Por que sociedades em desordem tendem a oscilar entre projetos de transformação radical e lideranças de reunificação plebiscitária
Índice
- Introdução
- Crise e decadência: quando a ordem deixa de convencer
- As massas não escolhem no vazio
- Revolução: a promessa de refundação da estrutura
- Populismo: a promessa de devolver o poder ao “povo”
- A crise como linguagem política
- Revolução e populismo: semelhanças, diferenças e tensões
- Democracia sob estresse
- Conclusão
- Referências
Lide
Em períodos de crise profunda, a política costuma abandonar a zona morna da moderação. Quando instituições perdem legitimidade, elites deixam de convencer e o futuro passa a ser percebido como ameaça, a sociedade tende a buscar saídas extraordinárias. Algumas prometem reorganizar o edifício inteiro, como nas revoluções. Outras prometem devolver unidade moral ao corpo político, como nos populismos. O problema central, portanto, não é apenas a crise em si, mas a forma como ela desmonta mediações, intensifica afetos coletivos e empurra a política para o terreno da exceção.
1. Introdução
A frase segundo a qual, em épocas de crise ou decadência, “as massas escolhem ou revolução ou populismo” possui força intuitiva, mas precisa ser tratada com rigor. Tomada como lei histórica, ela é excessiva. Nem toda crise produz revolução. Nem toda decadência institucional gera populismo. Nem toda massa reage da mesma forma diante do colapso de uma ordem. Ainda assim, a proposição contém um núcleo analítico relevante: quando a vida social entra em desorganização prolongada e as instituições perdem capacidade de mediação, cresce a probabilidade de adesão coletiva a alternativas de ruptura.
Essa é a chave do problema. Crises profundas não afetam apenas indicadores econômicos. Elas alteram o imaginário político, reconfiguram expectativas de futuro, radicalizam medos e comprimem o espaço da mediação. O cidadão comum deixa de perguntar apenas “qual proposta funciona melhor?” e passa a perguntar “quem vai nos tirar disso?”. É nesse deslocamento que a política deixa de ser percebida como administração ordinária da vida comum e passa a ser vivida como promessa de salvação, restauração ou refundação.
A literatura sobre populismo hoje mais consolidada define o fenômeno como uma ideologia de centro fino, organizada pela oposição entre “o povo puro” e “a elite corrupta”, sustentando que a política deve expressar a vontade geral do povo (Mudde, 2004). Já Jan-Werner Müller insiste num ponto decisivo: o populismo não é apenas antielitista; ele é também antipluralista, porque afirma que só uma parte da sociedade seria o “povo verdadeiro” e que só o líder ou movimento populista o representaria legitimamente (Müller, 2016). Por sua vez, Benjamin Moffitt mostra que o populismo contemporâneo não apenas emerge em contextos de crise; ele também performa a crise, dramatiza o colapso e transforma a urgência em técnica de mobilização (Moffitt, 2015). Essas formulações são hoje centrais na literatura especializada.
No caso da revolução, a referência clássica de Theda Skocpol continua indispensável. Sua contribuição afasta o voluntarismo romântico e mostra que revoluções sociais exigem algo mais que indignação popular: elas dependem de crise estatal, conflitos de classe, incapacidade institucional e condições históricas específicas. Revolução, nesse sentido, não é simples rebelião; é transformação rápida e profunda das estruturas do Estado e das relações sociais (Skocpol, 1979).
O objetivo deste artigo é desenvolver essa hipótese em chave teórica: em contextos de crise ou decadência, a política de massas tende a abandonar a confiança no centro mediador e a procurar formas excepcionais de reorganização coletiva. A revolução aparece como promessa de refundação estrutural. O populismo, como promessa de reunificação imediata do povo contra elites desacreditadas. Não se trata de afirmar uma dicotomia mecânica, mas de compreender por que a normalidade liberal perde apelo quando a ordem já não consegue produzir legitimidade.
