quinta-feira, 16 de abril de 2026

A gramática política da dureza

Como linguagem simplificada, mercantilização da informação, desconfiança institucional, polarização afetiva e naturalização da brutalidade estruturam campanhas neoliberais de extrema direita no Brasil de 2026 — e o que isso tem a ver com o modelo de Donald Trump nos Estados Unidos


Índice

  1. Lide
  2. Introdução
  3. O que é linguagem simplificada
  4. O que é mercantilização da informação
  5. O que é desconfiança institucional
  6. O que é polarização afetiva
  7. O que é naturalização da dureza
  8. Como esses elementos operam juntos numa campanha neoliberal de extrema direita
  9. O laboratório brasileiro: o que já foi feito em eleições anteriores e o que pode reaparecer em 2026
  10. A extensão norte-americana: o modelo Trump
  11. Conclusão
  12. Referências


Lide

Nem toda campanha eleitoral se organiza em torno de propostas, programas e diagnósticos consistentes. Há campanhas que se estruturam como máquinas de percepção: simplificam o mundo, transformam informação em mercadoria de choque, corroem a confiança nas instituições, convertem adversários em inimigos morais e naturalizam a brutalidade como sinal de autenticidade, força e liderança. Esse padrão se ajusta de modo particularmente eficiente ao neoliberalismo de extrema direita, porque combina duas operações ao mesmo tempo: de um lado, promete ordem, disciplina e punição; de outro, submete a vida pública à lógica do mercado, do desempenho, da concorrência e da atenção capturada por plataformas digitais. No Brasil, às vésperas da disputa presidencial de 2026, esse repertório não pertence apenas ao passado. O Tribunal Superior Eleitoral já reconhece a centralidade do problema ao destacar o combate à desinformação e ao regular o uso de inteligência artificial, inclusive com proibição de conteúdos sintéticos enganosos e exigência de aviso explícito quando houver uso de IA na propaganda. 


1. Introdução


Para entender o que pode ocorrer na campanha presidencial brasileira de 2026, não basta perguntar quem lidera pesquisas ou quais alianças partidárias estão em formação. É preciso compreender a engenharia simbólica das campanhas contemporâneas. Em especial, aquelas que operam com a lógica neoliberal de extrema direita. Elas não dependem apenas de um candidato carismático ou de uma pauta ideológica bem organizada. Dependem, sobretudo, de um ambiente social em que o eleitor seja induzido a reagir mais do que refletir, a desconfiar mais do que verificar, a odiar mais do que deliberar.


Esse ambiente não nasce do nada. Ele se forma quando cinco elementos passam a se reforçar mutuamente: linguagem simplificada, mercantilização da informação, desconfiança institucional, polarização afetiva e naturalização da dureza. Separados, cada um desses fenômenos já é perigoso. Juntos, formam uma gramática política muito eficiente para campanhas que desejam mobilizar medo, ressentimento e lealdade de grupo. A OCDE resume o problema de forma direta: a disseminação de informação falsa ou enganosa contribui para a polarização, prejudica a implementação de políticas e corrói a confiança em instituições e processos democráticos. 


No Brasil, os indicadores recentes mostram que esse terreno está longe de ser imaginário. A pesquisa Panorama Político 2024 do DataSenado registrou que 81% dos entrevistados que tiveram contato com fake news acreditam que esse tipo de conteúdo pode afetar muito o resultado das eleições, e 50% dos que acessaram notícias falsas disseram ter dificuldade para avaliar se uma notícia nas redes é verdadeira ou falsa. Isso significa que a disputa eleitoral de 2026 ocorrerá em um espaço público ainda bastante vulnerável à manipulação cognitiva e afetiva. 


2. O que é linguagem simplificada


Linguagem simplificada, neste contexto, não significa linguagem clara. Isso é importante. Clareza é uma virtude democrática. Simplificação grosseira é outra coisa. Ela consiste em reduzir fenômenos complexos a fórmulas emocionais curtas, binárias e de fácil repetição. Em vez de explicar segurança pública, fala-se em “bandido bom é bandido morto”. Em vez de discutir política econômica, fala-se em “menos Estado, mais liberdade”. Em vez de debater educação, fala-se em “doutrinação”. Em vez de compreender desigualdade, fala-se em “vitimismo”.


