quinta-feira, 9 de abril de 2026

Artigo 2 - Fundamentos da Geopolítica - Dugin, Putin e a guerra na Ucrânia

Como a invasão foi apresentada pelo Kremlin não apenas como operação militar, mas como missão histórica, reconquista simbólica e fabricação de identidade nacional russa




Introdução


A guerra de Putin contra a Ucrânia não pode ser lida apenas como cálculo militar, disputa territorial ou reação geopolítica à OTAN. Ela precisa ser entendida também como narrativa de império. O que o Kremlin tentou fazer foi mais do que avançar sobre um território: tentou reconduzir a Rússia a uma história de grandeza, missão e centralidade civilizacional. É justamente nesse ponto que Aleksandr Dugin continua útil. Seu pensamento ajuda a compreender a moldura ideológica que transforma fronteiras em feridas históricas, soberania alheia em anomalia e guerra em instrumento de restauração.  


A Ucrânia como problema de identidade, não apenas de segurança


O ponto decisivo da guerra está no modo como Putin definiu a Ucrânia. Em seu texto de 12 de julho de 2021, o presidente russo afirmou que russos e ucranianos seriam “um só povo” e apresentou a separação política entre os dois países como resultado de distorções históricas e manipulações externas. Isso significa que a invasão não nasceu apenas de um raciocínio estratégico; nasceu também de uma negação da plena alteridade ucraniana. A Ucrânia, nessa visão, não aparece como nação soberana em igualdade de condições, mas como parte indevidamente apartada de uma unidade histórica maior.  


É exatamente aqui que o universo de Dugin encontra o Kremlin. Fundamentos da Geopolítica sustenta que a Rússia deve se pensar como civilização eurasiática e que o espaço pós-soviético integra sua profundidade histórica e estratégica. A consequência política dessa visão é clara: a autonomia plena do entorno, especialmente da Ucrânia, deixa de parecer normal e passa a soar como mutilação geopolítica da própria Rússia. Em vez de aceitar a fronteira, o pensamento imperial a converte em problema a ser corrigido.  


Putin transforma guerra em pedagogia nacional


A guerra também cumpriu função interna. Segundo Andrei Kolesnikov, o regime russo vem impondo aos cidadãos uma visão de mundo nacional-imperialista destinada a explorar memórias históricas, reelaborar o passado e moldar a consciência coletiva. A guerra, nesse contexto, não é apenas instrumento externo; é tecnologia de reorganização interna da lealdade. Ela simplifica o mundo, define inimigos, disciplina a linguagem pública e eleva o líder à condição de guardião da história nacional.  


O relatório do CSIS sobre a ideologia do putinismo reforça esse diagnóstico ao descrever o sistema como uma forma de estatismo imperial-nacionalista baseada em grandeza russa, excepcionalismo e luta histórica contra o Ocidente. Em outras palavras, a guerra ajuda a produzir uma Rússia mais coesa em torno do Estado porque oferece um enredo total: pátria cercada, civilização ameaçada, líder necessário e sacrifício nacional como virtude. A política deixa de ser disputa entre alternativas e passa a ser obediência em nome da sobrevivência histórica.  


O erro central do Kremlin


Mas há um paradoxo decisivo. A guerra foi pensada, em parte, com base em pressupostos errados sobre a identidade ucraniana. O estudo do CSIS sobre identidade, história e conflito mostra que a invasão repousou na crença de que a Ucrânia seria uma nação frágil, internamente dividida e suscetível à reabsorção ou à neutralização rápida. O que ocorreu foi o contrário: a resistência ucraniana superou as expectativas do Kremlin e a identidade nacional do país saiu da guerra ainda mais consolidada.  


Essa é a ironia histórica da aventura imperial russa. Ao tentar provar que ucranianos e russos pertenciam à mesma unidade civilizacional, a invasão aprofundou a separação entre os dois. Ao tentar fabricar Rússia por meio da guerra, Putin ajudou a fabricar uma Ucrânia ainda mais nitidamente distinta. O império, nesse caso, não apagou a nação rival; ajudou a endurecê-la.  


Dugin explica Putin? Sim, mas não sozinho


Seria simplista dizer que Putin invadiu a Ucrânia porque segue Dugin como manual. A política real é mais complexa. Mas seria igualmente ingênuo ignorar a utilidade do autor. Dugin ajuda a entender o clima ideológico em que a guerra se torna inteligível: Rússia como civilização, Ocidente como ameaça estrutural, território como destino e multipolaridade como quebra violenta da ordem liberal. Ele não explica tudo, mas ilumina muito.  


O que importa, no fim, não é provar dependência literal entre pensador e presidente. O que importa é perceber que Putin pôde falar a língua da missão histórica porque essa língua já estava disponível. Dugin ajudou a organizá-la. O Kremlin a transformou em instrumento de Estado. A guerra contra a Ucrânia foi, assim, mais do que agressão militar: foi a tentativa de converter imaginação imperial em realidade política.  


Conclusão


A guerra de Putin contra a Ucrânia deve ser lida como guerra de território, de energia, de influência e de memória. Mas, acima de tudo, como guerra de identidade. A invasão procurou negar à Ucrânia o direito pleno de ser outra coisa que não extensão da história russa. E procurou oferecer aos russos uma narrativa de redenção nacional baseada em império, sacrifício e antagonismo ao Ocidente. É isso que torna Dugin relevante: ele fornece a gramática que ajuda a entender por que o Kremlin não apresentou a guerra como simples decisão estratégica, mas como destino histórico.  


No fundo, a lição é sombria. Quando um Estado deixa de reconhecer a soberania do vizinho porque passa a enxergá-lo como parte amputada da própria civilização, a guerra deixa de ser exceção. Ela vira projeto.


Referências


DUNLOP, John B. Aleksandr Dugin’s Foundations of Geopolitics. Stanford: Hoover Institution, 2004.  


KOLESNIKOV, Andrei. Blood and Iron: How Nationalist Imperialism Became Russia’s State Ideology. Carnegie Endowment for International Peace, 2023.  


MANKOFF, Jeffrey. Russia’s War in Ukraine: Identity, History, and Conflict. Washington, D.C.: CSIS, 2022.  


PUTIN, Vladimir. On the Historical Unity of Russians and Ukrainians. Kremlin, 12 jul. 2021.  


SNEGOVAYA, Maria et al. The Ideology of Putinism: Is It Sustainable? Washington, D.C.: CSIS, 2023.  

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