quinta-feira, 9 de abril de 2026

Artigo 4 - Fundamentos da Geopolítica: a gramática imperial que fecha a série

Por que o livro de Aleksandr Dugin continua sendo a chave mais dura para compreender atlantismo, eurasianismo, império continental e a fantasia violenta de um mundo multipolar



Introdução


Se os três textos anteriores mostraram a Rússia de Putin como projeto de guerra identitária, o trumpismo como hegemonia hemisférica endurecida e o caos energético como terreno fértil para impérios rivais, este quarto artigo volta à fonte. Fundamentos da Geopolítica, publicado por Aleksandr Dugin em 1997, não é apenas um livro de teoria internacional. É uma máquina de organizar o mundo em blocos de poder, civilizações em confronto e territórios tratados como destino histórico. Poucas obras do pós-sovietismo foram tão associadas à formação do imaginário estratégico russo quanto essa. John Dunlop chegou a afirmar que talvez nenhuma outra publicação da Rússia pós-comunista tenha exercido influência comparável sobre setores militares, policiais e estatistas da elite russa. (Dunlop, 2004).  


Por isso este texto fecha a série. Porque ele mostra que, por trás da guerra na Ucrânia, do antiocidentalismo russo, da ideia de um “mundo russo” e até das analogias com outros projetos imperiais contemporâneos, existe uma arquitetura conceitual consistente. Seus nomes são claros: atlantismo, eurasianismo, império continental e multipolaridade. Sem compreender esse vocabulário, o restante parece apenas conjuntura. Com ele, a conjuntura revela seu esqueleto ideológico. (Kolesnikov, 2023).  


Atlantismo: o inimigo que precisa ser abatido


No universo de Dugin, o atlantismo não é apenas uma posição geográfica. É um sistema civilizacional inteiro. Ele representa o mundo anglo-americano, marítimo, liberal, comercial, individualista e universalista. Em sua lógica, os Estados Unidos não são apenas uma grande potência entre outras; são o centro de uma ordem histórica corrosiva para identidades orgânicas, tradições e impérios continentais. É por isso que o antiamericanismo da obra não é conjuntural. Ele é estrutural. O atlantismo é o inimigo principal porque encarna a forma de mundo que a Rússia, segundo Dugin, deveria derrotar. (Dugin, 1997).  


Esse ponto é decisivo para compreender a radicalidade do texto. Dugin não quer negociar um lugar melhor para a Rússia dentro da ordem liberal. Ele quer romper essa ordem. O mundo atlântico não aparece como adversário com quem se disputa influência; aparece como civilização hostil que deve ser enfraquecida por todos os meios disponíveis. É aqui que a geopolítica deixa de ser apenas cálculo e passa a funcionar como doutrina de antagonismo total. (Dunlop, 2004).  


Eurasianismo: a Rússia como civilização e não como país


A resposta duginiana ao atlantismo é o eurasianismo. Sua tese central é que a Rússia não é somente um Estado nacional, nem uma nação europeia deslocada. Ela seria uma civilização singular, situada entre Europa e Ásia, com missão própria e destino histórico incomparável. Ao defender isso, Dugin oferece ao pós-sovietismo algo politicamente valioso: uma saída simbólica para a humilhação imperial. O que se perdeu como superpotência ideológica poderia ser recuperado como civilização. (Dugin, 1997).  


É essa transformação que torna o livro tão importante. Uma Rússia que se pensa apenas como Estado precisa respeitar fronteiras, adaptar-se ao direito internacional e conviver com a autonomia do entorno. Uma Rússia que se pensa como civilização tende a considerar tudo isso insuficiente. A civilização sempre parece maior do que a linha do mapa. E é exatamente aí que a política deixa de ser limitação jurídica e passa a ser missão histórica. (Kolesnikov, 2023).  


Império continental: quando o território vira mandato


Se a Rússia é civilização e o atlantismo é seu inimigo estrutural, a conclusão lógica de Dugin é o império continental. A obra defende que Moscou deve reorganizar o espaço eurasiático sob sua direção, reconstruindo profundidade estratégica, neutralizando vizinhos e reconstituindo sua centralidade territorial. O termo “império” aqui não é adjetivo retórico. Ele nomeia um projeto político concreto de reordenação do espaço. (Dugin, 1997).  


