quinta-feira, 9 de abril de 2026

Max Weber e a atualidade de Ciência e política: duas vocações: ciência, poder e responsabilidade no século XXI


Este artigo analisa a atualidade da obra Ciência e política: duas vocações, de Max Weber, a partir de seus dois eixos centrais: a vocação científica e a vocação política. Sustenta-se que a obra permanece decisiva para compreender problemas contemporâneos como a crise de autoridade da universidade, a confusão entre docência e militância, a expansão da racionalidade técnica, o avanço da inteligência artificial e a deterioração de democracias submetidas à lógica da polarização e da performance. Em A ciência como vocação, Weber formula uma defesa rigorosa da especialização, da probidade intelectual e da limitação da ciência diante das questões últimas do sentido. Em A política como vocação, define o Estado pelo monopólio legítimo da violência e apresenta uma ética da responsabilidade como condição da ação política madura. Argumenta-se que, no presente, a obra ganha renovada força interpretativa porque permite examinar, sem ingenuidade, a tensão entre técnica e valor, entre poder e dever, entre convicção e consequência.

Palavras-chave: Max Weber; ciência; política; racionalidade; ética da responsabilidade.

Introdução

Poucos textos clássicos conservam a capacidade de interpelar o presente com a precisão de Ciência e política: duas vocações. O interesse duradouro dessa obra não se deve apenas ao seu estatuto canônico na sociologia, mas à força analítica com que Weber descreve os dilemas estruturais da modernidade. Em vez de produzir uma filosofia reconfortante, o autor oferece um diagnóstico rigoroso das tensões entre conhecimento, poder, valor e responsabilidade. Já no prefácio da edição brasileira, observa-se que a racionalidade constitui o núcleo organizador do pensamento weberiano, articulando seus estudos sobre ciência, política, burocracia e ação social (Berlinck, 2011). 


A permanência da obra decorre, em grande medida, de sua capacidade de escapar a duas simplificações recorrentes. A primeira consiste em imaginar a ciência como fonte suficiente de sentido moral. A segunda, em tratar a política como terreno legítimo da pura convicção, desligada das consequências dos atos. Weber rejeita ambas. Para ele, a ciência esclarece, mas não salva; a política exige paixão, mas também responsabilidade e medida. Essa dupla recusa ajuda a compreender por que seus ensaios parecem falar diretamente a um tempo marcado por hiperespecialização, inteligência artificial, ativismo algorítmico, polarização institucional e declínio da confiança pública.


A tese aqui defendida é que Ciência e política: duas vocações permanece atual porque explicita, com rara lucidez, o drama da modernidade tardia: o crescimento extraordinário dos meios técnicos não eliminou o conflito entre valores, nem produziu, por si, maturidade ética ou estabilidade democrática. Ao contrário, em muitos contextos, ampliou a urgência dessas questões.



1. Racionalidade, vocação e modernidade


O prefácio que acompanha a obra identifica na racionalidade a preocupação central de Weber. Trata-se, ali, de uma racionalidade entendida como equação dinâmica entre meios e fins, isto é, como problema de adequação da ação a objetivos escolhidos em um universo de valores conflitantes (Berlinck, 2011).  Isso é decisivo: Weber não descreve uma civilização reconciliada, mas uma civilização compelida a escolher sem garantia metafísica.


Essa moldura ajuda a compreender por que ciência e política aparecem, no livro, como “vocações”. Não se trata de profissões em sentido banal, mas de modos de inserção ética em esferas distintas da vida social. A ciência exige disciplina, método, especialização e honestidade intelectual. A política, por sua vez, exige disposição para agir em meio à força, ao conflito e à consequência. Em ambos os casos, não basta habilidade técnica; exige-se uma forma de caráter.


Essa percepção permanece atual. O crescimento contemporâneo da inteligência artificial, da burocratização digital e dos sistemas de decisão automatizada ampliou enormemente a capacidade de cálculo social. A UNESCO insiste, por isso, que o uso de inteligência artificial em educação e pesquisa deve permanecer humanocêntrico, responsável e submetido a critérios éticos e institucionais claros.  Em termos weberianos, trata-se de lembrar que o aprimoramento dos meios não resolve, por si, o problema dos fins.



