terça-feira, 7 de abril de 2026

Trabalho, alienação e submissão: como o capitalismo captura a potência humana e a devolve como servidão

Quando o trabalho deixa de humanizar e passa a domesticar


Introdução

O trabalho ocupa, há séculos, um lugar ambíguo na experiência humana. Ele pode ser criação, expressão, encontro com o outro, transformação da natureza e produção da história. Mas também pode ser cansaço, disciplina imposta, repetição, sofrimento e perda de si. Essa duplicidade não é acidental. Ela revela que o trabalho não é uma essência abstrata e imutável, mas uma realidade historicamente organizada. Em determinadas formações sociais, o trabalho aproxima o ser humano de sua potência criadora; em outras, torna-se mecanismo de submissão, expropriação e esvaziamento existencial.   


No capitalismo, essa contradição atinge seu grau mais agudo. O que deveria ser mediação da humanização converte-se em mercadoria, e o trabalhador passa a existir socialmente não como sujeito pleno, mas como portador de força de trabalho vendável. O produto que ele cria não lhe pertence; o processo que executa não é controlado por ele; o tempo que vive é subordinado à produtividade; o conhecimento acumulado pelo trabalho coletivo reaparece diante dele como poder estranho, concentrado nas máquinas, na gestão, na empresa e no capital. O resultado dessa arquitetura é a alienação: uma forma social na qual o homem produz o mundo, mas não se reconhece nele.   


Mais do que isso, o capitalismo não se sustenta apenas pela coerção econômica. Ele necessita também de ideologias de legitimação. Por isso, o trabalho é frequentemente revestido de linguagem moral, religiosa, meritocrática e civilizatória. Submeter-se ao trabalho passa a ser apresentado como virtude; resistir à exploração, como falha moral; não ascender, como fracasso individual. Nesse ponto, a dominação material se reforça por uma dominação simbólica: o trabalhador passa a interpretar sua própria subordinação com as categorias do sistema que o explora. 


Este artigo sustenta que o problema central não está no trabalho em si, mas na forma histórica pela qual ele foi organizado no capitalismo. Quando capturado pela lógica da mercadoria, do lucro e da acumulação, o trabalho deixa de ser prática de autoconstrução humana e torna-se instrumento de separação entre o homem e sua própria essência histórica. A crítica ao trabalho alienado, portanto, não é uma recusa da atividade humana transformadora; é uma recusa de sua deformação social e política.   


1. O trabalho como condição da humanidade


Antes de ser reduzido a emprego, salário ou produtividade, o trabalho precisa ser compreendido em sua densidade ontológica. Suzana Albornoz mostra que a palavra “trabalho” carrega sentidos múltiplos: esforço, fadiga, atividade física ou intelectual, obra, profissão, tarefa, sofrimento e criação. Em português, a mesma palavra abriga tanto o sentido de labor penoso quanto o de realização de uma obra que expressa quem a produz. Esse duplo conteúdo é decisivo, porque mostra que a experiência do trabalho jamais foi unívoca. 


No plano filosófico e antropológico, o trabalho é mais do que simples atividade voltada à sobrevivência. Ele é a mediação pela qual o ser humano transforma a natureza e, ao fazê-lo, transforma a si mesmo. O homem não apenas usa o mundo: ele projeta fins, organiza meios, inventa instrumentos, produz cultura, memória e história. O trabalho, nesse sentido, é inseparável da humanização. Não se trata apenas de produzir coisas, mas de produzir um mundo humano e, simultaneamente, produzir-se como sujeito histórico dentro dele.   


Wanderley Codo radicaliza esse ponto ao afirmar que o homem é aquilo que faz de seu mundo por meio do trabalho. Quando produz, ele se exterioriza no objeto, deixa nele sua marca, projeta sua subjetividade e reconhece-se em sua obra. O trabalho aparece, então, como possibilidade de síntese entre indivíduo, natureza, técnica e sociabilidade. Ferramentas, gestos e produtos condensam a história acumulada da humanidade e permitem ao sujeito inserir-se nela de modo ativo. O trabalho criador é, portanto, uma forma de transcendência concreta. 


Por isso, qualquer reflexão séria sobre alienação precisa partir de um ponto elementar: o trabalho não é originalmente degradação. Ele torna-se degradado sob determinadas relações sociais. Em sua forma livre e criadora, ele permite comunicação entre os homens, aprendizagem, domínio significativo da técnica, transformação da matéria e constituição de identidade. O problema começa quando essa potência deixa de pertencer ao sujeito que a realiza. 


2. Capitalismo: quando o trabalho vira mercadoria


Afrânio Mendes Catani mostra que o capitalismo não pode ser definido apenas como desejo de lucro ou existência de comércio. Lucro, troca e enriquecimento existiram em outras épocas. O traço distintivo do capitalismo moderno está em sua forma específica de organizar a produção: propriedade privada concentrada dos meios de produção, divisão social do trabalho, mercantilização generalizada e transformação da força de trabalho em mercadoria. É essa estrutura que funda a exploração especificamente capitalista. 


