Por que o livro de Aleksandr Dugin continua sendo a chave mais dura para compreender atlantismo, eurasianismo, império continental e a fantasia violenta de um mundo multipolar
Introdução
Se os três textos anteriores mostraram a Rússia de Putin como projeto de guerra identitária, o trumpismo como hegemonia hemisférica endurecida e o caos energético como terreno fértil para impérios rivais, este quarto artigo volta à fonte. Fundamentos da Geopolítica, publicado por Aleksandr Dugin em 1997, não é apenas um livro de teoria internacional. É uma máquina de organizar o mundo em blocos de poder, civilizações em confronto e territórios tratados como destino histórico. Poucas obras do pós-sovietismo foram tão associadas à formação do imaginário estratégico russo quanto essa. John Dunlop chegou a afirmar que talvez nenhuma outra publicação da Rússia pós-comunista tenha exercido influência comparável sobre setores militares, policiais e estatistas da elite russa. (Dunlop, 2004).
Por isso este texto fecha a série. Porque ele mostra que, por trás da guerra na Ucrânia, do antiocidentalismo russo, da ideia de um “mundo russo” e até das analogias com outros projetos imperiais contemporâneos, existe uma arquitetura conceitual consistente. Seus nomes são claros: atlantismo, eurasianismo, império continental e multipolaridade. Sem compreender esse vocabulário, o restante parece apenas conjuntura. Com ele, a conjuntura revela seu esqueleto ideológico. (Kolesnikov, 2023).
Atlantismo: o inimigo que precisa ser abatido
No universo de Dugin, o atlantismo não é apenas uma posição geográfica. É um sistema civilizacional inteiro. Ele representa o mundo anglo-americano, marítimo, liberal, comercial, individualista e universalista. Em sua lógica, os Estados Unidos não são apenas uma grande potência entre outras; são o centro de uma ordem histórica corrosiva para identidades orgânicas, tradições e impérios continentais. É por isso que o antiamericanismo da obra não é conjuntural. Ele é estrutural. O atlantismo é o inimigo principal porque encarna a forma de mundo que a Rússia, segundo Dugin, deveria derrotar. (Dugin, 1997).
Esse ponto é decisivo para compreender a radicalidade do texto. Dugin não quer negociar um lugar melhor para a Rússia dentro da ordem liberal. Ele quer romper essa ordem. O mundo atlântico não aparece como adversário com quem se disputa influência; aparece como civilização hostil que deve ser enfraquecida por todos os meios disponíveis. É aqui que a geopolítica deixa de ser apenas cálculo e passa a funcionar como doutrina de antagonismo total. (Dunlop, 2004).
Eurasianismo: a Rússia como civilização e não como país
A resposta duginiana ao atlantismo é o eurasianismo. Sua tese central é que a Rússia não é somente um Estado nacional, nem uma nação europeia deslocada. Ela seria uma civilização singular, situada entre Europa e Ásia, com missão própria e destino histórico incomparável. Ao defender isso, Dugin oferece ao pós-sovietismo algo politicamente valioso: uma saída simbólica para a humilhação imperial. O que se perdeu como superpotência ideológica poderia ser recuperado como civilização. (Dugin, 1997).
É essa transformação que torna o livro tão importante. Uma Rússia que se pensa apenas como Estado precisa respeitar fronteiras, adaptar-se ao direito internacional e conviver com a autonomia do entorno. Uma Rússia que se pensa como civilização tende a considerar tudo isso insuficiente. A civilização sempre parece maior do que a linha do mapa. E é exatamente aí que a política deixa de ser limitação jurídica e passa a ser missão histórica. (Kolesnikov, 2023).
Império continental: quando o território vira mandato
Se a Rússia é civilização e o atlantismo é seu inimigo estrutural, a conclusão lógica de Dugin é o império continental. A obra defende que Moscou deve reorganizar o espaço eurasiático sob sua direção, reconstruindo profundidade estratégica, neutralizando vizinhos e reconstituindo sua centralidade territorial. O termo “império” aqui não é adjetivo retórico. Ele nomeia um projeto político concreto de reordenação do espaço. (Dugin, 1997).
É nesse ponto que a obra se torna explosiva. Porque, quando o território vira mandato histórico, a soberania do vizinho perde densidade. O outro deixa de ser outro. Passa a ser parte indevidamente separada de uma totalidade maior. É precisamente essa lógica que ajuda a explicar a postura russa diante da Ucrânia. O ensaio de Putin de 2021 sobre a “unidade histórica” entre russos e ucranianos mostra essa passagem de forma quase didática: a Ucrânia é tratada menos como nação soberana e mais como derivação histórica da própria Rússia. (Putin, 2021).
Multipolaridade: a palavra elegante para uma guerra de blocos
A palavra multipolaridade costuma soar civilizada no debate diplomático. Em Dugin, porém, ela tem sentido muito menos pacífico. Não se trata de pluralismo institucional equilibrado. Trata-se de quebrar a hegemonia atlântica e substituir o universalismo liberal por uma ordem organizada em grandes polos civilizacionais. Cada polo com sua própria lógica, sua própria hierarquia e sua própria esfera de influência. Em outras palavras: a multipolaridade duginiana não é convivência. É competição entre impérios reabilitados. (Dugin, 1997).
