terça-feira, 3 de março de 2026

Patriotismo de joelhos: quando “ficar do lado do forte” vira política externa de torcida

 No Brasil real — do balcão da loja ao grupo da escola no WhatsApp — a submissão ao poder costuma vir fantasiada de “pragmatismo”. Só que o preço aparece na conta, no debate público e na ideia torta de soberania.



Você já viu isso acontecer: um sujeito grandão entra numa discussão, fala mais alto, ameaça, faz pose. E aí aparece o “amigo” que não está ali por convicção — está ali por medo. Ele ri junto, repete frase pronta e, para mostrar lealdade, encara quem apanha como “merecedor”. No Brasil, essa lógica saiu do pátio e ganhou terno, bandeira e live. Virou parte do jeito como setores da extrema direita tratam os Estados Unidos — e, por tabela, qualquer país que o “fortão” decidiu carimbar como inimigo, como o Irã.



Introdução



Uma pergunta simples: quando um político brasileiro aplaude a força de outro país e chama isso de “defesa do Ocidente”, ele está defendendo o quê — o Brasil ou a fantasia de estar protegido pelo porrete alheio?


Dá para sentir a resposta na vida comum, sem teoria demais. O dono de uma pequena oficina em Aparecida, o motorista de aplicativo em Goiânia, a professora da escola estadual em Anápolis, a enfermeira do SUS em Catalão, o vendedor que depende de Pix e WhatsApp para fechar pedido, a família que só consegue se informar por vídeo curto na TV conectada. Esse Brasil não vive de geopolítica. Vive de preço, segurança, trabalho, fila, aluguel, boletim escolar e “o que chegou no grupo”.


E é aí que o alinhamento submisso vira um problema concreto.


O Brasil é um país com internet massiva, mas muito desigual. Em 2024, 89,1% das pessoas com 10 anos ou mais usaram a internet nos três meses anteriores (IBGE, 2025). Boa parte do acesso migrou do computador para a tela grande: 53,5% acessaram a internet pela TV em 2024, enquanto o uso de microcomputador caiu para 33,4% (IBGE, 2025). Isso muda tudo: o debate público fica mais dependente de vídeo, emoção e recorte.


Ao mesmo tempo, o Brasil trabalha com o pé no improviso: a informalidade fechou 2025 em 37,7% da população ocupada (38,8 milhões), segundo o IBGE (IBGE, 2025). E a plataformização cresce: em 2024 havia 1,7 milhão de pessoas trabalhando por aplicativos, equivalente a 1,9% da população ocupada no setor privado (IBGE, 2025a). Esse povo tem pressa, cansaço e pouco tempo para “contextualizar”. Se a política vira torcida, a torcida vira governo.


E tem outro dado que expõe a rachadura: numa pesquisa Datafolha divulgada em julho de 2025, 57% disseram que Trump estava errado ao tentar interferir num assunto da Justiça brasileira envolvendo Bolsonaro, mas 36% concordaram com Trump (CNN Brasil, 2025; InfoMoney, 2025). Trinta e seis por cento não é “meia dúzia barulhenta”. É um contingente grande, suficiente para normalizar a ideia de tutela: “se o forte falou, deve estar certo”.


Objetivo do texto: mostrar como a subserviência ao poder externo — especialmente ao poder dos EUA — funciona como linguagem política da extrema direita brasileira, por que isso é uma forma de covardia social (não “realismo”) e como essa postura contamina o cotidiano: escola, trabalho, serviços públicos, comércio local e debate em rede.


Metodologia (sem pose acadêmica): análise qualitativa e documental, combinando (i) dados públicos recentes de conectividade e trabalho (IBGE; Cetic.br), (ii) evidências de opinião pública (Datafolha repercutido na imprensa), (iii) literatura brasileira sobre autoritarismo, dependência e elites, e (iv) estudos de política externa sobre o alinhamento no bolsonarismo (Feliu Ribeiro, 2023; artigos acadêmicos). A ideia é simples: ligar discurso e consequência — sem esconder o jogo.



O “pátio” brasileiro: o forte, o eco e o prazer de obedecer



Quem vive em bairro com disputa de território entende uma coisa que Brasília finge não entender: o medo reorganiza a moral. Quando o forte manda, muita gente passa a chamar obediência de “ordem”. E a “ordem” vira desculpa para aceitar abuso.