Essa linguagem funciona porque substitui interpretação por atalho. Ela não convida o eleitor a pensar; convida a aderir. Seu poder está em parecer espontânea, popular e direta. Mas, no fundo, ela é uma tecnologia de enquadramento. Recorta o mundo em pares rígidos — povo versus elite, cidadãos de bem versus criminosos, patriotas versus traidores, verdadeiros brasileiros versus inimigos internos — e empurra a política para um campo moral de combate. A simplicidade, aqui, não esclarece: ela estreita.


Esse padrão é especialmente útil ao neoliberalismo de extrema direita porque converte problemas estruturais em narrativas emocionalmente manejáveis. A precarização vira problema de mérito individual. A fome vira falha pessoal. O desemprego vira falta de esforço. A crise institucional vira culpa de “corruptos”, “globalistas”, “comunistas” ou “sistema”. O custo político dessa operação é enorme: desaparecem mediações, desaparecem contextos, desaparece a própria ideia de que a realidade social é complexa.


É nesse ponto que a simplificação se encontra com a campanha eleitoral. Ela facilita slogans, vídeos curtos, cortes virais, frases de efeito e conteúdos desenhados para circulação rápida em redes. O TSE, ao regular a propaganda de 2026, reconhece implicitamente esse ambiente ao tratar da circulação de conteúdos fabricados, manipulados ou descontextualizados e ao proibir desinformação capaz de atingir a integridade do processo eleitoral ou de favorecer ou prejudicar candidaturas. 


3. O que é mercantilização da informação


Mercantilização da informação é o processo pelo qual a notícia, o comentário político, a opinião e até a indignação passam a circular menos como bens públicos e mais como produtos desenhados para captar atenção, engajamento e receita. A informação deixa de valer prioritariamente por sua qualidade, sua verificabilidade ou sua utilidade cívica. Ela passa a valer por sua capacidade de prender o olhar, gerar clique, viralizar, emocionar, escandalizar ou fidelizar uma audiência.


Os dados recentes do Painel TIC 2025 sobre integridade da informação ajudam muito a visualizar esse ponto. O estudo mostrou um alto grau de digitalização do acesso à informação entre brasileiros e indicou que, entre os usuários de internet com 16 anos ou mais, redes sociais, aplicativos de mensagem e meios tradicionais aparecem como vias centrais de acesso diário à informação. O relatório também mostrou que 64% concordam que influenciadores às vezes são polêmicos porque isso lhes traz mais visibilidade ou engajamento, e 61% concordam que redes sociais “gratuitas” ganham dinheiro com publicidade. Ou seja: a própria população percebe que o ambiente informacional é atravessado por incentivos econômicos que premiam choque e circulação. 


Quando a informação vira mercadoria, a política também muda de forma. O candidato que produz conflito vende mais. O influenciador que agride engaja mais. O conteúdo que assusta ou indigna circula mais rápido do que o conteúdo que contextualiza. Nesse sistema, a mentira não precisa ser sofisticada; basta ser funcional. A plataforma não recompensa necessariamente o mais verdadeiro, mas o mais clicável. Por isso campanhas de extrema direita encontram um terreno tão fértil nas arquiteturas digitais: elas falam a língua do impacto, da urgência e da mobilização afetiva permanente.


O problema é que a mercantilização da informação enfraquece o ideal democrático de um debate público baseado em pluralidade, verificação e responsabilidade. A OCDE afirma que o acesso a fontes diversas, independentes e plurais é condição para o debate democrático informado, mas observa que, no ambiente digital atual, a desinformação ameaça justamente esses elementos fundacionais. 


4. O que é desconfiança institucional


Desconfiança institucional é a percepção de que tribunais, parlamentos, governos, imprensa, universidades, partidos, órgãos eleitorais e demais instituições públicas já não atuam segundo regras legítimas ou em favor do interesse coletivo. Em algum grau, toda democracia convive com crítica institucional. Isso é saudável. O problema começa quando a crítica deixa de cobrar aperfeiçoamento e passa a operar como destruição generalizada da legitimidade institucional.


É aí que campanhas autoritárias prosperam. Porque uma população treinada a desconfiar de tudo se torna muito mais suscetível à figura do líder que se apresenta como único intérprete autêntico da vontade popular. Não importa se ele ataca o Judiciário, questiona o sistema eleitoral, hostiliza a imprensa ou sabota agências técnicas. Se o “sistema” inteiro é retratado como fraude, qualquer ruptura pode parecer purificação.


