quinta-feira, 11 de junho de 2026

O perigo da política como espetáculo: Nikolas Ferreira, Minas Gerais e a representação pública transformada em palanque moral

Quando o mandato deixa de representar o povo e passa a representar o algoritmo, a democracia perde profundidade, a religião vira instrumento de guerra cultural e o eleitor é tratado como plateia


Índice

  1. Introdução: quando a política vira performance
  2. O fenômeno Nikolas Ferreira: voto, rede social e representação
  3. As falas oficiais de 2026: o método por trás dos discursos
    1. SUS e rede privada
    2. Teste vocacional e simplificação da educação
    3. Jornada de trabalho e medo econômico
    4. Amazônia, exploração e soberania seletiva
  4. Religião como palanque: fé, moralismo e poder
  5. O problema não é a juventude; é a irresponsabilidade política
  6. Minas Gerais diante do risco da representação performática
  7. O eleitor tratado como massa: o desprezo escondido na linguagem popular
  8. A política da lacração e o esvaziamento do Parlamento
  9. Por que a reeleição de Nikolas seria perigosa para Minas e para o Brasil
  10. Conclusão
  11. Cinco pontos relevantes
  12. Cinco perguntas comuns
  13. Três livros indicados
  14. Referências em ABNT

Lide

Nikolas Ferreira não deve ser analisado apenas como um jovem deputado conservador. Ele precisa ser compreendido como sintoma de uma forma perigosa de fazer política: a política como espetáculo moral, como guerra cultural permanente e como produção de engajamento digital. Suas falas oficiais de 2026 sobre SUS, educação, jornada de trabalho, Amazônia e empreendedorismo revelam um padrão: temas complexos são reduzidos a slogans, adversários são tratados como inimigos e problemas estruturais são convertidos em frases simples para consumo rápido nas redes. O perigo de sua reeleição por Minas Gerais não está apenas em suas opiniões, mas no modelo de representação que ele encarna: um parlamentar que fala para viralizar, usa a religião como selo moral, trata o eleitor como plateia emocional e enfraquece a capacidade do Parlamento de pensar seriamente o país.

1. Introdução: quando a política vira performance

Imagine um trabalhador mineiro saindo de casa antes do sol nascer. Ele pega ônibus, enfrenta uma jornada pesada, volta cansado, encontra pouco tempo para os filhos, dorme mal e recomeça no dia seguinte. Agora imagine que, no Congresso Nacional, quando se discute a possibilidade de reduzir jornadas exaustivas e reorganizar o tempo de vida do trabalhador, um parlamentar transforma esse debate em ameaça: vai quebrar empresa, vai gerar desemprego, vai aumentar preço, vai virar manobra eleitoral.

A pergunta é simples: esse deputado está discutindo o problema real ou está falando para produzir medo?

Esse é o ponto central deste artigo. Nikolas Ferreira, deputado federal por Minas Gerais, representa um tipo de parlamentar que cresceu no Brasil contemporâneo: jovem, midiático, conservador, religioso na linguagem, agressivo na forma, eficiente nas redes e superficial na elaboração pública. Ele não é apenas um político com opiniões de direita. Isso, por si só, faz parte da democracia. O problema é outro: sua atuação revela uma lógica de esvaziamento do debate público.

A tese que defendo é a seguinte: a reeleição de Nikolas Ferreira por Minas Gerais seria perigosa não porque ele é jovem, nem simplesmente porque é conservador, mas porque ele transforma representação política em espetáculo moral, usa a religião como ferramenta de autoridade, reduz problemas complexos a frases de efeito e fortalece uma pedagogia política baseada no ressentimento, no medo e na simplificação.