2. A ciência como vocação: especialização, desencantamento e probidade


No ensaio A ciência como vocação, Weber parte das condições concretas da carreira acadêmica e mostra que a vida universitária moderna se organiza sob competição, incerteza, seleção e especialização. A ciência, afirma ele, atingiu um estágio em que a especialização rigorosa se tornou condição da produção intelectual relevante; a obra científica importante é, em seu tempo, necessariamente obra de especialista (Weber, 2011). 


Esse ponto continua atualíssimo. Num ecossistema acadêmico atravessado por métricas, produtividade, indexação, competição internacional e pressão por visibilidade, a reflexão de Weber desmonta tanto o romantismo anti-intelectual quanto a fantasia do saber total. Ele mostra que a ciência moderna exige concentração, método e renúncia. Não há ciência séria sem delimitação de objeto, sem esforço continuado e sem aceitação de que o conhecimento é provisório.


Ao mesmo tempo, Weber rompe com qualquer idealização salvífica da ciência. Um dos pontos mais profundos do ensaio é a afirmação de que a ciência não responde às perguntas últimas: “Que devemos fazer?” e “Como devemos viver?”. Ela pode esclarecer meios, consequências e coerências internas de determinadas escolhas, mas não decide, cientificamente, o valor supremo que deve orientar a existência (Weber, 2011). 


Essa limitação não enfraquece a ciência; ao contrário, define sua grandeza. O papel da ciência é produzir clareza. O prefácio da obra sintetiza esse ponto ao afirmar que a contribuição central da prática científica, em Weber, está no “ganho da clareza”, isto é, na capacidade de explicitar meios, formular problemas e disciplinar o pensamento (Berlinck, 2011). 


No presente, esse argumento adquire nova densidade. A OECD registrou que, em 2025, 20,2% das empresas dos países com dados disponíveis já utilizavam IA, contra 14,2% em 2024 e 8,7% em 2023; em paralelo, mais de um terço dos indivíduos da OCDE usaram ferramentas de IA generativa em 2025.  Isso demonstra a aceleração da racionalização técnica. Contudo, como Weber antecipou, expansão tecnológica não equivale a elucidação moral. Sistemas mais eficientes não resolvem, por si, o problema da responsabilidade humana sobre o que se decide fazer com eles.



3. O desencantamento do mundo e a crise de sentido


Talvez o conceito mais duradouro do ensaio seja o de desencantamento do mundo. Weber sustenta que a racionalização moderna não significa que os indivíduos conheçam mais substancialmente o sentido da vida, mas que vivem sob a crença de que, em princípio, tudo pode ser calculado, previsto e dominado tecnicamente. O mundo deixa de ser interpretado como espaço governado por forças mágicas e passa a ser organizado por técnica, método e previsão (Weber, 2011). 


O efeito desse processo é ambivalente. De um lado, amplia-se o controle sobre a natureza e sobre a vida social. De outro, cresce o vazio existencial. Weber percebe com grande antecedência que o progresso não fornece, automaticamente, sentido. A modernidade pode produzir eficiência sem plenitude, avanço sem orientação, cálculo sem sabedoria.


Essa intuição ajuda a ler a contemporaneidade. A difusão de tecnologias baseadas em IA tem sido acompanhada por discursos de inevitabilidade, solução total e inovação redentora. Em contraponto, a UNESCO insiste que a integração dessas tecnologias em educação e pesquisa exige supervisão humana, transparência, responsabilidade e centralidade da dignidade humana.  O ponto é claramente weberiano: quanto mais poder técnico se acumula, mais grave se torna o problema dos critérios éticos que orientam seu uso.



4. Professor não é profeta: universidade, cátedra e honestidade intelectual


Um dos trechos mais contundentes de A ciência como vocação é a crítica à politização da sala de aula. Weber afirma que a política não tem lugar na cátedra quando o professor, em vez de analisar, usa a posição docente para inculcar convicções pessoais. O verdadeiro professor, sustenta ele, não deve valer-se da assimetria institucional da aula para agir como profeta ou demagogo (Weber, 2011). 


Esse argumento não equivale a defender neutralidade ingênua. Weber sabe que todo trabalho intelectual se move em um mundo de valores. Seu ponto é mais rigoroso: é preciso distinguir entre análise de fatos, coerência lógica e interpretação científica, de um lado, e propaganda normativa, de outro. Quando essa fronteira é rompida, a docência degenera em catequese.


