Índice
- Lide
- Gaza para além da guerra: o território como laboratório geopolítico
- Da devastação à financeirização: quando a destruição vira ativo
- O direito internacional em suspensão
- Reconstrução ou tutela? O problema do “Board of Peace”
- A ONU enfraquecida e a reconfiguração do multilateralismo
- Gaza, China, Estados Unidos e a nova ordem mundial
- O que está realmente em disputa
- Conclusão
- Referências
Lide
Gaza deixou de ser apenas o nome de uma catástrofe humanitária. Tornou-se, ao mesmo tempo, campo de extermínio, vitrine de impunidade, experimento de reconstrução tutelada e símbolo do esgotamento da ordem internacional erguida no pós-Segunda Guerra Mundial. O que se disputa ali não é apenas um pedaço de terra devastado por bombas, cerco e deslocamento forçado. Disputam-se, em Gaza, os sentidos contemporâneos de soberania, legalidade, humanidade, reconstrução e poder global. A tragédia palestina expõe, com uma clareza brutal, que a guerra do século XXI não destrói somente casas, hospitais e escolas: ela também pode abrir caminho para novos mercados, novos administradores externos e novas hierarquias geopolíticas. É por isso que Gaza importa tanto para além de Gaza.
Gaza para além da guerra: o território como laboratório geopolítico
Há momentos em que um território deixa de ser apenas um território e passa a condensar uma era. Gaza é hoje um desses lugares. A persistência da violência, das restrições humanitárias e da destruição social, mesmo após o cessar-fogo anunciado em outubro de 2025, revela que a questão não se resume a uma guerra convencional com início, meio e fim claramente delimitados. Relatórios recentes da OCHA e da UNRWA mostram que a população continua submetida a fechamento de passagens, suspensão de coordenação humanitária, aumento de preços, dependência extrema de ajuda e sequelas físicas e sociais em massa. Em outras palavras, o cessar-fogo não significou normalização; significou apenas a passagem a uma fase distinta de administração da catástrofe.
É justamente aqui que Gaza se torna um laboratório geopolítico. A guerra contemporânea, em muitos casos, já não se limita à conquista militar direta. Ela opera por destruição material, inviabilização da vida civil, desorganização institucional, dependência humanitária e posterior disputa pelo desenho da reconstrução. O território devastado torna-se, então, objeto de engenharia política. Quem reconstrói? Em que termos? Para quem? Sob qual autoridade? Com quais garantias jurídicas? Essas perguntas não são secundárias. Elas definem se a reconstrução será um processo de reparação orientado pelo direito dos povos ou um mecanismo de tutela orientado por interesses estratégicos externos.
Gaza, nesse sentido, tornou-se o ponto exato em que se cruzam cinco vetores: guerra, ocupação, humanitarismo seletivo, financeirização da destruição e reorganização da autoridade internacional. Não se trata apenas da continuação do conflito israelo-palestino por outros meios. Trata-se da transformação da ruína em plataforma de reorganização regional e global. É como se o território, ao ser arrasado, fosse também preparado para ser redesenhado.
Da devastação à financeirização: quando a destruição vira ativo
Uma das marcas mais inquietantes do presente é o fato de que a devastação pode ser tratada economicamente como oportunidade. Essa lógica apareceu com nitidez quando Jared Kushner, empresário do setor imobiliário e figura central do entorno político de Donald Trump, apresentou um “master plan” para uma “nova Gaza”, com zonas costeiras, torres, empreendimentos residenciais, parques industriais e data centers. A própria Reuters registrou que o plano foi mostrado com áreas reservadas a desenvolvimento residencial, industrial e tecnológico. A ABC News informou que o projeto incluía waterfront developments e edifícios de luxo. A crítica central, feita por observadores e especialistas, é direta: a reconstrução corre o risco de ser pensada não a partir do retorno soberano da população palestina e de seus direitos, mas a partir do valor econômico do território devastado.
