Uma leitura crítica de Fundamentos da Geopolítica e Geopolítica do Mundo Multipolar
Introdução
Poucos autores contemporâneos conseguiram transformar geopolítica em linguagem de combate com a intensidade de Alexander Dugin. Em sua obra, mapas não são apenas mapas; fronteiras não são apenas fronteiras; civilizações não são apenas formações históricas. Tudo aparece investido de missão, destino, antagonismo e transcendência. Esse é justamente o ponto de partida desta resenha crítica: compreender como Fundamentos da Geopolítica e Geopolítica do Mundo Multipolar articulam uma visão total do mundo, na qual estratégia, filosofia, religião, identidade e poder estatal se fundem em um mesmo projeto político-intelectual.
A hipótese central deste texto é simples e decisiva: Dugin constrói uma crítica poderosa ao universalismo liberal ocidental, mas o faz por meio de uma alternativa que não conduz propriamente à emancipação dos povos, e sim à reorganização do planeta em grandes blocos civilizacionais hierárquicos, orientados por centros imperiais. Em outras palavras, sua teoria combate o imperialismo liberal sem abandonar a lógica imperial. Troca-se o universalismo de mercado por um pluralismo de impérios.
O interesse de revisitar essas obras é evidente. Fundamentos da Geopolítica apresenta a moldura dura, estratégica e continental do pensamento duginiano. Já Geopolítica do Mundo Multipolar mostra um refinamento conceitual importante: o vocabulário imperial é parcialmente recoberto por categorias como pluralidade, multipolaridade, civilização e diversidade histórica. O efeito é sofisticado. O argumento se torna mais exportável, mais sedutor e mais adaptável a públicos distintos, inclusive fora da Rússia.
As citações e referências, aqui, foram organizadas em sistema autor-data, em conformidade com o padrão da ABNT para trabalhos acadêmicos, conforme a sistemática de normas publicadas e homologadas pela própria associação.
1. A arquitetura intelectual de Dugin: geopolítica como destino
Em Fundamentos da Geopolítica, Dugin não começa por si mesmo. Ele reconstrói uma linhagem. Ratzel, Kjellén, Mackinder, Mahan, Spykman e Haushofer aparecem como peças de uma tradição que transforma o espaço em variável decisiva da política mundial. O ponto não é apenas recuperar autores clássicos, mas demonstrar que o Estado, o povo e a civilização devem ser lidos geograficamente. Em sua exposição de Ratzel, por exemplo, Dugin enfatiza a ideia do Estado como “organismo vivo”, enraizado no solo, para o qual expansão e contração territorial se tornam processos quase naturais (Dugin, 2015).
Esse gesto é mais importante do que parece. Ao apresentar a geopolítica como herdeira de um pensamento organicista e espacial, Dugin já prepara o terreno para seu próprio salto normativo. A geografia deixa de ser apenas condicionante e passa a ser quase vocação. O espaço não limita apenas a política; ele a orienta. Daí decorre a centralidade de Mackinder. Quando Dugin retoma a noção de Heartland, ele não a trata apenas como hipótese analítica, mas como fundamento de uma missão histórica. A Rússia-Eurásia surge como “coração da terra”, pivô geográfico da história mundial, espaço axial destinado a resistir ao poder marítimo anglo-saxão (Dugin, 2015).
Aqui está a primeira operação decisiva de Dugin: uma teoria geopolítica é convertida em doutrina civilizacional. O conflito entre terra e mar, telurocracia e talassocracia, deixa de ser mero modelo de análise internacional e passa a funcionar como drama histórico total. De um lado, o poder terrestre, continental, hierárquico, tradicional. De outro, o poder marítimo, comercial, liberal, expansionista. O mundo passa a ser lido por esse dualismo.
Esse ponto explica por que Dugin fascina tanto setores antiliberais de matizes muito diferentes. Seu discurso oferece uma narrativa totalizante. Em vez de um mundo complexo, com múltiplas causalidades, ele entrega um tabuleiro moralizado. Em vez de história aberta, oferece destino. Em vez de ambiguidade, oferece eixo. Isso tem força retórica, mas cobra um preço teórico alto: simplifica a pluralidade real dos processos históricos e recodifica conflitos concretos em uma metafísica geográfica.