No caso brasileiro, a OCDE registrou que os desafios do país foram agravados por corrupção, polarização política e disseminação de mis- e disinformation, lembrando inclusive os ataques de janeiro de 2023 em Brasília. O relatório também apontou que cerca de sete em cada dez brasileiros consideravam que as instituições públicas não estavam funcionando no interesse público. Isso é gravíssimo. Porque uma democracia em que a maioria desconfia das instituições já entra enfraquecida em qualquer campanha eleitoral. 


A desconfiança institucional, porém, não atua sozinha. Ela costuma ser alimentada por campanhas que misturam denúncia seletiva, escândalo permanente, teoria conspiratória, desinformação e apelo moral. O objetivo não é aprimorar instituições, mas esvaziá-las para que o poder pessoal ou faccional ocupe seu lugar. Esse mecanismo foi central em campanhas passadas no Brasil e pode voltar em 2026, agora potencializado por IA, vídeos sintéticos e ecossistemas de mensageria muito mais sofisticados — razão pela qual o TSE endureceu a regulação sobre conteúdos manipulados e deepfakes. 


5. O que é polarização afetiva


Polarização afetiva não é apenas discordância ideológica. É algo mais intenso e mais tóxico: a transformação do adversário político em objeto de antipatia, desconfiança moral e hostilidade emocional. A literatura recente define esse fenômeno como o mútuo desgosto e a desconfiança entre campos políticos opostos. Em vez de “discordo de você”, o sentimento passa a ser “eu rejeito você”, “eu temo você”, “você é uma ameaça”. 


Esse tipo de polarização é explosivo porque muda o critério de julgamento político. O eleitor já não avalia apenas propostas, desempenho ou coerência. Ele passa a decidir também pela intensidade de sua aversão ao outro campo. E quando isso acontece, violações democráticas cometidas “pelo meu lado” tendem a ser relativizadas, desde que sirvam para impedir a vitória do inimigo. A própria literatura recente mostra que a polarização afetiva pode reduzir accountability e abrir espaço para complacência com violações de normas democráticas. 


Em campanhas de extrema direita, a polarização afetiva é um ativo estratégico. Ela facilita a construção de um eleitorado menos racional no sentido deliberativo e mais identitário no sentido tribal. O adversário deixa de ser um concorrente legítimo e vira risco existencial. A consequência é conhecida: menos disposição para compromisso, mais tolerância à agressividade, mais receptividade a discursos de exceção.


No Brasil, os dados do DataSenado mostram que até a responsabilização de plataformas pela contenção de fake news se tornou tema polarizado por posicionamento político. Isso é revelador. Mesmo uma pauta ligada à integridade informacional já entra no campo do conflito identitário. 


6. O que é naturalização da dureza


Naturalização da dureza é o processo pelo qual brutalidade verbal, indiferença à dor alheia, culto ao castigo, exaltação da força e desprezo pela mediação civil passam a ser percebidos como virtudes políticas. O líder “duro” seria o líder “verdadeiro”. O governante que humilha, ameaça ou simplifica passaria a parecer forte. A delicadeza democrática — diálogo, ponderação, limite institucional, respeito a direitos — passa a ser acusada de fraqueza.


Esse é um ponto central do neoliberalismo de extrema direita. Embora o neoliberalismo pregue liberdade econômica e empreendedorismo, ele costuma conviver muito bem com punitivismo social, policiamento moral e endurecimento penal. A liberdade vale para o mercado; a dureza vale para os indesejáveis. Daí a combinação frequente entre discurso anti-Estado em matéria social e desejo de Estado fortíssimo na repressão, na segurança e no controle simbólico dos inimigos.


A naturalização da dureza é eficaz em campanha porque ela produz uma estética de autoridade. Frases violentas, gestos agressivos, desdém por protocolos e promessas de confronto passam a ser lidas como coragem. O eleitor frustrado, cansado ou ressentido pode interpretar a brutalidade não como ameaça, mas como sinal de decisão. Em contextos de crise, isso tem grande poder mobilizador.


A Reuters mostrou como, na campanha presidencial de 2024 nos Estados Unidos, Donald Trump combinou linguagem inflamada, imagens violentas e retratos apocalípticos do país. A agência registrou que ele fez declarações inflamatórias e racistas, usou imagem violenta contra imigrantes e adversários e levantou preocupações sobre eventual uso do poder estatal contra inimigos percebidos. Mais adiante, a mesma Reuters destacou que ele passou a falar do “enemy from within”, combinando descrições gráficas de crimes com histórias falsas ou desmentidas sobre imigrantes e cidades tomadas por gangues. 