Essa é a passagem mais perturbadora de toda a equação. A guerra destrói; a destruição desocupa; a desocupação facilita o redesenho; o redesenho abre mercados. O que deveria ser reconhecido como cena de crime coletivo passa a ser tratado por certos setores como fronteira de investimento. É a financeirização da ruína. Não se olha para Gaza como sociedade viva, com memória, história e direitos. Olha-se para Gaza como espaço reprogramável. O solo devastado se converte em ativo; a população, em variável incômoda; a soberania, em obstáculo administrativo.
Essa racionalidade não é nova, mas em Gaza ela aparece com uma crueza rara. O discurso do “desenvolvimento” surge como linguagem aparentemente neutra, moderna e pragmática. Só que desenvolvimento sem autodeterminação pode ser apenas dominação com arquitetura sofisticada. Reconstruir, quando a população não controla o processo político, pode significar reordenar o território para outros. A metáfora é simples: a guerra age como escavadeira; o capital chega depois com a planta baixa.
O direito internacional em suspensão
Outro elemento decisivo para entender Gaza é o colapso prático da autoridade do direito internacional. A Corte Internacional de Justiça mantém em curso o caso apresentado pela África do Sul contra Israel com base na Convenção do Genocídio. Em 2024, a Corte determinou medidas provisórias; em março de 2026, o processo continuava aberto, com novos desdobramentos procedimentais. Isso significa que juridicamente não houve sentença final sobre o mérito, mas também significa que o assunto não foi encerrado, muito menos dissipado. Paralelamente, especialistas da ONU continuam usando linguagem extremamente grave. Em março de 2026, relatores falaram que “o genocídio continua em Gaza” e condenaram projetos de reconstrução guiados por interesses neocoloniais, impunidade e avareza.
O dado central não é apenas jurídico; é civilizacional. O que Gaza demonstra é que a norma internacional segue existindo formalmente, mas encontra enormes dificuldades para limitar a ação de aliados estratégicos das grandes potências. A legalidade permanece no papel, mas sua capacidade de produzir contenção real é seletiva. Isso corrói a credibilidade do sistema. Quando a regra vale integralmente para uns e parcialmente para outros, ela deixa de operar como universalidade e passa a funcionar como instrumento assimétrico de poder.
Esse é um ponto crucial. O problema de Gaza não é apenas o sofrimento palestino, por mais central que ele seja. O problema é que Gaza se converteu em prova histórica de que a legalidade internacional pode ser enfraquecida precisamente quando mais seria necessária. A consequência é devastadora: se o direito não consegue proteger os vulneráveis quando a destruição é televisionada, documentada e debatida diante do mundo inteiro, então a crença no sistema normativo global se rompe. Não por abstração teórica, mas por experiência histórica concreta.
Reconstrução ou tutela? O problema do “Board of Peace”
O anúncio do chamado Board of Peace aprofundou essa controvérsia. Segundo a Reuters, Donald Trump presidiu em fevereiro de 2026 a reunião inaugural do conselho, anunciando compromissos bilionários para a reconstrução de Gaza, com participação de países do Oriente Médio, condicionando parte do processo ao desarmamento do Hamas e sem presença palestina equivalente ao peso do que está em jogo. A iniciativa foi apresentada como estrutura de governança e estabilização. Na aparência, um arranjo de paz. Na substância, para muitos críticos, um organismo que desloca o centro da decisão para fora do povo que habita o território.
A crítica feita por especialistas da ONU foi contundente: qualquer esforço de reconstrução deve ser orientado por normas de direitos humanos e direito internacional, e não por interesses neocoloniais. A palavra “neocolonial” aqui não é mero excesso retórico. Ela aponta para uma estrutura clássica: poderes externos decidem o futuro político, econômico e urbano de um território fragilizado, em nome da estabilidade, da pacificação ou da prosperidade. O sujeito do processo deixa de ser o povo diretamente afetado.
O perigo desse modelo é duplo. Primeiro, porque transforma a reconstrução em prêmio condicional administrado por potências e investidores. Segundo, porque naturaliza a ideia de que a autodeterminação palestina pode ser adiada em nome da eficiência, da segurança ou da governabilidade. Em vez de reparação, surge a tutela. Em vez de soberania, administração. Em vez de paz justa, pacificação funcional. Gaza deixa de ser reconhecida como uma sociedade politicamente titular de direitos e passa a ser tratada como um problema técnico de gestão territorial.
