sexta-feira, 24 de abril de 2026

A fotografia que desmonta o mito moral dos Estados Unidos

Quando a “terra da liberdade” separa famílias em corredores de tribunal


Introdução

A fotografia “Separated by ICE”, de Carol Guzy, vencedora do World Press Photo of the Year 2026, não é apenas uma imagem comovente. É uma acusação histórica. Ela mostra crianças agarradas ao pai, Luis, migrante equatoriano, após uma audiência migratória em Nova York, no momento em que agentes do ICE o separam da família. A imagem foi produzida para ZUMA Press, iWitness e Miami Herald, e integra a série “ICE Arrests at New York Court”  .

O que a fotografia revela é devastador: os Estados Unidos continuam vendendo ao mundo a narrativa de democracia, liberdade e direitos humanos, mas praticam, dentro de suas próprias instituições, uma política de humilhação contra pobres, migrantes e latino-americanos. A imagem venceu porque traduz visualmente aquilo que muitas estatísticas não conseguem mostrar: a dor concreta de uma família esmagada pela máquina fria do Estado.


1. A imagem que venceu o mundo

A cena ocorre no Jacob K. Javits Federal Building, em Nova York. Segundo a cobertura sobre o prêmio, Carol Guzy acompanhava repetidamente os corredores públicos do prédio, apesar das restrições impostas a fotojornalistas. A fotografia mostra crianças em desespero agarradas ao pai depois de uma audiência migratória que resultou em sua detenção  .

A diretora-executiva da World Press Photo, Joumana El Zein Khoury, classificou a imagem como um registro necessário da separação familiar decorrente das políticas migratórias dos Estados Unidos. A força da fotografia está justamente nisso: ela não mostra um acidente burocrático, mas uma política pública aplicada no espaço que deveria simbolizar justiça.

O tribunal, nesse caso, deixa de ser lugar de proteção de direitos. Torna-se armadilha. O migrante comparece ao Estado, cumpre o rito, apresenta-se à audiência — e sai dele arrancado da própria família. É a inversão moral completa: a obediência às regras não produz segurança, mas exposição à violência institucional.


2. O humanismo contra a máquina migratória

Do ponto de vista humanista, a fotografia desmonta qualquer tentativa de reduzir migrantes a números, ameaças ou “problemas de segurança”. Ali há pai, filhos, esposa, sustento, afeto, medo, futuro interrompido. A imagem obriga o observador a reconhecer o óbvio que a política tenta apagar: migrantes não são massa invasora; são pessoas.

A brutalidade das políticas migratórias estadunidenses está em transformar a vulnerabilidade humana em objeto de espetáculo político. No governo Trump, a deportação deixou de ser apenas instrumento administrativo e passou a ser linguagem ideológica: punição, demonstração de força, sinalização eleitoral.

Essa política não nasce do nada. Ela se alimenta de uma ideia antiga: a de que os Estados Unidos têm o direito de classificar quem pertence e quem deve ser expulso; quem merece proteção e quem deve viver sob ameaça; quem é cidadão pleno e quem é corpo descartável.


3. A arrogância imperial travestida de defesa nacional

A prepotência dos Estados Unidos não aparece apenas em suas guerras, sanções ou intervenções externas. Ela também se manifesta dentro de suas fronteiras, no modo como trata populações vindas da periferia do sistema mundial.

A América Latina conhece bem essa arrogância. A Doutrina Monroe e, depois, o Corolário Roosevelt consolidaram a ideia de que os Estados Unidos poderiam agir como potência tutelar do continente. O próprio Departamento de Estado reconhece que, no início do século XX, os EUA passaram a assumir o papel de “polícia regional” no hemisfério ocidental  .

O Arquivo Nacional dos EUA também registra que o Corolário Roosevelt justificou a intervenção norte-americana no hemisfério sob o argumento de preservar ordem, propriedade e estabilidade, convertendo a antiga Doutrina Monroe em fundamento para interferências diretas na América Latina  .