A atualidade desse diagnóstico é evidente. Universidades, escolas e espaços públicos vêm sendo pressionados por lógicas de polarização, pedagogias ideologizadas e disputas por hegemonia cultural. A obra de Weber oferece, nesse contexto, um critério de sobriedade: a probidade intelectual exige expor pressupostos, separar análise de adesão e resistir à tentação de transformar a autoridade acadêmica em autoridade moral absoluta. Essa advertência vale tanto para o dogmatismo progressista quanto para o reacionário.


Não por acaso, o próprio texto alerta que “as profecias que caem das cátedras universitárias” não produzem comunidades verdadeiras, mas seitas de fanáticos (Weber, 2011).  Em tempos de radicalização em rede, a passagem soa especialmente atual.



5. A política como vocação: Estado, poder e violência legítima


Se A ciência como vocação pensa os limites do conhecimento, A política como vocação enfrenta a dureza do poder. Weber define a política, em sentido estrito, como direção ou influência sobre a direção do Estado. E define o Estado sociologicamente pelo meio específico que lhe é peculiar: o uso da coação física, ou, em formulação consagrada, o monopólio legítimo da violência em determinado território (Weber, 2011). 


A força dessa definição está na recusa de sentimentalismos. O Estado não é definido por sua finalidade ideal, mas pelo instrumento específico que o distingue. Com isso, Weber devolve a política ao seu terreno real: dominação, legitimidade, organização e poder.


Lido hoje, esse trecho ajuda a compreender tanto o papel persistente do Estado quanto a ingenuidade de discursos que imaginam ter ultrapassado as estruturas da força. Em sociedades polarizadas, atravessadas por violência política, guerra híbrida e desinformação organizada, continua sendo central perguntar quem exerce legitimamente o poder, por quais meios e sob quais limites institucionais.


Os relatórios recentes da V-Dem apontam, justamente, deterioração democrática em diversas regiões, com erosão de garantias liberais, enfraquecimento do Estado de Direito e intimidação de mídia e dissidência em diferentes contextos.  Em chave weberiana, isso mostra que a luta pela legitimidade do poder permanece no centro da política contemporânea.



6. Ética da convicção e ética da responsabilidade


Talvez nenhuma distinção de Weber tenha sido tão repetida quanto a oposição entre ética da convicção e ética da responsabilidade. Repetida, porém, nem sempre compreendida. Weber não diz que uma exclui totalmente a outra, nem que convicção seja sinônimo de irresponsabilidade. O que ele sustenta é que há uma diferença profunda entre agir segundo princípios absolutos confiando os resultados a uma instância transcendente e agir assumindo as consequências previsíveis dos próprios atos (Weber, 2011). 


Essa distinção continua fundamental para a análise da política contemporânea. Num ambiente público moldado por indignação permanente, slogans morais e identidades políticas fortemente emocionalizadas, cresce a tentação de reduzir a legitimidade da ação à pureza subjetiva da intenção. Weber rejeita esse conforto. A política madura, para ele, só começa quando o agente aceita responder pelos efeitos previsíveis do que faz.


Essa formulação é especialmente pertinente no século XXI. Governos, partidos, plataformas digitais e lideranças públicas operam em ecossistemas de consequências ampliadas: uma decisão institucional, uma política mal calibrada, uma campanha de desinformação ou uma arquitetura algorítmica podem produzir efeitos sistêmicos profundos. A ética da responsabilidade, nesse cenário, torna-se ainda mais necessária, não menos.


7. As qualidades do político: paixão, responsabilidade e senso de proporção


Weber é explícito ao afirmar que há três qualidades decisivas do homem político: paixão, sentimento de responsabilidade e senso de proporção (Weber, 2011).  A formulação é admirável porque evita dois extremos. Sem paixão, a política se converte em burocracia inerte. Sem responsabilidade, torna-se fanatismo. Sem senso de proporção, degrada-se em voluntarismo, teatralidade e culto de si.


O autor também insiste que a política exige recolhimento interior, distância de si e domínio da vaidade. A ausência dessa distância é, para ele, um pecado capital do político, porque dissolve a relação entre poder e causa (Weber, 2011). 


Essa crítica alcança em cheio o presente. A política contemporânea foi profundamente afetada por lógicas de visibilidade contínua, personalização extrema, comunicação de choque e liderança performática. Em muitos contextos, o poder deixou de ser compreendido como mediação institucional e passou a ser consumido como espetáculo identitário. Weber antecipa essa patologia quando observa que a vaidade, no político, é muito mais perigosa do que no cientista.