Minas Gerais é um estado complexo demais para ser representado por caricaturas. É terra de universidades, institutos federais, agricultura, mineração, indústria, cultura, ciência, trabalhadores urbanos e rurais, juventudes diversas, desigualdades profundas e enorme tradição política. Minas precisa de parlamentares capazes de pensar orçamento, educação, saúde, infraestrutura, desenvolvimento regional, transição energética, ciência, tecnologia e justiça social. Não precisa de um mandato que funcione como estúdio de gravação para cortes de internet.

Este artigo não é um ataque pessoal gratuito. É uma crítica política. E crítica política precisa olhar para atos, discursos, métodos e consequências.

2. O fenômeno Nikolas Ferreira: voto, rede social e representação

Nikolas Ferreira foi eleito deputado federal em 2022 com votação expressiva. Isso não pode ser ignorado. Sua votação demonstrou força comunicacional, capacidade de mobilização e conexão com setores conservadores, religiosos e bolsonaristas. Mas votação expressiva não transforma automaticamente um parlamentar em bom representante. Democracia não é apenas contar votos. Democracia também exige responsabilidade, preparo, compromisso institucional e respeito à complexidade da vida pública.

A eleição de figuras como Nikolas revela a mudança da política na era digital. Antes, o parlamentar precisava construir base territorial, negociar políticas públicas, dialogar com prefeitos, sindicatos, universidades, movimentos sociais, empresários e comunidades. Hoje, parte da representação foi deslocada para a economia da atenção. O parlamentar não precisa necessariamente resolver problemas; basta parecer indignado, produzir inimigos, gravar vídeos curtos e alimentar uma audiência.

É nesse ponto que o mandato deixa de representar o povo e passa a representar o algoritmo.

O algoritmo gosta de conflito. Gosta de frases fortes. Gosta de moralismo. Gosta de simplificação. Gosta de “nós contra eles”. E Nikolas opera exatamente nesse ambiente. Sua força política não nasce da densidade programática, mas da capacidade de transformar cada tema em guerra simbólica.

O problema é que Minas Gerais não é uma trend. O SUS não é um meme. A jornada de trabalho não é um corte de vídeo. A educação pública não é palco de lacração. A Amazônia não é cenário para discurso ideológico. A vida concreta do povo não cabe na lógica do engajamento.

3. As falas oficiais de 2026: o método por trás dos discursos

As falas oficiais de 2026 ajudam a compreender o método. Elas tratam de assuntos relevantes: saúde, educação, jornada de trabalho, Amazônia, empreendedorismo. O problema não está necessariamente em escolher esses temas. O problema está na forma como eles são abordados.

3.1 SUS e rede privada: a solução aparentemente simples

Em abril de 2026, Nikolas defendeu projeto de sua autoria para permitir que exames feitos na rede privada fossem utilizados em consultas no SUS, desde que passassem por critérios de qualidade. À primeira vista, a proposta parece prática: se o paciente já fez exame privado, por que não aproveitá-lo no atendimento público?

A questão, porém, é mais profunda. O risco está em vender como solução estrutural aquilo que pode ser apenas remendo administrativo. O SUS tem problemas reais de fila, financiamento, infraestrutura, gestão e acesso. Mas a resposta para esses problemas não pode ser a normalização da dependência do setor privado. Quando um parlamentar fala em “união entre SUS e rede privada” sem discutir subfinanciamento, capacidade pública instalada, desigualdade territorial e regulação, ele desloca o centro do debate.

O SUS não precisa apenas “agilizar” exames. Precisa ser fortalecido como sistema público universal. A lógica da complementaridade privada já existe na legislação brasileira, mas ela deve ser regulada, excepcional e subordinada ao interesse público. Quando a política trata o privado como solução quase natural para a insuficiência do público, corre-se o risco de consolidar uma ideia perigosa: o Estado fica com o problema; o mercado fica com a oportunidade.

Isso não quer dizer que todo diálogo entre SUS e setor privado seja errado. Seria simplista afirmar isso. O ponto é outro: um parlamentar sério precisa perguntar quem ganha, quem regula, quem fiscaliza, quem paga, qual impacto orçamentário, qual risco de lobby e como impedir que a solução pontual vire dependência estrutural.