A ONU enfraquecida e a reconfiguração do multilateralismo
Tudo isso ocorre num contexto mais amplo de enfraquecimento do multilateralismo. Em 2026, a própria Reuters informou que a ONU enfrentava crise financeira severa, com atrasos expressivos, risco de colapso de caixa e dívidas bilionárias, inclusive dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, Washington mantinha a cobrança por “reformas” enquanto cortava recursos, saía de organismos e pressionava por reconfiguração institucional. A mensagem implícita é clara: a ONU pode continuar existindo, desde que seja mais dócil aos interesses dos centros de poder que a financiam e a pressionam.
Não é preciso afirmar que exista um plano formal para “acabar” com a ONU. A dinâmica é mais sofisticada. O que se observa é a perda gradual de centralidade do sistema multilateral clássico, substituído em certos temas por coalizões ad hoc, conselhos paralelos, fórmulas híbridas de governança e acordos definidos por correlação de forças. Nessa chave, o “Board of Peace” não é apenas uma proposta sobre Gaza. Ele pode ser lido como sintoma de uma época em que a autoridade internacional passa a ser cada vez mais fragmentada, seletiva e disputada.
A erosão da ONU não interessa apenas aos Estados Unidos, mas Washington tem peso decisivo nesse processo. E Gaza oferece o cenário ideal para esse deslocamento: uma crise humanitária gigantesca, uma sociedade devastada, um conflito de altíssimo valor geopolítico e um sistema internacional incapaz de produzir consenso efetivo. Quando a ONU enfraquece, quem ocupa o vazio? Essa é a pergunta decisiva. Em geral, não são os povos atingidos. São os mais fortes.
Gaza, China, Estados Unidos e a nova ordem mundial
Falar de Gaza é também falar da transição da ordem mundial. Não porque Gaza determine sozinha o sistema internacional, mas porque ali se condensam tensões maiores: declínio relativo da hegemonia liberal do pós-guerra, crise de legitimidade das instituições multilaterais, competição entre grandes potências e instrumentalização econômica dos conflitos. O governo Trump se move dentro dessa paisagem como força de reorganização agressiva da primazia americana. A contenção da China faz parte desse projeto, seja pela disputa comercial, seja pelo controle tecnológico, seja pela tentativa de reposicionar cadeias globais de valor. Gaza entra nessa lógica como peça de demonstração de poder, de reorganização regional e de afirmação de capacidade de comando sobre a arquitetura de segurança do Oriente Médio.
A nova ordem mundial que emerge não parece ser um sistema estável com regras claras. Parece, antes, um mundo de soberanias hierarquizadas, blocos em disputa, legalidades flexíveis e espaços de exceção. Nessa configuração, territórios periféricos e populações vulneráveis tornam-se zonas de teste para novos formatos de guerra, ocupação e governança. Gaza não é exceção: é paradigma. Ali se vê a passagem de uma ordem liberal formalmente universalista para uma ordem mais aberta à lógica da força, da barganha e da administração seletiva da legalidade.
Por isso a pergunta “está se criando uma nova ordem mundial?” não deve ser respondida com slogans. O que está surgindo não é necessariamente uma ordem melhor organizada, mas um ambiente mais duro, menos normativo e mais competitivo. Gaza é uma das vitrines desse deslocamento. O território funciona como espelho do século: ali se combinam guerra permanente, mercado, tecnologia, segurança, propaganda, tutela e impunidade.
O que está realmente em disputa
Em Gaza, não se disputa apenas terra. Disputa-se o estatuto político da vida palestina. Disputa-se se a população será reconhecida como sujeito histórico e jurídico ou reduzida a variável humanitária. Disputa-se se reconstrução significará retorno, reparação e autodeterminação, ou se significará reurbanização controlada por capitais e governos externos. Disputa-se, no fundo, se o século XXI aceitará que a destruição de uma sociedade possa abrir espaço para uma nova economia do território baseada na exclusão de seus próprios habitantes.
