Como Bauman ajuda a compreender a fluidez do poder, da guerra e da cultura ocidental no conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã
Índice
- Lide
- O que se pode chamar de globalização líquida
- Poder global, política local: o núcleo do problema
- Guerra líquida: conflito territorial com efeitos planetários
- Cultura ocidental líquida: espetáculo, consumo e moral seletiva
- Medo, distância moral e desumanização do outro
- O conflito EUA-Israel-Irã como laboratório da liquidez global
- Conclusão
- Referências
Lide
A teoria da modernidade líquida de Zygmunt Bauman permite avançar para uma formulação mais abrangente: a de globalização líquida. Trata-se de uma condição histórica em que fluxos de capital, informação, vigilância, armas, narrativas e medos atravessam fronteiras com muito mais velocidade do que a capacidade política dos Estados e das sociedades de compreendê-los, regulá-los ou moralizá-los. Nessa condição, o poder se move globalmente, enquanto a política continua, em larga medida, presa a escalas nacionais e locais. O resultado é um mundo em que guerras regionais geram efeitos planetários; sofrimentos massivos são consumidos como imagens; a cultura transforma tragédia em fluxo contínuo de atenção; e a responsabilidade moral se enfraquece à medida que a distância tecnológica entre ação e vítima aumenta. O atual confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã oferece um exemplo eloquente dessa liquidez global: um conflito ancorado no Oriente Médio, mas com consequências imediatas sobre energia, inflação, cadeias logísticas, mercados, diplomacia e imaginação política no Ocidente.
O que se pode chamar de globalização líquida
Bauman descreve a fase líquido-moderna como aquela em que as formas sociais já não duram o bastante para organizar de maneira estável a experiência humana. Em Tempos líquidos, ele mostra que a chamada “globalização negativa” não universaliza proteção, justiça e coordenação política; universaliza, antes, a circulação seletiva do capital, da informação, da vigilância, da violência, das armas, do crime e do terrorismo. Em suas palavras, trata-se de uma abertura que expõe as sociedades aos golpes de forças que não controlam.
A partir daí, a noção de globalização líquida pode ser definida como a configuração histórica em que a interdependência planetária existe sem correspondente densidade ética e sem correspondente capacidade política de governo. O globo está conectado, mas não integrado moralmente. As economias são interdependentes, mas as responsabilidades permanecem fragmentadas. A cultura é mundializada, mas a empatia continua seletiva. A guerra é tecnologicamente global, enquanto o sofrimento permanece socialmente distante.
Esse diagnóstico fica ainda mais nítido quando articulado com A cultura no mundo líquido moderno. Bauman afirma que a cultura contemporânea deixou de operar prioritariamente por normas e passou a operar por ofertas, estímulos e seduções, servindo a um mercado orientado para a rotatividade. Em vez de consolidar sentidos duráveis, ela estimula mudança contínua, atenção volátil e desejos renováveis.
Uma globalização líquida, portanto, não é apenas a expansão dos mercados. É a mundialização da instabilidade.
Poder global, política local: o núcleo do problema
O centro teórico dessa discussão continua sendo uma das teses mais fortes de Bauman: o divórcio entre poder e política. Em Tempos líquidos, ele mostra que o poder efetivo se desloca para espaços globais e extraterritoriais, enquanto a política permanece em boa medida local. O Estado-nação perde instrumentos para orientar seu próprio destino, e os governos passam a administrar crises sem programas de longo prazo.
Esse ponto é decisivo para compreender o atual cenário geopolítico. O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã não pode ser lido apenas como guerra clássica entre Estados. Ele envolve, simultaneamente, rotas energéticas, mercados futuros, sistemas de sanções, alianças militares flexíveis, guerra de informação, negociações multilaterais frágeis, cadeias de mídia em tempo real e impactos econômicos imediatos em países sem participação militar direta. Segundo a Reuters, o conflito no Oriente Médio já levou o Banco Mundial a alertar para efeitos em cascata sobre o crescimento global, com risco de desaceleração econômica, inflação mais alta e forte elevação no preço da energia. A mesma cobertura registra a interrupção histórica do fluxo energético pelo Estreito de Ormuz e o esforço dos Estados Unidos para reabrir a rota, evidenciando como uma guerra regional pode reordenar instantaneamente o metabolismo da economia mundial.