Essa é a raiz histórica da arrogância: a América Latina não é vista como conjunto de povos soberanos, mas como área de influência, reserva estratégica, mercado subordinado e, em muitos momentos, quintal político.


4. Trump como expressão, não exceção

É confortável afirmar que Trump é uma deformação isolada dos Estados Unidos. Mas isso seria uma leitura superficial. Trump é a expressão mais explícita de tendências profundas da sociedade estadunidense: nacionalismo agressivo, desprezo por migrantes pobres, culto à força, hostilidade contra instituições multilaterais e visão hierárquica do mundo.

A responsabilidade política não recai apenas sobre um homem. Trump foi escolhido pelo voto popular e institucional de uma parcela significativa do povo estadunidense. Isso não autoriza generalizações contra todos os cidadãos dos Estados Unidos, mas obriga reconhecer que há uma base social real para esse projeto.

Quando uma sociedade elege um governante que transforma deportação em promessa, muro em símbolo, migrante em inimigo e família estrangeira em alvo, essa sociedade precisa responder moralmente por aquilo que legitima.


5. Aos admiradores incondicionais dos Estados Unidos

A fotografia de Carol Guzy deveria ser vista por todos aqueles que tratam os Estados Unidos como modelo absoluto de civilização. Este é o país que muitos defendem sem crítica: um país capaz de discursar sobre democracia enquanto separa famílias; capaz de condenar violações de direitos humanos em outros lugares enquanto pratica políticas desumanizantes contra latino-americanos; capaz de falar em liberdade enquanto converte tribunais em corredores de medo.

A crítica não é ao povo estadunidense como totalidade humana. É ao império, ao Estado, à cultura política da superioridade e aos setores sociais que sustentam essa arrogância. Defender os Estados Unidos sem reconhecer sua história de intervenção, racismo migratório e violência institucional é aderir a uma fantasia.

O problema não é admirar universidades, ciência, tecnologia ou produção cultural estadunidense. O problema é confundir essas realizações com superioridade moral. Um país pode produzir conhecimento avançado e, ao mesmo tempo, manter práticas políticas profundamente desumanas.


6. A fotografia como denúncia histórica

A imagem premiada incomoda porque devolve humanidade aos que o discurso oficial tenta desumanizar. Ela obriga o espectador a encarar o que a retórica de segurança procura esconder.

A criança agarrada ao pai vale mais, moralmente, do que qualquer slogan de campanha. O choro de uma família separada revela mais sobre o poder norte-americano do que mil discursos oficiais sobre liberdade. A dor naquele corredor é uma síntese: o império não precisa apenas de aviões, bases militares e sanções econômicas; ele também se reproduz no guichê, no tribunal, no agente uniformizado, no carimbo, na ordem de detenção.


Conclusão

“Separated by ICE” venceu o World Press Photo porque é uma fotografia impossível de ser neutralizada. Ela não permite conforto. Não permite cinismo. Não permite que os Estados Unidos continuem sendo vistos apenas pela lente publicitária da democracia liberal.

A imagem mostra um país que se apresenta como guardião da liberdade, mas trata migrantes como ameaça; que fala em direitos humanos, mas separa famílias; que cobra civilidade do mundo, mas historicamente se autorizou a agir como polícia da América Latina.

A crítica humanista precisa ser dura porque a violência também é dura. A arrogância dos Estados Unidos não é detalhe diplomático: é estrutura histórica. E, sob Trump, essa estrutura aparece sem verniz, sem pudor e sem disfarce.

A fotografia de Carol Guzy não humilha os Estados Unidos. Ela apenas revela aquilo que o poder tenta esconder. E, quando uma imagem revela a verdade, o incômodo não está na fotografia. Está no país fotografado.


Referências

DIGITAL CAMERA WORLD. Emotional ICE image wins World Press Photo of the Year. 2026.