7. Como esses elementos operam juntos numa campanha neoliberal de extrema direita


Agora vem a parte decisiva: esses cinco elementos não atuam isoladamente. Eles formam uma sequência muito funcional.


Primeiro, a linguagem simplificada reduz a complexidade do mundo a narrativas fáceis de absorver.

Depois, a mercantilização da informação garante que essas narrativas mais agressivas circulem melhor.

Em seguida, a desconfiança institucional prepara o terreno para que checagens, contrapontos e mediações sejam descartados como parte do “sistema”.

A polarização afetiva converte o outro em inimigo moral.

Por fim, a naturalização da dureza autoriza simbolicamente a brutalidade como resposta legítima.


O resultado é uma campanha que não precisa vencer o debate programático. Basta vencer a percepção. Basta fazer o eleitor sentir que está cercado, traído, enganado ou ameaçado, e que só um líder duro, antissistêmico e simplificador pode “salvar” a nação. É uma política que funciona menos como persuasão racional e mais como engenharia emocional.


Essa fórmula é especialmente compatível com o neoliberalismo porque desloca o centro da política: sai o debate sobre desigualdade, trabalho, tributação progressiva, reindustrialização, proteção social e direitos; entra a guerra cultural, a segurança punitiva, o moralismo, o ressentimento e a personalização do poder. A sociedade deixa de perguntar “como redistribuir poder e riqueza?” e passa a perguntar “quem é o inimigo?”. E essa mudança é profundamente funcional ao status quo econômico.


8. O laboratório brasileiro: o que já foi feito em eleições anteriores e o que pode reaparecer em 2026


O Brasil já experimentou partes desse modelo em eleições anteriores. Não é preciso imaginar um futuro distópico para enxergar o risco. O ecossistema de campanhas digitais brasileiras já combinou disparos em massa, boatos, pânico moral, ataque a instituições, uso intensivo de mensageria, antagonismo moral e exploração de identidades religiosas e patrióticas. Em 2026, a diferença é que a infraestrutura tecnológica está mais sofisticada e a disputa pela atenção está ainda mais dependente de vídeos curtos, influenciadores, conteúdos sintéticos e segmentação de audiência.


O próprio TSE vem atuando em resposta a esse cenário desde 2018 e, para 2026, reforçou regras sobre propaganda com IA. A Corte estabeleceu obrigação de informar de forma explícita o uso de conteúdo sintético multimídia, proibiu desinformação que atinja a integridade do processo eleitoral, vedou deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas e ainda proibiu a publicação, republicação e impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos gerados por IA nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 horas seguintes. O descumprimento pode gerar remoção do conteúdo, multa e, em hipóteses graves, configuração de abuso do poder político e uso indevido dos meios de comunicação, com risco de cassação. 


Essas regras existem porque o risco é real. Numa campanha presidencial, não é difícil imaginar o uso coordenado de cinco estratégias: saturação de conteúdos simples e emocionais; disseminação de peças de desinformação ou descontextualização; ataque sistemático a Judiciário, imprensa e sistema eleitoral; mobilização de bases por identidade e ressentimento; e culto performático à “força” contra crime, corrupção, inimigos internos ou supostos conspiradores. Não é possível afirmar de antemão que toda candidatura de direita fará isso. Mas é perfeitamente plausível afirmar que esse repertório já se mostrou eleitoralmente eficaz e, por isso, continua disponível.


9. A extensão norte-americana: o modelo Trump


O caso Trump é importante porque oferece um modelo internacional muito influente dessa gramática política. Na campanha de 2024 nos EUA, Reuters e AP documentaram um padrão retórico baseado em dramatização da crise nacional, uso de linguagem hostil contra imigrantes e adversários, promessa de retribuição e insistência na ideia de um inimigo interno. A AP registrou que Trump se referiu a opositores como “enemy from within”. A Reuters observou que sua campanha passou a girar em torno de um país supostamente devastado pelos democratas, com falsas histórias sobre imigrantes e forte teor apocalíptico. 


Esse modelo tem quatro características centrais.


A primeira é a construção de uma crise total. O país é descrito como arruinado, capturado, invadido ou prestes a colapsar.

A segunda é a personalização salvacionista. O candidato se coloca como único agente capaz de restaurar ordem.

A terceira é a moralização do conflito. Adversários deixam de ser apenas errados; tornam-se corruptos, doentes, traidores ou inimigos internos.

A quarta é a erosão deliberada da confiança institucional. Imprensa, burocracia, Justiça e eleições são enquadradas como instâncias suspeitas.