No Brasil, esse mecanismo aparece em miniatura todo dia:


  • No grupo de pais da escola, alguém espalha um áudio dizendo que “o país vai virar Venezuela amanhã”, e quem pede fonte vira “comunista”.
  • Na empresa pequena, o funcionário que questiona injustiça vira “problema”, e o chefe agressivo vira “líder”.
  • No condomínio, quem grita “bandido bom é bandido morto” é tratado como “sincero”, e quem fala de lei vira “defensor de vagabundo”.



Esse é o terreno emocional onde a política externa vira cosplay. Não é sobre Irã, Israel ou EUA. É sobre uma estética: adorar força, desprezar regra, ridicularizar diplomacia, transformar complexidade em meme.


Lilia Schwarcz descreve como o autoritarismo brasileiro se alimenta de hierarquia, violência normalizada e desprezo por mediações institucionais (Schwarcz, 2019). Jessé Souza aponta como elites e segmentos médios constroem narrativas morais para justificar submissão e desigualdade, sempre com um inimigo conveniente (Souza, 2017). Quando essa cultura encontra redes sociais de alta fricção e baixa verificação, o resultado é previsível: a idolatria do “fortão” vira linguagem política.


E aí entra a ponte para o tema: se internamente a regra é “fica do lado do mais forte”, externamente isso vira “fica do lado do império”. O Brasil vira torcedor de arquibancada de uma briga que não controla.



“E daí?” — a parte que mexe no bolso, na fila e na escola



A subserviência não é um debate abstrato para professor de Relações Internacionais. Ela tem consequências palpáveis.



No comércio e no trabalho: submissão como “modelo” de gestão



Uma microloja que vende pelo Instagram e fecha entrega pelo WhatsApp vive de confiança e previsibilidade. Se o ambiente político vira guerra permanente, o consumo encolhe, o crédito endurece, o fornecedor sobe preço “por precaução”, o frete fica instável. O comerciante pode não saber nada sobre Irã, mas sente quando o país entra em modo “briga”.


E não é coincidência que o Brasil esteja numa fase em que muita gente depende de renda volátil. A informalidade alta (IBGE, 2025) e a expansão de trabalho por aplicativo (IBGE, 2025a) aumentam o peso da instabilidade. Quem vive de diária e corrida não tem colchão. Quando a política vira submissão barulhenta, o custo aparece rápido.



Na escola: a aula vira ringue e o currículo vira “ameaça”



A lógica do “fortão” também entra na sala de aula. Quando o discurso dominante é “o forte manda e o fraco obedece”, ensinar pensamento crítico vira “doutrinação”. Professor vira alvo. Livro vira suspeito. Biblioteca vira “agenda”. Esse clima não é detalhe: ele atinge a capacidade de formar gente que pensa — e um país que não pensa vira dependente por definição.


Paulo Freire lembra que educação não é adestramento; é formação de consciência e leitura do mundo (Freire, 1996). Só que o autoritarismo morre de medo disso. Por isso ele prefere a pedagogia do medo: “não questiona, repete”.



No SUS e nos serviços públicos: o cidadão vira súdito



A enfermeira que está no posto de saúde não tem tempo para disputa geopolítica. Mas ela sente quando o debate público perde empatia e vira culto à força. A mesma pessoa que grita “tem que matar” na internet costuma achar normal humilhar servidor. A agressividade sobe, a cooperação cai. O serviço piora — e aí o autoritário aponta o dedo: “tá vendo? o Estado não funciona”. Ele cria o caos e vende a bala como solução.



Como a extrema direita brasileira usa os EUA como espelho e muleta



Não é “gostar dos EUA”. Isso seria uma preferência cultural legítima: música, cinema, consumo. O que está em jogo é outra coisa: transferir autoridade política.


A extrema direita brasileira fez do trumpismo um modelo de comportamento: guerra cultural permanente, inimigo interno, desconfiança de instituições, imprensa como inimiga, “verdade” definida por lealdade. Quando isso vira política externa, surge o alinhamento automático.


Há literatura específica sobre isso. Um capítulo de Feliu Ribeiro discute o alinhamento com os Estados Unidos no governo Bolsonaro, mostrando como esse alinhamento foi uma escolha política, não uma inevitabilidade técnica (Feliu Ribeiro, 2023). Estudos e artigos acadêmicos também analisam o padrão de “americanismo ideológico” e alinhamento (por exemplo, trabalhos apresentados na área de Relações Internacionais e artigos em periódicos brasileiros). 


O resultado foi uma postura que muitas vezes parecia torcida: o Brasil tentando provar fidelidade ao “centro” — mesmo quando isso não trazia ganho material óbvio.