2. Crise e decadência: quando a ordem deixa de convencer
Crise, em sentido político rigoroso, não é mera dificuldade conjuntural. É o momento em que os mecanismos ordinários de reprodução da ordem deixam de funcionar de forma persuasiva. As regras continuam existindo, mas já não convencem. As instituições continuam de pé, mas já não inspiram confiança. Os procedimentos permanecem formalmente válidos, mas deixam de produzir obediência legítima. Em outras palavras, crise é o instante em que a forma institucional persiste, mas o seu conteúdo de legitimidade começa a esvaziar-se.
Karl Polanyi ajuda a compreender esse processo de maneira aguda. Em A grande transformação, sua tese é que a autonomização do mercado e a mercantilização da vida corroem a própria base social que sustenta a ordem. Quando trabalho, terra e dinheiro são tratados como mercadorias puras, a sociedade reage, porque aquilo que parecia racional do ponto de vista econômico torna-se destrutivo do ponto de vista humano e político (Polanyi, 2011). A crise, então, não é só uma falha do sistema; é também uma experiência social de desenraizamento. Esse argumento é central para entender por que crises econômicas tendem a se converter em crises políticas.
Mas a decadência não se reduz à economia. Há decadência quando o centro político já não consegue organizar o dissenso. Partidos perdem capilaridade, parlamentos deixam de representar, sindicatos enfraquecem, a imprensa deixa de ser reconhecida como mediadora legítima e o Estado passa a ser visto ora como ausente, ora como instrumento de interesses oligárquicos. A confiança evapora. E sem confiança, a política do compromisso perde densidade.
É nesse ponto que a moderação começa a parecer covardia. O pacto parece conivência. A prudência parece cinismo. A complexidade parece fuga. Quanto menos a ordem consegue oferecer segurança material, pertencimento simbólico e expectativa de futuro, mais o discurso da ruptura se torna persuasivo. A crise não apenas fragiliza o sistema; ela desmoraliza suas linguagens de justificação.
Hannah Arendt oferece uma contribuição decisiva para esse debate ao mostrar que a atomização social, a perda do mundo comum e o esvaziamento da esfera pública criam terreno fértil para movimentos que prometem direção, unidade e sentido. O isolamento não elimina a política; ele a deforma. Indivíduos socialmente fragmentados tornam-se mais suscetíveis a narrativas que simplificam a realidade e lhes devolvem pertencimento. O que desaba, nesses contextos, não é só a economia ou a institucionalidade; é a experiência compartilhada do comum.
3. As massas não escolhem no vazio
A expressão “as massas escolhem” pode induzir a erro se sugerir decisão livre, transparente e racional, como se sociedades em crise comparassem serenamente duas alternativas disponíveis. Não é assim que a história opera. Massas não escolhem no vazio. Elas respondem a condições materiais, repertórios simbólicos, organizações políticas, experiências de humilhação, formas de medo e promessas de proteção.
Em períodos de colapso, o comportamento coletivo tende a ser menos orientado por programas detalhados e mais por necessidades condensadas: segurança, pertencimento, justiça, reconhecimento, ordem, reparação. A política, então, se reorganiza em torno de afetos densos. O medo da queda social convive com o ressentimento contra elites percebidas como blindadas. A frustração com a impotência institucional convive com o desejo de uma resposta rápida. O desencanto com a representação convive com a esperança de uma figura ou movimento capaz de “resolver”.
É por isso que a gramática da salvação se torna tão poderosa. Em tempos ordinários, a mediação é tolerável. Em tempos extraordinários, ela parece insuficiente. Quando a sociedade passa a experimentar a ordem como fracasso, o espaço para soluções gradualistas se estreita. A linguagem da exceção ganha prestígio. E a exceção pode assumir diferentes formas.
Norris e Inglehart mostram que a ascensão de populismos autoritários não pode ser explicada apenas por privação econômica. Há também reação cultural, ansiedade identitária e percepção de deslocamento simbólico. Isso ajuda a evitar um reducionismo materialista simplificador. Crises que geram populismo não são apenas crises de renda; são também crises de lugar social, de reconhecimento e de status. O indivíduo não sente apenas que perdeu dinheiro; sente que perdeu chão, voz e centralidade.