Também está em disputa o próprio significado de soberania. Se um território devastado pode ser administrado externamente sob linguagem humanitária, então a soberania deixa de ser direito e passa a ser concessão. E quando isso ocorre, o precedente extrapola Gaza. Outros territórios fragilizados podem ser tratados da mesma maneira: primeiro a ruína, depois a gestão internacionalizada, por fim a normalização do fato consumado. Gaza, portanto, importa para além de si porque antecipa uma forma de governo do mundo.
Conclusão
Gaza tornou-se o ponto de encontro entre guerra, ocupação, financeirização da destruição, crise do direito internacional e reconfiguração da ordem mundial. O território palestino não é hoje apenas palco de uma tragédia humanitária, embora isso por si só já bastasse para comover qualquer consciência minimamente ética. Gaza tornou-se algo ainda mais perturbador: uma chave de leitura do presente histórico.
Ali se vê, com nitidez brutal, como o poder contemporâneo opera. Primeiro, pela devastação material e humana. Depois, pela administração seletiva da compaixão. Em seguida, pela disputa em torno de quem terá legitimidade para reconstruir o que foi destruído. Por fim, pela conversão da ruína em ativo político, estratégico e econômico. A guerra, nesse modelo, não termina quando cessam as bombas; ela apenas muda de linguagem. Sai o léxico militar, entra o vocabulário da estabilização, do desenvolvimento, da governança e da paz. Mas a estrutura de dominação pode permanecer intacta.
É por isso que Gaza não deve ser lida apenas como uma emergência. Gaza é um aviso. Aviso de que o direito internacional pode continuar existindo sem conseguir conter os fortes. Aviso de que o multilateralismo pode ser esvaziado sem ser formalmente abolido. Aviso de que a reconstrução pode funcionar como continuidade da ocupação por outros meios. Aviso, sobretudo, de que o século XXI corre o risco de naturalizar uma forma de poder na qual populações devastadas são tratadas não como sujeitos de direitos, mas como obstáculos à reorganização estratégica do espaço.
No fundo, a grande pergunta aberta por Gaza é simples e devastadora: o mundo ainda reconhecerá a humanidade como limite, ou aceitará que ela se torne variável de cálculo geopolítico? Enquanto essa resposta não vier em forma de justiça concreta, Gaza continuará sendo mais do que um lugar ferido. Continuará sendo o espelho sombrio de uma ordem internacional em mutação.
Referências
ABC NEWS. Jared Kushner lays out Trump-backed “master plan” for post-war Gaza. 2026. Disponível em: https://abcnews.com/Politics/jared-kushner-lays-trump-backed-master-plan-post/story?id=129461124. Acesso em: 18 mar. 2026.
CHATHAM HOUSE. President Trump may disregard international law – but other countries want to make use of it. 2026. Disponível em: https://www.chathamhouse.org/2026/01/president-trump-may-disregard-international-law-other-countries-want-make-use-it. Acesso em: 18 mar. 2026.
CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA. Application of the Convention on the Prevention and Punishment of the Crime of Genocide in the Gaza Strip (South Africa v. Israel). 2026. Disponível em: https://www.icj-cij.org/case/192. Acesso em: 18 mar. 2026.
CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA. Provisional measures. 2026. Disponível em: https://www.icj-cij.org/case/192/provisional-measures. Acesso em: 18 mar. 2026.
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ESCRITÓRIO DO ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS DIREITOS HUMANOS. UN experts warn against the irreversible “de-Palestinisation” of Jerusalem. 2026. Disponível em: https://www.ohchr.org/en/press-releases/2026/03/un-experts-warn-against-irreversible-de-palestinisation-jerusalem. Acesso em: 18 mar. 2026.
OCHA OPT. Humanitarian Situation Report | 6 March 2026. 2026. Disponível em: https://www.ochaopt.org/content/humanitarian-situation-report-6-march-2026. Acesso em: 18 mar. 2026.
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