Essa distinção é crucial. Quando a Rússia contemporânea fala em multipolaridade, não está necessariamente defendendo um mundo mais democrático entre Estados. Muitas vezes está defendendo um mundo em que a hegemonia americana enfraqueça o suficiente para que outros centros imperiais possam agir com maior liberdade sobre seus entornos. A multipolaridade, aqui, funciona menos como ideal normativo e mais como estratégia de redistribuição agressiva do poder mundial. (Kolesnikov, 2023).
As teses centrais: a obra em sua forma mais dura
As teses centrais de Fundamentos da Geopolítica podem ser sintetizadas sem suavização. Primeiro: a Rússia deve rejeitar a integração subordinada ao Ocidente e reafirmar-se como civilização autônoma. Segundo: os Estados Unidos representam o núcleo de uma ordem hostil que precisa ser minada. Terceiro: a sobrevivência histórica russa exige um grande espaço continental sob liderança de Moscou. Quarto: a guerra não precisa ser apenas militar, podendo operar também por desorganização interna do adversário, propaganda, divisão e pressão indireta. Quinto: a Europa deve ser separada do eixo anglo-americano. Sexto: o espaço pós-soviético não pode ser tratado como zona plenamente neutra, porque dele depende a profundidade estratégica russa. (Dunlop, 2004; Fellows, 2018).
É exatamente esse conjunto que fecha a leitura da série. O primeiro artigo mostrou a imaginação imperial. O segundo, sua aplicação na Ucrânia. O terceiro, seu espelho invertido em projetos americanos de grande espaço. Este quarto, enfim, mostra o mecanismo conceitual que torna tudo isso coerente. Não havia apenas ressentimento difuso. Havia doutrina. (Dugin, 1997).
O programa geopolítico de Dugin
Na Europa, o programa é o da fragmentação do campo ocidental. Dugin imagina um continente afastado da tutela anglo-americana, menos coeso e mais vulnerável à influência russa. O objetivo não é destruir a Europa como civilização, mas desmontar sua integração estratégica como prolongamento do Atlântico. (Dunlop, 2004).
Nos Estados Unidos, a proposta é mais agressiva. Resumos e análises da obra apontam para a defesa de estratégias de enfraquecimento interno do adversário, explorando fissuras sociais, políticas e territoriais. A potência hegemônica atlântica deveria ser corroída também a partir de dentro. Isso ajuda a explicar por que o livro parece ter antecipado, em forma rudimentar, o vocabulário posterior da guerra híbrida. (Dunlop, 2004).
Em relação à China, a posição é ambivalente. Ela pode aparecer como parceira tática no eixo antiatlântico, mas também como problema potencial para a hegemonia russa sobre a Eurásia. A lógica não é de afinidade automática; é de utilidade geopolítica. O critério de Dugin nunca é amizade duradoura, mas funcionalidade para o projeto imperial russo. (Fellows, 2018).
No espaço pós-soviético, o programa é o mais explícito. Trata-se da zona vital da Rússia, aquela que não pode ser plenamente abandonada à autonomia dos novos Estados. É por isso que a obra segue tão útil para entender a Ucrânia. O que o Kremlin fez ali não nasceu do nada; nasceu de uma visão em que o entorno russo continua sendo tratado como profundidade histórica e estratégica do império. (Putin, 2021).
A dimensão ideológica do texto
No fundo, Fundamentos da Geopolítica não é só uma teoria sobre poder. É uma teologia secular do império. Seu dualismo entre mar e terra, liberalismo e tradição, decadência atlântica e missão eurasiática produz uma visão moralizada da geografia. O espaço deixa de ser superfície política e vira substância histórica. A guerra deixa de ser exceção e passa a ser instrumento legítimo de correção do mundo. Foi por isso que Dunlop descreveu a obra como um tratado neo-fascista de influência preocupante entre elites russas. (Dunlop, 2004).
Essa é a parte mais grave do livro. Ele não apenas aconselha poder. Ele sacraliza poder territorial. Quando isso acontece, a política deixa de procurar equilíbrio e começa a procurar redenção. E toda vez que a redenção entra no mapa, o preço costuma ser pago em ruínas. (Kolesnikov, 2023).
Conclusão
Este quarto artigo fecha a série porque mostra que Dugin não foi apenas um ideólogo ruidoso da periferia intelectual russa. Ele ofereceu uma gramática completa para a Rússia voltar a se pensar como império: um inimigo estrutural, uma identidade civilizacional, um programa territorial e uma promessa de mundo multipolar que, no fundo, significa redistribuição violenta do poder. É essa gramática que ajuda a entender por que o Kremlin fala como fala, invade como invade e imagina o entorno como imagina. (Dugin, 1997; Putin, 2021).
No fim, o ponto decisivo é simples. Fundamentos da Geopolítica não explica sozinho a Rússia contemporânea. Mas ajuda a explicar por que a Rússia contemporânea continua tão disposta a tratar o mapa não como limite, e sim como promessa.
Referências
DUGIN, Aleksandr. Foundations of Geopolitics. Moscou: Arktogeja, 1997.
DUNLOP, John B. Aleksandr Dugin’s Foundations of Geopolitics. Stanford: Hoover Institution, 2004.
FELLOWS, G. S. The Foundations of Aleksandr Dugin’s Geopolitics. Denver: University of Denver, 2018.
KOLESNIKOV, Andrei. Blood and Iron: How Nationalist Imperialism Became Russia’s State Ideology. Carnegie Endowment for International Peace, 2023.
PUTIN, Vladimir. On the Historical Unity of Russians and Ukrainians. Kremlin, 12 jul. 2021.
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