sábado, 25 de abril de 2026

Artigo 2: O Estado e o Mercado como uma Só Engrenagem: A Geopolítica das Plataformas



Introdução


No senso comum e nos manuais de economia ortodoxa, o Estado e o Mercado são frequentemente apresentados como forças opostas: o primeiro seria o reino da regulação e do peso burocrático; o segundo, o espaço da liberdade, da eficiência e da inovação. No entanto, ao mergulharmos na "Teoria do Poder Global" de José Luís Fiori, essa dicotomia se desfaz. Para o autor, não existe mercado global sem uma força política que o sustente, nem poder estatal que se sustente sem uma base econômica expansiva. No século XXI, essa simbiose encontra sua expressão máxima nas gigantescas plataformas digitais, que operam como extensões diretas do poder nacional de suas metrópoles.


A Simbiose Originária


A tese central de Fiori (2007) é que o sistema interestatal e o capitalismo não são dois sistemas separados que se encontraram por acaso, mas dois lados da mesma moeda que nasceram e cresceram juntos. O capital precisa do Estado para garantir a propriedade, a moeda e a infraestrutura de expansão; o Estado precisa do capital para financiar sua máquina de guerra e sua projeção diplomática.

Essa "dança" não é harmoniosa, mas é indissociável. Como aponta Fiori, o sucesso das grandes potências nunca foi fruto do "laissez-faire" puro, mas de uma coordenação estratégica onde o Estado prepara o terreno para que suas empresas conquistem o mundo. Se voltarmos aos séculos passados, veremos as Companhias das Índias; se olharmos para hoje, veremos o Pentágono e o Vale do Silício, ou o Partido Comunista Chinês e a Huawei.


Não Existe "Nuvem" sem Território


Um dos maiores mitos da era digital é a desterritorialização. A ideia de que os dados flutuam em uma "nuvem" abstrata e apolítica serve para mascarar quem detém o controle físico da infraestrutura. Fiori nos ensina que o poder global se manifesta na capacidade de controlar os fluxos.

As plataformas digitais que moldam nossa esfera pública — de redes sociais a sistemas de pagamento — possuem nacionalidade, sede e submetem-se à jurisdição e aos interesses estratégicos de seus Estados de origem. Quando os Estados Unidos impõem sanções tecnológicas ou a China bloqueia plataformas estrangeiras para fortalecer as suas, eles estão aplicando exatamente a lógica da simbiose descrita por Fiori: o uso do mercado como ferramenta de cerco e do Estado como escudo de proteção industrial.


A Soberania em Xeque: O Desafio da Periferia


Para países como o Brasil, a ilusão da separação entre Estado e Mercado é perigosa. Ao tratar a digitalização apenas como uma questão de "consumo" ou "eficiência privada", o país ignora que está integrando sua infraestrutura crítica a sistemas desenhados para acumular poder em outros centros.

A análise crítica de Fiori sugere que, sem uma estratégia de Estado que fomente e proteja seus próprios "campeões nacionais" ou infraestruturas soberanas, um país torna-se um território ocupado digitalmente. A economia de dados, sob essa ótica, não é uma oportunidade de livre mercado, mas um novo sistema de tributação global, onde a riqueza gerada localmente é drenada para os Estados que controlam os algoritmos e os servidores.


Conclusão


O Mercado, no sistema global, é o braço econômico da expansão estatal. Aceitar essa simbiose é o primeiro passo para uma política externa e tecnológica realista. Se o Estado e o Mercado operam como uma engrenagem única, o Brasil precisa decidir se terá sua própria engrenagem ou se continuará sendo apenas o lubrificante que permite o funcionamento das máquinas de poder alheias. No próximo artigo, discutiremos como essa lógica se traduz no "Dilema do Desenvolvimento" e por que o sistema internacional é desenhado para impedir que novos competidores subam ao topo.


Referências Bibliográficas


FIORI, José Luís. Uma teoria do poder global. Rio de Janeiro: Record, 2007.

FIORI, José Luís. O Sistema Interestatal e a acumulação de poder. In: FIORI, J. L. (Org.). Estados e moedas no desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes, 1999.