8. Vaidade, narcisismo político e degradação da esfera pública


Em uma das passagens mais incisivas de A política como vocação, Weber afirma que o pecado contra o “espírito santo” da vocação política consiste em desejar o poder sem causa, transformando-o em pretexto para exaltação pessoal. Acrescenta, ainda, que os dois pecados mortais da política são não defender causa alguma e não ter sentimento de responsabilidade; a vaidade frequentemente empurra o político para ambos (Weber, 2011).


Essa análise parece escrita para a era das lideranças narcísicas, da política como branding e da conversão da arena pública em palco de autopromoção. Weber percebe que o poder é inevitável na política, mas insiste que ele só é legítimo quando subordinado a uma causa e disciplinado pela responsabilidade. Quando a vaidade ocupa o centro, o político passa a buscar brilho, efeito e impressionamento, e não finalidade pública.


A crise democrática recente ajuda a perceber a atualidade desse ponto. Os alertas da V-Dem sobre autocratização, pressão sobre instituições e deterioração da deliberação pública mostram que a democracia pode ser corroída não apenas por golpes clássicos, mas também pela combinação de personalismo, erosão institucional e mobilização afetiva permanente.  Weber oferece, aqui, uma gramática conceitual poderosa para compreender a passagem do político responsável ao histrião do poder.



9. Atualidade de Weber no século XXI


A atualidade de Weber não decorre de simples analogia superficial entre passado e presente. Ela decorre do fato de que ele identificou estruturas permanentes da modernidade: especialização crescente, burocratização da vida, pluralismo de valores, racionalização dos meios, conflito entre convicção e consequência e risco de captura narcísica do poder.


Essas estruturas aparecem hoje em novo patamar. A universidade vive sob métricas e polarização. A ciência convive com negacionismos e com expectativas messiânicas em torno da tecnologia. A política se move entre institucionalidade e espetáculo. A inteligência artificial intensifica a racionalidade técnica, mas não substitui deliberação ética. E a democracia enfrenta pressões simultâneas vindas da concentração de poder, da manipulação digital e da erosão da confiança pública. 


Nesse cenário, Weber continua indispensável porque recusa tanto o cinismo quanto a ilusão. Ele não propõe abandonar a ciência, mas praticá-la com honestidade. Não propõe abandonar a política, mas exercê-la com responsabilidade. Não promete reconciliação plena, mas exige maturidade diante do conflito.



Conclusão


Ciência e política: duas vocações permanece uma obra central porque formula, com extraordinária densidade, os limites e as exigências de duas esferas decisivas da vida moderna. Em A ciência como vocação, Weber mostra que a ciência é grande não por oferecer salvação, mas por produzir clareza, método e probidade intelectual. Em A política como vocação, demonstra que o poder só pode ser legitimamente exercido quando subordinado a uma causa, atravessado pela responsabilidade e contido pelo senso de proporção.


No século XXI, essa lição se torna ainda mais importante. A expansão da inteligência artificial, a pressão sobre universidades, o crescimento da racionalidade algorítmica e a degradação de democracias sob lógica performática recolocam, em novo nível, as perguntas weberianas. Que lugar resta ao professor quando a cátedra é tentada pela profecia? Que lugar resta à política quando o poder se torna instrumento de exaltação pessoal? Que lugar resta à ciência quando dela se exige aquilo que ela não pode dar: sentido último, redenção moral ou substituição da responsabilidade humana?


A força de Weber está em responder sem simplificar. Ciência não substitui ética. Técnica não substitui julgamento. Convicção não substitui responsabilidade. E poder, quando desligado de causa e medida, degrada tanto o governante quanto a ordem política. Por isso, a obra não pertence apenas à história da sociologia. Ela pertence, com vigor intacto, ao debate sobre a crise contemporânea da verdade, da universidade e da democracia.



Referências


BERLINCK, Manoel T. Prefácio. In: WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. 18. ed. São Paulo: Cultrix, 2011.


OECD. Artificial intelligence. Paris: OECD, 2026. Disponível em: página oficial da OECD sobre inteligência artificial. Acesso em: 9 abr. 2026. 


OECD. The adoption of artificial intelligence in firms. Paris: OECD, 2025. Disponível em: página oficial da OECD. Acesso em: 9 abr. 2026. 