Na análise marxista apresentada por Catani, a força de trabalho humana torna-se mercadoria quando uma classe social, desprovida dos meios de produção, é obrigada a vendê-la para sobreviver. O trabalhador não vende simplesmente um produto; vende sua capacidade de trabalhar, seu tempo vital, sua energia física e intelectual. O salário que recebe equivale, em linhas gerais, ao custo de reprodução dessa força de trabalho, isto é, ao necessário para sua subsistência. Mas, durante a jornada, ele produz valor superior ao que recebe. Essa diferença é a mais-valia, apropriada pelo capitalista. 


Aqui se localiza o núcleo duro da dominação capitalista. O sistema não compra o trabalho já feito; compra a possibilidade de fazê-lo operar durante determinado tempo e extrai dela um valor excedente. Em outras palavras, o trabalhador produz mais do que consome e mais do que recebe. Sua atividade torna-se fonte de enriquecimento alheio. A riqueza social aparece, assim, como resultado do trabalho coletivo, mas a apropriação dessa riqueza é privada. 


Esse movimento só foi possível historicamente porque os produtores diretos foram separados de seus meios de produção. Catani, com base em Marx e Maurice Dobb, lembra que o capitalismo não surgiu de maneira espontânea e pacífica. Sua gênese envolveu expulsão de camponeses, empobrecimento, endividamento, destruição de formas anteriores de produção e formação de um proletariado despossuído. A liberdade do trabalhador moderno é, nesse sentido, contraditória: ele é formalmente livre para vender sua força de trabalho, mas materialmente compelido a fazê-lo. 


O trabalho, então, sofre uma transformação decisiva. Ele já não é sobretudo relação criadora entre homem e mundo, mas elemento subordinado à valorização do capital. A finalidade da produção não é a utilidade concreta do objeto nem a realização humana do produtor, mas a expansão do valor, a acumulação e a reprodução ampliada do capital. Quando isso ocorre, o trabalho passa a ser medido prioritariamente por critérios externos a ele: custo, tempo médio, produtividade, competitividade e taxa de lucro.   


3. A ideologia do trabalho como dever, vocação e submissão


O capitalismo não opera apenas por meio da expropriação econômica. Ele precisa construir uma ética capaz de apresentar a subordinação como necessidade moral. Catani recupera, a partir de Max Weber, a relação entre protestantismo, especialmente o calvinismo, e a formação do “espírito do capitalismo”. Nessa tradição, o trabalho profissional passa a ser valorizado como vocação, disciplina, sinal de graça e meio de glorificação de Deus. O tempo ocioso aparece como pecado; a poupança e o reinvestimento, como virtudes; o prazer, como suspeito. 


Historicamente, essa ética ajudou a naturalizar a ideia de que trabalhar incessantemente é um bem em si, independentemente do conteúdo, das condições e das finalidades do trabalho. A submissão ao ofício, à rotina e à profissão ganhou uma legitimação transcendente. O indivíduo deveria organizar sua vida em torno da produtividade, da autodisciplina e da renúncia. A riqueza, desde que não fosse dissipada em ostentação, podia ser vista positivamente, sobretudo quando reinvestida para gerar mais trabalho e mais acumulação. 


Essa herança ainda atravessa o imaginário contemporâneo. Embora secularizada, ela reaparece sob novas máscaras: empreendedorismo redentor, meritocracia, culto da performance, glorificação do excesso de trabalho, culpabilização da pobreza e desprezo pelo lazer improdutivo. O trabalhador ideal é aquele que se adapta sem resistir, agradece pela oportunidade de exploração, interpreta a sobrecarga como prova de valor e confunde obediência com maturidade. Trata-se da velha moral da submissão reconfigurada em linguagem gerencial. Essa formulação é uma inferência crítica a partir das estruturas descritas por Weber, Catani, Albornoz e Codo.     


Suzana Albornoz ajuda a perceber o alcance dessa captura ideológica ao mostrar que a modernidade glorificou teoricamente o trabalho justamente quando o tornou cada vez mais alienado. O indivíduo moderno passou a encontrar dificuldade em dar sentido à vida fora do trabalho, mesmo quando este se converteu em rotina fragmentada, disciplinada e subordinada a objetivos externos. O resultado é perverso: a sociedade promete libertação pela técnica e pela produtividade, mas produz sujeitos que já não sabem o que fazer com a liberdade senão trabalhar mais. 