Artigo 1: A Tecnologia como Ponta de Lança: O Poder Global na Era da Inovação Permanente


Introdução


Vivemos sob a ilusão de que a inovação tecnológica é um processo linear de progresso humano, movido por mentes brilhantes em garagens californianas ou laboratórios assépticos. No entanto, se aplicarmos as lentes de José Luís Fiori, percebemos que o que chamamos de "revolução digital" é, na verdade, a face contemporânea da acumulação de poder. No sistema internacional, a tecnologia nunca foi neutra: ela é a ponta de lança da expansão de Estados que buscam, incessantemente, o topo da hierarquia global. Para compreender por que a disputa por semicondutores ou inteligência artificial hoje se assemelha a uma mobilização de guerra, é preciso retornar à premissa fundamental de Fiori: o poder não é um estoque estático, mas um fluxo que exige expansão contínua.


A Tecnologia como Motor da Acumulação de Poder


Na obra Uma Teoria do Poder Global, Fiori (2007) argumenta que o sistema interestatal capitalista nasceu e se sustenta sob a lógica da competição expansiva. Nessa dinâmica, a tecnologia não surge apenas para satisfazer necessidades do mercado, mas como uma resposta à necessidade dos Estados de superarem seus rivais.

A inovação tecnológica atua em duas frentes indissociáveis: a militar e a econômica. Um Estado que detém a vanguarda tecnológica consegue projetar sua força — seja através de armas mais precisas ou de moedas mais fortes lastreadas em produtividade superior. Como afirma o autor, "a cada nova rodada da competição expansionista, o sistema exige uma base técnica mais complexa e cara" (FIORI, 2007, p. 28). Portanto, quem lidera a fronteira da inovação não ganha apenas "mercado", mas a capacidade de ditar as regras do jogo global.


O Mito da Neutralidade e a "Vassalagem Técnica"


A narrativa globalista costuma tratar a tecnologia como um bem desterritorializado. Contudo, a história do poder global mostra o contrário. De acordo com Fiori, o desenvolvimento das potências centrais sempre foi acompanhado de um esforço ativo para impedir que a periferia do sistema alcançasse a mesma autonomia técnica.

Quando um país abdica de sua capacidade de desenvolver tecnologia própria, ele aceita uma condição de subordinação estratégica. No cenário atual, a dependência de plataformas estrangeiras e de infraestruturas de dados controladas por grandes potências cria o que podemos chamar de "vassalagem técnica". Sem domínio sobre a ponta de lança do progresso, os países da periferia tornam-se meros consumidores de poder alheio, financiando, via transferências de renda e dados, a expansão dos centros dominantes.


O Brasil Diante da Muralha Tecnológica


Para o Brasil, o diagnóstico de Fiori é um alerta contra a complacência. O país frequentemente cai na armadilha de acreditar que a "eficiência administrativa" ou a "abertura comercial" bastariam para o desenvolvimento. Fiori nos ensina que o sistema é estruturalmente resistente à ascensão de novos polos.

A desindustrialização brasileira e a crescente dependência de tecnologias importadas não são acidentes de percurso, mas o resultado de um sistema que se fecha para quem não consegue articular o poder do Estado com a capacidade de inovação. A soberania digital, portanto, não é um luxo retórico, mas uma condição de sobrevivência para uma nação que pretenda ter voz própria na "esfera pública" globalizada.


Conclusão


Entender a tecnologia através de José Luís Fiori é abandonar a ingenuidade digital. A inovação permanente é o combustível de uma máquina de poder que não conhece o estado de repouso. Se a tecnologia é a ponta de lança da expansão global, o desafio brasileiro reside em decidir se seremos o braço que empunha a lança ou o escudo que apenas tenta mitigar os impactos de uma força que não controlamos. No próximo artigo, exploraremos como essa dinâmica funde definitivamente as fronteiras entre o Estado e o Mercado.


Referências Bibliográficas


FIORI, José Luís. Uma teoria do poder global. Rio de Janeiro: Record, 2007.

FIORI, José Luís (Org.). O Poder Americano. Petrópolis: Vozes, 2004.


sexta-feira, 24 de abril de 2026

Crise de liquidez e petrodólar: quando o petróleo, o dólar e a guerra se encontram


Introdução

A crise de liquidez global não nasce apenas da falta de dinheiro. Ela nasce quando o dinheiro deixa de circular, quando o crédito encarece, quando investidores fogem do risco e quando países, bancos e empresas começam a disputar a mesma moeda: o dólar. Nesse cenário, a guerra no Irã, a instabilidade no Oriente Médio e a contestação crescente ao sistema do petrodólar formam uma combinação perigosa.

O petrodólar foi um dos pilares invisíveis da hegemonia norte-americana desde os anos 1970. Ao vincular o comércio internacional de petróleo ao dólar, os Estados Unidos criaram uma demanda estrutural por sua moeda. O mundo precisava de petróleo; para comprar petróleo, precisava de dólar; e, ao precisar de dólar, sustentava o poder financeiro dos EUA.