UNESCO. Guidance for generative AI in education and research. Paris: UNESCO, 2023. Atualizado em 2026. Disponível em: página oficial da UNESCO. Acesso em: 9 abr. 2026. 


UNESCO. Ethics of Artificial Intelligence. Paris: UNESCO, 2026. Disponível em: página oficial da UNESCO. Acesso em: 9 abr. 2026. 


UNESCO. AI and technologies in education. Paris: UNESCO, 2026. Disponível em: página oficial da UNESCO. Acesso em: 9 abr. 2026. 


V-DEM INSTITUTE. Democracy report 2026. Gotemburgo: University of Gothenburg, 2026. Disponível em: relatório oficial do V-Dem. Acesso em: 9 abr. 2026. 


WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. 18. ed. São Paulo: Cultrix, 2011. 



Alexander Dugin entre império e pluralidade

Uma leitura crítica de Fundamentos da Geopolítica e Geopolítica do Mundo Multipolar


Introdução


Poucos autores contemporâneos conseguiram transformar geopolítica em linguagem de combate com a intensidade de Alexander Dugin. Em sua obra, mapas não são apenas mapas; fronteiras não são apenas fronteiras; civilizações não são apenas formações históricas. Tudo aparece investido de missão, destino, antagonismo e transcendência. Esse é justamente o ponto de partida desta resenha crítica: compreender como Fundamentos da Geopolítica e Geopolítica do Mundo Multipolar articulam uma visão total do mundo, na qual estratégia, filosofia, religião, identidade e poder estatal se fundem em um mesmo projeto político-intelectual.


A hipótese central deste texto é simples e decisiva: Dugin constrói uma crítica poderosa ao universalismo liberal ocidental, mas o faz por meio de uma alternativa que não conduz propriamente à emancipação dos povos, e sim à reorganização do planeta em grandes blocos civilizacionais hierárquicos, orientados por centros imperiais. Em outras palavras, sua teoria combate o imperialismo liberal sem abandonar a lógica imperial. Troca-se o universalismo de mercado por um pluralismo de impérios.


O interesse de revisitar essas obras é evidente. Fundamentos da Geopolítica apresenta a moldura dura, estratégica e continental do pensamento duginiano. Já Geopolítica do Mundo Multipolar mostra um refinamento conceitual importante: o vocabulário imperial é parcialmente recoberto por categorias como pluralidade, multipolaridade, civilização e diversidade histórica. O efeito é sofisticado. O argumento se torna mais exportável, mais sedutor e mais adaptável a públicos distintos, inclusive fora da Rússia.


As citações e referências, aqui, foram organizadas em sistema autor-data, em conformidade com o padrão da ABNT para trabalhos acadêmicos, conforme a sistemática de normas publicadas e homologadas pela própria associação. 


1. A arquitetura intelectual de Dugin: geopolítica como destino


Em Fundamentos da Geopolítica, Dugin não começa por si mesmo. Ele reconstrói uma linhagem. Ratzel, Kjellén, Mackinder, Mahan, Spykman e Haushofer aparecem como peças de uma tradição que transforma o espaço em variável decisiva da política mundial. O ponto não é apenas recuperar autores clássicos, mas demonstrar que o Estado, o povo e a civilização devem ser lidos geograficamente. Em sua exposição de Ratzel, por exemplo, Dugin enfatiza a ideia do Estado como “organismo vivo”, enraizado no solo, para o qual expansão e contração territorial se tornam processos quase naturais (Dugin, 2015). 


Esse gesto é mais importante do que parece. Ao apresentar a geopolítica como herdeira de um pensamento organicista e espacial, Dugin já prepara o terreno para seu próprio salto normativo. A geografia deixa de ser apenas condicionante e passa a ser quase vocação. O espaço não limita apenas a política; ele a orienta. Daí decorre a centralidade de Mackinder. Quando Dugin retoma a noção de Heartland, ele não a trata apenas como hipótese analítica, mas como fundamento de uma missão histórica. A Rússia-Eurásia surge como “coração da terra”, pivô geográfico da história mundial, espaço axial destinado a resistir ao poder marítimo anglo-saxão (Dugin, 2015). 


Aqui está a primeira operação decisiva de Dugin: uma teoria geopolítica é convertida em doutrina civilizacional. O conflito entre terra e mar, telurocracia e talassocracia, deixa de ser mero modelo de análise internacional e passa a funcionar como drama histórico total. De um lado, o poder terrestre, continental, hierárquico, tradicional. De outro, o poder marítimo, comercial, liberal, expansionista. O mundo passa a ser lido por esse dualismo.


