Como o personalismo político, a retórica da ameaça e a fabricação do consentimento atualizam La Boétie no século XXI
Índice
1. Introdução
1.1. O problema da obediência política
1.2. La Boétie e a atualidade do poder personalista
2. La Boétie e a anatomia da dominação
2.1. O poder não se sustenta sozinho
2.2. Hábito, benefício e consentimento
3. Trump e a teatralização da autoridade
3.1. O líder como centro simbólico
3.2. Personalismo, lealdade e erosão institucional
3.3. A política como mobilização afetiva permanente
4. Netanyahu e a política da sobrevivência no poder
4.1. Guerra, ameaça existencial e centralização
4.2. Crise institucional e disputa sobre os freios democráticos
4.3. O líder como escudo da nação
5. A convergência entre Trump e Netanyahu à luz de La Boétie
5.1. O inimigo permanente
5.2. O círculo de lealdades
5.3. A obediência emocional
6. Servidão voluntária na era digital
6.1. Redes, algoritmos e fidelização política
6.2. Vigilância, medo e normalização
6.3. O seguidor como operador do poder
7. Conclusão
8. Referências
Lide
O Discurso da servidão voluntária, de Étienne de La Boétie, permanece uma das chaves mais agudas para compreender a política contemporânea. Seu argumento central é simples e devastador: o poder de um governante não deriva apenas da força, mas da colaboração ativa, do hábito da obediência e da aceitação social que o sustenta. Quando essa lente é aplicada às trajetórias de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e de Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro de Israel, emerge uma questão decisiva: de que modo lideranças personalistas transformam medo, lealdade, espetáculo e ameaça permanente em mecanismos de adesão? Mais do que comparar dois estilos políticos, trata-se de mostrar como ambos mobilizam afetos, narrativas de exceção e fidelidades intensas para fortalecer sua centralidade. Em termos boetianos, não basta perguntar o que esses líderes fazem; é preciso perguntar por que tantos aceitam, repetem, defendem e naturalizam esse poder. Donald Trump é o 45º e 47º presidente dos Estados Unidos, segundo a Casa Branca, e Benjamin Netanyahu chefia o governo israelense como primeiro-ministro, conforme o portal oficial do governo de Israel.
1. Introdução
La Boétie formulou um problema que continua incômodo porque desloca o foco da análise política. Em vez de perguntar apenas como o governante domina, ele pergunta por que a sociedade o sustenta. No Discurso da servidão voluntária, o ponto central é que a tirania não vive só da espada; vive da cooperação, do costume e da estrutura de benefícios que a alimenta. O tirano parece grande porque muitos o levantam. Quando poucos mandam sobre muitos, isso ocorre não apenas porque esses poucos dispõem de força, mas porque a obediência foi socialmente organizada e interiorizada.
Esse enquadramento é especialmente útil para analisar figuras contemporâneas que operam por meio do personalismo, da dramatização permanente da política e da concentração simbólica da autoridade. Trump e Netanyahu pertencem a sistemas políticos distintos, com histórias, instituições e contextos muito diferentes. Ainda assim, em ambos os casos, observa-se a centralidade do líder como intérprete exclusivo da nação, a mobilização constante de ameaças externas e internas e o enfraquecimento do espaço crítico para a dissidência dentro do próprio campo político. Essa leitura não equivale a dizer que os dois regimes sejam idênticos; significa que ambos podem ser analisados por uma mesma gramática: a da obediência fabricada.
2. La Boétie e a anatomia da dominação
O mérito singular de La Boétie está em perceber que o poder duradouro depende de uma engenharia social da submissão. As pessoas obedecem porque foram acostumadas a obedecer, porque retiram vantagens da ordem existente, porque temem o caos e porque passam a imaginar o governante como algo maior do que ele realmente é. A dominação, nessa chave, é menos um ato isolado de violência e mais um ecossistema de repetição, recompensa e naturalização.