A questão, então, não é apenas saber se há crise, mas qual é a forma social da crise. Há crises que desorganizam o Estado e abrem caminho para transformação estrutural. Há crises que desmoralizam elites e alimentam mobilização plebiscitária. Há crises que combinam ambas as dimensões. Por isso, a frase-tema do artigo precisa ser refinada: em tempos de decadência, as massas não escolhem automaticamente entre revolução e populismo; elas passam a buscar formas excepcionais de reorganização política. A forma assumida por essa busca depende da estrutura histórica concreta.
4. Revolução: a promessa de refundação da estrutura
A revolução é a forma mais radical dessa busca por reorganização. Mas o conceito precisa ser protegido de banalizações. Nem toda explosão popular é revolução. Nem toda troca brusca de governo é revolucionária. Nem todo levante é refundação. A contribuição clássica de Skocpol permanece sólida justamente porque oferece um critério exigente: revoluções sociais são transformações rápidas e fundamentais das estruturas estatais e de classe, acompanhadas por revoltas vindas de baixo (Skocpol, 1979).
Essa definição recoloca a discussão em um plano mais preciso. A revolução não é apenas um evento emocional; é uma reconfiguração estrutural do poder. Seu horizonte é profundo. Seu alvo não é só o governante, mas a arquitetura institucional, econômica e social que sustenta determinada ordem. A revolução afirma, em última instância, que o problema não está na má gestão do sistema, mas no sistema em si.
Por isso, a revolução exige condições especiais. Não basta descontentamento difuso. É necessário que o Estado entre em crise, que as elites se fragmentem, que a capacidade repressiva ou integradora do regime se enfraqueça e que existam forças coletivas capazes de transformar a indignação em ação organizada. A revolução, portanto, não é um reflexo automático da miséria. Ela depende de conjunturas em que a ordem se torna simultaneamente ilegítima, incapaz e vulnerável.
Em sua forma clássica, a revolução opera com a promessa de profundidade histórica. Ela não quer apenas corrigir um desvio; quer reiniciar a história sob novas bases. É por isso que a revolução costuma mobilizar vocabulários de emancipação, justiça estrutural, classe, povo em armas, novo regime, nova soberania, nova sociedade. Seu discurso é ontológico: trata do ser da ordem, não apenas do seu desempenho.
Talvez por isso a revolução seduza especialmente quando a sensação coletiva é a de que tudo apodreceu. Nesses contextos, reformas parecem cosmética. A continuidade parece cumplicidade. O remendo parece insulto. A revolução oferece o que nenhuma política incremental oferece: a promessa de começo absoluto.
5. Populismo: a promessa de devolver o poder ao “povo”
O populismo, embora também floresça em tempos de desgaste da ordem, opera de outra maneira. Sua força está menos na reconfiguração profunda da estrutura social e mais na condensação moral do antagonismo político. Em vez de organizar a crise em termos de estrutura, ele a organiza em termos de traição. O mundo passa a ser dividido entre “o povo” e “a elite”, entre os autênticos e os corruptos, entre os que sofrem e os que manipulam.
A definição de Cas Mudde continua sendo uma das mais influentes exatamente porque capta essa lógica com clareza: o populismo separa a sociedade em dois grupos homogêneos e antagônicos — o povo puro e a elite corrupta — e sustenta que a política deve ser a expressão da vontade geral do povo (Mudde, 2004). Não se trata, portanto, apenas de estilo retórico; trata-se de uma forma específica de imaginar o corpo político.
Müller acrescenta que essa oposição é mais perigosa do que parece, porque o populismo não reconhece plenamente a legitimidade do pluralismo. Seu gesto característico não é só criticar elites, mas afirmar que apenas ele encarna moralmente o povo autêntico. O adversário, então, deixa de ser um competidor legítimo e passa a ser um usurpador, um parasita ou um traidor. O conflito político é moralizado. E, quando isso ocorre, a democracia passa a correr por uma linha muito mais estreita.