É exatamente isso que Bauman antecipa: problemas concebidos globalmente retornam à arena política como se fossem passíveis de solução local. Governos nacionais se veem compelidos a responder a choques que não controlam. Populações reagem a efeitos que não escolheram. Democracias passam a administrar sintomas de processos cuja origem já escapou à sua escala decisória.
Guerra líquida: conflito territorial com efeitos planetários
A guerra líquida não elimina território, fronteira ou soberania. Ela os atravessa. Ela mantém alvos concretos, mas dispersa efeitos de modo instantâneo e transnacional. Um bombardeio em determinado ponto do Oriente Médio repercute no preço da gasolina, na inflação, na confiança do consumidor, na política monetária e na disputa eleitoral em centros ocidentais distantes. Não há mais “longe” em sentido pleno. Há graus diferentes de exposição.
As notícias mais recentes mostram isso com clareza. A AP relata que, após semanas de bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, foi anunciado um cessar-fogo frágil, em meio a milhares de mortos, grande destruição e persistente incerteza sobre sua duração. A Reuters registra que o acordo não resolveu a interrupção do Estreito de Ormuz nem encerrou outras frentes do conflito regional. A consequência é uma situação tipicamente líquida: mesmo quando a guerra parece “pausar”, seus fluxos de risco seguem circulando.
Essa guerra é líquida também em outro sentido: ela dissolve a velha separação entre frente militar, retaguarda econômica e espaço cultural. O campo de batalha não termina onde acaba o mapa da operação. Ele continua nos mercados, nas redes, nos discursos de segurança, nos algoritmos de recomendação, nas coberturas audiovisuais e nas sensibilidades coletivas.
Bauman diria que essa é a forma extrema da sociedade exposta aos golpes do destino: um mundo em que a violência, as armas e a informação circulam transfronteiriçamente com muito mais agilidade do que a justiça e a deliberação democrática.
Cultura ocidental líquida: espetáculo, consumo e moral seletiva
É na cultura do Ocidente que a liquidez talvez se torne mais visível. A guerra, em vez de permanecer apenas como evento político e humano, é absorvida pela gramática da circulação, do consumo e da disputa por atenção. O sofrimento entra no fluxo. A dor vira imagem. A análise cede espaço ao impacto. A complexidade histórica é comprimida em narrativas instantâneas, polarizadas e emocionalmente eficientes.
Bauman ajuda a compreender isso quando afirma que a cultura líquido-moderna está voltada a seduzir, estimular e renovar necessidades, não a estabilizar valores. Ela serve a um mercado de consumo orientado para a rotatividade.
Aplicado ao Ocidente contemporâneo, isso significa que a guerra passa a ser culturalmente processada como produto de alta circulação. Há indignação, mas frequentemente breve. Há comoção, mas em competição com entretenimento, moda, escândalo e publicidade. Há solidariedade, mas intermitente. O ciclo moral tende a acompanhar o ciclo da atenção. Ontem, a tragédia estava no topo da agenda; hoje, cedeu lugar a outro estímulo; amanhã, retorna sob nova embalagem. Não é esse o retrato mais cruel da liquidez cultural?
Mais ainda: a cultura ocidental líquida tende a operar por moral seletiva. O universalismo normativo é frequentemente proclamado em abstrato, mas aplicado de forma desigual conforme alianças geopolíticas, identidades civilizacionais e interesses estratégicos. O mesmo Ocidente que reivindica direitos humanos como linguagem universal muitas vezes relativiza, silencia ou hierarquiza sofrimentos quando eles atravessam alianças militares e interesses energéticos. Essa oscilação não é acidente retórico; ela é sintoma de uma cultura que preserva o discurso moral, mas flexibiliza sua aplicação prática.
Medo, distância moral e desumanização do outro
A contribuição de Modernidade e Holocausto torna essa análise mais profunda e mais incômoda. Bauman sustenta que a modernidade ampliou enormemente a capacidade de agir à distância e, com isso, ampliou também a possibilidade de neutralizar o impulso moral. A responsabilidade, escreve ele, surge da proximidade do outro; quando cresce a distância social, cresce a indiferença moral. A tecnologia, a burocracia e a racionalidade instrumental permitem que a ação produza efeitos devastadores muito além do alcance da visibilidade ética imediata.