Esse ponto explica por que Dugin fascina tanto setores antiliberais de matizes muito diferentes. Seu discurso oferece uma narrativa totalizante. Em vez de um mundo complexo, com múltiplas causalidades, ele entrega um tabuleiro moralizado. Em vez de história aberta, oferece destino. Em vez de ambiguidade, oferece eixo. Isso tem força retórica, mas cobra um preço teórico alto: simplifica a pluralidade real dos processos históricos e recodifica conflitos concretos em uma metafísica geográfica.


2. Fundamentos da Geopolítica: o império como necessidade


O traço mais duro de Fundamentos da Geopolítica é a convicção de que a Rússia não deve ser compreendida como Estado-nação moderno ordinário, mas como núcleo imperial. Essa não é uma nuance secundária; é o coração do livro. A ideia de império aparece como necessidade histórica, estratégica e civilizacional. A sobrevivência russa, nessa moldura, depende da reconstrução de um grande espaço eurasiático sob liderança de Moscou.


É nesse contexto que surgem os famosos eixos geopolíticos. O mais importante deles é o eixo Moscou-Berlim. Dugin sustenta que Moscou deve trabalhar para retirar a Europa do controle dos Estados Unidos e da OTAN, promover sua unificação e fortalecer a integração com a Europa Central sob a bandeira da cooperação russo-alemã (Dugin, 2015). 


O problema aparece quando essa engenharia continental é aplicada aos povos intermediários. Dugin defende explicitamente a destruição do “cordão sanitário”, isto é, da faixa de Estados fronteiriços entre Rússia e Alemanha que, em sua leitura, historicamente serviu aos interesses atlanticistas. O texto fala em “novas fronteiras”, em divisão de regiões e na necessidade de criar entidades neutras e amigáveis, com “máximo de liberdade etnocultural”, mas submetidas a uma “dependência estratégica de Moscou” (Dugin, 2015). 


Aqui a crítica precisa ser frontal: esse é o ponto em que o vocabulário da liberdade cultural encontra seu limite real. O que se oferece aos povos periféricos não é soberania plena, mas autonomia subordinada. Não se trata de independência, mas de acomodação funcional dentro de um arranjo maior. O texto é ainda mais claro ao afirmar que é necessário dissipar as “ilusões” dos Estados intermediários sobre sua potencial independência e criar uma relação direta entre uma Rússia “amiga” e a Europa Central, sob o eixo Berlim-Moscou (Dugin, 2015). 


O mesmo raciocínio vale para a Europa Oriental. Dugin afirma que a Rússia deveria abrir mão do controle direto de parte do Leste Europeu, desde que esse espaço fosse estruturado sob autoridade de Berlim, em arranjo coordenado com Moscou. O ponto não é libertar esses territórios, mas reinscrevê-los numa geometria continental russo-alemã (Dugin, 2015). 


A consequência é inequívoca: Fundamentos da Geopolítica não é uma teoria da autodeterminação dos povos. É uma teoria da reorganização hierárquica do continente. Sua unidade básica não é o cidadão, nem o Estado soberano, mas o bloco estratégico. O que importa não é a vontade política dos pequenos Estados, mas seu posicionamento no tabuleiro do conflito entre Atlântida e Eurásia.


3. Da guerra do espaço à geografia sagrada


Uma das marcas mais singulares de Dugin é que sua geopolítica nunca permanece apenas geopolítica. Ela escala rapidamente em direção ao simbólico, ao escatológico e ao espiritual. Esse movimento já estava insinuado em Fundamentos, mas fica ainda mais claro quando o autor conecta território, tradição e sentido histórico.


Em Geopolítica do Mundo Multipolar, o prefácio brasileiro explicita esse deslocamento ao aproximar geopolítica de geografia sacra, escatologia e espiritualidade, sugerindo que as relações internacionais são também atravessadas por mitos nacionais, símbolos e antagonismos profundos (Dugin, 2012/2014). 


Esse ponto é fundamental para compreender a natureza do discurso duginiano. Não se trata apenas de defender uma alternativa russa ao atlantismo. Trata-se de sacralizar essa alternativa. A terra continental deixa de ser apenas base material de poder e passa a representar uma reserva espiritual contra a dissolução moderna. O Ocidente liberal, por sua vez, deixa de ser somente rival geopolítico e se converte em figura de decadência civilizacional.