Outro ponto crucial é a cadeia de intermediários. O governante não reina sozinho; ele é cercado por cortes, aparelhos, aliados, beneficiários e defensores que lucram material ou simbolicamente com sua permanência. É essa rede que transforma mando pessoal em sistema político. Em linguagem contemporânea, diríamos que o personalismo não se sustenta apenas pelo carisma do líder, mas por um arranjo de lealdades, incentivos e identidades políticas que produzem uma comunidade de obediência.
3. Trump e a teatralização da autoridade
Donald Trump ocupa hoje a presidência dos Estados Unidos em seu segundo mandato não consecutivo, e a própria Casa Branca apresenta sua figura como a de um líder que retorna com “mandato” para reorientar o país. Mais do que uma plataforma administrativa, o trumpismo consolidou-se como forma de política centrada na pessoa do líder, em sua linguagem direta, em sua capacidade de polarização e em sua pretensão de encarnar a “verdadeira” vontade nacional contra inimigos internos e externos.
Diversas análises recentes descrevem o fenômeno como profundamente personalista. A Reuters registrou ainda em 2024 que, entre muitos delegados e militantes republicanos, o partido já era reconhecido como “o partido de Trump”, enquanto estudo acadêmico de 2026 na Current Sociology sustenta que o trumpismo vai além do populismo convencional e assume traços de ideologia personalista e “cultlike”, penetrando tanto nas elites quanto na base popular como política legítima. Essa combinação importa muito para uma leitura boetiana: a autoridade não se apresenta apenas como programa, mas como fidelidade ao homem que personifica a causa.
A relação com as instituições é outro ponto decisivo. Reportagem recente mostra que juízes federais têm reagido com crescente frequência a medidas da atual administração Trump, enquanto aliados do presidente atacam a legitimidade do Judiciário com retórica cada vez mais agressiva. Quando o líder se apresenta como a própria nação, todo freio institucional tende a aparecer para sua base como obstáculo ilegítimo, sabotagem ou traição. Esse deslocamento é precisamente o tipo de movimento que La Boétie ajuda a compreender: a obediência deixa de ser dirigida à lei e passa a ser dirigida ao centro carismático que reivindica falar acima dela.
Trump também domina o campo político pelo espetáculo. Ele simplifica conflitos, dramatiza ameaças, encena força e converte cada disputa em teste de lealdade. Isso fortalece uma forma emocional de obediência. O seguidor não adere apenas a propostas; adere a uma narrativa de pertencimento. Em tal cenário, discordar do líder passa a parecer deserção do grupo. É aqui que La Boétie continua afiado: a servidão moderna não exige ajoelhamento explícito; exige fidelização afetiva.
4. Netanyahu e a política da sobrevivência no poder
É importante corrigir um ponto factual: Benjamin Netanyahu não é presidente de Israel; ele é primeiro-ministro. O cargo é confirmado pelo portal oficial do governo israelense, que o identifica como chefe do gabinete do primeiro-ministro e principal figura do Executivo parlamentar israelense.
A longa trajetória de Netanyahu no poder permite uma leitura diferente, mas complementar à de Trump. Se o trumpismo se estrutura em torno do espetáculo personalista e da captura afetiva do partido, Netanyahu opera como o sobrevivente máximo da política israelense, convertendo crise, guerra, ameaça externa e conflito institucional em instrumentos de preservação de centralidade. O Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos observou que as eleições israelenses de 2026 seriam fortemente moldadas por temas como a responsabilidade pelos fracassos de 7 de outubro de 2023, a guerra em Gaza e a retomada das disputas sobre a reforma judicial.
