Uma abertura para a série que examina Dugin, Putin, Trump, energia, guerra e o retorno dos grandes espaços como forma de organizar o poder no século XXI
Sumário
- Introdução
- O fim da ilusão confortável
- Quando o mapa volta a mandar
- Dugin e a volta da gramática imperial
- Putin, Trump e a disputa para redesenhar o espaço
- Por que esta série importa agora
- Leia também nesta série
- Conclusão
- Referências
Introdução
Durante algum tempo, pareceu possível acreditar que o mundo havia entrado numa fase de administração técnica da política internacional. O multilateralismo, a globalização, os mercados integrados e a linguagem universal dos direitos davam a impressão de que a velha geopolítica do império havia sido, senão superada, ao menos domesticada. Essa promessa ruiu. O que emergiu no século XXI foi algo muito mais áspero: a volta da guerra como reorganizadora de mercados, a centralidade renovada da energia, a disputa por corredores estratégicos e o retorno de projetos de poder que já não se pensam apenas como Estados, mas como civilizações, blocos e centros de comando territorial.
É nesse terreno que esta série se insere. Seu eixo não é apenas a Rússia, nem apenas os Estados Unidos. O que está em jogo é uma mutação mais profunda: a passagem de uma ordem que se pretendia universal para um mundo em que a força, o território, a soberania dura e a reorganização de grandes espaços voltaram a ocupar o centro do jogo. Aleksandr Dugin importa, nesse contexto, não porque explique tudo, mas porque oferece uma linguagem poderosa para compreender parte dessa mudança. Vladimir Putin importa porque transforma essa linguagem em política de Estado. Donald Trump importa porque, a seu modo, também vem testando uma forma mais territorial, hemisférica e abertamente coercitiva de hegemonia.
Esta abertura existe para enquadrar essa travessia. Antes de entrar nos textos da série, é preciso nomear o problema central: o mapa voltou a ser destino político.
O fim da ilusão confortável
A ordem posterior à Guerra Fria foi muitas vezes apresentada como horizonte estável. A ideia era simples: a hegemonia liberal americana, combinada com instituições multilaterais, fluxos financeiros globais e cadeias produtivas transnacionais, teria reduzido o espaço para aventuras imperiais clássicas. Mas essa narrativa começou a se desfazer à medida que velhos conflitos retornaram sob novas formas. A expansão da OTAN, a guerra na Ucrânia, a revalorização dos hidrocarbonetos, a crise dos gargalos energéticos e a disputa crescente por infraestrutura estratégica mostraram que a geografia nunca havia saído realmente de cena. Ela apenas havia sido recoberta por um léxico mais elegante.
O problema da ilusão liberal não foi apenas analítico. Foi também moral. Ao imaginar que o mundo estava progressivamente se emancipando das formas duras do poder, grande parte do debate público deixou de levar a sério atores que continuavam pensando em termos de civilização, império, esfera de influência e retificação territorial. Quando essas ideias retornaram à superfície, pareceram anomalias. Mas não eram. Eram sintomas de uma transformação subterrânea já em curso. A força de Dugin está justamente aí: ele escreveu cedo, e de modo brutal, aquilo que muitos preferiram não enxergar.
Quando o mapa volta a mandar
Quando se observa o cenário recente, um padrão aparece com nitidez. A guerra no entorno do Irã recolocou o Estreito de Ormuz no centro do sistema energético global. A ofensiva americana na Venezuela recolocou petróleo, ouro e tutela regional no coração da política hemisférica. As falas de Trump sobre Groenlândia e Canal do Panamá recolocaram o tema da posse territorial e do controle de infraestrutura estratégica no centro da imaginação política americana. Ao mesmo tempo, a Rússia continuou a tratar o espaço pós-soviético, especialmente a Ucrânia, como questão existencial, histórica e civilizacional.
Nada disso é acidental. Quando a energia sobe, quando os gargalos marítimos se tornam vulneráveis, quando as rotas comerciais passam a depender de proteção armada e quando grandes potências retomam a linguagem da anexação, da tutela ou da “reorganização” de regiões inteiras, o mapa deixa de ser pano de fundo e volta a ser programa. O território volta a valer não apenas pelo que contém, mas pelo que permite controlar. E, nesse tipo de mundo, o universalismo liberal perde terreno para a lógica dos grandes espaços.
Dugin e a volta da gramática imperial
Publicado em 1997, Fundamentos da Geopolítica tornou-se uma obra-chave para quem quer compreender esse retorno da linguagem imperial. O livro apresenta a Rússia não como simples Estado, mas como núcleo de uma civilização eurasiática destinada a confrontar o poder atlântico liderado pelos Estados Unidos. Sua oposição entre Atlantismo e Eurásia, sua defesa de um império continental e sua ideia de multipolaridade como redistribuição agressiva do poder mundial fizeram dele muito mais do que um ensaio ideológico marginal. John Dunlop observou que poucas obras do período pós-soviético exerceram influência comparável entre elites militares, policiais e estatistas russas. (Dunlop, 2004).