2. Fundamentos da Geopolítica: o império como necessidade
O traço mais duro de Fundamentos da Geopolítica é a convicção de que a Rússia não deve ser compreendida como Estado-nação moderno ordinário, mas como núcleo imperial. Essa não é uma nuance secundária; é o coração do livro. A ideia de império aparece como necessidade histórica, estratégica e civilizacional. A sobrevivência russa, nessa moldura, depende da reconstrução de um grande espaço eurasiático sob liderança de Moscou.
É nesse contexto que surgem os famosos eixos geopolíticos. O mais importante deles é o eixo Moscou-Berlim. Dugin sustenta que Moscou deve trabalhar para retirar a Europa do controle dos Estados Unidos e da OTAN, promover sua unificação e fortalecer a integração com a Europa Central sob a bandeira da cooperação russo-alemã (Dugin, 2015).
O problema aparece quando essa engenharia continental é aplicada aos povos intermediários. Dugin defende explicitamente a destruição do “cordão sanitário”, isto é, da faixa de Estados fronteiriços entre Rússia e Alemanha que, em sua leitura, historicamente serviu aos interesses atlanticistas. O texto fala em “novas fronteiras”, em divisão de regiões e na necessidade de criar entidades neutras e amigáveis, com “máximo de liberdade etnocultural”, mas submetidas a uma “dependência estratégica de Moscou” (Dugin, 2015).
Aqui a crítica precisa ser frontal: esse é o ponto em que o vocabulário da liberdade cultural encontra seu limite real. O que se oferece aos povos periféricos não é soberania plena, mas autonomia subordinada. Não se trata de independência, mas de acomodação funcional dentro de um arranjo maior. O texto é ainda mais claro ao afirmar que é necessário dissipar as “ilusões” dos Estados intermediários sobre sua potencial independência e criar uma relação direta entre uma Rússia “amiga” e a Europa Central, sob o eixo Berlim-Moscou (Dugin, 2015).
O mesmo raciocínio vale para a Europa Oriental. Dugin afirma que a Rússia deveria abrir mão do controle direto de parte do Leste Europeu, desde que esse espaço fosse estruturado sob autoridade de Berlim, em arranjo coordenado com Moscou. O ponto não é libertar esses territórios, mas reinscrevê-los numa geometria continental russo-alemã (Dugin, 2015).
A consequência é inequívoca: Fundamentos da Geopolítica não é uma teoria da autodeterminação dos povos. É uma teoria da reorganização hierárquica do continente. Sua unidade básica não é o cidadão, nem o Estado soberano, mas o bloco estratégico. O que importa não é a vontade política dos pequenos Estados, mas seu posicionamento no tabuleiro do conflito entre Atlântida e Eurásia.
3. Da guerra do espaço à geografia sagrada
Uma das marcas mais singulares de Dugin é que sua geopolítica nunca permanece apenas geopolítica. Ela escala rapidamente em direção ao simbólico, ao escatológico e ao espiritual. Esse movimento já estava insinuado em Fundamentos, mas fica ainda mais claro quando o autor conecta território, tradição e sentido histórico.
Em Geopolítica do Mundo Multipolar, o prefácio brasileiro explicita esse deslocamento ao aproximar geopolítica de geografia sacra, escatologia e espiritualidade, sugerindo que as relações internacionais são também atravessadas por mitos nacionais, símbolos e antagonismos profundos (Dugin, 2012/2014).
Esse ponto é fundamental para compreender a natureza do discurso duginiano. Não se trata apenas de defender uma alternativa russa ao atlantismo. Trata-se de sacralizar essa alternativa. A terra continental deixa de ser apenas base material de poder e passa a representar uma reserva espiritual contra a dissolução moderna. O Ocidente liberal, por sua vez, deixa de ser somente rival geopolítico e se converte em figura de decadência civilizacional.