Nesse contexto, a figura do líder se fortalece quando se apresenta como escudo indispensável diante de um inimigo existencial. A política deixa então de girar em torno de projetos ordinários de governo e passa a operar em regime de emergência contínua. Isso favorece a concentração da autoridade, deslegitima a oposição como ingênua ou perigosa e reduz o espaço de crítica interna. Em janeiro de 2026, o Instituto de Democracia de Israel resumiu medidas e discursos que, em sua avaliação, enfraquecem a democracia israelense, com destaque para a escalada verbal contra o Judiciário e para pressões que deterioram o equilíbrio institucional.
Há também indícios de forte personalização do campo governista em torno de Netanyahu. Análises recentes apontam para traços de culto de personalidade entre segmentos da direita israelense, enquanto estudos acadêmicos tratam Netanyahu como caso relevante de populismo estratégico orientado à manutenção do poder. Mesmo quando enfrenta desgaste militar ou político, sua figura tende a ser reembalada como a única capaz de proteger o Estado, administrar a guerra ou impedir a ascensão de adversários retratados como ameaça. Essa lógica é muito próxima da anatomia boetiana: a obediência se fixa não porque o líder seja necessariamente incontestável, mas porque muitos são levados a crer que sem ele a ordem desmorona.
5. A convergência entre Trump e Netanyahu à luz de La Boétie
O elo mais forte entre os dois casos está na política do inimigo permanente. Tanto Trump quanto Netanyahu organizam parte significativa de sua legitimidade pela produção contínua de fronteiras morais e existenciais. Há sempre um “eles”: o establishment, os juízes, a imprensa hostil, os inimigos externos, os opositores internos, os que ameaçam a segurança, a tradição ou a nação. O líder aparece, então, como filtro único entre a comunidade e o colapso. Essa estrutura retórica é um poderoso fabricante de obediência porque transforma adesão em autoproteção.
Outro ponto de convergência é a formação de círculos de lealdade. La Boétie já notava que o dominador distribui vantagens para consolidar sua base. No presente, isso se traduz em redes partidárias, influenciadores, ministros, comentaristas, doadores, burocracias alinhadas e militâncias digitais que passam a depender da continuidade do líder. O poder deixa de ser apenas vertical e se converte em comunidade de interesse. Quanto mais o sistema se personaliza, mais a crítica ao líder parece ameaça à sobrevivência material e simbólica dos que o cercam.
Há ainda a obediência emocional. Em ambos os casos, a política é narrada menos como deliberação racional entre alternativas e mais como prova de fidelidade, combate moral e afirmação identitária. O seguidor não apenas concorda; ele se reconhece no líder. Esse talvez seja o ponto em que La Boétie mais dialoga com o presente: a servidão voluntária não é pura passividade. Ela é participação apaixonada na reprodução do poder.
6. Servidão voluntária na era digital
Se La Boétie analisou o costume, hoje é preciso acrescentar a infraestrutura digital da obediência. Redes sociais, plataformas de vídeo, mensageria instantânea e sistemas algorítmicos amplificam o personalismo porque recompensam simplificação, repetição, indignação e culto à presença constante do líder. O político que domina esses circuitos não fala apenas com a população; ele habita sua rotina, pauta seu imaginário e organiza comunidades de vigilância mútua entre seguidores. Normas e organismos internacionais têm insistido em transparência, supervisão humana e proteção de direitos justamente porque o uso de IA e ecossistemas digitais na gestão e comunicação pública pode ampliar assimetrias de poder e manipulação.
Nesse ambiente, o seguidor deixa de ser só receptor de mensagens e passa a operar como agente do próprio poder. Ele replica conteúdos, vigia dissidentes, patrulha linguagem, pressiona instituições e ajuda a construir a atmosfera de unanimidade. La Boétie descreveu algo parecido em sua própria época, mas o alcance atual é incomparavelmente maior. A tecnologia acelera a capilaridade da obediência. O líder não precisa estar fisicamente em toda parte; sua presença é retransmitida, remixada e defendida em tempo real por sua base.