Essa transfiguração é intelectualmente eficaz, porque amplia a potência mobilizadora do texto. Afinal, quem resiste apenas a uma potência estrangeira faz política; quem resiste a uma civilização decadente e a uma ordem do mundo corrompida passa a se perceber como sujeito de missão. Mas exatamente aí reside o risco. Quando a geopolítica se torna teologia política do espaço, o adversário deixa de ser apenas opositor e se converte em inimigo metafísico. O debate se fecha, e o conflito tende a ser absolutizado.


4. Geopolítica do Mundo Multipolar: a sofisticação do vocabulário


Se Fundamentos da Geopolítica é a versão mais nua do projeto duginiano, Geopolítica do Mundo Multipolar é sua versão mais sofisticada. O tom permanece antiliberal, antiatlântico e antiunipolar, mas o léxico se desloca. Em vez de enfatizar apenas império, eixo e contenção geoestratégica, Dugin passa a falar em pluralidade, civilização, multipolaridade, Grande Espaço e pluriversum.


O conceito de pluriversum é decisivo. No capítulo sobre as fundações ideológicas do multipolarismo, Dugin, apoiando-se em Alain de Benoist, contrapõe o universum — a redução ao único — ao pluriversum, entendido como preservação da diversidade, das nações, das etnias, das línguas, dos costumes e das religiões (Dugin, 2012/2014). 


À primeira vista, trata-se de uma crítica potente ao imperialismo cultural ocidental. E, de fato, há força nesse diagnóstico. Dugin ataca o universalismo liberal, a narrativa linear do progresso, a superioridade presumida do capitalismo e a pretensão de apresentar democracia liberal e mercado como destino inevitável da humanidade (Dugin, 2012/2014). 


Mas é exatamente aqui que aparece a grande contradição do seu sistema. O sujeito da pluralidade, em Dugin, não é o indivíduo e tampouco o pequeno povo isolado. O verdadeiro sujeito é o Grande Espaço. E o próprio livro diz isso com nitidez ao apresentar os BRICS como reunião de potências que encarnam grandes espaços regionais e ao defender sua institucionalização como protótipos da ordem multipolar (Dugin, 2012/2014). 


Em termos teóricos, o movimento é engenhoso. Dugin desloca a defesa da diferença do plano dos direitos universais para o plano das civilizações regionais. Com isso, consegue combinar um discurso de diversidade com uma política de escala continental. A diferença é reconhecida, mas sob centros de gravidade maiores. A multiplicidade é aceita, desde que organizada em polos.


O ganho estratégico é evidente. O eurasianismo deixa de parecer apenas um nacionalismo russo expandido e passa a se apresentar como doutrina global de resistência ao unilateralismo. A teoria torna-se exportável para atores muito diversos: nacionalistas, tradicionalistas, conservadores, antiamericanos de esquerda, Estados revisionistas e elites que rejeitam a hegemonia liberal, mas não pretendem abrir mão de projetos próprios de poder.


5. Multipolaridade ou pluralismo imperial?


É aqui que a crítica precisa ser mais contundente. A teoria da multipolaridade de Dugin parece propor um mundo de várias civilizações livres. No entanto, quando se examina sua estrutura, percebe-se que a liberdade efetiva é reservada aos polos, não às periferias. O Grande Espaço funciona como categoria de contenção: ele protege contra a homogeneização liberal, mas também absorve internamente soberanias menores.


Essa ambiguidade aparece na própria noção de institucionalização do multipolarismo. Dugin vê em estruturas como BRICS e OCX embriões do novo mundo multipolar, capaz de escapar às “intrigas unipolares” e estabelecer regras próprias (Dugin, 2012/2014). 


O argumento tem coerência interna. Mas a pergunta crítica permanece: quem decide dentro desses polos? Quem fala em nome da civilização? Quem define o interesse do grande espaço? Em que medida a linguagem da civilização não serve para apagar dissensos internos, conflitos sociais, pluralismos nacionais e assimetrias regionais? O risco é evidente: o pluralismo entre blocos pode conviver perfeitamente com autoritarismo dentro dos blocos.