Nikolas, nesse discurso, preferiu enquadrar a crítica como “burburinho” de quem quer travar bons projetos. Esse é um método recorrente: em vez de enfrentar a objeção, desqualifica-se o crítico.

3.2 Teste vocacional: educação reduzida a escolha individual

Na mesma fala, Nikolas defendeu teste vocacional opcional para alunos do 3º ano do ensino médio, afirmando que muitos jovens saem da escola sem saber que curso escolher. Novamente, a proposta parece simpática. Quem seria contra ajudar um jovem a pensar seu futuro?

Mas o problema está na redução do drama educacional brasileiro a uma ferramenta individual de orientação. O jovem brasileiro não precisa apenas de teste vocacional. Precisa de escola com biblioteca, laboratório, professor valorizado, alimentação, transporte, permanência estudantil, acesso à cultura, internet, orientação profissional, iniciação científica, formação técnica, acolhimento psicossocial e horizonte de futuro.

Um teste pode ajudar? Pode. Mas ele não resolve desigualdade estrutural. Não resolve evasão. Não resolve pobreza. Não resolve falta de professores. Não resolve ausência de política pública integrada.

Há ainda outra questão: quando se fala em “vocação”, é preciso cuidado para não naturalizar destinos sociais. O filho da elite recebe intercâmbio, curso de línguas, reforço, capital cultural e rede de contatos. O filho da classe trabalhadora recebe um teste dizendo para onde talvez deva ir. Sem igualdade real de oportunidades, a “vocação” pode virar apenas outro nome para reprodução da desigualdade.

Educação pública não pode ser pensada como triagem de talentos individuais. Ela deve ser projeto de emancipação coletiva.

3.3 Jornada de trabalho: medo como argumento

No debate sobre jornada de trabalho, especialmente em torno da escala 6x1 e da possibilidade de redução da jornada, Nikolas adotou uma linha argumentativa típica do liberalismo conservador: a pauta trabalhista seria usada pela esquerda com finalidade eleitoral, e sua aprovação poderia gerar demissões, aumento de custos, fechamento de empresas e alta de preços.

Esse discurso parece técnico, mas funciona como chantagem econômica. A mensagem implícita é: se o trabalhador quiser mais tempo de vida, pode perder o emprego. Se quiser descansar, pode quebrar a empresa. Se quiser dignidade, pode causar inflação.

É claro que mudanças na legislação trabalhista exigem transição, estudo setorial, análise de produtividade e desenho institucional. Ninguém sério defende irresponsabilidade econômica. Mas também é irresponsável tratar qualquer avanço trabalhista como ameaça automática.

O debate sobre jornada envolve saúde mental, acidentes de trabalho, produtividade, convivência familiar, participação cidadã, tempo de estudo e qualidade de vida. Reduzir isso a custo empresarial é olhar a sociedade pela planilha e esquecer que por trás da planilha existe corpo humano.

A fala de Nikolas revela algo importante: quando a direita performática percebe que uma pauta popular pode dialogar com a vida concreta do trabalhador, tenta desarmá-la chamando-a de “eleitoreira”. É uma estratégia conhecida. Primeiro, desqualifica-se a intenção do adversário. Depois, espalha-se medo econômico. Por fim, tenta-se aparecer como responsável, mesmo sem apresentar alternativa robusta.

Mas que alternativa é essa? Manter milhões de pessoas presas a jornadas exaustivas em nome de uma produtividade que nem sempre retorna para o trabalhador?

3.4 Amazônia, exploração e soberania seletiva

Em junho de 2026, Nikolas falou sobre Amazônia e Acre, criticando ambientalistas e órgãos como ICMBio, Funai e Ibama, ao mesmo tempo em que defendeu a ideia de exploração responsável e afirmou que “a Amazônia é nossa”.