É nesse ponto que a obra se torna explosiva. Porque, quando o território vira mandato histórico, a soberania do vizinho perde densidade. O outro deixa de ser outro. Passa a ser parte indevidamente separada de uma totalidade maior. É precisamente essa lógica que ajuda a explicar a postura russa diante da Ucrânia. O ensaio de Putin de 2021 sobre a “unidade histórica” entre russos e ucranianos mostra essa passagem de forma quase didática: a Ucrânia é tratada menos como nação soberana e mais como derivação histórica da própria Rússia. (Putin, 2021).  


Multipolaridade: a palavra elegante para uma guerra de blocos


A palavra multipolaridade costuma soar civilizada no debate diplomático. Em Dugin, porém, ela tem sentido muito menos pacífico. Não se trata de pluralismo institucional equilibrado. Trata-se de quebrar a hegemonia atlântica e substituir o universalismo liberal por uma ordem organizada em grandes polos civilizacionais. Cada polo com sua própria lógica, sua própria hierarquia e sua própria esfera de influência. Em outras palavras: a multipolaridade duginiana não é convivência. É competição entre impérios reabilitados. (Dugin, 1997).  


Essa distinção é crucial. Quando a Rússia contemporânea fala em multipolaridade, não está necessariamente defendendo um mundo mais democrático entre Estados. Muitas vezes está defendendo um mundo em que a hegemonia americana enfraqueça o suficiente para que outros centros imperiais possam agir com maior liberdade sobre seus entornos. A multipolaridade, aqui, funciona menos como ideal normativo e mais como estratégia de redistribuição agressiva do poder mundial. (Kolesnikov, 2023).  


As teses centrais: a obra em sua forma mais dura


As teses centrais de Fundamentos da Geopolítica podem ser sintetizadas sem suavização. Primeiro: a Rússia deve rejeitar a integração subordinada ao Ocidente e reafirmar-se como civilização autônoma. Segundo: os Estados Unidos representam o núcleo de uma ordem hostil que precisa ser minada. Terceiro: a sobrevivência histórica russa exige um grande espaço continental sob liderança de Moscou. Quarto: a guerra não precisa ser apenas militar, podendo operar também por desorganização interna do adversário, propaganda, divisão e pressão indireta. Quinto: a Europa deve ser separada do eixo anglo-americano. Sexto: o espaço pós-soviético não pode ser tratado como zona plenamente neutra, porque dele depende a profundidade estratégica russa. (Dunlop, 2004; Fellows, 2018).  


É exatamente esse conjunto que fecha a leitura da série. O primeiro artigo mostrou a imaginação imperial. O segundo, sua aplicação na Ucrânia. O terceiro, seu espelho invertido em projetos americanos de grande espaço. Este quarto, enfim, mostra o mecanismo conceitual que torna tudo isso coerente. Não havia apenas ressentimento difuso. Havia doutrina. (Dugin, 1997).  


O programa geopolítico de Dugin


Na Europa, o programa é o da fragmentação do campo ocidental. Dugin imagina um continente afastado da tutela anglo-americana, menos coeso e mais vulnerável à influência russa. O objetivo não é destruir a Europa como civilização, mas desmontar sua integração estratégica como prolongamento do Atlântico. (Dunlop, 2004).  


Nos Estados Unidos, a proposta é mais agressiva. Resumos e análises da obra apontam para a defesa de estratégias de enfraquecimento interno do adversário, explorando fissuras sociais, políticas e territoriais. A potência hegemônica atlântica deveria ser corroída também a partir de dentro. Isso ajuda a explicar por que o livro parece ter antecipado, em forma rudimentar, o vocabulário posterior da guerra híbrida. (Dunlop, 2004).  


Em relação à China, a posição é ambivalente. Ela pode aparecer como parceira tática no eixo antiatlântico, mas também como problema potencial para a hegemonia russa sobre a Eurásia. A lógica não é de afinidade automática; é de utilidade geopolítica. O critério de Dugin nunca é amizade duradoura, mas funcionalidade para o projeto imperial russo. (Fellows, 2018).  


No espaço pós-soviético, o programa é o mais explícito. Trata-se da zona vital da Rússia, aquela que não pode ser plenamente abandonada à autonomia dos novos Estados. É por isso que a obra segue tão útil para entender a Ucrânia. O que o Kremlin fez ali não nasceu do nada; nasceu de uma visão em que o entorno russo continua sendo tratado como profundidade histórica e estratégica do império. (Putin, 2021).  