E aqui entra o ponto que você quer martelar: apoiar o fortão por ele ser fortão é covardia submissa. É o sujeito que não quer justiça; quer proteção. Ele prefere estar perto do porrete a construir regra.



O caso Irã: “se o forte disse que é vilão, então é vilão”



O Irã não é um santo. Há acusações e denúncias sérias sobre violações de direitos e repressão interna, e isso precisa ser tratado com seriedade institucional. Só que a subserviência não quer seriedade. Ela quer etiqueta: “vilão”.


E aí a discussão vira infantil: se alguém lembra que o “fortão” também comete abusos, o submisso responde com xingamento, não com argumento. O objetivo não é esclarecer; é manter o vínculo de obediência.


Veja como isso aparece no comportamento cotidiano: o mesmo brasileiro que exige “soberania nacional” para atacar o STF, por exemplo, aceita com naturalidade quando uma figura política estrangeira tenta influenciar um assunto interno. A pesquisa Datafolha de 2025 mostra isso em números: 36% concordaram com a tentativa de pressão de Trump (CNN Brasil, 2025; InfoMoney, 2025). Isso é a psicologia do pátio: “se ele é forte, ele pode”.


E quando esse hábito se normaliza, ele escorre para fora: “se os EUA agirem contra o Irã, devem estar certos”. Não porque o sujeito analisou documentos, histórico, direito internacional ou riscos regionais. Ele simplesmente escolheu o lado do porrete.



O motor do problema: medo, status e ressentimento



A subserviência política não é só medo. Tem também desejo de status.


No Brasil, muita gente cresceu ouvindo que o país é “bagunçado”, “incapaz”, “atrasado”, “sempre corrupto”, “não dá certo”. Isso vira uma espécie de complexo de inferioridade coletivo. Quando aparece um poder externo com discurso de ordem, parte dessa gente pensa: “finalmente alguém sério”.


Só que “alguém sério” muitas vezes é só “alguém forte”.


Celso Furtado já mostrava como dependência econômica e estrutura de subordinação externa produzem limites internos de desenvolvimento (Furtado, 2007). Aníbal Quijano discute a colonialidade do poder: não é só dominação material, é dominação na forma de pensar, desejar, hierarquizar (Quijano, 2005). Quando setores brasileiros aceitam tutela simbólica, estão aceitando colonialidade como identidade.


E isso encaixa como luva na extrema direita: ela oferece pertencimento. “Você faz parte do time dos fortes.” Mesmo que seja só como torcedor.



A engrenagem digital brasileira: WhatsApp, TV conectada e o debate por recorte



Aqui vale pisar no chão do Brasil de 2024–2025.


A pesquisa TIC Domicílios mostra que, em 2024, 92% dos usuários de internet com 10 anos ou mais utilizaram aplicativos de mensagens (Cetic.br, 2025). Isso é praticamente o país inteiro discutindo vida pública em aplicativo de mensagem. E o mesmo levantamento e releases do CGI.br apontam desigualdades de qualidade de acesso e limites de “conectividade significativa” (CGI.br, 2024). 


Se a política externa entra nesse ambiente, ela entra como “vídeo de 30 segundos”, “corte”, “print”, “áudio com trilha”. Não entra como debate. Entra como torcida.


E a TV conectada amplifica isso: metade do país acessando internet pela TV (IBGE, 2025) significa debate consumido em tela grande, com estética de programa, clipe e indignação. Não é “informação”; é experiência emocional.


A subserviência ao forte se alimenta disso porque ela é simples:

tem mocinho, tem vilão, tem líder forte, tem inimigo ameaçador, tem humilhação como piada.



Posição defendida: essa subserviência é antipatriótica — e não tem nada de “pragmática”



Aqui não dá para ficar neutro.


Apoiar automaticamente a agenda de uma potência estrangeira, por admiração do poder bruto, é antipatriótico. Não importa se o sujeito veste verde e amarelo. Patriotismo não é figurino. Patriotismo é defender interesse nacional com racionalidade, dignidade institucional e autonomia de decisão.


O “pragmatismo” de verdade seria perguntar, antes de bater palma:


  • Isso melhora comércio?
  • Isso reduz risco para brasileiros?
  • Isso fortalece indústria, ciência, diplomacia, energia?
  • Isso aumenta margem de negociação do Brasil?



A subserviência não pergunta nada. Ela só escolhe um lado para se sentir protegida.


E mais: quando esse hábito entra na cabeça de um país grande, ele rebaixa o Brasil à condição de satélite. Um país do tamanho do Brasil não precisa ser satélite de ninguém. Precisa ser jogador.