A frase “a Amazônia é nossa” tem força emocional. Mas soberania não pode ser confundida com licença para exploração. A Amazônia é brasileira, sim. Mas ser brasileira não significa estar disponível para qualquer projeto econômico. Soberania ambiental exige ciência, proteção dos povos indígenas, combate ao garimpo ilegal, fiscalização, desenvolvimento sustentável, bioeconomia, educação, pesquisa e presença inteligente do Estado.

Quando um parlamentar opõe preservação e dignidade social de forma simplista, cria uma falsa escolha: ou protege a floresta ou condena o povo à pobreza. Essa oposição é intelectualmente pobre. O verdadeiro desafio é construir desenvolvimento que não destrua as bases ecológicas da vida.

A crítica a órgãos ambientais pode ser legítima quando há burocracia, abuso ou ineficiência. Mas demonizar sistematicamente instituições de proteção ambiental é perigoso. Sem fiscalização, quem ganha não é o pequeno agricultor pobre; quem ganha são redes predatórias, grileiros, garimpo ilegal e grandes interesses econômicos que lucram com a ausência do Estado.

A Amazônia não precisa de menos Estado. Precisa de melhor Estado.

4. Religião como palanque: fé, moralismo e poder

Um dos aspectos mais delicados da atuação de Nikolas é o uso da linguagem religiosa na política. É preciso separar as coisas: fé é direito; religião é liberdade; participação política de pessoas religiosas é legítima. O problema não é um parlamentar ser cristão. O problema é usar a religião como instrumento de superioridade moral.

Quando a política é apresentada como luta entre “gente de bem” e “inimigos da família”, o debate democrático é substituído por cruzada moral. Quem discorda deixa de ser adversário político e passa a ser tratado como ameaça espiritual, corruptor de crianças, inimigo da fé, destruidor da família ou agente do mal.

Essa linguagem é eficiente porque mobiliza emoções profundas. Ela não pede reflexão; pede adesão. Não convida ao debate; convoca para a batalha. Não forma cidadãos; forma soldados culturais.

Nikolas compreendeu bem esse mecanismo. Sua comunicação fala com um público que se sente ameaçado por mudanças culturais, por debates de gênero, por transformações familiares, por políticas de diversidade e por críticas ao conservadorismo religioso. Em vez de ajudar esse público a compreender a complexidade do mundo, ele reforça o medo.

A religião, nesse modelo, deixa de ser fonte de ética pública e vira palanque. Deixa de inspirar compaixão e vira fronteira. Deixa de chamar à humildade e vira arma de acusação.

O cristianismo, quando levado a sério em sua dimensão ética, deveria produzir compromisso com pobres, doentes, trabalhadores, estrangeiros, vulneráveis e excluídos. Mas o moralismo político seleciona temas convenientes: fala muito de costumes e pouco de desigualdade; fala muito de família abstrata e pouco de famílias reais sem renda, sem moradia e sem escola de qualidade; fala muito de liberdade individual e pouco de responsabilidade social.

Esse é o perigo: transformar Deus em cabo eleitoral.

5. O problema não é a juventude; é a irresponsabilidade política

É importante insistir: juventude não é defeito. O Brasil precisa de jovens na política. Precisa de renovação, energia, coragem e novas linguagens. O problema é confundir juventude com autorização para irresponsabilidade.

Nikolas é frequentemente apresentado como símbolo de renovação. Mas renovação verdadeira não é idade. Renovação é método. Um jovem pode fazer política velha, autoritária, preconceituosa e simplificadora. Um parlamentar experiente pode fazer política inovadora, democrática e qualificada.

O caso de Nikolas mostra uma contradição: ele se apresenta como novo, mas reproduz práticas antigas da direita moralista brasileira — anticomunismo vulgar, ataque a minorias, defesa abstrata da família, demonização da esquerda, privatismo econômico e uso eleitoral da religião.

