sábado, 23 de maio de 2026

A juventude brasileira em disputa: o avanço da direita entre os jovens e o vazio deixado pela política democrática

A pesquisa Juventudes: Um Desafio Pendente, da Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung, revela que os jovens brasileiros não abandonaram a política; eles foram capturados por novas linguagens, novas frustrações e novas promessas de futuro.


Introdução

A juventude brasileira sempre foi tratada, quase automaticamente, como sinônimo de rebeldia, mudança, contestação e esperança progressista. Durante muito tempo, imaginou-se que os jovens estariam naturalmente mais próximos das lutas por igualdade, democracia, direitos sociais, educação pública, justiça econômica e transformação social. Essa imagem, embora tenha raízes históricas importantes, já não explica sozinha o Brasil contemporâneo.

A pesquisa Juventudes: Um Desafio Pendente, realizada pela Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung (FES), em parceria com a YouGov, mostra um retrato mais incômodo, complexo e desafiador. No Brasil, foram ouvidos 2.024 jovens de 15 a 35 anos, dentro de uma investigação mais ampla realizada em 14 países da América Latina e Caribe, com mais de 22 mil entrevistados. O relatório brasileiro indica que 44% dos jovens se identificam com o centro político, 38% com a direita — sendo 17% com a extrema-direita — e apenas 18% com a esquerda (FES, 2025).  

Esse dado precisa ser lido com seriedade. Não se trata de afirmar, de maneira apressada, que “a juventude virou fascista”, nem de repetir o velho lamento de que “os jovens não querem saber de política”. A pesquisa mostra exatamente o contrário: os jovens querem saber de política, mas não necessariamente da política como ela foi organizada pelas gerações anteriores.

O problema é mais profundo. A juventude brasileira está politizada, mas muitas vezes por caminhos marcados pela desconfiança, pela precarização, pelo medo, pelo ressentimento, pela moralização da vida pública e pela força das redes sociais. A direita percebeu esse terreno antes. Falou com os jovens por meio da linguagem do cotidiano, do empreendedorismo, da raiva contra “o sistema”, da religião, da segurança, da família, da masculinidade ferida e da promessa individual de vitória. A esquerda, em muitos casos, continuou falando como se bastasse ter razão histórica.

Não basta ter razão. É preciso disputar sentido.

1. O dado que incomoda: 38% dos jovens brasileiros se identificam com a direita

O número mais impactante da pesquisa é a identificação política dos jovens brasileiros. Segundo a FES, 38% se posicionam à direita, dos quais 17% se declaram de extrema-direita. A esquerda aparece com 18%, enquanto o centro concentra 44% (FES, 2025).  

Esse resultado desorganiza uma leitura romântica sobre juventude. O jovem não é progressista por natureza. O jovem é resultado de seu tempo histórico. E o nosso tempo histórico é atravessado por crises: crise do trabalho, crise da escola, crise da representação política, crise ambiental, crise da verdade, crise da confiança institucional e crise do próprio futuro.

Nesse cenário, a direita não cresceu apenas porque convenceu racionalmente os jovens com programas econômicos sofisticados. Cresceu porque ofereceu respostas emocionalmente simples para problemas socialmente complexos.

Quando um jovem não consegue emprego digno, a direita diz: “empreenda”.

Quando ele sente medo da violência, a direita diz: “endureça”.

Quando ele se sente perdido diante das transformações culturais, a direita diz: “volte à tradição”.

Quando ele desconfia dos partidos, a direita diz: “o problema é a política”.

Quando ele está frustrado, a extrema-direita oferece um inimigo.

Essa é a chave. A política contemporânea não disputa apenas ideias. Ela disputa afetos. Disputa medo, raiva, esperança, pertencimento, humilhação e reconhecimento.

2. A juventude defende a democracia, mas desconfia das instituições

A pesquisa revela um dado aparentemente contraditório: 66% dos jovens brasileiros afirmam que a democracia é a melhor forma de governo, mas 58% concordam que um líder forte resolve melhor os problemas do que partidos e instituições, e 49% acreditam que a democracia pode funcionar sem partidos políticos (FES, 2025).  

Essa contradição é uma das partes mais importantes do estudo. O jovem brasileiro não rejeita a democracia em abstrato. Ele rejeita a democracia como experiência institucional concreta. Em outras palavras: ele gosta da ideia de democracia, mas desconfia dos partidos, do Congresso, da Presidência, dos governos e dos mecanismos formais de representação.

Isso é perigoso porque abre espaço para o personalismo autoritário. Quando a sociedade perde confiança nas instituições, começa a procurar salvadores. O “líder forte” aparece como atalho emocional. Ele promete resolver sem negociar, decidir sem dialogar, punir sem ponderar, governar sem mediação.

Mas democracia sem mediação não é democracia. É vontade concentrada. E vontade concentrada, quando não encontra limites, tende ao autoritarismo.

A pesquisa mostra que a juventude brasileira está nesse ponto delicado: quer democracia, mas se cansa de seus procedimentos; quer participação, mas desconfia dos partidos; quer mudança, mas muitas vezes flerta com soluções fortes demais para problemas que exigem construção coletiva.