A ideologia da submissão, portanto, funciona em dois níveis. No primeiro, legitima a dominação do capital sobre o trabalho, apresentando-a como ordem natural, racional ou moralmente desejável. No segundo, coloniza a subjetividade do trabalhador, fazendo com que ele interprete sua própria expropriação como destino pessoal ou falha individual. O problema deixa de ser estrutural e passa a parecer psicológico. A exploração desaparece atrás da narrativa do esforço insuficiente.   


4. Alienação: a ruptura entre o homem e aquilo que ele produz


Wanderley Codo define a alienação como esse estranho movimento em que algo é e não é do sujeito ao mesmo tempo. O exemplo comercial do bem alienado prepara o terreno para algo mais profundo: no trabalho alienado, o homem se projeta no que produz, mas perde o controle sobre sua criação e sobre si próprio. O produto ganha autonomia; o produtor, ao contrário, perde-a. O que era exteriorização de vida torna-se retorno hostil. 


Na forma não alienada, o trabalho é comunicação, aprendizagem, criação de vínculos e autoconstrução. Codo mostra isso no exemplo da banqueta feita artesanalmente: escolher materiais, usar ferramentas, experimentar soluções, montar o objeto e reconhecê-lo como portador da presença do criador. O produto condensa história, saber social, inventividade e subjetividade. Produzir é também produzir-se. 


Na fábrica, entretanto, o mesmo objeto é produzido sob lógica oposta. O trabalhador entra por seleção competitiva, é submetido a normas que não elaborou, é treinado para executar apenas uma parte do processo, perde o domínio técnico do todo e passa a operar em ritmo imposto pela linha de produção. Ele participa da fabricação de centenas de banquetas, mas não sabe fazer uma única integralmente. Produz em massa, mas não domina a produção; trabalha no objeto, mas não se reconhece nele; cria valor, mas não cria para si. 


Esse deslocamento revela o coração da alienação. O trabalhador não apenas perde o produto final; perde também o sentido do gesto. Seu trabalho deixa de aparecer como expressão de suas capacidades humanas e passa a existir como função externa, mensurável, repetitiva, destacável de sua individualidade concreta. A subjetividade é substituída pela força de trabalho abstrata. O ser humano aparece reduzido a quantidade de tempo e energia disponível para o processo produtivo.   


Há, ainda, uma alienação do conhecimento. Codo mostra que, na produção industrial, o saber socialmente acumulado aparece fragmentado em departamentos, máquinas, rotinas e funções. O conhecimento produzido historicamente pelo trabalho coletivo reaparece como poder externo ao trabalhador individual. Este executa sem compreender a totalidade. As máquinas, que são inteligência humana acumulada, dominam aquele mesmo homem cuja história ajudou a produzi-las. 


A alienação é também social. No trabalho criador, o outro aparece como interlocutor e coautor da experiência humana. No trabalho alienado, o outro surge como concorrente, fiscal, chefe, consumidor abstrato ou presença estranha. A sociabilidade se degrada em antagonismo ou indiferença. O trabalho, que deveria integrar o indivíduo à espécie, converte-se em meio de solidão e estranhamento. Codo é contundente ao afirmar que a alienação inventa a solidão humana. 


5. Trabalho abstrato, preço e apagamento da individualidade


Um dos efeitos mais profundos da mercantilização do trabalho é o desaparecimento de sua singularidade concreta. Catani, ao explicar Marx, mostra que toda mercadoria possui valor de uso e valor de troca. Enquanto valor de uso, ela responde a uma necessidade específica; enquanto valor, torna-se equivalente abstrato em relação a outras mercadorias, medida por uma quantidade de trabalho socialmente necessário. O que importa, nesse plano, não é o gesto singular de quem produziu, mas o trabalho abstrato condensado no produto. 


Codo traduz essa formulação para a experiência cotidiana: quando o trabalho vira preço, perde-se a materialidade do gesto humano concreto. Pouco importa se um trabalhador lento levou cinco horas para fazer um banco e outro experiente levou meia hora. O mercado não remunera a singularidade existencial do trabalho; impõe um padrão médio social. Assim, o trabalho individual é subsumido a uma medida abstrata, e a diferença qualitativa dos sujeitos é esmagada pela equivalência mercantil. 


Essa abstração é politicamente decisiva. Ela não apenas facilita a troca; facilita também a dominação. Se todos os trabalhos concretos podem ser reduzidos a quantidades comparáveis de trabalho abstrato, então os trabalhadores também podem ser tratados como unidades substituíveis. O sistema ganha enorme capacidade de controle porque deixa de depender do sujeito em sua singularidade e passa a depender apenas da função que ele ocupa e do tempo que entrega. A pessoa torna-se acessório do processo.   


É nesse sentido que a alienação retira do povo a possibilidade de conhecer sua verdadeira essência dentro da humanidade. Não porque elimine por completo essa essência, mas porque a obscurece sistematicamente. O homem é histórico, criador, relacional e genérico; porém, no trabalho alienado, aparece a si mesmo como peça, recurso, custo, colaborador, número, meta ou desempenho. A verdade antropológica do trabalho é encoberta por sua forma mercantil.   