A dimensão ideológica do texto


No fundo, Fundamentos da Geopolítica não é só uma teoria sobre poder. É uma teologia secular do império. Seu dualismo entre mar e terra, liberalismo e tradição, decadência atlântica e missão eurasiática produz uma visão moralizada da geografia. O espaço deixa de ser superfície política e vira substância histórica. A guerra deixa de ser exceção e passa a ser instrumento legítimo de correção do mundo. Foi por isso que Dunlop descreveu a obra como um tratado neo-fascista de influência preocupante entre elites russas. (Dunlop, 2004).  


Essa é a parte mais grave do livro. Ele não apenas aconselha poder. Ele sacraliza poder territorial. Quando isso acontece, a política deixa de procurar equilíbrio e começa a procurar redenção. E toda vez que a redenção entra no mapa, o preço costuma ser pago em ruínas. (Kolesnikov, 2023).  


Conclusão


Este quarto artigo fecha a série porque mostra que Dugin não foi apenas um ideólogo ruidoso da periferia intelectual russa. Ele ofereceu uma gramática completa para a Rússia voltar a se pensar como império: um inimigo estrutural, uma identidade civilizacional, um programa territorial e uma promessa de mundo multipolar que, no fundo, significa redistribuição violenta do poder. É essa gramática que ajuda a entender por que o Kremlin fala como fala, invade como invade e imagina o entorno como imagina. (Dugin, 1997; Putin, 2021).  


No fim, o ponto decisivo é simples. Fundamentos da Geopolítica não explica sozinho a Rússia contemporânea. Mas ajuda a explicar por que a Rússia contemporânea continua tão disposta a tratar o mapa não como limite, e sim como promessa.


Referências


DUGIN, Aleksandr. Foundations of Geopolitics. Moscou: Arktogeja, 1997.  


DUNLOP, John B. Aleksandr Dugin’s Foundations of Geopolitics. Stanford: Hoover Institution, 2004.  


FELLOWS, G. S. The Foundations of Aleksandr Dugin’s Geopolitics. Denver: University of Denver, 2018.  


KOLESNIKOV, Andrei. Blood and Iron: How Nationalist Imperialism Became Russia’s State Ideology. Carnegie Endowment for International Peace, 2023.  


PUTIN, Vladimir. On the Historical Unity of Russians and Ukrainians. Kremlin, 12 jul. 2021.  

Artigo 3 - Fundamentos da Geopolítica - Trump, Putin e o lucro do caos

Como a desordem energética, a guerra e o retorno da força reabrem a pergunta que o Ocidente fingiu esquecer: impérios rivais podem prosperar com o mesmo colapso?



Introdução


Há uma ideia circulando com força crescente no debate geopolítico: Trump e Putin não seriam apenas antagonistas, mas beneficiários simultâneos do mesmo mundo em combustão. A formulação é provocadora porque desloca a análise da superfície moral para a engrenagem material do poder. Em vez de perguntar apenas quem começou a guerra, ela pergunta quem lucra com o mundo mais caro, mais militarizado, mais fóssil e mais instável que a guerra produz. E a resposta, ainda que incômoda, não pode ser descartada com facilidade. 


A crise em torno do Irã tornou essa hipótese especialmente plausível. O petróleo disparou, o Estreito de Ormuz voltou a funcionar como nervo exposto da economia mundial, a Rússia viu sua principal receita tributária sobre o petróleo dobrar em abril de 2026, e refinarias americanas da Costa do Golfo passaram a operar com margens extraordinárias e exportações recordes. Ao mesmo tempo, emissários russos e integrantes do governo Trump discutiram alívio sancionatório e cooperação econômica em meio à emergência energética. O cenário é eloquente: dois impérios rivais podem, sim, sair fortalecidos da mesma ruptura. Mas isso basta para dizer que são parceiros tácitos? Ainda não. 


A guerra como tecnologia de redistribuição


A grande virtude dessa hipótese é lembrar o óbvio que o moralismo geopolítico costuma ocultar: a guerra não destrói apenas; ela redistribui centralidade. Quando corredores estratégicos entram em colapso, quando seguros sobem, quando o petróleo dispara e quando a proteção armada volta a decidir o preço da energia, certos países deixam de ser apenas atores entre outros e se tornam peças indispensáveis do sistema. Foi exatamente isso que ocorreu no Golfo. A Reuters mostrou que a guerra elevou o Brent para patamares acima de US$ 100 em diversos momentos, desorganizou exportações e tornou o risco energético parte permanente do preço. 