Essa transfiguração é intelectualmente eficaz, porque amplia a potência mobilizadora do texto. Afinal, quem resiste apenas a uma potência estrangeira faz política; quem resiste a uma civilização decadente e a uma ordem do mundo corrompida passa a se perceber como sujeito de missão. Mas exatamente aí reside o risco. Quando a geopolítica se torna teologia política do espaço, o adversário deixa de ser apenas opositor e se converte em inimigo metafísico. O debate se fecha, e o conflito tende a ser absolutizado.
4. Geopolítica do Mundo Multipolar: a sofisticação do vocabulário
Se Fundamentos da Geopolítica é a versão mais nua do projeto duginiano, Geopolítica do Mundo Multipolar é sua versão mais sofisticada. O tom permanece antiliberal, antiatlântico e antiunipolar, mas o léxico se desloca. Em vez de enfatizar apenas império, eixo e contenção geoestratégica, Dugin passa a falar em pluralidade, civilização, multipolaridade, Grande Espaço e pluriversum.
O conceito de pluriversum é decisivo. No capítulo sobre as fundações ideológicas do multipolarismo, Dugin, apoiando-se em Alain de Benoist, contrapõe o universum — a redução ao único — ao pluriversum, entendido como preservação da diversidade, das nações, das etnias, das línguas, dos costumes e das religiões (Dugin, 2012/2014).
À primeira vista, trata-se de uma crítica potente ao imperialismo cultural ocidental. E, de fato, há força nesse diagnóstico. Dugin ataca o universalismo liberal, a narrativa linear do progresso, a superioridade presumida do capitalismo e a pretensão de apresentar democracia liberal e mercado como destino inevitável da humanidade (Dugin, 2012/2014).
Mas é exatamente aqui que aparece a grande contradição do seu sistema. O sujeito da pluralidade, em Dugin, não é o indivíduo e tampouco o pequeno povo isolado. O verdadeiro sujeito é o Grande Espaço. E o próprio livro diz isso com nitidez ao apresentar os BRICS como reunião de potências que encarnam grandes espaços regionais e ao defender sua institucionalização como protótipos da ordem multipolar (Dugin, 2012/2014).
Em termos teóricos, o movimento é engenhoso. Dugin desloca a defesa da diferença do plano dos direitos universais para o plano das civilizações regionais. Com isso, consegue combinar um discurso de diversidade com uma política de escala continental. A diferença é reconhecida, mas sob centros de gravidade maiores. A multiplicidade é aceita, desde que organizada em polos.
O ganho estratégico é evidente. O eurasianismo deixa de parecer apenas um nacionalismo russo expandido e passa a se apresentar como doutrina global de resistência ao unilateralismo. A teoria torna-se exportável para atores muito diversos: nacionalistas, tradicionalistas, conservadores, antiamericanos de esquerda, Estados revisionistas e elites que rejeitam a hegemonia liberal, mas não pretendem abrir mão de projetos próprios de poder.
5. Multipolaridade ou pluralismo imperial?
É aqui que a crítica precisa ser mais contundente. A teoria da multipolaridade de Dugin parece propor um mundo de várias civilizações livres. No entanto, quando se examina sua estrutura, percebe-se que a liberdade efetiva é reservada aos polos, não às periferias. O Grande Espaço funciona como categoria de contenção: ele protege contra a homogeneização liberal, mas também absorve internamente soberanias menores.
Essa ambiguidade aparece na própria noção de institucionalização do multipolarismo. Dugin vê em estruturas como BRICS e OCX embriões do novo mundo multipolar, capaz de escapar às “intrigas unipolares” e estabelecer regras próprias (Dugin, 2012/2014).
O argumento tem coerência interna. Mas a pergunta crítica permanece: quem decide dentro desses polos? Quem fala em nome da civilização? Quem define o interesse do grande espaço? Em que medida a linguagem da civilização não serve para apagar dissensos internos, conflitos sociais, pluralismos nacionais e assimetrias regionais? O risco é evidente: o pluralismo entre blocos pode conviver perfeitamente com autoritarismo dentro dos blocos.
Essa é a contradição central da obra. Dugin denuncia o imperialismo liberal em nome da pluralidade, mas reconstrói uma ordem internacional em que grandes centros civilizacionais passam a exercer autoridade sobre zonas intermediárias. O universalismo do mercado é recusado, mas a hierarquia do espaço é mantida. Troca-se o império do indivíduo abstrato pelo império do polo civilizacional.