A importância de Dugin não está em ser o “autor secreto” de tudo o que a Rússia faz. Essa leitura simplifica demais a política real. Sua importância está em outra parte: ele dá coerência a um imaginário. Ele transforma ressentimento histórico em doutrina, geografia em destino e antagonismo ao Ocidente em visão civilizacional de longo prazo. Em outras palavras, ele ajuda a entender como a Rússia contemporânea pôde voltar a imaginar a si mesma em escala imperial.
Putin, Trump e a disputa para redesenhar o espaço
A série parte justamente desse ponto para abrir dois caminhos complementares.
O primeiro caminho é o da Rússia. Quando Putin publicou, em 2021, seu texto sobre a “unidade histórica” entre russos e ucranianos, ele deixou claro que a questão ucraniana, para o Kremlin, não era apenas diplomática ou militar. Era identitária, histórica e civilizacional. Esse vocabulário ajuda a explicar por que a guerra contra a Ucrânia foi apresentada como missão de reparação histórica e não apenas como operação estratégica convencional.
O segundo caminho é o dos Estados Unidos sob Trump. O que se vê ali não é duginismo no sentido ideológico, mas algo estruturalmente comparável: uma política que volta a pensar em blocos, recursos, anexações simbólicas, corredores e profundidade territorial. Quando Trump não descarta força para controlar Groenlândia e Panamá, ou quando os Estados Unidos intervêm na Venezuela e anunciam que passarão a “administrar” o país até uma transição considerada segura, o que aparece é uma hegemonia menos universalista e mais geográfica, menos normativa e mais material.
É por isso que a comparação entre Putin e Trump, feita com rigor, é tão reveladora. Eles não são idênticos. Não operam pela mesma doutrina. Não representam o mesmo lugar no sistema. Mas ambos ajudam a mostrar que o século XXI voltou a ser o século dos projetos de poder que querem mais do que participar da ordem internacional: querem redesenhá-la.
Por que esta série importa agora
Esta série importa porque o debate público, muitas vezes, chega atrasado às mudanças reais do poder. Durante muito tempo, a política internacional foi comentada como se a linguagem dos direitos, das instituições e da interdependência bastasse para dar conta do presente. Hoje isso já não basta. É preciso voltar a falar de império, de energia, de guerra híbrida, de esfera de influência, de segurança marítima, de controle de recursos e de arquitetura territorial do mando.
Também importa porque oferece uma chave comparativa. Ler Dugin apenas como curiosidade russa empobrece o problema. A questão maior não é apenas o que a Rússia pensa de si. É o fato de que múltiplas potências voltaram a imaginar o mundo em termos espaciais, imperiais e civilizacionais. Uma parte do valor da série está justamente em mostrar isso: o retorno da geopolítica dura não é exclusividade de Moscou. É sintoma de uma era.
Leia também nesta série
Artigo 1 — Fundamentos da Geopolítica: o livro que ajuda a decifrar a ambição imperial da Rússia
Link: [Inserir link do Artigo 1 aqui]
Artigo 2 — Dugin, Putin e a guerra na Ucrânia
Link: [Inserir link do Artigo 2 aqui]
Artigo 3 — Trump, Putin e o lucro do caos
Link: [Inserir link do Artigo 3 aqui]
Artigo 4 — Fundamentos da Geopolítica: a gramática imperial que fecha a leitura da série
Link: [Inserir link do Artigo 4 aqui]
Conclusão
A pergunta que orienta esta série é simples, mas decisiva: quem quer apenas sobreviver dentro da ordem mundial, e quem quer redesenhá-la? A obra de Dugin ajuda a perceber que essa segunda ambição nunca desapareceu. Ela apenas mudou de linguagem, de forma e de oportunidade histórica. Putin a mobiliza em nome da civilização russa e da reparação imperial. Trump a reinscreve, por outros meios, numa lógica de comando hemisférico, energia, território e força.
No fim, o que está em jogo não é apenas a interpretação de quatro textos ou de três líderes. O que está em jogo é a capacidade de reconhecer o tipo de mundo que está se formando. Um mundo em que o império já não se apresenta como palavra proibida, em que a guerra volta a funcionar como mecanismo de reorganização, em que a energia redefine hierarquias e em que o mapa recupera, de forma inquietante, o poder de decidir o futuro.
Esta série começa exatamente aí.
Referências
DUGIN, Aleksandr. Fundamentos da geopolítica: o futuro geopolítico da Rússia. Moscou: Arktogeja, 1997.
DUNLOP, John B. Aleksandr Dugin’s Foundations of Geopolitics. Stanford: Hoover Institution/FSI, 2004. Disponível em: fonte acadêmica da Stanford University. Acesso em: 9 abr. 2026.
PUTIN, Vladimir. Article by Vladimir Putin “On the Historical Unity of Russians and Ukrainians”. Kremlin, 12 jul. 2021. Acesso em: 9 abr. 2026.
TRUMP says U.S. will run Venezuela after U.S. captures Maduro. Reuters, 4 jan. 2026. Acesso em: 9 abr. 2026.
TRUMP will not rule out force to take Panama Canal, Greenland. Reuters, 7 jan. 2025. Acesso em: 9 abr. 2026.
GREENLAND prime minister rebuffs Trump remarks as NATO tensions rise. Reuters, 9 abr. 2026. Acesso em: 9 abr. 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário