terça-feira, 7 de abril de 2026

Sionismo e fascismo no mundo atual

Entre a denúncia política, a precisão conceitual e os riscos de uma analogia extrema


Introdução

Poucas comparações políticas carregam tanta eletricidade moral quanto esta: “o sionismo é o fascismo do mundo atual”. A frase circula em protestos, artigos de opinião, redes sociais e debates acadêmicos, quase sempre impulsionada por indignação real diante da violência, da ocupação territorial, da expansão de assentamentos e da desigualdade estrutural vivida pelos palestinos. Ela não nasce do vazio. Nasce do choque entre uma promessa histórica de autodeterminação e um presente atravessado por guerra, segregação, colonização e sofrimento humano.


Mas indignação, por si só, não resolve o problema da análise. Em temas delicados, o erro conceitual pode virar arma política. E quando a linguagem se torna arma, ela tanto ilumina quanto cega. Por isso, a questão central não é apenas moral, mas também intelectual: é correto afirmar que sionismo e fascismo são a mesma coisa? Ou essa equiparação, embora expressiva como denúncia, simplifica um fenômeno histórico muito mais complexo?


Responder exige separar três planos que costumam ser misturados no debate público: o sionismo como movimento ideológico e histórico, o Estado de Israel como forma estatal concreta, e as políticas específicas de governos israelenses, sobretudo nos territórios ocupados desde 1967. Também exige lembrar que o conceito de fascismo não pode ser usado como simples sinônimo de brutalidade. Na literatura especializada, fascismo é uma forma histórica específica de ideologia e de poder, marcada por ultranacionalismo, culto da unidade nacional, violência redentora, antiliberalismo, mobilização autoritária e pretensão de subordinar a sociedade a um projeto totalizante (Bianchi, 2024).


Este artigo sustenta uma tese dupla. Primeiro: a analogia entre sionismo e fascismo não se sustenta como equivalência total, porque apaga diferenças históricas, políticas e conceituais importantes. Segundo: isso não absolve as práticas de ocupação, segregação e dominação impostas aos palestinos, que têm sido qualificadas por relatórios internacionais e organizações de direitos humanos em termos severos, como apartheid, perseguição e violação do direito internacional. Em outras palavras, a crítica às políticas israelenses pode ser profunda, dura e juridicamente robusta sem que, para isso, precise sacrificar a precisão conceitual.


O que é fascismo, afinal?

Em tempos de retórica inflamada, “fascismo” virou palavra de uso fácil. Isso é compreensível, mas perigoso. Conceitos políticos não são martelos para bater em tudo que repugna; são instrumentos para distinguir fenômenos.


Na produção recente sobre o tema, Alvaro Bianchi (2024) insiste que o fascismo deve ser tratado como ideologia historicamente determinada, não como rótulo genérico para qualquer forma de autoritarismo. O fascismo clássico é ultranacionalista, estatólatra, antidemocrático e atribui à violência um papel fundador de uma nova ordem. Em chave semelhante, a tradição que deriva de Bobbio, Matteucci e Pasquino define o fascismo como sistema de dominação autoritário marcado por partido de massa, mobilização política, exaltação da unidade nacional, repressão das oposições e tendência totalizante sobre a vida social.


Não basta, portanto, haver nacionalismo, militarização ou violência de Estado para que se possa falar, automaticamente, em fascismo. Quase todo poder opressivo mobiliza esses elementos em algum grau. O fascismo, porém, supõe algo mais específico: uma estrutura política que busca remodelar a sociedade inteira a partir de um ideal orgânico de nação, eliminando pluralismo, dissenso e mediações liberais. Isso aparece de forma cristalina na própria doutrina fascista italiana, que exaltava o Estado como força educativa total, superior ao indivíduo, e via a guerra como ápice de energia política (Mussolini; Gentile, 1932).


Esse ponto é decisivo. Quando o conceito é alargado demais, ele perde utilidade. Tudo vira fascismo — e, no fim, nada é fascismo com rigor.


O que foi — e o que é — o sionismo

O sionismo moderno surgiu no fim do século XIX como movimento nacional judaico vinculado à ideia de autodeterminação e à construção de um lar nacional judeu na Palestina histórica. Em termos históricos, ele se formou num contexto marcado por antissemitismo europeu, nacionalismos modernos e crise da integração judaica na Europa. Trata-se, portanto, de um movimento que combinou memória histórica, identidade nacional, diplomacia internacional, colonização territorial e projeto estatal.