É nesse ponto que a leitura estrutural supera a ingênua. A guerra não precisa ter sido “combinada” por todos os beneficiários para operar como mecanismo funcional do sistema. Basta que seus efeitos ampliem o valor relativo de quem controla energia, refino, rotas, sanções, poder financeiro e capacidade militar. O caos, nesse sentido, deixa de ser simples anomalia e passa a ser método involuntário de rehierarquização.


Moscou ganhou com o fogo


No caso russo, os dados são brutais. Segundo cálculos da Reuters, a principal receita tributária do petróleo russo deve dobrar em abril de 2026 para cerca de US$ 9 bilhões, impulsionada diretamente pela guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. O preço do petróleo russo Urals subiu fortemente, e o Kremlin registrou aumento da demanda por energia russa em meio à escassez global. Em outras palavras: a Rússia, ainda sob sanções e travando sua própria guerra prolongada, viu a crise do Golfo reforçar sua indispensabilidade material. 


Esse ponto importa porque conecta diretamente o artigo ao universo que já havia sido aberto nos textos anteriores. Dugin imaginou a Rússia como potência continental destinada a reaparecer como centro de um grande espaço. Putin transformou esse imaginário em política de guerra e identidade. Agora, o mercado energético global devolve ao Kremlin algo de valor incalculável para qualquer império: a condição de potência necessária. A Rússia não precisa vencer tudo para lucrar muito. Basta que o mundo volte a precisar dela.


Washington também transforma crise em poder


Mas o outro lado da equação é igualmente claro. A Reuters mostrou que a guerra aumentou fortemente a demanda por combustíveis refinados dos Estados Unidos, impulsionando as margens das refinarias da Costa do Golfo para os níveis mais altos em anos. A utilização industrial superou 95%, bem acima da média histórica, e as exportações bateram recordes, já que refinarias na Ásia e na Europa reduziram produção por falta de matéria-prima ou custo excessivo. Isso significa que setores estratégicos americanos não apenas suportaram a crise: lucraram com ela. 


Ao mesmo tempo, a crise serviu para reforçar a velha pretensão americana de arbitrar o sistema global quando ele entra em colapso. Mesmo quando a trégua é frágil, quando os riscos permanecem altos e quando a inflação resiste, os EUA continuam sendo parte indispensável da gestão do caos. A Reuters destacou que, apesar do alívio momentâneo trazido pelo cessar-fogo, o cenário permanece sombrio, com inflação acima de 3%, maior risco de estagflação e dificuldades fiscais crescentes. Isso não significa estabilidade americana; significa centralidade americana dentro da instabilidade. 


Convergência estrutural não é fantasia


É aqui que a tese ganha sua melhor forma. Trump e Putin podem ser rivais, podem se hostilizar em diferentes tabuleiros, podem disputar influência e narrativa, mas ainda assim saírem objetivamente beneficiados da mesma ruptura. Putin ganha com o petróleo caro, com a valorização do papel energético russo e com o desgaste da ideia de uma ordem liberal estável. Trump ganha com a militarização do ambiente, com a valorização dos setores fósseis e refinadores americanos e com a reativação de uma linguagem imperial de comando hemisférico e global.


Isso é convergência estrutural. E ela não é fantasia. Ela é o nome rigoroso para uma situação em que dois projetos imperiais distintos se alimentam do mesmo mundo partido. Um pela restauração russa; outro pela recomposição hegemônica americana. Um pela renda energética; outro pela combinação entre refino, força militar, dólar e tutela estratégica.


Mas o salto da tese continua excessivo


O problema começa quando se abandona a convergência estrutural e se passa a falar em parceria tácita como se ela já estivesse demonstrada. Não está. O que há são evidências de acomodações pragmáticas e interesses paralelos, não de um comando comum da crise.


A Reuters informou que Kirill Dmitriev, enviado especial de Putin, esteve nos Estados Unidos em abril de 2026 para conversar com integrantes do governo Trump sobre Ucrânia e cooperação econômica, pouco antes do vencimento de um waiver que permitia a compra de petróleo russo sancionado preso no mar. O objetivo declarado do alívio temporário era estabilizar os mercados energéticos em meio à guerra com o Irã. Isso sugere pragmatismo, não fusão estratégica entre Moscou e Washington. (reuters.com)


Em geopolítica, rivais podem cooperar pontualmente sem deixarem de ser rivais. Impérios podem negociar pausas energéticas, alívios regulatórios e estabilizações de mercado porque o colapso absoluto também lhes custa caro. O erro analítico é transformar esse pragmatismo em prova automática de cumplicidade total.