Por isso, talvez a fórmula mais precisa para descrever o projeto duginiano seja esta: não se trata de um pluralismo democrático, mas de um pluralismo imperial.
6. A função política do texto: teoria, manifesto e mobilização
Há ainda um último aspecto a sublinhar. Dugin escreve como quem comenta o mundo, mas também como quem pretende reorganizá-lo. Seus livros não são apenas ensaios diagnósticos. São artefatos de mobilização. Isso fica particularmente claro em Geopolítica do Mundo Multipolar, cuja estrutura culmina no manifesto da “Aliança Revolucionária Global”, apresentado como resposta à hegemonia unipolar e ao “mal absoluto” associado aos Estados Unidos (Dugin, 2012/2014).
Essa passagem final ilumina retrospectivamente toda a obra. A geopolítica, aqui, não é ciência neutra. É linguagem de combate. É doutrina de alinhamento. É convocação. A estratégia do texto consiste em oferecer uma gramática ampla o bastante para reunir atores muito diferentes sob um mesmo antagonismo: antiamericanismo, antiliberalismo, civilizacionismo, tradicionalismo e revisionismo geopolítico.
Em chave jornalística, dir-se-ia o seguinte: Dugin não escreve para descrever o tabuleiro; ele escreve para escolher lados, mover peças e legitimar uma guerra de narrativas e espaços. Sua força está justamente nessa capacidade de condensar ressentimentos geopolíticos, nostalgia imperial, crítica ao liberalismo e imaginação civilizacional em uma linguagem unificada.
Conclusão
A leitura conjugada de Fundamentos da Geopolítica e Geopolítica do Mundo Multipolar revela um percurso de sofisticação, não de ruptura. O Dugin mais recente não abandona o projeto do Dugin anterior; ele o recalibra. O império não desaparece, apenas passa a ser traduzido em termos mais palatáveis à sensibilidade contemporânea: pluralidade, civilização, multipolaridade, diversidade histórica, crítica ao universalismo.
Essa transformação explica a permanência e a difusão de sua influência. Fundamentos da Geopolítica mostra o esqueleto duro do pensamento duginiano: o Heartland, a oposição terra-mar, o eixo Moscou-Berlim, a destruição do cordão sanitário, a subordinação das soberanias intermediárias à lógica dos grandes blocos. Geopolítica do Mundo Multipolar reveste esse mesmo esqueleto com musculatura filosófica e léxico pós-Guerra Fria: pluriversum, grandes espaços, institucionalização multipolar, civilização como sujeito histórico.
O ponto crítico, porém, permanece. Dugin denuncia com razão a arrogância universalista do Ocidente liberal, mas responde a ela com uma alternativa que continua baseada em hierarquia, centralidade e absorção de periferias. Sua multipolaridade não dissolve a lógica imperial; apenas a redistribui. Sua defesa da diferença não conduz à autonomia política plena dos povos menores, mas à sua inscrição em ordens continentais mais vastas.
Em síntese, a obra de Dugin é intelectualmente provocadora, politicamente influente e teoricamente perigosa justamente porque combina uma crítica legítima ao unilateralismo com uma arquitetura de poder que, sob o nome de pluralidade, preserva a ambição de comando. O que ela oferece não é o fim do império, mas sua metamorfose. Não é o pluralismo emancipador, mas a legitimação de um mundo segmentado em polos de autoridade civilizacional. E é por isso que ler Dugin criticamente não é exercício periférico: é uma forma de compreender como, no século XXI, o império aprendeu a falar em nome da diferença.
Referências
DUGIN, Alexander. Fundamentos da geopolítica. [S. l.: s. n.], 1997. Arquivo em PDF disponibilizado na conversa.
DUGIN, Alexander. Geopolítica do mundo multipolar. Tradução de Álvaro Körbes Hauschild, João Paulo Arrais e Sérgio Lopes. 1. ed. Curitiba: Editora Austral, 2012. Reimpr. Porto Alegre: Editora Austral, 2014.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Normas publicadas. Disponível no portal institucional da ABNT. A associação informa que as normas listadas são documentos publicados e homologados pela entidade.
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