Esse já é o primeiro obstáculo contra qualquer equivalência simplista: o sionismo nunca foi um bloco homogêneo. Houve correntes políticas, trabalhistas, culturais, religiosas, liberais e revisionistas. Algumas defenderam convivência mais negociada; outras assumiram posturas mais militarizadas e expansionistas. Reduzir todo o sionismo a uma única essência é transformar história em caricatura.


Ao mesmo tempo, não se pode romantizar seu percurso. O projeto sionista se materializou em uma terra já habitada e, por isso, esteve desde cedo ligado a uma disputa concreta por território, soberania e legitimidade. A Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU, de 1947, propôs a partilha da Palestina em dois Estados, um árabe e um judeu, com regime internacional especial para Jerusalém. A criação de Israel, em 1948, não encerrou a questão; inaugurou uma nova fase do conflito.


Posteriormente, dispositivos legais como a Lei do Retorno, de 1950, garantiram a imigração judaica para Israel, e a Lei Básica do Estado-nação do povo judeu, de 2018, reafirmou constitucionalmente o caráter judaico do Estado, inclusive ao declarar que o direito à autodeterminação nacional em Israel é “único do povo judeu”. Isso não prova, por si só, fascismo; mas mostra um núcleo forte de etnonacionalismo jurídico, que alimenta debates profundos sobre igualdade, cidadania e hierarquia de pertencimento.


Onde a analogia ganha força

Se a frase “sionismo é fascismo” não é conceitualmente sólida como equivalência geral, por que ela ressoa tanto? Porque ela tenta condensar, de forma explosiva, três percepções políticas muito fortes.


A primeira é a percepção de supremacia etnonacional. Quando uma ordem estatal afirma, na prática ou na lei, que um grupo nacional possui primazia permanente sobre outro, o debate deixa de ser apenas institucional e passa a tocar uma zona moral explosiva: a de quem pode pertencer plenamente e quem é empurrado para uma condição subordinada. A Lei Básica de 2018 se tornou central justamente por isso.


A segunda é a percepção de colonização contínua do território. A Resolução 2334 do Conselho de Segurança da ONU reafirmou que os assentamentos israelenses nos territórios ocupados desde 1967 “não têm validade legal” e constituem “violação flagrante” do direito internacional. Relatórios recentes do secretário-geral da ONU continuam registrando a expansão dos assentamentos e seus efeitos sobre a viabilidade de uma solução de dois Estados.


A terceira é a percepção de dominação estrutural. Human Rights Watch, Amnesty International e B’Tselem publicaram relatórios ou posicionamentos sustentando que há uma estrutura sistemática de opressão e dominação de judeus israelenses sobre palestinos, empregando a categoria de apartheid e, em certos casos, de perseguição. Esses relatórios enfatizam expropriação de terras, restrições severas de mobilidade, regimes legais distintos, negação de direitos e fragmentação territorial da população palestina.


É aqui que a analogia encontra combustível. Não porque ela seja tecnicamente exata, mas porque tenta nomear um mundo em que a desigualdade não é acidente: é arquitetura.


Onde a analogia quebra

Mas analogia não é identidade. E é justamente aqui que o debate exige sangue-frio.


O primeiro ponto é que sionismo não é sinônimo de regime fascista. O fascismo clássico pressupõe uma forma específica de organização do poder: partido único ou hegemonia totalizante, destruição sistemática do pluralismo, culto ao líder, mobilização total da sociedade e absorção da política pela lógica de um Estado orgânico. O Estado de Israel, apesar de todas as críticas duríssimas que merecem suas políticas territoriais e securitárias, não corresponde integralmente a esse modelo clássico. Há competição partidária, eleições, imprensa plural e conflitos internos reais. Isso não o torna inocente; apenas indica que a categoria “fascismo”, em sentido estrito, é insuficiente como chave total de interpretação.


O segundo ponto é que a categoria mais utilizada por organismos e relatórios especializados, hoje, não é fascismo, mas apartheid, perseguição, ocupação prolongada e violação do direito internacional. Isso não é detalhe semântico. É diferença de método. “Fascismo” funciona muitas vezes como slogan moral; “apartheid”, “perseguição” e “ocupação” operam como categorias jurídicas e analíticas mais específicas para o que está sendo documentado.