“Mas os EUA são nossos parceiros, precisamos deles” — a crítica previsível, e a resposta



A crítica mais comum é: “Você está sendo antiamericano. O Brasil precisa dos EUA. A economia depende. Diplomacia é assim mesmo.”


Resposta: parceria não é submissão.


Ninguém está dizendo que o Brasil deve romper com os EUA. Seria infantil. A questão é outra: parceria exige simetria mínima de respeito e autonomia de pauta. Um país sério negocia. Um país submisso pede bênção.


Aliás, o próprio dado Datafolha de 2025 mostra que a maioria dos brasileiros rejeita interferência externa em tema interno (CNN Brasil, 2025; InfoMoney, 2025). Então não é “Brasil versus EUA”; é Brasil versus tutela.


E a pergunta prática continua: quando a extrema direita bate palma para agressividade internacional, quem paga o custo? O povo que vive de renda instável e preço sensível. Não é o influenciador que mora bem e vende curso.



O que isso tem a ver com o Irã, especificamente?



Tem a ver com o hábito de justificar o injustificável se vier do “lado certo”.


Se amanhã a narrativa mandar que o Irã é ameaça absoluta, o submisso não vai pedir evidência, nuance, direito internacional, histórico de sanções, impactos energéticos. Ele vai repetir a palavra “terrorismo” e encerrar o assunto.


Só que o mundo real cobra conta. E o Brasil vive de conta: frete, diesel, dólar, fertilizante, exportação, importação, peça de máquina, custo de produção. Quando a política externa vira torcida moral, o país perde capacidade de manobra. Perde diplomacia. Perde previsibilidade.


E, para piorar, esse tipo de torcedor costuma ser incoerente: defende “soberania” para atacar instituições brasileiras, mas relativiza soberania de outros países quando o forte quer bater. Isso não é princípio. É lealdade ao porrete.



Fechamento



Se a ideia de soberania vale só quando dá para gritar contra o “inimigo interno”, mas some quando o “fortão” estrangeiro manda recado, então não é soberania — é dependência emocional com bandeira por cima. Antes de repassar o próximo vídeo “geopolítico” no WhatsApp, dá um trabalho mínimo: pergunta “isso serve ao Brasil ou serve só para eu me sentir do lado do mais forte?”.





Referências



CGI.br. Em duas décadas, proporção de lares urbanos brasileiros com Internet passou de 13% para 85%, aponta TIC Domicílios 2024. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 31 out. 2024. Disponível em: (fonte CGI.br). Acesso em: 3 mar. 2026. 


CETIC.br. TIC Domicílios 2024: Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros. São Paulo: Cetic.br, 2025. Disponível em: (relatório em PDF). Acesso em: 3 mar. 2026. 


CNN Brasil. Datafolha: Para 57%, Trump erra ao pedir fim de ação de Jair Bolsonaro. São Paulo: CNN Brasil, 31 jul. 2025. Disponível em: (matéria CNN Brasil). Acesso em: 3 mar. 2026. 


FELIU RIBEIRO, Pedro. Avaliando a política externa brasileira: alinhamento com os Estados Unidos no governo Bolsonaro. In: Presidente, gabinete e burocracias: o que a nova administração Lula precisa saber. São Paulo: Hucitec, 2023. 


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.


FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


IBGE. Pela 1ª vez, mais da metade da população acessa a internet pela TV. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 24 jul. 2025. Disponível em: (Agência IBGE Notícias). Acesso em: 3 mar. 2026. 


IBGE. Aumento de carteira assinada no Brasil é sustentado, diz IBGE. Brasília: Agência Brasil, 30 dez. 2025. (Dados da PNAD Contínua citados). Acesso em: 3 mar. 2026. 


IBGE. Número de trabalhadores por aplicativos cresceu 25,4% entre 2022 e 2024. Rio de Janeiro: Agência IBGE Notícias, 17 out. 2025a. Acesso em: 3 mar. 2026. 


INFOMONEY. Datafolha: 57% dos brasileiros rejeita pressão de Trump sobre julgamento de Bolsonaro. São Paulo: InfoMoney, 31 jul. 2025. Disponível em: (matéria InfoMoney). Acesso em: 3 mar. 2026. 


QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005.


SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.


Observação: alguns itens jornalísticos e institucionais acima estão citados como fontes de dado empírico e contexto (opinião pública, conectividade, mercado de trabalho), não como “prova” teórica do argumento.