinformação



A política profética contemporânea nem sempre se limita ao campo religioso. Muitas vezes ela se articula com pseudociências e práticas discursivas que imitam a ciência. Astrologia eleitoral, numerologia de campanhas, mapas energéticos de líderes, “análises quânticas” de governos e previsões políticas baseadas em métodos esotéricos são exemplos de conteúdos que ganham verniz técnico sem qualquer base empírica robusta. O objetivo não é conhecer melhor a realidade, mas oferecer ao público a sensação de que existe um método oculto capaz de revelar a verdade final dos acontecimentos. 


Esse ponto é central porque a pseudociência se encaixa perfeitamente na lógica da desinformação. Ela oferece explicações fáceis, retórica de autoridade e baixa verificabilidade. Em vez de abrir o debate, ela o fecha. Em vez de admitir incerteza, ela performa precisão. Em vez de permitir revisão, ela exige crença. A literatura recente sobre misinformation destaca justamente que ambientes digitais favorecem a circulação de conteúdos enganosos, rumores e narrativas simplificadas, especialmente quando eles mobilizam emoção, identidade e sensação de revelação. 


O falso profeta moderno não precisa mais ocupar apenas um púlpito. Ele pode operar como influenciador, comentarista geopolítico, mentor espiritual, consultor financeiro, “cientista alternativo” ou youtuber de previsões. Seu capital não depende de método rigoroso, mas de confiança afetiva, repetição e performance de convicção. Em muitos casos, ele combina elementos religiosos, conspiratórios e pseudocientíficos num mesmo discurso. É a fusão perfeita entre carisma, mercado e desinformação. 



7. Geopolítica, narrativa e manipulação simbólica do futuro



Na geopolítica, o uso de profecias e imaginários escatológicos cumpre função particularmente estratégica. Ele transforma disputas concretas por território, poder militar, recursos, prestígio e influência em dramas civilizacionais ou sagrados. O conflito deixa de parecer contingente e negociável; passa a parecer inevitável. Esse enquadramento é extremamente útil para governos e movimentos que desejam consolidar coesão interna, justificar sacrifícios e desqualificar vozes dissidentes. 


Existe, aqui, uma inversão decisiva. O futuro, que deveria ser entendido como campo aberto de possibilidades históricas, é tratado como roteiro já revelado. Ao fazer isso, a narrativa profética diminui o peso da responsabilidade humana. Se tudo já está escrito, líderes apenas cumprem papel. Se a guerra seria inevitável, a política deixa de ser escolha e passa a ser execução. Se a nação teria uma missão sagrada, qualquer crítica pode ser enquadrada como traição. A profecia, então, não descreve o futuro: ela organiza o presente para produzir adesão. 


Por isso, o ponto central não é discutir apenas se determinada profecia “acerta” ou “erra”. A pergunta mais importante é outra: o que essa narrativa faz politicamente? Ela amplia o pensamento crítico ou o bloqueia? Ela humaniza o adversário ou o demoniza? Ela fortalece a prudência institucional ou a enfraquece? Ela incentiva o debate público ou o substitui por obediência carismática? Essas são as questões realmente decisivas. 



8. Conclusão



Quando a política vira profecia, o poder tenta adquirir a aura da inevitabilidade. Quando a profecia vira política, a transcendência é convertida em instrumento de governo. Nos dois casos, o resultado costuma ser perigoso para a democracia, para a racionalidade pública e para a paz. O problema não está em reconhecer que a experiência religiosa continua viva no mundo contemporâneo. Tampouco está em negar que seres humanos busquem sentido, transcendência e esperança. O problema começa quando essas dimensões são instrumentalizadas para blindar líderes, naturalizar guerras, transformar adversários em encarnações do mal e substituir o debate racional por narrativas absolutas.


A pesquisa contemporânea mostra que esse fenômeno não é local nem episódico. Ele atravessa os Estados Unidos, o Brasil, a Nigéria, a Rússia, a Índia e as disputas geopolíticas em torno do Oriente Médio. Em todos esses casos, aparecem variações de um mesmo padrão: crise social, ansiedade coletiva, necessidade de certeza, carisma político, linguagem religiosa e ecossistemas de desinformação. A profecia oferece sentido; a pseudociência oferece aparência de método; a política oferece o campo de aplicação. Juntas, elas podem produzir uma máquina simbólica de enorme poder.