NATIONAL ARCHIVES. Theodore Roosevelt’s Corollary to the Monroe Doctrine. Washington, DC: National Archives, 2022.

UNITED STATES. Department of State. Office of the Historian. Roosevelt Corollary to the Monroe Doctrine, 1904. Washington, DC: Office of the Historian.

WORLD PRESS PHOTO. Separated by ICE: Carol Guzy. Amsterdam: World Press Photo, 2026.


A identidade à venda

Como o neoliberalismo afetivo transformou o sujeito em mercadoria simbólica



Introdução


Durante muito tempo, a identidade foi pensada como construção histórica, experiência vivida, memória, conflito, pertencimento e linguagem. Era, ao menos em tese, o lugar onde o sujeito organizava sua trajetória, elaborava suas contradições e disputava sentido no mundo social. No entanto, no capitalismo contemporâneo, especialmente sob a racionalidade neoliberal e a mediação das plataformas digitais, essa identidade passou a operar de outra maneira: não apenas como expressão de si, mas como ativo simbólico, superfície de performance, dispositivo de visibilidade e fonte de valor.


O fenômeno não é pequeno. Ele ajuda a explicar por que, nas redes, já não basta existir, pensar ou sentir. É preciso aparecer, narrar-se, embalar-se, curar a própria imagem, converter vivência em linguagem publicável e transformar intimidade em conteúdo. O que antes pertencia ao campo do vivido passa a circular sob a forma de perfil, marca pessoal, autenticidade performada e capital reputacional. Nessa mutação, o “eu” deixa de ser apenas sujeito da experiência e começa a funcionar também como produto.


Essa transformação não surgiu do nada. Ela se inscreve num processo histórico mais amplo em que o neoliberalismo deixou de ser apenas um programa econômico para se tornar uma racionalidade social capaz de reorganizar instituições, afetos, valores e condutas. Foucault, ao examinar o liberalismo e o neoliberalismo como formas de governamentalidade, mostrou que a questão central já não era somente proibir ou reprimir, mas produzir modos de condução da vida. Dardot e Laval aprofundaram esse diagnóstico ao mostrar que a razão neoliberal estende a lógica da concorrência e do empresariamento para o interior da subjetividade. Wendy Brown, por sua vez, evidenciou que essa economização invade a própria democracia, convertendo cidadãos em capitais humanos.  


É nesse quadro que emerge aquilo que pode ser chamado de neoliberalismo afetivo: um regime em que emoções, traumas, desejos, vulnerabilidades e pertencimentos deixam de ser apenas experiências humanas para se tornarem recursos socialmente exploráveis. Não se trata de uma metáfora exagerada. Trata-se de uma reorganização concreta da vida simbólica. O sofrimento vira engajamento, a autenticidade vira diferencial competitivo, a diferença vira valor de circulação, e a autoimagem passa a ser administrada como patrimônio.


Este artigo sustenta uma tese clara: na sociedade de plataforma, a identidade foi progressivamente mercantilizada e convertida em moeda simbólica de um mercado de atenção, reconhecimento e previsibilidade algorítmica. O resultado é um deslocamento profundo. O sujeito não desaparece, mas passa a ser solicitado a existir sob a forma de performance permanente. O problema, portanto, não é apenas cultural ou psicológico. É político, econômico e civilizacional.



1. O neoliberalismo não vende só produtos: ele fabrica sujeitos


Uma das grandes contribuições de Michel Foucault foi mostrar que o neoliberalismo não pode ser compreendido apenas como defesa de mercado, privatização ou desregulação. Em Nascimento da biopolítica, o filósofo demonstra que está em jogo uma racionalidade política que toma a vida social como campo de gestão e reconfigura a forma como os indivíduos são conduzidos. Em vez de um poder centrado apenas na interdição, ganha força um poder que organiza comportamentos, produz normas e estimula formas específicas de subjetivação.  