O populismo tem ainda outra vantagem tática em tempos de crise: ele simplifica. Onde a vida social é complexa, ele oferece nitidez moral. Onde a institucionalidade exige mediações lentas, ele oferece urgência. Onde a pluralidade impõe negociação, ele oferece decisão. Em sociedades desorientadas, essa simplificação pode produzir enorme potência mobilizadora.
Diferentemente da revolução, o populismo não precisa desmontar inteiramente a estrutura para apresentar-se como solução. Ele pode operar dentro das instituições enquanto as desgasta por dentro. Pode vencer eleições, invocar a soberania popular e, ao mesmo tempo, corroer freios institucionais, deslegitimar órgãos de controle e hostilizar mediações autônomas. Seu horizonte é plebiscitário: o povo deve aparecer como unidade moral encarnada numa liderança que o interpreta sem obstáculos.
Há, portanto, uma diferença decisiva. A revolução promete refundar a ordem. O populismo promete restaurar sua verdade moral. A revolução trabalha com transformação estrutural. O populismo, com reunificação simbólica. A revolução olha para a base do edifício. O populismo mira sua fachada de legitimidade.
6. A crise como linguagem política
Uma das contribuições mais fecundas da literatura recente está em mostrar que a crise não é apenas um contexto externo ao populismo, mas também uma tecnologia discursiva interna ao seu funcionamento. É aqui que o trabalho de Benjamin Moffitt se torna especialmente relevante. Seu argumento é que atores populistas não apenas se beneficiam de crises objetivas; eles as performam, dramatizam e reencenam como parte de sua própria lógica política (Moffitt, 2015). A crise torna-se linguagem, cenário e prova moral.
Isso ajuda a explicar por que o populismo contemporâneo parece viver em estado permanente de emergência. Tudo pode ser convertido em evidência de decadência: o parlamento, a imprensa, a universidade, o judiciário, a burocracia, organismos multilaterais, minorias politicamente visíveis, adversários ideológicos. O líder populista aparece, então, como aquele que finalmente “diz a verdade”, “rompe o silêncio”, “desmascara o sistema” e “age sem medo”.
A crise, nesse enquadramento, cumpre três funções. Primeiro, simplifica a realidade. Segundo, identifica culpados. Terceiro, legitima concentração de autoridade. Se tudo está em colapso, procedimentos parecem luxo. Se o sistema apodreceu, o choque parece necessário. Se há urgência, o líder forte torna-se aceitável. A crise narrada prepara o terreno para a exceção política.
É justamente aqui que a frase inicial do artigo revela sua maior força analítica. Em tempos de decadência, a sociedade não busca apenas alternativas; busca alternativas que pareçam capazes de atravessar a emergência. Tanto a revolução quanto o populismo respondem a essa demanda por excepcionalidade, mas em registros distintos. A revolução responde com ruptura estrutural. O populismo responde com decisão soberana condensada.
7. Revolução e populismo: semelhanças, diferenças e tensões
A aproximação entre revolução e populismo não deve apagar suas diferenças, mas ignorar suas semelhanças também seria um erro. Ambos crescem quando a normalidade se esgota. Ambos se alimentam da falência do centro político. Ambos mobilizam massas em nome de um “fora” da ordem degradada. Ambos constroem a percepção de que algo extraordinário precisa acontecer.
Mas as diferenças são profundas e decisivas.
A revolução problematiza a estrutura. O populismo problematiza a representação. A revolução interroga o sistema de poder em sua base material e institucional. O populismo interroga quem fala em nome do povo e quem teria usurpado esse lugar. A revolução tende a organizar-se em torno de transformação histórica profunda. O populismo tende a organizar-se em torno de reconstituição moral imediata.
Em linguagem mais direta: a revolução pergunta “que ordem social precisa ser destruída ou substituída?”. O populismo pergunta “quem traiu o povo e precisa ser removido para que a vontade popular prevaleça?”.
Essa distinção permite compreender por que crises semelhantes podem gerar respostas diferentes. Onde há forte organização coletiva, conflito estrutural explícito e crise do Estado, a lógica revolucionária pode ganhar densidade. Onde predomina descrença difusa, antipolítica, personalização da esperança e erosão de mediações, o populismo tende a oferecer um atalho mais eficaz. Em ambos os casos, a massa é convocada. Mas ela é convocada para papéis distintos: sujeito transformador da estrutura, no primeiro caso; corpo moral legitimador de uma representação exclusiva, no segundo.