3. O jovem não é apático: ele está órfão de representação

Um dos erros mais comuns é dizer que a juventude está despolitizada. A própria pesquisa desmente essa leitura. Segundo a FES, 93% dos jovens consomem notícias diariamente, e 57% usam redes sociais como principal fonte de informação política (FES, 2025).  

Portanto, o jovem não está fora da política. Ele está dentro de outra política.

A política que chega ao jovem hoje não chega, prioritariamente, pelo partido, pelo sindicato, pelo grêmio estudantil, pelo centro acadêmico, pela assembleia ou pela reunião comunitária. Ela chega pelo vídeo curto, pelo corte viral, pelo influenciador, pelo meme, pelo podcast, pelo grupo de WhatsApp, pelo algoritmo.

E o algoritmo não premia necessariamente a verdade. Premia engajamento. Premia emoção. Premia conflito. Premia simplificação. Premia aquilo que prende o olhar.

Nesse ambiente, a extrema-direita desenvolveu uma vantagem comunicacional. Ela fala curto, fala forte, fala com raiva, cria inimigos, transforma política em batalha moral e oferece pertencimento a quem se sente abandonado.

A esquerda, por sua vez, muitas vezes fala a partir de códigos fechados, linguagem universitária, repertório militante e diagnósticos corretos, mas pouco traduzidos para a vida concreta do jovem trabalhador, do estudante endividado, da jovem mãe, do entregador de aplicativo, do aluno da escola pública, do jovem evangélico da periferia ou do rapaz que se sente descartável no mercado de trabalho.

A juventude não abandonou a política. A política institucional é que, em grande medida, abandonou a juventude.

4. A direita capturou a esperança individual

Outro dado relevante da pesquisa é que, apesar da insatisfação com a economia e com a situação do país, 88% dos jovens acreditam que seu futuro será melhor (FES, 2025).  

Esse número é poderoso. Ele mostra que a juventude brasileira ainda carrega esperança. Mas a pergunta central é: quem está organizando essa esperança?

A direita tem conseguido transformar esperança em projeto individual. Ela diz ao jovem: “você vai vencer se depender apenas de você”. O discurso parece libertador, mas esconde uma armadilha. Ao responsabilizar exclusivamente o indivíduo por seu sucesso ou fracasso, apaga-se a estrutura social.

O jovem pobre passa a acreditar que, se não venceu, foi porque não se esforçou o bastante. O trabalhador precarizado passa a se enxergar como empreendedor de si mesmo. O estudante sem condições adequadas de formação passa a acreditar que sua dificuldade é falha pessoal. O desempregado vira culpado pela própria exclusão.

Essa é uma das grandes vitórias ideológicas do nosso tempo: transformar problemas coletivos em culpas individuais.

A esquerda, se quiser disputar a juventude, precisa recuperar uma pedagogia pública da esperança. Não uma esperança abstrata, sentimental, decorativa. Mas uma esperança concreta, ligada a emprego digno, educação de qualidade, moradia, cultura, ciência, tecnologia, renda, segurança, transporte, saúde mental e participação política real.

5. O avanço da extrema-direita entre jovens homens

A pesquisa também aponta uma diferença importante entre gênero e posicionamento político: mulheres jovens tendem a posições mais progressistas, enquanto homens jovens aparecem mais associados a valores conservadores (FES, 2025).  

Esse dado precisa ser levado muito a sério. Há uma juventude masculina sendo disputada por discursos de ressentimento. Parte desses jovens se sente deslocada diante das mudanças sociais, das lutas feministas, da ampliação dos direitos das mulheres, da crítica ao machismo e da transformação das relações familiares e afetivas.

A extrema-direita percebeu essa insegurança e a transformou em capital político. Ofereceu a esses jovens uma narrativa simples: o mundo mudou contra você; o feminismo é seu inimigo; a escola doutrina; a universidade corrompe; os direitos dos outros ameaçam os seus; a igualdade é perseguição.

Essa retórica é falsa, mas funciona porque oferece identidade a quem se sente perdido. Ela converte insegurança em agressividade. Converte frustração em ódio. Converte medo em política.

O campo democrático precisa enfrentar isso com inteligência, não com deboche. Ridicularizar esses jovens apenas os empurra ainda mais para bolhas extremistas. É preciso disputar valores, masculinidades, afetos, trabalho, futuro e pertencimento.

6. O Estado ainda importa — mesmo para uma juventude que se diz de direita

Um dos pontos mais interessantes da pesquisa é que, embora muitos jovens se identifiquem com a direita, isso não significa adesão completa a um programa ultraliberal. A FES indica que boa parte da juventude ainda reconhece o papel do Estado na garantia de direitos e na redução das desigualdades (FES, 2025).  

Essa aparente contradição é fundamental. Muitos jovens se dizem de direita por razões culturais, religiosas, morais ou antipartidárias, mas continuam desejando serviços públicos, oportunidades, proteção social e políticas de inclusão.