Essa chave é decisiva. Se o neoliberalismo fabrica sujeitos, então ele não atua somente sobre salários, preços e contratos. Atua também sobre desejos, medos, expectativas, afetos e modos de autopresentação. O indivíduo ideal desse regime não é apenas trabalhador ou consumidor. É gestor de si mesmo. Deve administrar sua trajetória como um portfólio, otimizar sua imagem, investir em si, corrigir suas falhas, ampliar sua competitividade e demonstrar valor continuamente.


Pierre Dardot e Christian Laval formulam isso com precisão ao apresentar o neoliberalismo como “nova razão do mundo”. O centro de sua tese é simples e poderoso: a lógica concorrencial se expande para além da economia e se instala como princípio organizador da vida social. Nesse cenário, o sujeito é convocado a comportar-se como empresa. Não basta viver; é preciso performar eficiência. Não basta ter identidade; é preciso torná-la rentável simbolicamente.  


É aqui que a noção de identidade sofre uma inflexão decisiva. Ela deixa de ser apenas narrativa subjetiva ou pertencimento histórico e passa a ser também um recurso de posicionamento. O “quem sou” desloca-se silenciosamente para o “como apareço”, “como sou lido”, “como circulo”, “como gero adesão”. Em vez de construção interior, ganha centralidade a exposição exterior. Em vez de elaboração existencial, impõe-se a curadoria comunicacional.



2. Do íntimo ao mercado: quando afeto vira valor


A etapa seguinte desse processo é ainda mais profunda. Não se trata apenas de gerir competências ou reputação. Trata-se de transformar a própria vida emocional em matéria socialmente circulável. É aqui que a obra de Eva Illouz se torna fundamental. Ao analisar o capitalismo emocional, a autora mostra que mercado e afetividade deixaram de ser esferas separadas. Emoções, vínculos, linguagem terapêutica, expectativas amorosas e formas de reconhecimento passaram a ser atravessados por lógicas de cálculo, desempenho e valorização.


O resultado é uma mutação na forma como o sujeito se apresenta e é percebido. Dor, superação, trauma, vulnerabilidade, pertencimento e autenticidade deixam de ser apenas dimensões humanas para se converterem em códigos de comunicação. Em muitos ambientes digitais, o sofrimento não é apenas vivido; ele é formatado. A experiência não é apenas atravessada; ela é editada. A identidade não é apenas narrada; ela é embalada.


Isso ajuda a explicar por que tantas dinâmicas contemporâneas parecem exigir confissão contínua. A lógica da exposição premia visibilidade, proximidade emocional, narrativa pessoal e capacidade de gerar identificação. O íntimo torna-se publicável, e o publicável torna-se monetizável, direta ou indiretamente. Mesmo quando não há dinheiro imediato envolvido, há circulação de valor: atenção, reconhecimento, capital simbólico, influência, engajamento, autoridade moral ou relevância de rede.


Nesse ponto, o neoliberalismo afetivo opera de maneira particularmente eficaz. Ele não precisa destruir a subjetividade; basta reorganizá-la segundo métricas de valor. O que era crise pode ser transformado em conteúdo. O que era dor pode ser convertido em linguagem mobilizadora. O que era singularidade pode ser recodificado como diferencial de marca. O que era identidade pode tornar-se ativo narrativo.



3. A autenticidade capturada


Uma das ironias mais fortes da cultura contemporânea é esta: a autenticidade, que parecia o oposto da mercadoria, tornou-se uma das formas mais sofisticadas de mercantilização. Sarah Banet-Weiser mostra, em seu estudo sobre cultura de marca, que o “ser autêntico” foi incorporado pelo mercado como valor estratégico. A ambivalência está no centro do problema: a autenticidade continua a parecer espontânea, singular e verdadeira, mas passa a circular em ecossistemas de valorização que a traduzem em capital simbólico.