8. Democracia sob estresse
A relação entre populismo e democracia é ambígua, e justamente por isso intelectualmente difícil. Há momentos em que o populismo funciona como sintoma real de déficits de representação. Ele fala onde o sistema silenciou. Ele vocaliza demandas ignoradas. Ele denuncia elitismos reais. Nesse sentido, pode operar como índice de falhas da democracia liberal realmente existente.
Mas essa dimensão corretiva não elimina sua tendência potencialmente corrosiva. Quando a crítica às elites se converte em negação do pluralismo, quando a soberania popular é reinterpretada como propriedade exclusiva de um segmento moralmente puro, quando os controles institucionais são tratados como sabotagem da vontade do povo, a democracia começa a ser atacada a partir de dentro. A literatura especializada insiste nessa ambivalência: populismo pode ser ao mesmo tempo sintoma da crise democrática e vetor de seu agravamento.
Esse ponto é crucial para o artigo. Em épocas de decadência, a democracia liberal perde parte de sua capacidade de sedução porque seus procedimentos deixam de ser vistos como produtores de justiça substantiva. O problema, porém, é que a crítica ao vazio da representação pode desembocar não em democratização mais densa, mas em concentração carismática de poder.
Já a revolução coloca outro tipo de pressão sobre a democracia. Em certos contextos, ela aparece como tentativa de ultrapassar regimes oligárquicos incapazes de absorver demandas sociais. Em outros, pode levar à suspensão prolongada do pluralismo em nome de um futuro redentor. A questão central, em ambos os casos, é que a crise radicaliza a pergunta sobre quem tem legitimidade para decidir o destino coletivo e por quais meios.
No fundo, o que tanto o populismo quanto a revolução revelam é o limite histórico da política meramente procedural. Quando a ordem já não entrega proteção, reconhecimento e horizonte, o apego abstrato às formas institucionais enfraquece. A democracia passa, então, a depender não apenas de regras, mas de sua capacidade de ser percebida como socialmente significativa.
9. Conclusão
A frase de partida — “em época de crises ou decadência as massas escolhem ou revolução ou o populismo” — é mais fecunda como hipótese crítica do que como sentença absoluta. Seu mérito está em captar um movimento histórico recorrente: quando a ordem perde legitimidade, a política de mediação se enfraquece e a política da exceção ganha apelo.
Não se trata de um automatismo. Entre crise e ruptura há mediações, instituições, lideranças, culturas políticas e trajetórias nacionais específicas. Ainda assim, a regularidade histórica é nítida: sociedades submetidas a desorganização prolongada tendem a procurar respostas extraordinárias. A revolução oferece refundação estrutural. O populismo oferece reunificação moral imediata. Uma quer transformar a base do edifício. O outro quer reconduzir o edifício ao povo imaginado como unidade.
A grande questão, portanto, não é apenas o que as massas escolhem, mas por que a moderação deixa de parecer suficiente. Quando o centro perde legitimidade, quando o futuro se fecha e quando a política deixa de representar proteção e sentido, a sociedade passa a desejar mais do que governo: passa a desejar redenção. É nesse ponto que revolução e populismo se tornam inteligíveis como formas distintas de resposta à mesma experiência histórica de colapso.
Dito de outro modo, em tempos de decadência, a disputa central deixa de ser entre programas ordinários de gestão e passa a ser entre promessas de reorganização do destino coletivo. A crise, então, não é apenas um contexto. Ela é o laboratório em que a sociedade decide se quer demolir a estrutura, refundar sua legitimidade moral ou, em casos mais raros, reconstruir o centro antes que ele desapareça.
Referências
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NORRIS, Pippa; INGLEHART, Ronald. Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism. Cambridge: Cambridge University Press, 2019.
POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.
SKOCPOL, Theda. States and Social Revolutions: A Comparative Analysis of France, Russia and China. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.