segunda-feira, 23 de março de 2026

Arendt diante das guerras do presente: Uma leitura crítica de Da Violência para compreender Ucrânia, Gaza, Sudão e a crise contemporânea da política

 


Índice

  1. Introdução
  2. O núcleo teórico de Hannah Arendt em Da Violência
    1. Poder não é violência
    2. A centralidade dos meios
    3. Violência e crise de legitimidade
  3. As guerras atuais e a atualidade de Arendt
    1. Ucrânia: destruição sem conversão automática em poder
    2. Gaza: assimetria militar e ruína do mundo comum
    3. Sudão: violência como sintoma de decomposição do poder
  4. Os limites de Arendt para pensar o século XXI
    1. Guerra algorítmica e tecnologias de vigilância
    2. Economia política da guerra permanente
    3. A adaptação da guerra abaixo do limiar nuclear
  5. Comparação crítica: o que Arendt ainda explica — e o que precisa ser ampliado
  6. Conclusão
  7. Referências


Introdução

Poucos livros do século XX envelheceram tão bem quanto Da Violência, de Hannah Arendt. Em um tempo marcado por guerras prolongadas, destruição urbana em escala industrial, drones, ataques à infraestrutura civil, colapso humanitário e crises profundas de legitimidade política, a obra retorna com força. Não porque ofereça respostas prontas, mas porque obriga a recolocar a pergunta essencial: quando um Estado, uma coalizão militar ou um grupo armado usa violência maciça, isso significa que ele é forte — ou justamente que seu poder político está falhando?


Essa é a chave de Arendt. Para ela, poder e violência não são a mesma coisa. O poder nasce da ação em comum, da legitimidade, da capacidade de pessoas agirem juntas em torno de uma ordem reconhecida. A violência, ao contrário, é instrumental. Ela depende de meios técnicos, de armas, aparatos, dispositivos de coerção. Pode destruir rapidamente. Pode impor obediência imediata. Pode devastar cidades. Mas não cria, por si só, a legitimidade que sustenta o poder duradouro (Arendt, 1985)   


Quando se olha para as guerras do presente — Ucrânia, Gaza, Sudão e outros focos de conflito — o diagnóstico arendtiano continua perturbadoramente fértil. Em quase todos esses cenários, vê-se uma expansão extraordinária da capacidade destrutiva, mas não uma expansão equivalente da capacidade de produzir ordem política legítima. O que cresce é a destruição. O que diminui é a política.



O núcleo teórico de Hannah Arendt em Da Violência




Poder não é violência



Uma das contribuições mais decisivas de Arendt é recusar a tradição que confunde poder com dominação armada. Em Da Violência, ela insiste que o poder não deriva simplesmente da posse dos meios de coerção. O poder surge quando um grupo se reúne e age de comum acordo. Por isso, poder está ligado à legitimidade; violência, à instrumentalidade. Onde ambos aparecem juntos, a violência pode servir de suporte, mas não substitui o fundamento político do poder (Arendt, 1985) 


Essa distinção é crucial porque desmonta uma ideia muito repetida em épocas de guerra: a de que quem destrói mais é automaticamente quem possui mais poder. Arendt mostra que isso é conceitualmente falso. Um exército pode ter superioridade técnica, destruir hospitais, redes elétricas, bairros inteiros e até submeter temporariamente uma população ao medo. Ainda assim, não converter essa capacidade em legitimidade política, em adesão durável ou em ordem institucional reconhecida. Nesse caso, há violência em abundância, mas poder em crise.



A centralidade dos meios



Outro ponto central da obra é a crítica à lógica meio-fim. Arendt observa que a substância da violência é governada pela relação entre meios e objetivos. O problema é que, na política, os meios violentos frequentemente crescem até dominar os próprios fins que supostamente deveriam servir. Em outras palavras: começa-se dizendo que a violência é um instrumento limitado para um objetivo político; termina-se com os instrumentos conduzindo a dinâmica do conflito (Arendt, 1985)   


Essa percepção é decisiva para entender a guerra contemporânea. Hoje, não raro, a destruição deixa de ser apenas um meio e se converte em sistema. Mantém-se a guerra para preservar capacidade de guerra; intensifica-se o ataque para não parecer fraco; amplia-se a destruição para sustentar credibilidade estratégica. Os meios passam a governar os fins.