Essa é a contradição central da obra. Dugin denuncia o imperialismo liberal em nome da pluralidade, mas reconstrói uma ordem internacional em que grandes centros civilizacionais passam a exercer autoridade sobre zonas intermediárias. O universalismo do mercado é recusado, mas a hierarquia do espaço é mantida. Troca-se o império do indivíduo abstrato pelo império do polo civilizacional.


Por isso, talvez a fórmula mais precisa para descrever o projeto duginiano seja esta: não se trata de um pluralismo democrático, mas de um pluralismo imperial.


6. A função política do texto: teoria, manifesto e mobilização


Há ainda um último aspecto a sublinhar. Dugin escreve como quem comenta o mundo, mas também como quem pretende reorganizá-lo. Seus livros não são apenas ensaios diagnósticos. São artefatos de mobilização. Isso fica particularmente claro em Geopolítica do Mundo Multipolar, cuja estrutura culmina no manifesto da “Aliança Revolucionária Global”, apresentado como resposta à hegemonia unipolar e ao “mal absoluto” associado aos Estados Unidos (Dugin, 2012/2014). 


Essa passagem final ilumina retrospectivamente toda a obra. A geopolítica, aqui, não é ciência neutra. É linguagem de combate. É doutrina de alinhamento. É convocação. A estratégia do texto consiste em oferecer uma gramática ampla o bastante para reunir atores muito diferentes sob um mesmo antagonismo: antiamericanismo, antiliberalismo, civilizacionismo, tradicionalismo e revisionismo geopolítico.


Em chave jornalística, dir-se-ia o seguinte: Dugin não escreve para descrever o tabuleiro; ele escreve para escolher lados, mover peças e legitimar uma guerra de narrativas e espaços. Sua força está justamente nessa capacidade de condensar ressentimentos geopolíticos, nostalgia imperial, crítica ao liberalismo e imaginação civilizacional em uma linguagem unificada.


Conclusão


A leitura conjugada de Fundamentos da Geopolítica e Geopolítica do Mundo Multipolar revela um percurso de sofisticação, não de ruptura. O Dugin mais recente não abandona o projeto do Dugin anterior; ele o recalibra. O império não desaparece, apenas passa a ser traduzido em termos mais palatáveis à sensibilidade contemporânea: pluralidade, civilização, multipolaridade, diversidade histórica, crítica ao universalismo.


Essa transformação explica a permanência e a difusão de sua influência. Fundamentos da Geopolítica mostra o esqueleto duro do pensamento duginiano: o Heartland, a oposição terra-mar, o eixo Moscou-Berlim, a destruição do cordão sanitário, a subordinação das soberanias intermediárias à lógica dos grandes blocos. Geopolítica do Mundo Multipolar reveste esse mesmo esqueleto com musculatura filosófica e léxico pós-Guerra Fria: pluriversum, grandes espaços, institucionalização multipolar, civilização como sujeito histórico.


O ponto crítico, porém, permanece. Dugin denuncia com razão a arrogância universalista do Ocidente liberal, mas responde a ela com uma alternativa que continua baseada em hierarquia, centralidade e absorção de periferias. Sua multipolaridade não dissolve a lógica imperial; apenas a redistribui. Sua defesa da diferença não conduz à autonomia política plena dos povos menores, mas à sua inscrição em ordens continentais mais vastas.


Em síntese, a obra de Dugin é intelectualmente provocadora, politicamente influente e teoricamente perigosa justamente porque combina uma crítica legítima ao unilateralismo com uma arquitetura de poder que, sob o nome de pluralidade, preserva a ambição de comando. O que ela oferece não é o fim do império, mas sua metamorfose. Não é o pluralismo emancipador, mas a legitimação de um mundo segmentado em polos de autoridade civilizacional. E é por isso que ler Dugin criticamente não é exercício periférico: é uma forma de compreender como, no século XXI, o império aprendeu a falar em nome da diferença.


Referências


DUGIN, Alexander. Fundamentos da geopolítica. [S. l.: s. n.], 1997. Arquivo em PDF disponibilizado na conversa. 


DUGIN, Alexander. Geopolítica do mundo multipolar. Tradução de Álvaro Körbes Hauschild, João Paulo Arrais e Sérgio Lopes. 1. ed. Curitiba: Editora Austral, 2012. Reimpr. Porto Alegre: Editora Austral, 2014. 


ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Normas publicadas. Disponível no portal institucional da ABNT. A associação informa que as normas listadas são documentos publicados e homologados pela entidade.