É precisamente por isso que uma sociedade democrática madura precisa aprender a fazer distinções firmes. Respeitar a fé não significa submeter a política à revelação. Reconhecer a força do simbólico não significa aceitar a pseudociência como conhecimento. Admitir a importância da religião no espaço público não significa permitir que líderes se apresentem como portadores de imunidade sagrada. A política democrática continua sendo, apesar de tudo, o lugar do dissenso humano, da responsabilidade compartilhada e da escolha histórica. Sempre que se afirma que o futuro já está revelado, corre-se o risco de retirar das pessoas aquilo que a cidadania tem de mais profundo: a capacidade de julgar, decidir e transformar o mundo. 



Perguntas frequentes




1. Toda profecia é pseudociência?



Não. Profecia religiosa e pseudociência não são a mesma coisa. A profecia pode operar como linguagem moral ou espiritual. A pseudociência surge quando uma crença tenta se apresentar como conhecimento objetivo validado sem atender aos critérios do método científico. 



2. O problema está na religião?



Não exatamente. O problema está na instrumentalização política da religião e na conversão do sagrado em blindagem ideológica do poder. 



3. Por que líderes “ungidos” atraem tantas pessoas?



Porque oferecem sentido, certeza, pertencimento e uma narrativa forte em tempos de crise. O carisma funciona como resposta emocional à insegurança social. 



4. Existe relação entre profecia política e desinformação digital?



Sim. Redes digitais favorecem conteúdos emocionalmente intensos, simplificados e difíceis de verificar, o que amplia a circulação de discursos proféticos, conspiratórios e pseudocientíficos. 



5. Qual é o maior risco democrático desse fenômeno?



O maior risco é retirar da política o seu caráter deliberativo e convertê-la em missão sagrada ou destino inevitável, tornando a crítica um pecado e o adversário um inimigo absoluto. 



5 pontos centrais do artigo



  1. Profecia, religião, misticismo e pseudociência são fenômenos distintos, embora muitas vezes apareçam misturados no discurso político.
  2. A sacralização do líder e da nação é uma forma potente de blindagem simbólica do poder.
  3. Casos recentes em vários países mostram que narrativas proféticas influenciam eleições, políticas externas e conflitos internacionais.
  4. A adesão social a essas narrativas cresce em contextos de medo, incerteza e crise de confiança institucional.
  5. O uso político de profecias e pseudociências enfraquece o debate racional e pode corroer a cultura democrática.




Indicação de 3 livros sobre o assunto



  1. Alberto Toscano. Fanatismo: o uso da ideia e sua história.
    Útil para compreender como a acusação de irracionalidade, fervor e excesso é historicamente mobilizada na política e na religião.
  2. Jan-Werner Müller. O que é populismo?
    Não trata apenas de profecia, mas ajuda a entender como lideranças constroem uma moralização do conflito político e uma pretensão de representação exclusiva do “povo verdadeiro”.
  3. Karen Armstrong. Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islã.
    Obra importante para compreender a politização de crenças religiosas e a passagem da fé para projetos de poder.




Referências



BRITANNICA. Pseudoscience. Encyclopaedia Britannica, 13 fev. 2026. Disponível em: Encyclopaedia Britannica. Acesso em: 23 mar. 2026. 


DEHANAS, Daniel Nilsson; SHILLIAM, Robbie. The spirit of populism: sacred, charismatic, redemptive, and apocalyptic politics. Democratization, 2024. Disponível em: Taylor & Francis. Acesso em: 23 mar. 2026. 


DUARTE, Tatiane S. “Our time has come! It’s time for the church to govern”. Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, 2020. Disponível em: SciELO. Acesso em: 23 mar. 2026. 


IKEM, Augustine P. Pentecostalism, Electoral Prophetism and National Security in Nigeria. Journal of African Elections, 2020. Disponível em: Taylor & Francis. Acesso em: 23 mar. 2026. 


ISHIYAMA, John. Christian nationalism and attitudes about democracy in Africa. Politics and Religion, 2025. Disponível em: Cambridge University Press. Acesso em: 23 mar. 2026. 


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KLEIN, Márcio. The African Agenda of Evangelical Christians in Brazilian Foreign Policy. Brazilian Political Science Review, 2024. Disponível em: SciELO. Acesso em: 23 mar. 2026. 


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