Essa chave é central para entender a guerra contemporânea e a cultura ocidental que a acompanha. Ataques são decididos em gabinetes, executados por sistemas complexos e consumidos por audiências remotas. Entre quem decide, quem opera e quem sofre, a distância aumenta. E quanto maior a distância, mais fácil é converter vidas humanas em abstrações estratégicas: “alvos”, “dissuasão”, “infraestrutura”, “danos colaterais”, “resposta proporcional”, “janela operacional”.
A globalização líquida radicaliza esse mecanismo. Ela não apenas separa vítima e executor; ela separa também espectador e responsabilidade. Milhões assistem em tempo real, comentam, compartilham, tomam posição, mas tudo isso dentro de um regime de visibilidade que aproxima a imagem e afasta a obrigação. Vê-se muito. Assume-se pouco.
Em Amor líquido, Bauman já havia mostrado que a fragilidade dos laços e a lógica das conexões flexíveis prejudicam nossa capacidade de tratar estranhos com humanidade. A cultura das redes ensina a conectar e desconectar rapidamente; mas esse hábito técnico pode contaminar o vínculo moral com o outro.
O conflito EUA-Israel-Irã como laboratório da liquidez global
O atual confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã pode ser lido, portanto, como um laboratório histórico da globalização líquida em pelo menos cinco dimensões.
A primeira é a dimensão energética. O fechamento ou bloqueio do Estreito de Ormuz, mencionado por Reuters e AP, mostra que a circulação global de energia permanece vulnerável a choques localizados, produzindo inflação, instabilidade e pressão política muito além do teatro de guerra.
A segunda é a dimensão política. Há poder militar e financeiro globalizado, mas incapacidade política de estabilizar rapidamente o conflito e de produzir ordem durável. O cessar-fogo é descrito pelas agências como frágil, pouco claro e condicionado por múltiplas frentes paralelas.
A terceira é a dimensão cultural. O conflito é processado em tempo real por ecossistemas midiáticos e digitais do Ocidente, nos quais a guerra compete por atenção com toda a economia da distração. Nesse ambiente, a moral pública tende a oscilar com a intensidade do fluxo informacional, e não com a constância de princípios.
A quarta é a dimensão moral. A distância tecnológica e narrativa transforma o outro em abstração estratégica. Quanto mais sofisticado o aparato técnico, maior a tentação de imaginar que eficiência substitui responsabilidade. Bauman advertiu precisamente contra isso.
A quinta é a dimensão identitária. Em um mundo em que a política local é pressionada por processos globais, cresce a tendência de fechamento defensivo, de reafirmação civilizacional e de construção de inimigos. A guerra externa alimenta medos internos. O distante reorganiza o próximo.
Conclusão
A proposta de pensar uma globalização líquida a partir de Bauman permite compreender que o problema do presente não é apenas a existência de uma ordem global, mas o fato de ela operar com enorme fluidez material e comunicacional sem correspondente densidade política, ética e comunitária. O mundo tornou-se simultaneamente próximo e distante: próximo em informação, distante em responsabilidade; próximo em impacto econômico, distante em solidariedade; próximo em consumo imagético, distante em compromisso moral.
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã expõe esse diagnóstico de modo quase didático. Ela mostra que a liquidez global significa circulação veloz de armas, capitais, narrativas e medos; incapacidade das instituições de produzir estabilidade; transformação da cultura em máquina de absorção e rotatividade do sofrimento; e crescente dificuldade de sustentar uma ética do outro em meio à distância tecnológica e à volatilidade da atenção.
No fundo, a pergunta de Bauman permanece viva: como reunir novamente poder e política, proximidade e responsabilidade, cultura e sentido, globalização e justiça? Sem isso, a globalização seguirá líquida no pior sentido: capaz de conectar mercados e destruições, mas incapaz de consolidar humanidade compartilhada.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar.
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Reuters. Trump says US will have Strait of Hormuz “open fairly soon”. 10 abr. 2026.
Reuters. US likely to extend Russian oil waiver to temper Iran war shock, sources say. 10 abr. 2026.
Reuters. White House opted against televised address about Iran ceasefire, US officials say. 10 abr. 2026.
Associated Press. Ceasefire deal brings relief to some in Iran, but Trump’s threat to end a civilization still echoes. 10 abr. 2026.
Associated Press. Vance warns Iran not to “play” the US as he departs for negotiations aimed at ending the war. 10 abr. 2026.
Associated Press. US and Iran prepare for high-level talks as Israel and Hezbollah trade more fire. 10 abr. 2026.
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