Nos Estados Unidos, esse repertório encontrou um ambiente de confiança institucional muito baixa. O Pew mostrou que, em 2025, apenas 17% dos americanos diziam confiar no governo federal “sempre” ou “na maior parte do tempo”, patamar próximo de mínima histórica, e observou que a confiança vem se mantendo baixa há décadas. Outro levantamento associado destacou que cerca de 70% tinham visão desfavorável do Congresso e que 85% achavam que os eleitos não se importam com o que pessoas como elas pensam. 


A semelhança com o Brasil não está em copiar cada frase ou cada contexto, mas em reproduzir a lógica. A campanha neoliberal de extrema direita precisa exatamente disso: baixa confiança institucional, alta circulação de conteúdos emocionais, forte antipatia entre campos políticos e disponibilidade social para aceitar brutalidade como autenticidade.


10. Conclusão


A linguagem simplificada, a mercantilização da informação, a desconfiança institucional, a polarização afetiva e a naturalização da dureza não são fenômenos dispersos. Eles compõem uma arquitetura política coerente. São as engrenagens culturais, econômicas e emocionais de campanhas que trocam cidadania por torcida, debate por impulso, verdade por circulação e política por guerra moral.


Dentro do neoliberalismo de extrema direita, essa arquitetura é particularmente funcional. Ela desloca a atenção das contradições materiais do capitalismo contemporâneo — desigualdade, precarização, captura econômica do Estado, vulnerabilidade social — e a redireciona para o espetáculo dos inimigos, da punição e da identidade ferida. Ao mesmo tempo, explora as plataformas digitais como mercados de atenção, nos quais o conteúdo mais simples, mais agressivo e mais emocional tende a performar melhor.


O Brasil de 2026 entrará na disputa presidencial com sinais evidentes de vulnerabilidade: alta preocupação social com fake news, dificuldade relevante de distinguir conteúdos verdadeiros e falsos, ecossistema informacional fortemente digitalizado e instituições ainda expostas à corrosão da confiança. Por isso a pergunta central não é apenas quem vencerá a eleição. A pergunta mais profunda é outra: que tipo de linguagem, que tipo de imaginação política e que tipo de vínculo democrático estarão em disputa no país. 


Referências


AP NEWS. Who does Trump see as “enemies from within”? 2024. 


COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL; CETIC.br. Painel TIC 2025: pesquisa online com usuários de internet no Brasil – integridade da informação. 2026. 


DATA SENADO. Panorama Político 2024 – Notícias falsas e democracia. 2024. 


OCDE. Drivers of trust in public institutions in Brazil. 2023. 


OCDE. Facts not fakes: tackling disinformation, strengthening information integrity. 2024. 


OCDE. Mis- and disinformation. 2025. 


PEW RESEARCH CENTER. Public trust in government: 1958-2025. 2025. 


PEW CHARITABLE TRUSTS. Americans’ deepening mistrust of institutions. 2024. 


REILJAN, Mar. Affective polarization in multiparty systems. 2021. 


REUTERS. Trump’s “bloodbath” and other rhetoric inflame his 2024 campaign trail. 2024. 


REUTERS. Will Trump’s unbridled rhetoric cost him the US election? 2024. 


TSE. Resolução nº 23.760, de 2 de março de 2026. 2026. 


TSE. Por Dentro das Eleições: conheça as regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026. 2026. 


TSE. TSE proíbe uso de inteligência artificial para criar e propagar conteúdos falsos nas eleições. 2024. 

O risco de retrocesso subjetivo no Brasil de 2026

A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, o avanço nas pesquisas e a permanência da racionalidade neoliberal como ameaça à democracia


Índice

  1. Lide
  2. Introdução
  3. O que está em jogo em 2026
  4. A herança do bolsonarismo e a tentativa de reposicionamento de Flávio Bolsonaro
  5. Por que o risco de retrocesso não é apenas eleitoral, mas subjetivo
  6. Neoliberalismo, simplificação e autoritarismo: a engrenagem continua ativa
  7. Pesquisas, viabilidade e alerta democrático
  8. Conclusão
  9. Referências


Lide

A ascensão de Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência em 2026, somada ao desempenho competitivo nas pesquisas recentes, recoloca no centro do debate uma questão que vai muito além da disputa eleitoral: o Brasil corre o risco de aprofundar o empobrecimento subjetivo e a racionalidade neoliberal já analisados como bases de erosão democrática. O problema não está apenas em um nome de família ou em uma marca política. Está na sobrevivência de um ambiente social em que a linguagem é simplificada, a política é tratada como guerra moral, a informação circula como mercadoria e a democracia perde densidade crítica. Nesse cenário, uma candidatura competitiva vinculada ao legado bolsonarista não deve ser lida apenas como fato eleitoral, mas como sintoma de que as estruturas culturais, comunicacionais e afetivas que favoreceram o autoritarismo continuam vivas.  