Dois impérios da mesma época


A leitura mais produtiva, portanto, é outra. Trump e Putin não precisam ser aliados secretos para encarnar o mesmo tempo histórico. Eles são, cada um a seu modo, líderes de projetos de poder que já não confiam na velha gramática liberal do mundo. Ambos revalorizam energia, soberania dura, território, força e centralização. Ambos operam num ambiente em que a guerra reorganiza o preço das coisas e o valor dos Estados. Ambos crescem num mundo em que o universalismo se enfraquece e os grandes espaços voltam a ser a medida do poder.


É isso que torna a hipótese intelectualmente séria. Ela não precisa exagerar para ser forte. Basta dizer o essencial: Trump e Putin são concorrentes imperiais de uma mesma era de desordem. E essa era recompensa quem sabe converter crise em indispensabilidade.


Conclusão


O mérito da tese está em obrigar a análise a sair do conforto. Ela lembra que a guerra não é apenas tragédia; é também redistribuição. Lembra que a energia não é apenas mercadoria; é hierarquia. E lembra que o caos não é apenas fracasso da ordem; pode ser oportunidade para impérios que aprendem a operar dentro dele.


Mas o rigor exige freio. Trump e Putin não são a mesma coisa. Não são aliados plenos. Não há base suficiente para tratá-los como parceiros tácitos no sentido forte. O que há, e isso já é suficientemente perturbador, é um mundo em que projetos imperiais rivais podem lucrar simultaneamente com a mesma desordem. 


Talvez esta seja a formulação mais precisa para a capa deste debate: Trump e Putin não precisam marchar juntos para crescer sobre as mesmas ruínas. Às vezes, basta que o colapso fale a língua que ambos entendem.


Referências


CEASEFIRE uncorks market relief, but outlook remains sobering. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026. 


IRAN war doubles Russia’s main oil revenue to $9 bln in April, Reuters calculations show. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026. 


IRAN war raises demand for U.S. fuel, boosting Gulf Coast refining margins. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026. 


IRAN’s Hormuz “toll booth” set to hardwire higher energy prices. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026. 


RUSSIAN special envoy Dmitriev in U.S., meeting Trump administration members, sources say. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026. 


WHY the bond market won’t bounce back to pre-war levels. Reuters, 8 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026. 


Artigo 2 - Fundamentos da Geopolítica - Dugin, Putin e a guerra na Ucrânia

Como a invasão foi apresentada pelo Kremlin não apenas como operação militar, mas como missão histórica, reconquista simbólica e fabricação de identidade nacional russa




Introdução


A guerra de Putin contra a Ucrânia não pode ser lida apenas como cálculo militar, disputa territorial ou reação geopolítica à OTAN. Ela precisa ser entendida também como narrativa de império. O que o Kremlin tentou fazer foi mais do que avançar sobre um território: tentou reconduzir a Rússia a uma história de grandeza, missão e centralidade civilizacional. É justamente nesse ponto que Aleksandr Dugin continua útil. Seu pensamento ajuda a compreender a moldura ideológica que transforma fronteiras em feridas históricas, soberania alheia em anomalia e guerra em instrumento de restauração.  


A Ucrânia como problema de identidade, não apenas de segurança


O ponto decisivo da guerra está no modo como Putin definiu a Ucrânia. Em seu texto de 12 de julho de 2021, o presidente russo afirmou que russos e ucranianos seriam “um só povo” e apresentou a separação política entre os dois países como resultado de distorções históricas e manipulações externas. Isso significa que a invasão não nasceu apenas de um raciocínio estratégico; nasceu também de uma negação da plena alteridade ucraniana. A Ucrânia, nessa visão, não aparece como nação soberana em igualdade de condições, mas como parte indevidamente apartada de uma unidade histórica maior.  


É exatamente aqui que o universo de Dugin encontra o Kremlin. Fundamentos da Geopolítica sustenta que a Rússia deve se pensar como civilização eurasiática e que o espaço pós-soviético integra sua profundidade histórica e estratégica. A consequência política dessa visão é clara: a autonomia plena do entorno, especialmente da Ucrânia, deixa de parecer normal e passa a soar como mutilação geopolítica da própria Rússia. Em vez de aceitar a fronteira, o pensamento imperial a converte em problema a ser corrigido.  