6. A submissão do trabalhador como projeto político


A alienação não é um acidente psicológico nem um desvio moral do sistema. Ela é funcional à reprodução do capitalismo. Um trabalhador que domina integralmente o processo, reconhece-se em sua obra, compreende a totalidade das relações de produção e identifica a origem estrutural de sua exploração torna-se menos governável. Por isso, a fragmentação do trabalho não é apenas uma técnica produtiva; é também uma técnica de poder.   


Suzana Albornoz observa que o trabalho contemporâneo se separou do prazer, da cultura, da moradia, da participação política e do conhecimento do processo global. Catani mostra que essa organização atende à racionalidade da acumulação, da concorrência e da valorização do capital. Codo, por sua vez, demonstra que tal forma de trabalho produz sujeitos esvaziados, incapazes de se reconhecer no que fazem. Juntos, esses autores permitem concluir que a submissão do trabalhador não é periférica ao capitalismo; ela é uma de suas condições centrais.     


A ideologia da submissão age, então, como complemento necessário da exploração material. O trabalhador deve obedecer ao ritmo da máquina, à organização da fábrica, à disciplina do tempo, à abstração do salário e à moral do desempenho. Deve ainda acreditar que tudo isso é natural, inevitável ou desejável. Sua consciência precisa ser adaptada à forma social que o mutila. Não basta que ele seja explorado; é preciso que interprete sua exploração como normalidade. 


A consequência mais grave desse processo talvez não seja apenas a pobreza material, embora ela seja decisiva. O efeito mais profundo é a amputação da consciência histórica. O povo deixa de perceber que a riqueza social é obra de seu trabalho coletivo; deixa de reconhecer que as máquinas, o conhecimento técnico, a infraestrutura, a cultura e a produção são sedimentações de gestos humanos acumulados; deixa de ver-se como autor da história. E quando uma classe perde a consciência de que faz o mundo, torna-se mais fácil convencê-la de que nasceu apenas para servi-lo. Essa formulação é uma inferência crítica apoiada nas análises dos três autores.     


Conclusão


A crítica do trabalho alienado exige recusar uma confusão muito difundida: a de que criticar o trabalho no capitalismo seria criticar o trabalho enquanto dimensão constitutiva da humanidade. O oposto é verdadeiro. Só é possível criticar o trabalho alienado porque o trabalho, em sua verdade mais profunda, é criação, historicidade, inteligência social, linguagem materializada e possibilidade de autoconstrução humana. O que está em questão não é abolir a atividade transformadora do homem, mas denunciar a forma social que a mutila e a converte em instrumento de servidão.   


O capitalismo realiza uma operação histórica de enorme violência: captura a potência criadora do trabalho coletivo, privatiza seus frutos, fragmenta seus processos, abstrai seus significados e devolve aos produtores um mundo que lhes aparece como força estranha. O trabalhador produz a riqueza, mas experimenta a miséria; produz o objeto, mas não o possui; produz a técnica, mas não a domina; produz a sociabilidade, mas vive o isolamento; produz a história, mas é impedido de reconhecê-la como sua. Essa é a anatomia da alienação.   


As ideologias de submissão completam esse circuito ao apresentar a exploração como virtude, a obediência como maturidade, a exaustão como mérito e o fracasso social como culpa individual. O povo alienado não é apenas economicamente espoliado; é simbolicamente desarmado. Rouba-se dele não só o produto do trabalho, mas também a consciência de que sua humanidade se realiza precisamente na capacidade de criar o mundo comum. O resultado é uma população trabalhadora afastada de sua essência histórica, isto é, de sua condição de sujeito coletivo, criador, universal e transformador.   


Por isso, a luta contra a alienação não pode limitar-se à denúncia moral da exploração nem a reformas pontuais na gestão do trabalho. Ela exige reabrir a questão fundamental: a quem pertencem os meios de produção, os frutos do trabalho, o conhecimento social acumulado e o controle sobre o tempo da vida? Enquanto o trabalho permanecer subordinado à mercadoria, ao lucro e à acumulação privada, continuará sendo utilizado para domesticar aqueles que deveriam, por ele, reconhecer-se como autores da história. Superar a alienação, em última instância, é devolver ao trabalho sua dimensão propriamente humana: a de ser uma prática de liberdade, consciência e realização coletiva da humanidade.     


Referências


Albornoz, Suzana. O que é trabalho. São Paulo: Brasiliense, s.d. 

Catani, Afrânio Mendes. O que é capitalismo. São Paulo: Brasiliense, s.d. 

Codo, Wanderley. O que é alienação. São Paulo: Brasiliense, s.d. 


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