1. Introdução


Há momentos em que uma eleição deixa de ser apenas uma escolha entre projetos administrativos e passa a funcionar como teste histórico sobre a capacidade de uma sociedade de aprender com seus próprios traumas. O Brasil parece estar entrando novamente nessa zona de risco. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro não é um episódio isolado nem um movimento banal de sucessão partidária. Ela se inscreve num contexto em que o bolsonarismo busca sobreviver por meio de uma reembalagem discursiva: menos explosão verbal, mais cálculo; menos choque permanente, mais aparência de moderação; menos figura do pai, mais tentativa de herança reorganizada. 


O dado mais politicamente relevante é que essa tentativa não pode ser descartada como fantasia de bastidor. Pesquisas recentes apontam Flávio Bolsonaro em posição competitiva. Na rodada Genial/Quaest divulgada em 15 de abril de 2026, ele apareceu com 42% contra 40% de Lula em um eventual segundo turno, em cenário de empate técnico dentro da margem de erro. No levantamento Futura/Apex divulgado um dia antes, apareceu com 48% contra 42,6% de Lula. Já a CNT/MDA, também divulgada em abril, mostrou Lula à frente, com 44,9% contra 40,2% de Flávio. O ponto central, portanto, não é afirmar uma vitória inevitável, o que seria analiticamente precipitado, mas reconhecer que existe viabilidade competitiva real. 


É exatamente aí que o debate sobre empobrecimento subjetivo e racionalidade neoliberal ganha nova atualidade. Quando uma candidatura ligada a um campo político associado à radicalização, à hostilidade contra mediações democráticas e à exploração sistemática da simplificação moral reaparece com força, o problema não é só partidário. O problema é civilizatório.


2. O que está em jogo em 2026


O cenário de 2026 não repete mecanicamente 2018, mas guarda continuidades importantes. Flávio Bolsonaro é senador pelo Rio de Janeiro e preside, desde fevereiro de 2025, a Comissão de Segurança Pública do Senado, espaço a partir do qual afirmou priorizar pautas de endurecimento penal. Em março de 2026, declarou à CNN que seria candidato mesmo se Jair Bolsonaro revertesse sua inelegibilidade, e em abril apareceu publicamente já como pré-candidato, defendendo redução de carga tributária e reforma do Judiciário. Esses movimentos indicam que sua presença na disputa não é apenas especulação externa; ela vem sendo construída como estratégia política efetiva. 


A questão decisiva, porém, não é apenas institucionalizar uma candidatura. É compreender o que ela representa. Flávio não surge no vazio. Surge como tentativa de continuidade de um campo político que procura manter coeso o eleitorado bolsonarista, ao mesmo tempo em que busca reduzir rejeições por meio de uma imagem supostamente mais moderada. A própria cobertura política recente registra esse esforço de “suavização” e a tentativa de apresentar o senador como figura menos radical que o pai, embora parcela relevante da opinião pública não compre essa distinção. Pesquisa Quaest divulgada em abril mostrou que 45% dos entrevistados não o consideram mais moderado que sua família, contra 39% que pensam o contrário. 


Esse dado importa muito. Ele mostra que a operação em curso não é simples troca de nomes, mas disputa pela memória política do país. A pergunta de fundo é quase brutal em sua simplicidade: o Brasil está disposto a normalizar de novo, agora sob outra embalagem, a mesma matriz que degradou o debate público, ampliou a violência verbal e tentou converter a democracia em guerra permanente?


3. A herança do bolsonarismo e a tentativa de reposicionamento de Flávio Bolsonaro


A força analítica do conceito de empobrecimento subjetivo, desenvolvido por Rubens Casara, está em mostrar que o bolsonarismo não foi mero desvio de percurso ou simples acidente personalista. Ele encontrou solo fértil numa sociedade já marcada pela simplificação da linguagem, pela hostilidade à complexidade, pela recusa da alteridade e pela disposição crescente a consumir slogans no lugar de pensamento. O autor sustenta que discursos de ódio, adesão a fake news, desprezo pela nuance e desconsideração de valores democráticos decorrem desse empobrecimento, articulado à racionalidade neoliberal, que trata pessoas e relações como mercadorias e concorrentes.