Putin transforma guerra em pedagogia nacional


A guerra também cumpriu função interna. Segundo Andrei Kolesnikov, o regime russo vem impondo aos cidadãos uma visão de mundo nacional-imperialista destinada a explorar memórias históricas, reelaborar o passado e moldar a consciência coletiva. A guerra, nesse contexto, não é apenas instrumento externo; é tecnologia de reorganização interna da lealdade. Ela simplifica o mundo, define inimigos, disciplina a linguagem pública e eleva o líder à condição de guardião da história nacional.  


O relatório do CSIS sobre a ideologia do putinismo reforça esse diagnóstico ao descrever o sistema como uma forma de estatismo imperial-nacionalista baseada em grandeza russa, excepcionalismo e luta histórica contra o Ocidente. Em outras palavras, a guerra ajuda a produzir uma Rússia mais coesa em torno do Estado porque oferece um enredo total: pátria cercada, civilização ameaçada, líder necessário e sacrifício nacional como virtude. A política deixa de ser disputa entre alternativas e passa a ser obediência em nome da sobrevivência histórica.  


O erro central do Kremlin


Mas há um paradoxo decisivo. A guerra foi pensada, em parte, com base em pressupostos errados sobre a identidade ucraniana. O estudo do CSIS sobre identidade, história e conflito mostra que a invasão repousou na crença de que a Ucrânia seria uma nação frágil, internamente dividida e suscetível à reabsorção ou à neutralização rápida. O que ocorreu foi o contrário: a resistência ucraniana superou as expectativas do Kremlin e a identidade nacional do país saiu da guerra ainda mais consolidada.  


Essa é a ironia histórica da aventura imperial russa. Ao tentar provar que ucranianos e russos pertenciam à mesma unidade civilizacional, a invasão aprofundou a separação entre os dois. Ao tentar fabricar Rússia por meio da guerra, Putin ajudou a fabricar uma Ucrânia ainda mais nitidamente distinta. O império, nesse caso, não apagou a nação rival; ajudou a endurecê-la.  


Dugin explica Putin? Sim, mas não sozinho


Seria simplista dizer que Putin invadiu a Ucrânia porque segue Dugin como manual. A política real é mais complexa. Mas seria igualmente ingênuo ignorar a utilidade do autor. Dugin ajuda a entender o clima ideológico em que a guerra se torna inteligível: Rússia como civilização, Ocidente como ameaça estrutural, território como destino e multipolaridade como quebra violenta da ordem liberal. Ele não explica tudo, mas ilumina muito.  


O que importa, no fim, não é provar dependência literal entre pensador e presidente. O que importa é perceber que Putin pôde falar a língua da missão histórica porque essa língua já estava disponível. Dugin ajudou a organizá-la. O Kremlin a transformou em instrumento de Estado. A guerra contra a Ucrânia foi, assim, mais do que agressão militar: foi a tentativa de converter imaginação imperial em realidade política.  


Conclusão


A guerra de Putin contra a Ucrânia deve ser lida como guerra de território, de energia, de influência e de memória. Mas, acima de tudo, como guerra de identidade. A invasão procurou negar à Ucrânia o direito pleno de ser outra coisa que não extensão da história russa. E procurou oferecer aos russos uma narrativa de redenção nacional baseada em império, sacrifício e antagonismo ao Ocidente. É isso que torna Dugin relevante: ele fornece a gramática que ajuda a entender por que o Kremlin não apresentou a guerra como simples decisão estratégica, mas como destino histórico.  


No fundo, a lição é sombria. Quando um Estado deixa de reconhecer a soberania do vizinho porque passa a enxergá-lo como parte amputada da própria civilização, a guerra deixa de ser exceção. Ela vira projeto.


Referências


DUNLOP, John B. Aleksandr Dugin’s Foundations of Geopolitics. Stanford: Hoover Institution, 2004.  


KOLESNIKOV, Andrei. Blood and Iron: How Nationalist Imperialism Became Russia’s State Ideology. Carnegie Endowment for International Peace, 2023.  


MANKOFF, Jeffrey. Russia’s War in Ukraine: Identity, History, and Conflict. Washington, D.C.: CSIS, 2022.  


PUTIN, Vladimir. On the Historical Unity of Russians and Ukrainians. Kremlin, 12 jul. 2021.  


SNEGOVAYA, Maria et al. The Ideology of Putinism: Is It Sustainable? Washington, D.C.: CSIS, 2023.