A embalagem é nova; o conteúdo é velho.

A irresponsabilidade política aparece quando o parlamentar fala para incendiar, não para esclarecer. Quando simplifica o que deveria explicar. Quando ataca instituições sem oferecer reforma consistente. Quando usa o sofrimento real das pessoas como combustível para sua própria visibilidade. Quando transforma o Parlamento em palco de performance.

Ser jovem e ter mandato exige ainda mais responsabilidade, não menos. Porque o jovem parlamentar poderia demonstrar que uma nova geração é capaz de fazer política com estudo, técnica, coragem e humanidade. Mas quando escolhe a lacração, reforça o pior estereótipo da política digital: muita câmera, pouca elaboração.

6. Minas Gerais diante do risco da representação performática

Minas Gerais não é apenas um colégio eleitoral. É um projeto histórico de Brasil. O estado combina tradição republicana, força cultural, interior profundo, metrópoles, agricultura, mineração, indústria, universidades, institutos federais e desigualdades regionais. Representar Minas é tarefa séria.

Um deputado federal mineiro precisa lidar com temas concretos: infraestrutura rodoviária, segurança hídrica, mineração responsável, reparação de tragédias ambientais, fortalecimento do SUS, educação pública, assistência estudantil, agricultura familiar, inovação tecnológica, energia, saneamento, desenvolvimento regional e orçamento federal.

A pergunta é: o mandato de Nikolas entrega essa densidade?

Sua força está muito mais na pauta nacionalizada da guerra cultural do que na construção territorial mineira. Ele fala para uma audiência ideológica espalhada pelo país, não necessariamente para as necessidades específicas de Minas. Isso cria um problema de representação: o eleitor mineiro vota, mas o mandato performa para o Brasil bolsonarista digital.

É claro que todo deputado federal participa de debates nacionais. Isso é normal. Mas o parlamentar não pode abandonar a materialidade do território que o elegeu. Minas não pode virar apenas cenário de legitimação eleitoral para um projeto de celebridade política.

Quando um deputado de Minas usa seu mandato sobretudo para alimentar polarização nacional, o estado perde capacidade de disputar recursos, políticas públicas e soluções concretas. A política vira teatro; a representação vira marca pessoal.

7. O eleitor tratado como massa: o desprezo escondido na linguagem popular

Há um ponto duro, mas necessário: a retórica de Nikolas muitas vezes parece tratar o eleitor como alguém incapaz de lidar com complexidade. Isso não significa que seus eleitores sejam ignorantes. Pelo contrário: o problema é justamente o modo como ele fala com eles.

Quando um político reduz tudo a inimigos, conspirações, moralismo e frases de impacto, ele não está respeitando a inteligência do povo. Está explorando suas dores, medos e ressentimentos.

O trabalhador que sofre com impostos merece explicação séria sobre sistema tributário, orçamento, dívida pública, renúncias fiscais e desigualdade. Não merece apenas ouvir que a culpa é da esquerda. A família preocupada com a educação dos filhos merece discussão séria sobre escola, currículo, violência, tecnologia, saúde mental e aprendizagem. Não merece pânico moral. O pequeno empreendedor merece debate sério sobre crédito, burocracia, previdência, proteção social e mercado. Não merece romantização da precarização.

Tratar o povo com respeito é explicar, não manipular. É formar consciência, não apenas confirmar preconceitos. É mostrar contradições, não esconder complexidade. É dizer a verdade mesmo quando ela não cabe em vídeo curto.

O populismo digital faz o contrário: entrega respostas simples para problemas difíceis. E respostas simples demais costumam ser falsas ou incompletas.

8. A política da lacração e o esvaziamento do Parlamento

O Parlamento deveria ser espaço de elaboração pública. É ali que diferentes interesses se encontram, entram em conflito, negociam e produzem leis. Mas a lógica da lacração altera esse funcionamento. O objetivo deixa de ser convencer colegas ou aperfeiçoar políticas. O objetivo passa a ser gerar corte, viralizar e reforçar identidade de grupo.