Quando isso se combina com discursos de segurança nacional, guerra, ameaça civilizacional ou decadência interna, a obediência tende a parecer ainda mais justificável. O medo continua sendo uma das moedas mais fortes do poder. E o medo, quando circula em redes digitais de alta velocidade, transforma-se em combustível político de enorme eficiência. A servidão voluntária, então, ganha forma contemporânea: menos reverência solene, mais engajamento emocional; menos corte palaciana, mais ecossistema de plataforma.
7. Conclusão
Ler Trump e Netanyahu à luz de La Boétie não significa nivelar suas realidades nacionais nem apagar as diferenças entre os sistemas políticos dos Estados Unidos e de Israel. Significa reconhecer uma estrutura comum: a de lideranças que reforçam sua centralidade ao converter medo, identidade, ameaça e fidelidade em instrumentos de obediência. Em ambos os casos, o líder é apresentado por seus apoiadores não como governante substituível, mas como figura excepcional, quase necessária, para salvar a nação de perigos existenciais ou de inimigos internos.
La Boétie continua decisivo porque lembra que nenhum poder se torna grande sozinho. Trump não seria Trump sem o partido reorganizado em torno de sua figura, sem a base que transforma cada ataque institucional em prova de martírio e cada derrota judicial em complô. Netanyahu não seria Netanyahu sem o ecossistema político que converte guerra, crise e insegurança em argumento para sua indispensabilidade. O centro do problema, portanto, não está apenas nos líderes, mas na disposição social de tratá-los como eixo único da ordem.
É justamente aí que a lição do Discurso da servidão voluntária permanece viva. A obediência humana não nasce apenas da coerção; ela nasce também da crença, do hábito, do interesse, da repetição e do medo. Quando a política abandona a lógica impessoal das instituições e se reorganiza em torno da personalidade salvadora do líder, a democracia entra em zona de risco. E quando a sociedade passa a defender essa centralidade como necessidade histórica, o poder já não precisa apenas mandar: ele passa a ser desejado.
Referências
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10520: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2023. Disponível em acervos institucionais brasileiros. Acesso em: 9 abr. 2026.
BOÉTIE, Étienne de La. Discurso da servidão voluntária. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
BRITANNICA. Étienne de La Boétie. Encyclopaedia Britannica. Acesso em: 9 abr. 2026.
COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS. For Israel, After the Gaza War Comes Politics. 6 out. 2025. Acesso em: 9 abr. 2026.
GOVERNO DE ISRAEL. Prime Minister’s Office. Acesso em: 9 abr. 2026.
INSTITUTE FOR DEMOCRACY IN ISRAEL. A Review of the Main Steps to Weaken Democracy in Israel: English Summary of 2025. 4 jan. 2026. Acesso em: 9 abr. 2026.
LIBERTY FUND. Étienne de la Boétie, Discourse of Voluntary Servitude (1576). Acesso em: 9 abr. 2026.
REUTERS. Republican Party is Trump’s now. Critics wary his quest for an imperial presidency looms as takeover complete. 18 jul. 2024. Acesso em: 9 abr. 2026.
THE WHITE HOUSE. Donald J. Trump. Acesso em: 9 abr. 2026.
THE WHITE HOUSE. President Trump’s Clear and Unchanging Objectives Drive Decisive Success Against Iranian Regime. 1 abr. 2026. Acesso em: 9 abr. 2026.
THE WHITE HOUSE. President Trump Delivers Powerful Primetime Address on Operation Epic Fury. 1 abr. 2026. Acesso em: 9 abr. 2026.
SAGE JOURNALS. Trump’s new America and the question of fascism. Current Sociology, 6 fev. 2026. Acesso em: 9 abr. 2026.
THE GUARDIAN. US lower court judges are challenging Trump’s “war on the rule of law”, experts say. 6 abr. 2026. Acesso em: 9 abr. 2026.
THE GUARDIAN. In a war with no winners, Netanyahu looks like the biggest loser. 8 abr. 2026. Acesso em: 9 abr. 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário