quinta-feira, 9 de abril de 2026

Artigo 1 - Fundamentos da Geopolítica: o manual do ressentimento imperial russo

Por que o livro de Aleksandr Dugin continua sendo uma das chaves mais úteis para compreender a Rússia de Putin


Introdução


Há livros que interpretam o mundo. E há livros que tentam devolvê-lo à guerra. Fundamentos da Geopolítica, publicado por Aleksandr Dugin em 1997, pertence à segunda categoria. Não é apenas um texto de teoria internacional. É uma peça de combate intelectual. Seu objetivo não é descrever a ordem mundial, mas rearmá-la em favor de uma Rússia que deixe de se perceber como Estado pós-soviético em crise e volte a se imaginar como civilização, império e centro de um grande espaço continental. (Dugin, 1997).


É por isso que o livro importa tanto. Porque ele ajuda a compreender algo que o debate liberal demorou a levar a sério: a política internacional voltou a falar a língua do território, da esfera de influência, da guerra indireta e da missão histórica. E, nesse vocabulário, a Rússia não aparece como país acuado tentando sobreviver à globalização. Aparece como potência humilhada tentando reconstruir a própria grandeza. (Kolesnikov, 2023).


O que Dugin realmente fez


Dugin construiu uma gramática de poder. Ele dividiu o mundo entre Atlantismo e Eurásia. De um lado, os Estados Unidos e o universo anglo-americano, marítimo, liberal, mercantil e universalista. De outro, a Rússia como potência terrestre, tradicional, hierárquica e civilizacional. Nessa lógica, o antagonismo com o Ocidente não é circunstancial. É estrutural. Não decorre apenas de interesses conflitantes; nasce de formas opostas de organizar o mundo. (Dunlop, 2004).


Esse é o coração do livro. A Rússia, para Dugin, não deve buscar acomodação ao Ocidente. Deve rejeitá-lo. Não deve aceitar o papel de potência regional disciplinada pela ordem liberal. Deve reconstruir-se como império continental. Não deve se adaptar ao mundo pós-Guerra Fria. Deve contribuir para destruí-lo. (Dugin, 1997).


Por que isso ajuda a entender Putin


Seria simplista afirmar que Putin governa “seguindo Dugin” linha por linha. Mas seria igualmente ingênuo tratar o autor como figura exótica sem relevância. O que ele oferece é mais profundo: uma moldura ideológica que torna certas escolhas pensáveis, aceitáveis e até desejáveis dentro do imaginário russo. A ideia de que a Rússia é uma civilização distinta. A noção de que o espaço pós-soviético é parte de sua profundidade histórica. A convicção de que o Ocidente liberal é ameaça existencial. Tudo isso reaparece, com roupagem estatal, no vocabulário do Kremlin. (Kolesnikov, 2023).


Quando Putin escreveu, em 2021, sobre a “unidade histórica” entre russos e ucranianos, ele não fez apenas propaganda de guerra. Ele atualizou uma visão de mundo em que a Ucrânia deixa de ser plenamente outro e passa a ser tratada como parte amputada da própria história russa. Essa é precisamente a zona em que o pensamento de Dugin continua útil: ele ajuda a entender como a soberania alheia pode ser reinterpretada como erro histórico a ser corrigido. (Putin, 2021).


O perigo real do livro


O aspecto mais perturbador de Fundamentos da Geopolítica não está só em suas propostas estratégicas. Está no modo como ele transforma geografia em destino e conflito em vocação. O livro não trata o império como desvio; trata-o como necessidade. Não trata a expansão como problema; trata-a como forma legítima de reorganizar o espaço histórico russo. Nesse tipo de pensamento, a política deixa de ser mediação entre interesses e se torna teologia secular do poder. (Dunlop, 2004).


É aí que o texto deixa de ser apenas russo e se torna contemporâneo. Porque o século XXI voltou a produzir líderes, regimes e doutrinas que já não querem apenas operar dentro da ordem internacional. Querem redesenhá-la. Querem redefinir fronteiras, controlar corredores, reorganizar periferias e converter identidade nacional em arma geopolítica. Dugin foi um dos que escreveram isso cedo, com brutalidade suficiente para que muitos preferissem descartá-lo como exagero. O problema é que o exagero virou método. (Kolesnikov, 2023).


Conclusão


Fundamentos da Geopolítica continua relevante porque ajuda a decifrar a ambição imperial da Rússia sem recorrer a ingenuidades. O livro mostra que, por trás de muitos movimentos do Kremlin, existe algo mais denso do que cálculo militar ou oportunidade diplomática: existe uma narrativa de civilização, uma memória de humilhação e um projeto de recomposição territorial e simbólica. Ele não explica tudo. Mas ilumina muito. (Dugin, 1997; Kolesnikov, 2023).


No fim, a pergunta que o livro impõe é desconfortável e atual: o que acontece quando uma potência deixa de se ver como Estado e volta a se ver como império? A resposta, o mundo já começou a receber.


Referências


DUGIN, Aleksandr. Foundations of Geopolitics. Moscou: Arktogeia, 1997.


DUNLOP, John B. Aleksandr Dugin’s Foundations of Geopolitics. Stanford: Hoover Institution, 2004.


KOLESNIKOV, Andrei. Blood and Iron: How Nationalist Imperialism Became Russia’s State Ideology. Carnegie Endowment for International Peace, 2023.


PUTIN, Vladimir. On the Historical Unity of Russians and Ukrainians. Kremlin, 12 jul. 2021.


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