Nikolas é um dos símbolos dessa mutação. Sua atuação mostra como o parlamentar contemporâneo pode usar a Câmara como cenário para redes sociais. A fala no plenário vira matéria-prima para engajamento. A comissão vira palco. A divergência vira oportunidade de ataque. A instituição vira estúdio.

Isso é ruim para a democracia porque enfraquece a mediação. Democracia exige tempo, escuta, negociação, estudo e compromisso com a verdade factual. A lacração exige velocidade, simplificação, inimigo e recompensa emocional imediata.

Quando a política passa a obedecer ao ritmo das redes, o país perde capacidade de pensar longo prazo. E temas como educação, saúde, meio ambiente e trabalho não podem ser decididos pela lógica do impulso.

9. Por que a reeleição de Nikolas seria perigosa para Minas e para o Brasil

A reeleição de Nikolas seria perigosa por consolidar um modelo de mandato que premia a performance acima da responsabilidade. O risco não é apenas ele ocupar uma cadeira. O risco é sua reeleição sinalizar que esse tipo de atuação é politicamente recompensado.

Primeiro, porque fortalece a guerra cultural como método permanente. Em vez de Minas eleger representantes voltados à solução de problemas concretos, reforça-se a lógica do conflito moral.

Segundo, porque legitima a religião como instrumento de divisão política. A fé, que poderia inspirar solidariedade, passa a ser usada como marcador de pertencimento ideológico.

Terceiro, porque empobrece o debate econômico e social. Jornada de trabalho, SUS, educação e Amazônia são tratados como temas de propaganda, não como desafios estruturais.

Quarto, porque reforça o personalismo digital. O mandato passa a servir à construção de uma figura pública nacional, não necessariamente ao interesse do eleitor mineiro.

Quinto, porque educa politicamente pelo ressentimento. O eleitor é estimulado a odiar adversários, desconfiar de instituições e rejeitar qualquer mediação racional.

Sexto, porque normaliza a irresponsabilidade discursiva. Quando um parlamentar percebe que frases agressivas geram engajamento e votos, ele tem incentivo para radicalizar cada vez mais.

Sétimo, porque torna o Parlamento menos sério. E um Parlamento menos sério produz leis piores, debates piores e uma democracia mais frágil.

10. Conclusão

Nikolas Ferreira é mais do que um deputado conservador de Minas Gerais. Ele é uma expressão concentrada da política brasileira em tempos de redes sociais, ressentimento e guerra cultural. Sua força nasce da capacidade de transformar medo em audiência, religião em palanque, adversário em inimigo e debate público em espetáculo.

O perigo de sua reeleição não está na existência de eleitores conservadores. Eles existem, têm direito de existir e devem ser respeitados. O perigo está em oferecer a esses eleitores uma política que confirma medos em vez de ampliar consciência; que simplifica problemas em vez de explicá-los; que usa Deus como argumento de autoridade em vez de praticar ética pública; que fala em povo, mas trata o povo como massa emocional.

Minas Gerais merece mais. Merece representantes capazes de honrar sua complexidade histórica, social, econômica e cultural. Merece parlamentares que saibam discutir saúde sem privatismo fácil, educação sem pânico moral, trabalho sem chantagem econômica, Amazônia sem falso dilema entre preservação e desenvolvimento, religião sem instrumentalização política.

A democracia não morre apenas quando tanques aparecem nas ruas. Ela também adoece quando a palavra pública perde compromisso com a verdade, quando a política vira espetáculo, quando o eleitor vira fã e quando o Parlamento vira palco de influenciadores. Por isso, discutir o perigo da reeleição de Nikolas Ferreira não é discutir apenas um nome. É discutir que tipo de democracia queremos: uma democracia de cidadãos críticos ou uma democracia degradada em plateia de show ideológico.

Cinco pontos relevantes

  1. O problema central não é Nikolas ser jovem, mas a forma irresponsável e performática como exerce o mandato.
  2. Suas falas de 2026 revelam simplificação de temas complexos como SUS, educação, jornada de trabalho e Amazônia.
  3. O uso político da religião transforma fé em instrumento de divisão moral.
  4. Minas Gerais corre o risco de ser representada por uma lógica nacionalizada de guerra cultural, não por um projeto territorial consistente.
  5. A reeleição de Nikolas reforçaria a política da lacração, do algoritmo e do ressentimento.

Cinco perguntas comuns

1. Criticar Nikolas Ferreira é atacar os evangélicos?

Não. A crítica não é à fé evangélica nem ao cristianismo. A crítica é ao uso político da religião como ferramenta de autoridade moral e guerra cultural.

2. O problema é ele ser de direita?

Não. A democracia comporta direita, centro, esquerda, liberais, conservadores e progressistas. O problema é a simplificação agressiva, o moralismo e a substituição do debate público por espetáculo.

3. Ele não tem legitimidade porque foi muito votado?

Tem legitimidade eleitoral. Mas legitimidade eleitoral não elimina crítica pública. Quanto mais votado um parlamentar, maior sua responsabilidade.

4. Teste vocacional e uso de exames privados no SUS são ideias necessariamente ruins?

Não necessariamente. O problema é apresentá-las como soluções simples sem discutir estrutura, financiamento, desigualdade, regulação e efeitos de longo prazo.

5. Por que Minas deveria se preocupar?

Porque Minas precisa de representação qualificada para enfrentar problemas concretos. Um mandato dominado por guerra cultural pode gerar visibilidade, mas não necessariamente entrega desenvolvimento, justiça social e políticas públicas robustas.

Três livros indicados

  1. LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
    Obra fundamental para compreender como democracias podem ser corroídas por dentro, por lideranças eleitas que enfraquecem normas, instituições e adversários.
  2. EMPOLI, Giuliano da. Os engenheiros do caos. São Paulo: Vestígio, 2019.
    Livro importante para entender como redes sociais, emoções políticas e algoritmos transformaram a comunicação pública contemporânea.
  3. MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
    Analisa a crise da democracia liberal, o crescimento do populismo e a erosão das mediações institucionais.

Referências em ABNT

BRASIL. Câmara dos Deputados. Deputado Federal Nikolas Ferreira: perfil parlamentar. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2026.

BRASIL. Câmara dos Deputados. Discurso do Deputado Nikolas Ferreira em 08 abr. 2026. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2026.

BRASIL. Câmara dos Deputados. Nikolas Ferreira é eleito presidente da Comissão de Educação. Brasília, DF: Agência Câmara Notícias, 2024.

BRASIL. Câmara dos Deputados. Arthur Lira repreende deputado Nikolas Ferreira por discurso contra mulheres trans. Brasília, DF: Agência Câmara Notícias, 2023.

BRASIL. Câmara dos Deputados. Nikolas Ferreira é o deputado mais votado do País com 1,47 milhão de votos. Brasília, DF: Agência Câmara Notícias, 2022.

BRASIL. Câmara dos Deputados. PL 2614/2024: Plano Nacional de Educação para o decênio 2024-2034. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2024.

EMPOLI, Giuliano da. Os engenheiros do caos. São Paulo: Vestígio, 2019.

KRITSCH, Raquel. Democracia, representação política e populismo na era digital. Lua Nova, São Paulo, 2024.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

MOUNK, Yascha. O povo contra a democracia. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

OLIVEIRA, Ana Carolina Nunes de. Democracia, populismo e discurso do voto impresso no Brasil. Dados, Rio de Janeiro, 2023.

SILVA, Daniel do Nascimento e. Práticas discursivas do bolsonarismo online e populismo digital de extrema direita. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, 2020.



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