Violência e crise de legitimidade



Arendt também formula uma ideia poderosa: quanto mais burocratizada, opaca ou esvaziada de canais políticos é a vida pública, maior tende a ser a atração exercida pela violência. Em sua análise, a violência aparece com frequência quando o espaço da ação política se deteriora, quando a legitimidade entra em colapso e quando não há interlocução real entre governantes e governados (Arendt, 1985) 


Essa tese, pensada originalmente em outro contexto, ajuda hoje a compreender tanto a escalada estatal quanto a proliferação de atores armados não estatais. Em vários conflitos atuais, a violência não surge como desvio ocasional da política, mas como sintoma de sua corrosão.



As guerras atuais e a atualidade de Arendt




Ucrânia: destruição sem conversão automática em poder



A guerra na Ucrânia é talvez um dos casos mais evidentes da atualidade de Arendt. Relatórios recentes da ONU indicam que, em fevereiro de 2026, ataques com mísseis, bombas aéreas e drones continuaram a produzir elevadas baixas civis; apenas em fevereiro, a Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos registrou 188 civis mortos e 757 feridos, com forte peso dos ataques de longo alcance e de drones em áreas urbanas e próximas à linha de frente. 


À luz de Arendt, a questão decisiva não é apenas quantos meios de destruição estão em uso, mas o que eles produzem politicamente. A Rússia demonstra capacidade destrutiva persistente. Contudo, essa capacidade não se converteu automaticamente em poder político legítimo sobre a sociedade ucraniana. O Estado ucraniano continua existindo, a resistência social e militar persiste, e o conflito prolongado indica precisamente a insuficiência da violência para produzir aquilo que Arendt chamaria de poder efetivo, isto é, uma ordem sustentada por algum tipo de reconhecimento político coletivo (Arendt, 1985)   


Aqui se vê a força da distinção arendtiana: violência pode destruir o poder do outro, enfraquecer infraestrutura, espalhar medo e produzir obediência imediata; mas não gera, por si só, legitimidade. A guerra na Ucrânia mostra que supremacia destrutiva não é sinônimo de soberania política consolidada. Arendt continua precisa nesse ponto.



Gaza: assimetria militar e ruína do mundo comum



Em Gaza, a leitura de Arendt adquire uma densidade ainda mais trágica. Relatórios humanitários de março de 2026 descrevem a continuidade de ataques a áreas civis, restrições severas às operações de ajuda, destruição de infraestrutura essencial e aprofundamento do colapso sanitário e social. Organismos da ONU e especialistas em direitos humanos seguem alertando para o impacto da destruição de infraestrutura, dos deslocamentos massivos e das restrições de acesso a serviços básicos. 


Arendt não escreveu sobre Gaza nos termos atuais, evidentemente. Mas seu conceito de violência como instrumento que pode ultrapassar qualquer finalidade inteligível ajuda a compreender a tragédia. Quando a destruição deixa de atingir apenas alvos estritamente militares e passa a desorganizar sistematicamente habitação, água, saneamento, circulação, atendimento médico e reprodução material da vida, a política entra em colapso. Já não se trata apenas de vencer um inimigo armado; trata-se de corroer as próprias condições de existência de um mundo comum.


E aqui vale insistir em um ponto propriamente arendtiano: a política exige um espaço comum onde os seres humanos possam aparecer, agir, falar, negociar, disputar e reconstruir. A devastação em larga escala faz exatamente o contrário. Ela transforma o espaço do possível em ruína. Desse modo, a violência não apenas mata; ela inviabiliza o futuro da política. Em Gaza, Arendt continua útil porque mostra que a expansão ilimitada da força não resolve a crise política — ela a aprofunda.