Sob essa chave, o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas não deve ser lido apenas como reposicionamento eleitoral de um sobrenome conhecido. Deve ser lido como evidência de que a base subjetiva do bolsonarismo não desapareceu. Ela apenas busca nova forma de expressão. A marca da família segue operando como polo de identificação para setores que continuam desejando ordem punitiva, linguagem simples, antagonismo moral e soluções de força. Ao mesmo tempo, a tentativa de reconfigurar Flávio como versão mais palatável da mesma tradição permite a setores conservadores experimentar continuidade sem o custo simbólico integral da figura paterna. 


O risco político, aqui, é evidente. Quando um projeto autoritário aprende a modular a própria aparência, ele pode se tornar ainda mais perigoso. A brutalidade explícita assusta; a brutalidade administrada negocia, avança por camadas e se normaliza com mais facilidade. Não raro, a história mostra que os maiores retrocessos não chegam sempre gritando. Às vezes, chegam sorrindo, falando em responsabilidade, eficiência e moderação.


4. Por que o risco de retrocesso não é apenas eleitoral, mas subjetivo


É importante marcar com precisão: o retrocesso em discussão não se resume à hipótese de derrota eleitoral de um campo democrático. O retrocesso mais profundo é o da estrutura mental do debate público. É a volta de uma sociedade treinada para reagir, não para pensar; para punir, não para compreender; para consumir indignação, não para disputar projetos coletivos.


Os dados atuais sobre informação e esfera pública ajudam a entender esse perigo. A pesquisa do DataSenado divulgada em 2024 mostrou que 72% dos brasileiros disseram ter visto notícias falsas ou suspeitas de falsidade nos seis meses anteriores, 81% acreditavam que fake news influenciam muito as eleições e cerca de metade admitia dificuldade para diferenciar conteúdos falsos e verdadeiros. Isso significa que o espaço público brasileiro continua amplamente vulnerável à manipulação informacional. 


Ao mesmo tempo, o CGI.br divulgou em 2026 resultados do Painel TIC 2025 indicando que as plataformas digitais já são o principal meio de acesso à informação entre brasileiros, superando rádio e TV, e que a população reconhece fortemente a lógica de visibilidade, polêmica e publicidade que organiza esses ambientes. Quando a informação passa a circular sobretudo em ecossistemas guiados por atenção e engajamento, a simplificação deixa de ser defeito secundário e vira vantagem competitiva. 


É aqui que o artigo anterior encontra o presente com enorme precisão. A racionalidade neoliberal precisa de um sujeito que funcione rápido, julgue depressa, compare tudo em termos de utilidade, veja adversários como inimigos e tolere a transformação de toda experiência em mercadoria. Esse sujeito é o terreno ideal para projetos políticos que prometem eficiência sem democracia densa, autoridade sem reflexão e ordem sem justiça.


5. Neoliberalismo, simplificação e autoritarismo: a engrenagem continua ativa


Uma leitura superficial poderia imaginar que a ameaça de retrocesso se resume ao retorno de costumes autoritários ou ao endurecimento discursivo na segurança pública. Isso é pouco. O problema é mais amplo e mais estrutural. Como Casara argumenta, a racionalidade neoliberal esvazia a linguagem, reduz o espaço da empatia e substitui o sujeito crítico pelo consumidor acrítico. Nesse ambiente, a democracia formal pode até permanecer, mas sua substância se deteriora.


Essa percepção encontra respaldo em pesquisas internacionais recentes. O relatório da OCDE sobre integridade da informação afirma que desinformação e misinformation ameaçam a confiança em governos, instituições e eleições, além de prejudicar a participação democrática informada. O estudo do IDOS sobre o Brasil, publicado em 2025, sustenta que a poluição informacional alimentou polarização afetiva, desconfiança, hostilidade e violência, enfraquecendo respeito a contra-argumentos, accountability e apoio à democracia. O V-Dem, por sua vez, insiste em 2025 na relação entre desinformação, polarização e autocratização. 


Traduzindo isso para a conjuntura de 2026: uma candidatura competitiva de Flávio Bolsonaro não representa apenas a volta de um nome conservador ao centro da disputa. Ela representa a possibilidade de nova ativação de uma engrenagem em que neoliberalismo, simplificação discursiva, guerra cultural, desconfiança institucional e punitivismo se alimentam mutuamente. Mesmo quando a retórica se apresenta mais “polida”, o núcleo pode permanecer o mesmo: esvaziar mediações, enfraquecer o dissenso crítico e tratar a democracia como obstáculo quando ela contraria o projeto de poder.