Hoje, esse mecanismo não desapareceu, mas está sob pressão. A China expande pagamentos em yuan, a Rússia busca fugir das sanções ocidentais, países do BRICS discutem alternativas monetárias e bancos centrais diversificam reservas. Ainda assim, o dólar segue dominante: o Federal Reserve registra que mais de US$ 1 trilhão em cédulas de dólar circulavam fora dos EUA no primeiro trimestre de 2025, sinal da profundidade internacional da moeda norte-americana.  


1. O que é crise de liquidez global

Crise de liquidez ocorre quando agentes econômicos não conseguem acessar rapidamente dinheiro, crédito ou financiamento. O problema não é apenas insolvência; é travamento. Bancos ficam cautelosos, fundos vendem ativos, empresas enfrentam dificuldade para rolar dívidas e investidores procuram segurança.

Em uma economia global dolarizada, a crise de liquidez costuma assumir uma forma específica: falta de dólar. Como grande parte do comércio, das dívidas, dos derivativos e das reservas internacionais passa pelo dólar, qualquer choque global pode gerar corrida pela moeda norte-americana.

O FMI alertou, em seu relatório de estabilidade financeira de outubro de 2025, que os riscos permaneciam elevados, especialmente por causa de avaliações esticadas dos ativos, pressão sobre mercados de títulos soberanos e crescimento da influência das instituições financeiras não bancárias.  


2. Como uma guerra no Irã pode acionar a crise

O Irã ocupa posição estratégica porque está próximo ao Estreito de Ormuz, uma das principais rotas do petróleo mundial. Uma guerra que ameace essa passagem pode elevar rapidamente o preço do petróleo.

O mecanismo é simples:

  1. a guerra ameaça oferta de petróleo;
  2. o preço do barril sobe;
  3. energia, transporte, fertilizantes e alimentos ficam mais caros;
  4. a inflação aumenta;
  5. bancos centrais evitam cortar juros;
  6. o crédito encarece;
  7. investidores vendem ativos de risco;
  8. cresce a corrida por dólar e liquidez.

A crise de liquidez, portanto, pode nascer de uma guerra regional, mas se espalhar pelo sistema financeiro global. Não é necessário que todos os bancos quebrem. Basta que todos queiram caixa ao mesmo tempo.


3. O que foi a “invenção” do petrodólar

O petrodólar não foi uma moeda nova. Foi um arranjo geopolítico e financeiro.

Depois do fim da conversibilidade do dólar em ouro, em 1971, os EUA precisavam preservar a centralidade global de sua moeda. O petróleo ofereceu esse caminho. Se o petróleo fosse negociado principalmente em dólar, todos os países importadores precisariam manter reservas em dólar.

Assim se formou o circuito:

petróleo → dólar → reservas internacionais → títulos dos EUA → financiamento da potência americana.

Os países exportadores de petróleo recebiam dólares e reinvestiam parte desses recursos em bancos ocidentais e títulos do Tesouro norte-americano. Esse processo ficou conhecido como reciclagem dos petrodólares.


4. O que os EUA ganharam com o petrodólar

Os EUA ganharam cinco vantagens principais.

Primeiro, criaram demanda permanente por dólar. Mesmo países que não tinham relação comercial intensa com os EUA precisavam de dólares para comprar petróleo.

Segundo, passaram a financiar seus déficits com mais facilidade, porque o mundo comprava títulos do Tesouro norte-americano.

Terceiro, obtiveram juros relativamente menores para sua dívida pública, pois os Treasuries se consolidaram como ativo seguro global.

Quarto, ampliaram seu poder geopolítico. Quem controla a moeda dominante controla sanções, pagamentos, reservas, bloqueios financeiros e acesso ao sistema bancário.

Quinto, conseguiram importar bens e financiar poder militar pagando com a própria moeda. Esse é o chamado “privilégio exorbitante” dos EUA.


5. O petrodólar está acabando?

A resposta técnica é: não está acabando de uma vez, mas está perdendo exclusividade.

O dólar ainda domina o sistema financeiro internacional. O Federal Reserve destaca que sua força decorre da profundidade dos mercados norte-americanos, da liquidez dos ativos em dólar, da confiança institucional e do efeito de rede: todos usam dólar porque todos os demais usam dólar.  

Além disso, o mercado cambial global segue profundamente dolarizado. Dados associados ao levantamento trienal do BIS indicam que o mercado de câmbio movimentou cerca de US$ 9,6 trilhões por dia em 2025, com o dólar ainda no centro das transações.  