Sudão: violência como sintoma de decomposição do poder



No Sudão, o cenário ilumina outro aspecto central de Da Violência: a violência como sinal de dissolução da autoridade e da ordem política. Em março de 2026, o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos denunciou uma escalada de ataques com drones contra civis em Kordofan e White Nile, incluindo mortes em mercados, caminhões civis e instalações de saúde. Notícias recentes também registraram ataques letais a hospital em East Darfur e agravamento do transbordamento regional da guerra, inclusive sobre o Chade. 


Nesse caso, a violência não parece sequer funcionar como instrumento de uma ordem estatal minimamente coesa. Ela aparece como expressão da fragmentação do poder. O Estado se enfraquece, multiplicam-se centros armados concorrentes, e a guerra passa a reproduzir a própria ausência de autoridade legítima. Esse tipo de conflito confirma a tese de Arendt de que a violência cresce quando o poder se esvazia.


Se na Ucrânia a violência mostra o fracasso em converter coerção em domínio legítimo, e em Gaza a destruição ameaça o próprio espaço da política, no Sudão a violência escancara a decomposição do tecido político-institucional. É a guerra como sintoma de desintegração.



Os limites de Arendt para pensar o século XXI




Guerra algorítmica e tecnologias de vigilância



Apesar de sua enorme força analítica, Arendt não podia prever plenamente a configuração técnica das guerras atuais. Hoje, a violência não se exerce apenas por tanques, artilharia e infantaria. Ela é mediada por drones baratos, satélites, sistemas de vigilância, inteligência artificial, bancos de dados, sensores, rastreamento de sinais, plataformas digitais e operações cibernéticas.


Isso não invalida Arendt; ao contrário, mostra que sua distinção entre poder e violência continua válida, mas precisa ser expandida. O instrumento violento do século XXI tornou-se mais remoto, mais preciso em alguns casos, mais difuso em outros, e muito mais integrado a cadeias informacionais. A violência contemporânea também é logística, algorítmica e comunicacional. Ela opera por classificação de alvos, bloqueio de fluxos, monitoramento de movimentos e administração remota da destruição.



Economia política da guerra permanente



Outro limite de Arendt aparece na necessidade de aprofundar a dimensão econômica da guerra contemporânea. Embora ela compreenda a relação entre tecnologia e violência, o século XXI intensificou a fusão entre indústria militar, plataformas tecnológicas, reconstrução financiada, cadeias energéticas, interesses eleitorais domésticos e geopolítica das sanções.


Guerras atuais não são apenas embates militares; são também sistemas de circulação de capital, contratos, dependências estratégicas, mercados de armamento, financiamento externo e disputa por corredores energéticos e logísticos. Isso significa que a violência não é somente meio de um objetivo político clássico; ela integra uma engrenagem material muito mais ampla. Arendt ajuda a entender o colapso da legitimidade, mas precisa ser complementada por uma crítica da economia política da guerra permanente.



A adaptação da guerra abaixo do limiar nuclear



Arendt escreveu sob a sombra do risco nuclear e do “xadrez apocalíptico” entre superpotências. Seu argumento de que o potencial destrutivo moderno esvazia a racionalidade da guerra continua extremamente relevante (Arendt, 1985)  Mas o século XXI encontrou uma forma de contornar parcialmente esse impasse: em vez de confronto terminal direto entre grandes potências, proliferam guerras híbridas, regionais, prolongadas e assimétricas.


O resultado é paradoxal. A guerra total entre grandes potências continua contida pelo risco de destruição recíproca. Mas, abaixo desse limiar, multiplicam-se conflitos longos, devastadores e politicamente irresolvidos. Em certo sentido, o sistema internacional não superou a irracionalidade da guerra; apenas a redistribuiu em escalas regionais e formas indiretas.



Comparação crítica: o que Arendt ainda explica — e o que precisa ser ampliado



A grande força de Da Violência está em desmontar três ilusões que seguem presentes no debate público atual.


A primeira é a ilusão de que força militar equivale a poder político. Não equivale. A destruição pode ser imensa e, ainda assim, fracassar na produção de legitimidade.