Isso mostra que a identidade política nem sempre é programática. Um jovem pode se declarar de direita e defender escola pública. Pode criticar o Estado e depender do SUS. Pode repetir discurso meritocrático e precisar de política de permanência estudantil. Pode atacar “benefícios sociais” e viver numa família sustentada parcialmente por políticas públicas.

A disputa, portanto, não é apenas entre Estado e mercado. É uma disputa sobre o significado do Estado. Para parte da juventude, o Estado aparece como burocracia, corrupção, imposto e privilégio de políticos. O desafio democrático é reconstruir a imagem do Estado como instrumento de justiça, proteção e futuro.

7. A escola perdeu centralidade na formação política?

A pesquisa não deve ser lida apenas como diagnóstico eleitoral. Ela é também um alerta educacional. Se as redes sociais se tornaram a principal fonte de informação política para os jovens, então a escola perdeu parte de sua centralidade como espaço de formação crítica.

Isso não significa que a escola não importe. Ao contrário: significa que ela importa ainda mais.

A escola pública brasileira precisa formar leitores do mundo digital. Precisa ensinar ciência, história, sociologia, filosofia, estatística, interpretação de dados, argumentação, ética pública e leitura crítica da mídia. Um jovem que não compreende como um algoritmo organiza sua atenção fica vulnerável à manipulação política.

A democracia do século XXI depende de letramento digital, científico e político. Sem isso, o jovem pode até votar livremente, mas sua liberdade estará condicionada por máquinas invisíveis que selecionam o que ele vê, sente, teme e odeia.

8. O centro como abrigo da incerteza

O fato de 44% dos jovens se identificarem com o centro político também merece atenção. Esse centro não deve ser interpretado automaticamente como moderação consciente. Muitas vezes, ele expressa ambiguidade, desconfiança, ausência de identificação ou rejeição aos rótulos tradicionais.

Há jovens que se dizem de centro porque não querem ser associados à polarização. Outros porque não compreendem bem as diferenças entre esquerda e direita. Outros porque combinam posições conservadoras nos costumes e progressistas na economia. Outros ainda porque rejeitam partidos, mas não rejeitam completamente a política.

O centro juvenil é um território em disputa. Pode caminhar para uma democracia social mais madura, mas também pode ser capturado por discursos autoritários travestidos de bom senso.

É nesse espaço que se decide parte importante do futuro político brasileiro.

9. O que a esquerda precisa aprender

A pesquisa da FES não deve servir para lamentação. Deve servir para autocrítica.

A esquerda precisa compreender que juventude não se conquista apenas com memória histórica, embora a memória seja indispensável. Também não se conquista apenas com denúncia, embora a denúncia seja necessária. Juventude se conquista com projeto de futuro.

É preciso falar de trabalho, mas não apenas em termos abstratos. É preciso falar do jovem entregador, da jovem que estuda e trabalha, do estudante endividado, do técnico recém-formado, da juventude rural, da juventude evangélica, da juventude negra, da juventude periférica, da juventude universitária, da juventude que quer empreender porque não enxerga outra saída.

É preciso disputar o sentido da palavra liberdade. A direita reduziu liberdade a consumo, arma retórica, ausência de regulação e sucesso individual. O campo democrático precisa mostrar que liberdade também é ter tempo, comida, escola, saúde, transporte, segurança, internet, cultura, moradia, trabalho digno e direito de existir sem humilhação.

Liberdade sem condição material é promessa vazia.

Conclusão: a juventude não está perdida; ela está sendo disputada

A pesquisa Juventudes: Um Desafio Pendente mostra que o Brasil está diante de uma encruzilhada política. A juventude brasileira não é naturalmente progressista, nem definitivamente conservadora. Ela é uma geração atravessada por contradições: acredita na democracia, mas desconfia das instituições; quer direitos, mas muitas vezes adere à linguagem da direita; consome informação, mas é formada por redes sociais; tem esperança, mas vive sob precarização; deseja futuro, mas não encontra projeto coletivo convincente.

O dado dos 38% de identificação com a direita, incluindo 17% com a extrema-direita, é um alerta histórico. Ele mostra que o autoritarismo não mora apenas no passado, nem apenas nas elites envelhecidas. Ele também pode seduzir jovens quando a democracia deixa de produzir pertencimento, dignidade e horizonte.

A tarefa democrática, portanto, é imensa. Não basta defender instituições em linguagem jurídica. É preciso fazer a democracia voltar a caber na vida concreta dos jovens. Democracia precisa significar emprego, estudo, renda, afeto, proteção, voz, cultura, tecnologia, participação e futuro.

A juventude brasileira não está perdida. Mas está em disputa. E quem não disputar essa juventude com inteligência, coragem, linguagem e projeto, entregará o futuro do Brasil aos que transformam medo em política e ressentimento em poder.

Referências

FUNDAÇÃO FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG BRASIL. Juventudes: um desafio pendente. São Paulo: FES Brasil, 2025.

FUNDAÇÃO FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG BRASIL. Uma análise sobre democracia, participação e posicionamento político das juventudes no Brasil. São Paulo: FES Brasil, 2025.


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