Mas há erosão. O dólar continua dominante, porém menos incontestável.


6. As alternativas criadas por China e Rússia

A China e a Rússia não construíram ainda um substituto completo do dólar. Elas criaram rotas alternativas.

A China desenvolveu o CIPS, sistema de pagamentos internacionais em renminbi, para reduzir dependência do SWIFT. Também criou contratos futuros de petróleo em yuan em Xangai e ampliou acordos bilaterais de comércio em moeda local.

A Rússia, pressionada por sanções, ampliou o uso de rublo, yuan, ouro e moedas de parceiros. Também fortaleceu o SPFS, sistema russo de mensagens financeiras, como alternativa parcial ao SWIFT.

Essas alternativas não derrubam o dólar imediatamente, mas reduzem a capacidade dos EUA de controlar todos os fluxos financeiros globais.


7. Por que o yuan ainda não substitui o dólar

O yuan cresce, mas enfrenta limitações importantes:

  • não é plenamente conversível;
  • a China mantém controles de capital;
  • os mercados financeiros chineses são menos abertos;
  • investidores globais ainda preferem Treasuries;
  • falta ao yuan a mesma confiança jurídica e institucional do dólar.

Por isso, a tendência não é substituição imediata do dólar pelo yuan. A tendência é uma ordem monetária mais fragmentada.


8. A relação entre bolhas financeiras e liquidez

As bolhas financeiras atuais dependem de dinheiro barato, crédito abundante e confiança. Quando há liquidez, investidores aceitam risco. Quando a liquidez seca, eles vendem.

Isso afeta ações de tecnologia, inteligência artificial, imóveis, crédito privado, derivativos e mercados emergentes.

O FMI chamou atenção para o risco de valuations elevados, isto é, preços de ativos possivelmente acima de fundamentos econômicos sólidos.  

Se a guerra eleva petróleo e inflação, os juros permanecem altos. Se os juros permanecem altos, a liquidez diminui. Se a liquidez diminui, bolhas começam a ser reprecificadas.


9. O prazo possível para o enfraquecimento do petrodólar

Não há data exata para o fim do petrodólar. O mais provável é uma erosão em três tempos:

Curto prazo, de 1 a 5 anos: o dólar continua dominante. Não há ruína imediata.

Médio prazo, de 5 a 15 anos: o sistema perde exclusividade. Crescem contratos em yuan, moedas locais, ouro e mecanismos bilaterais.

Longo prazo, de 15 a 30 anos: pode ocorrer reorganização mais profunda, caso os EUA enfrentem crise fiscal severa, perda de confiança nos Treasuries e maior consolidação financeira da China.

Portanto, o petrodólar não está “morrendo amanhã”. Está perdendo lentamente o monopólio simbólico e operacional que teve durante décadas.


Conclusão

A crise de liquidez e a crise do petrodólar fazem parte do mesmo processo histórico: o questionamento da arquitetura financeira criada sob liderança norte-americana no pós-guerra e reforçada nos anos 1970 pelo petróleo.

A guerra no Irã pode funcionar como gatilho porque atinge o coração energético do sistema. Petróleo caro gera inflação. Inflação sustenta juros altos. Juros altos drenam liquidez. Menos liquidez ameaça bolhas financeiras. E, em momentos de medo, o mundo ainda corre para o dólar — justamente a moeda cuja hegemonia muitos países desejam reduzir.

A contradição é essa: o dólar é contestado, mas ainda é necessário. O petrodólar perde força, mas ainda não foi substituído. A China e a Rússia criam alternativas, mas ainda não oferecem uma arquitetura financeira com a mesma profundidade, confiança e liquidez dos EUA.

O risco, portanto, não está apenas no “fim do petrodólar”. Está na transição. Sistemas hegemônicos raramente desaparecem de forma pacífica e ordenada. Quando petróleo, dívida, guerra, moeda e liquidez se misturam, qualquer erro tático pode produzir consequências globais.


Referências

FEDERAL RESERVE. The International Role of the U.S. Dollar – 2025 Edition. Washington, DC: Board of Governors of the Federal Reserve System, 2025.

INTERNATIONAL MONETARY FUND. Global Financial Stability Report: October 2025. Washington, DC: IMF, 2025.

BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS. Triennial Central Bank Survey: foreign exchange turnover. Basel: BIS, 2025.

ATLANTIC COUNCIL. Dollar Dominance Monitor. Washington, DC: Atlantic Council, 2025.