A segunda é a ilusão de que a violência resolve aquilo que a política não resolveu. Em regra, ela adia, agrava ou desloca os problemas. Na Ucrânia, a guerra prolongou a ruptura. Em Gaza, a devastação ampliou a crise humanitária e política. No Sudão, a violência tornou-se parte da própria dissolução institucional. 


A terceira é a ilusão de que os meios permanecem sob controle dos fins. Arendt mostra que isso raramente acontece por muito tempo. E as guerras atuais parecem confirmar exatamente isso: drones, bombardeios, cercos, ataques a infraestrutura e escaladas retaliatórias passam a organizar a própria lógica do conflito.


Ao mesmo tempo, uma leitura crítica exige ir além de Arendt em três direções: incorporar a tecnopolítica da guerra digital; analisar os circuitos econômicos que tornam certos conflitos funcionalmente permanentes; e compreender a disputa narrativa e informacional que hoje acompanha a destruição física. A guerra contemporânea não mata apenas corpos e cidades. Ela também disputa percepção, memória, legitimidade e linguagem.



Conclusão



A comparação entre Da Violência, de Hannah Arendt, e as guerras travadas no mundo atualmente revela uma verdade dura: a modernidade aperfeiçoou extraordinariamente os instrumentos da destruição, mas não resolveu o problema fundamental da política. Talvez o tenha agravado.


Arendt continua decisiva porque ensina que violência e poder não são equivalentes. Poder nasce do agir em comum, da legitimidade, da capacidade de instituir e sustentar um mundo compartilhado. Violência, ao contrário, é meio instrumental, técnica de coerção, mecanismo de destruição. Pode impor silêncio, medo e obediência imediata; pode arrasar bairros, colapsar hospitais, deslocar populações inteiras. Mas não funda sozinha a legitimidade de uma ordem.


É isso que as guerras atuais mostram com brutal nitidez. Na Ucrânia, a destruição não se converte automaticamente em domínio político estável. Em Gaza, a assimetria militar corrói as bases materiais do mundo comum e empurra a política para a ruína. No Sudão, a proliferação da violência expõe a decomposição da própria autoridade. Em todos esses casos, a força aparece menos como sinal de poder consolidado e mais como indício de sua crise.


Ao final, o legado de Arendt talvez possa ser condensado em uma advertência que permanece inteiramente contemporânea: toda vez que a violência ocupa o lugar da política por tempo prolongado, o que se expande não é apenas a destruição do inimigo, mas a destruição do próprio espaço onde a vida política poderia voltar a existir. E esse talvez seja o drama maior do presente: o mundo produz cada vez mais capacidade de guerra, enquanto perde, em muitos lugares, a capacidade de construir legitimidade, limites e convivência.



Referências



ARENDT, Hannah. Da violência. Tradução de Maria Claudia Drummond. [S.l.]: [s.n.], 1985. 


OFFICE OF THE UNITED NATIONS HIGH COMMISSIONER FOR HUMAN RIGHTS. Protection of Civilians in Armed Conflict — February 2026. 2026. 


ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Protection of Civilians in Armed Conflict — January 2026. 2026. 


UNITED NATIONS OFFICE FOR THE COORDINATION OF HUMANITARIAN AFFAIRS. Humanitarian Situation Report | 19 March 2026. 2026. 


OCHA OPT. Humanitarian Situation Report | 6 March 2026. 2026. 


OFFICE OF THE UNITED NATIONS HIGH COMMISSIONER FOR HUMAN RIGHTS. Aid restrictions deepen crisis in the Occupied Palestinian Territories. 2026. 


UNRWA. Situation Report #213 on the Humanitarian Crisis in the Gaza Strip and the West Bank. 2026. 


OFFICE OF THE UNITED NATIONS HIGH COMMISSIONER FOR HUMAN RIGHTS. Sudan: Türk appalled by surge in deadly drone attacks on civilians in Kordofan and White Nile. 2026. 


ASSOCIATED PRESS. A strike on a hospital in Sudan killed at least 64 people, WHO says. 2026. 


REUTERS. Chad relocates Sudan refugees as army deploys near border. 2026. 


ASSOCIATED PRESS. At least 17 dead in fighting on Sudan’s border with Chad, aid group says. 2026. 



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