Como a desordem energética, a guerra e o retorno da força reabrem a pergunta que o Ocidente fingiu esquecer: impérios rivais podem prosperar com o mesmo colapso?
Introdução
Há uma ideia circulando com força crescente no debate geopolítico: Trump e Putin não seriam apenas antagonistas, mas beneficiários simultâneos do mesmo mundo em combustão. A formulação é provocadora porque desloca a análise da superfície moral para a engrenagem material do poder. Em vez de perguntar apenas quem começou a guerra, ela pergunta quem lucra com o mundo mais caro, mais militarizado, mais fóssil e mais instável que a guerra produz. E a resposta, ainda que incômoda, não pode ser descartada com facilidade.
A crise em torno do Irã tornou essa hipótese especialmente plausível. O petróleo disparou, o Estreito de Ormuz voltou a funcionar como nervo exposto da economia mundial, a Rússia viu sua principal receita tributária sobre o petróleo dobrar em abril de 2026, e refinarias americanas da Costa do Golfo passaram a operar com margens extraordinárias e exportações recordes. Ao mesmo tempo, emissários russos e integrantes do governo Trump discutiram alívio sancionatório e cooperação econômica em meio à emergência energética. O cenário é eloquente: dois impérios rivais podem, sim, sair fortalecidos da mesma ruptura. Mas isso basta para dizer que são parceiros tácitos? Ainda não.
A guerra como tecnologia de redistribuição
A grande virtude dessa hipótese é lembrar o óbvio que o moralismo geopolítico costuma ocultar: a guerra não destrói apenas; ela redistribui centralidade. Quando corredores estratégicos entram em colapso, quando seguros sobem, quando o petróleo dispara e quando a proteção armada volta a decidir o preço da energia, certos países deixam de ser apenas atores entre outros e se tornam peças indispensáveis do sistema. Foi exatamente isso que ocorreu no Golfo. A Reuters mostrou que a guerra elevou o Brent para patamares acima de US$ 100 em diversos momentos, desorganizou exportações e tornou o risco energético parte permanente do preço.
É nesse ponto que a leitura estrutural supera a ingênua. A guerra não precisa ter sido “combinada” por todos os beneficiários para operar como mecanismo funcional do sistema. Basta que seus efeitos ampliem o valor relativo de quem controla energia, refino, rotas, sanções, poder financeiro e capacidade militar. O caos, nesse sentido, deixa de ser simples anomalia e passa a ser método involuntário de rehierarquização.
Moscou ganhou com o fogo
No caso russo, os dados são brutais. Segundo cálculos da Reuters, a principal receita tributária do petróleo russo deve dobrar em abril de 2026 para cerca de US$ 9 bilhões, impulsionada diretamente pela guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. O preço do petróleo russo Urals subiu fortemente, e o Kremlin registrou aumento da demanda por energia russa em meio à escassez global. Em outras palavras: a Rússia, ainda sob sanções e travando sua própria guerra prolongada, viu a crise do Golfo reforçar sua indispensabilidade material.
Esse ponto importa porque conecta diretamente o artigo ao universo que já havia sido aberto nos textos anteriores. Dugin imaginou a Rússia como potência continental destinada a reaparecer como centro de um grande espaço. Putin transformou esse imaginário em política de guerra e identidade. Agora, o mercado energético global devolve ao Kremlin algo de valor incalculável para qualquer império: a condição de potência necessária. A Rússia não precisa vencer tudo para lucrar muito. Basta que o mundo volte a precisar dela.
Washington também transforma crise em poder
Mas o outro lado da equação é igualmente claro. A Reuters mostrou que a guerra aumentou fortemente a demanda por combustíveis refinados dos Estados Unidos, impulsionando as margens das refinarias da Costa do Golfo para os níveis mais altos em anos. A utilização industrial superou 95%, bem acima da média histórica, e as exportações bateram recordes, já que refinarias na Ásia e na Europa reduziram produção por falta de matéria-prima ou custo excessivo. Isso significa que setores estratégicos americanos não apenas suportaram a crise: lucraram com ela.
Ao mesmo tempo, a crise serviu para reforçar a velha pretensão americana de arbitrar o sistema global quando ele entra em colapso. Mesmo quando a trégua é frágil, quando os riscos permanecem altos e quando a inflação resiste, os EUA continuam sendo parte indispensável da gestão do caos. A Reuters destacou que, apesar do alívio momentâneo trazido pelo cessar-fogo, o cenário permanece sombrio, com inflação acima de 3%, maior risco de estagflação e dificuldades fiscais crescentes. Isso não significa estabilidade americana; significa centralidade americana dentro da instabilidade.