6. Pesquisas, viabilidade e alerta democrático


Não seria intelectualmente sério afirmar, neste momento, que Flávio Bolsonaro será eleito. As próprias pesquisas apontam cenários distintos e, em vários casos, dentro da margem de erro. A Quaest mostra empate técnico com leve vantagem numérica para Flávio em um cenário de segundo turno; a Futura/Apex mostra vantagem maior; a CNT/MDA mostra vantagem de Lula. Em março, a própria Quaest já indicava empates em vários cenários de primeiro e segundo turnos. Portanto, há competitividade, mas não determinismo. 


Mas justamente por não haver determinismo é que o alerta precisa ser feito agora. Eleições são disputas de narrativa, economia, alianças, rejeições e expectativas. Uma candidatura competitiva do campo bolsonarista mostra que a sociedade brasileira ainda não elaborou plenamente os efeitos políticos, institucionais e culturais do período recente. Mais do que isso: mostra que parcelas relevantes do eleitorado seguem dispostas a apostar num repertório que já produziu degradação democrática.


Esse ponto precisa ser dito com toda clareza. O risco não está apenas em Flávio como indivíduo, mas no que sua viabilidade expressa sociologicamente: a permanência de um público receptivo à simplificação punitiva, à estetização da política como confronto moral e à continuidade de uma racionalidade que mede tudo por força, desempenho, utilidade e lealdade de grupo. Em termos do debate iniciado por Casara, isso significa que o empobrecimento subjetivo não foi superado; ele continua estruturando o horizonte do possível.


7. Conclusão


A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro e seu desempenho competitivo nas pesquisas de 2026 devem ser lidos como muito mais que um episódio eleitoral. Eles funcionam como termômetro de uma permanência histórica incômoda: o Brasil ainda convive com as condições subjetivas que permitiram a ascensão do bolsonarismo. A linguagem simplificada, a mercantilização da informação, a desconfiança institucional, a polarização afetiva e a naturalização da dureza continuam presentes no tecido social.  


É por isso que o risco de retrocesso precisa ser pensado com profundidade. Não se trata apenas de impedir a vitória de um nome. Trata-se de enfrentar uma forma de subjetivação que empobrece a democracia por dentro. Uma sociedade que perde a capacidade de interpretar a complexidade também perde a capacidade de proteger a liberdade. Uma sociedade que troca debate por slogan, política por guerra moral e cidadania por torcida abre caminho para que projetos autoritários retornem sempre, às vezes com a mesma face, às vezes com rosto aparentemente mais moderado.


A lição central é dura, mas necessária: o retrocesso democrático não começa no dia da posse. Ele começa antes, quando a sociedade volta a achar normal o que deveria ser inaceitável.


Referências


CASARA, Rubens R. R. Bolsonaro: o mito e o sintoma. São Paulo: Contracorrente, 2020. 


CNN BRASIL. Flávio diz que será candidato mesmo se Bolsonaro reverter inelegibilidade. São Paulo, 24 mar. 2026. 


CNN BRASIL. Flávio defende redução da carga tributária do país e reforma no Judiciário. São Paulo, 10 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Quaest: Flávio vai a 42% no 2º turno; Lula tem 40%. São Paulo, 15 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Futura/Apex: Flávio venceria Lula no 2º turno por 48% a 42,6%. São Paulo, 14 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Pesquisa CNT/MDA: Lula tem 44,9%, e Flávio, 40,2% no 2º turno. São Paulo, 14 abr. 2026. 


CNN BRASIL. Quaest: 45% não acham que Flávio é mais moderado que a família; 39% acham que sim. São Paulo, 15 abr. 2026. 


COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. Plataformas da internet são o principal meio de acesso à informação entre brasileiros e superam rádio e TV, aponta nova pesquisa. São Paulo, 2026. 


PODER360. Flávio tem 42% no 2º turno contra 40% de Lula, diz Quaest. Brasília, 15 abr. 2026. 


SENADO FEDERAL. Senador Flávio Bolsonaro – perfil parlamentar. Brasília, [s.d.]. 


SENADO FEDERAL. Flávio Bolsonaro é eleito presidente da CSP. Brasília, 19 fev. 2025.