O terceiro ponto é ético. A fusão automática entre “sionismo”, “Israel”, “governos israelenses” e “judeus” produz um terreno perigoso. A definição de trabalho da IHRA alerta que certas comparações entre políticas israelenses e o nazismo podem, dependendo do contexto, constituir formas de demonização antissemita. Por outro lado, a Jerusalem Declaration on Antisemitism insiste que a crítica a Israel e ao sionismo não é, por definição, antissemitismo. O desafio, portanto, é cirúrgico: criticar com radicalidade sem cair na culpabilização coletiva.


Em linguagem simples: é preciso atacar a injustiça sem recair em essencialismos. A luta contra a opressão não pode copiar a lógica que combate.


Sionismo revisionista, extrema-direita e a zona cinzenta do debate

Há, no entanto, uma zona intermediária que não pode ser ignorada. Certas correntes do sionismo revisionista, especialmente no entreguerras, tiveram aproximações reais com repertórios autoritários, militaristas e ultranacionalistas típicos da direita radical europeia. Estudos recentes mostram que o revisionismo sionista não foi monolítico, mas incluiu setores com linguagem disciplinar, culto da força e imaginação política de cunho organicista.


Esse dado importa muito. Ele mostra que a ponte entre sionismo e fascismo não é pura invenção panfletária, mas também não autoriza generalizações totais. O que existe é uma relação histórica parcial, localizada, tensa e interna a determinadas correntes. Transformar isso em essência universal do sionismo é falsear a escala do problema.


É como olhar uma rachadura real em um edifício e, a partir dela, afirmar que todo o terreno é o mesmo abismo. A rachadura existe. Mas a análise séria exige medir sua extensão, sua profundidade e sua função estrutural.


O verdadeiro centro moral da questão

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante nem seja “isso é fascismo?”. Talvez a pergunta decisiva seja outra: que tipo de ordem política se torna aceitável quando uma população inteira é submetida por décadas à expropriação, ao cerco, à fragmentação territorial e à desigualdade jurídica?


Esse é o coração da tragédia contemporânea. E é por isso que a frase radical continua circulando. Ela é, antes de tudo, um grito contra a normalização do intolerável.


Mas gritos, embora necessários, não bastam para pensar. Uma análise consistente precisa dizer com clareza que o sofrimento palestino não depende da palavra “fascismo” para ser reconhecido como escândalo histórico e humano. A ocupação prolongada, a expansão de assentamentos, a negação de direitos, os deslocamentos forçados e a arquitetura de dominação documentada por relatórios internacionais já constituem, em si, matéria suficiente para uma condenação política, jurídica e moral de grande peso.


Conclusão

A fórmula “sionismo é o fascismo do mundo atual” tem força retórica, mas baixa precisão conceitual. Como denúncia, ela expressa revolta diante de um sistema percebido como etnonacionalista, expansionista e violentamente excludente. Como conceito histórico e político, porém, ela falha ao colapsar níveis distintos de análise: confunde um movimento ideológico heterogêneo com um tipo específico de regime totalizante, e troca distinção analítica por intensidade moral.


Isso não significa suavizar a crítica. Ao contrário. Significa fortalecê-la. A ocupação dos territórios palestinos, a expansão dos assentamentos condenada pela ONU, a desigualdade estrutural descrita por importantes organizações de direitos humanos e a juridificação da primazia etnonacional em Israel são fatos graves demais para depender de exageros semânticos. A realidade já é dura o suficiente.


O desafio intelectual e ético do presente é este: recusar a barbárie sem banalizar os conceitos, nomear a injustiça sem dissolver a história, denunciar a opressão sem reproduzir essencialismos coletivos. Em tempos de linguagem incendiária, talvez a forma mais radical de honestidade seja justamente esta: chamar cada coisa pelo nome mais exato possível. Porque, quando a humanidade falha em nomear corretamente seus monstros, ela começa, pouco a pouco, a conviver com eles.


Referências

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AMNESTY INTERNATIONAL. Q&A: Israel’s apartheid against Palestinians: cruel system of domination and crime against humanity. London: Amnesty International, 2022. Disponível em: https://www.amnesty.org/en/latest/research/2022/02/qa-israels-apartheid-against-palestinians-cruel-system-of-domination-and-crime-against-humanity/. Acesso em: 7 abr. 2026.


BIANCHI, Alvaro. Fascismos: ideologia e história. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, v. 43, n. 1, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/nec/a/kdKSW7Fq8VvS93BqwRsBzRP/. Acesso em: 7 abr. 2026.


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