Convergência estrutural não é fantasia
É aqui que a tese ganha sua melhor forma. Trump e Putin podem ser rivais, podem se hostilizar em diferentes tabuleiros, podem disputar influência e narrativa, mas ainda assim saírem objetivamente beneficiados da mesma ruptura. Putin ganha com o petróleo caro, com a valorização do papel energético russo e com o desgaste da ideia de uma ordem liberal estável. Trump ganha com a militarização do ambiente, com a valorização dos setores fósseis e refinadores americanos e com a reativação de uma linguagem imperial de comando hemisférico e global.
Isso é convergência estrutural. E ela não é fantasia. Ela é o nome rigoroso para uma situação em que dois projetos imperiais distintos se alimentam do mesmo mundo partido. Um pela restauração russa; outro pela recomposição hegemônica americana. Um pela renda energética; outro pela combinação entre refino, força militar, dólar e tutela estratégica.
Mas o salto da tese continua excessivo
O problema começa quando se abandona a convergência estrutural e se passa a falar em parceria tácita como se ela já estivesse demonstrada. Não está. O que há são evidências de acomodações pragmáticas e interesses paralelos, não de um comando comum da crise.
A Reuters informou que Kirill Dmitriev, enviado especial de Putin, esteve nos Estados Unidos em abril de 2026 para conversar com integrantes do governo Trump sobre Ucrânia e cooperação econômica, pouco antes do vencimento de um waiver que permitia a compra de petróleo russo sancionado preso no mar. O objetivo declarado do alívio temporário era estabilizar os mercados energéticos em meio à guerra com o Irã. Isso sugere pragmatismo, não fusão estratégica entre Moscou e Washington. (reuters.com)
Em geopolítica, rivais podem cooperar pontualmente sem deixarem de ser rivais. Impérios podem negociar pausas energéticas, alívios regulatórios e estabilizações de mercado porque o colapso absoluto também lhes custa caro. O erro analítico é transformar esse pragmatismo em prova automática de cumplicidade total.
Dois impérios da mesma época
A leitura mais produtiva, portanto, é outra. Trump e Putin não precisam ser aliados secretos para encarnar o mesmo tempo histórico. Eles são, cada um a seu modo, líderes de projetos de poder que já não confiam na velha gramática liberal do mundo. Ambos revalorizam energia, soberania dura, território, força e centralização. Ambos operam num ambiente em que a guerra reorganiza o preço das coisas e o valor dos Estados. Ambos crescem num mundo em que o universalismo se enfraquece e os grandes espaços voltam a ser a medida do poder.
É isso que torna a hipótese intelectualmente séria. Ela não precisa exagerar para ser forte. Basta dizer o essencial: Trump e Putin são concorrentes imperiais de uma mesma era de desordem. E essa era recompensa quem sabe converter crise em indispensabilidade.
Conclusão
O mérito da tese está em obrigar a análise a sair do conforto. Ela lembra que a guerra não é apenas tragédia; é também redistribuição. Lembra que a energia não é apenas mercadoria; é hierarquia. E lembra que o caos não é apenas fracasso da ordem; pode ser oportunidade para impérios que aprendem a operar dentro dele.
Mas o rigor exige freio. Trump e Putin não são a mesma coisa. Não são aliados plenos. Não há base suficiente para tratá-los como parceiros tácitos no sentido forte. O que há, e isso já é suficientemente perturbador, é um mundo em que projetos imperiais rivais podem lucrar simultaneamente com a mesma desordem.
Talvez esta seja a formulação mais precisa para a capa deste debate: Trump e Putin não precisam marchar juntos para crescer sobre as mesmas ruínas. Às vezes, basta que o colapso fale a língua que ambos entendem.
Referências
CEASEFIRE uncorks market relief, but outlook remains sobering. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026.
IRAN war doubles Russia’s main oil revenue to $9 bln in April, Reuters calculations show. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026.
IRAN war raises demand for U.S. fuel, boosting Gulf Coast refining margins. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026.
IRAN’s Hormuz “toll booth” set to hardwire higher energy prices. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026.
RUSSIAN special envoy Dmitriev in U.S., meeting Trump administration members, sources say. Reuters, 9 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026.
WHY the bond market won’t bounce back to pre-war levels. Reuters, 8 abr. 2026. Disponível em: fonte jornalística internacional. Acesso em: 9 abr. 2026.
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