É por isso que, hoje, a exigência de autenticidade raramente funciona como crítica radical ao mercado. Em muitos casos, ela opera dentro dele. O sujeito é incentivado a “ser ele mesmo”, desde que esse “si mesmo” seja legível, atraente, coerente, compartilhável e visualmente reconhecível. A singularidade não desaparece; ela é administrada. A diferença não é apagada; ela é convertida em posicionamento. A autenticidade não é recusada; ela é formatada.


Esse processo aparece com força nas dinâmicas de self-branding. Estudos sobre microcelebridade e marca pessoal mostram que os ambientes digitais favorecem a construção do eu como projeto contínuo de comunicação. O perfil torna-se vitrine. A trajetória torna-se storytelling. A intimidade torna-se prova de verdade. A linguagem pessoal torna-se estratégia de adesão. O sujeito passa a falar de si como quem organiza um produto: destacando atributos, coerência visual, identidade narrativa e capacidade de engajar públicos.


Não se trata apenas de influenciadores profissionais. A lógica se espalha muito além deles. Professores, jornalistas, políticos, artistas, estudantes, empreendedores e cidadãos comuns passam a sentir a pressão difusa de possuir presença, estética, narrativa e identidade pública minimamente organizadas. Em outras palavras: o branding deixou de ser exclusividade de empresas e contaminou a experiência ordinária do sujeito.



4. Plataformas: a infraestrutura da mercantilização do eu


Se a identidade se tornou mercadoria, isso não ocorreu apenas por mudança cultural abstrata. Houve também uma transformação infraestrutural. As plataformas digitais criaram o ambiente técnico ideal para essa mutação. José van Dijck, Thomas Poell e Martijn de Waal mostram que as plataformas penetraram o coração das sociedades, reorganizando mercados, relações de trabalho, práticas sociais e processos democráticos. Elas não são meros canais neutros. São arquiteturas de mediação que moldam comportamentos e valores públicos.  


Nas plataformas, a identidade precisa ser continuamente legível para os sistemas. Perfis, preferências, cliques, curtidas, interações, frequência de publicação, padrões de consumo e repertórios emocionais tornam-se dados. A vida comunicacional é capturada, quantificada e reorganizada. O sujeito, então, não é apenas alguém que se apresenta ao outro. É também alguém que se torna rastreável para a máquina.


Shoshana Zuboff oferece aqui uma contribuição indispensável. Ao definir o capitalismo de vigilância, ela mostra a formação de uma nova ordem econômica baseada na captura da experiência humana como matéria-prima para extração, previsão e modulação comportamental. A questão, portanto, não é apenas que as pessoas se exibem mais. É que essa exibição é integrada a sistemas econômicos que transformam comportamento em dado e dado em valor.  


Essa passagem é crucial. O sujeito já não vende apenas algo para o mercado; em certa medida, ele próprio é processado como recurso. Sua atenção tem valor. Seu comportamento tem valor. Sua previsibilidade tem valor. Seus afetos têm valor. Sua identidade, enquanto superfície organizada de signos, também tem valor. O que se comercializa não é só o produto anunciado ao lado do perfil. É o próprio perfil como unidade de captura, circulação e segmentação.



5. Liberdade, exposição e autoexploração


Uma das marcas mais sofisticadas desse regime é o fato de ele se apresentar sob a linguagem da liberdade. Afinal, ninguém parece estar sendo forçado, à primeira vista, a construir presença digital, narrar a própria vida ou administrar a própria imagem. Tudo parece escolha, expressão, autonomia. É justamente aqui que a crítica de Byung-Chul Han ganha força. Em sua análise da psicopolítica, da sociedade do cansaço e do universo digital, Han sustenta que o poder contemporâneo opera menos por coerção direta e mais por autoexploração, transparência voluntária e interiorização das exigências de desempenho.


A consequência é perturbadora. O sujeito imagina estar exercendo liberdade quando, muitas vezes, apenas internaliza as normas do ambiente. Publica para existir. Otimiza-se para permanecer visível. Confessa-se para manter relevância. Ajusta-se para continuar circulando. Não se vê submetido porque participa ativamente do processo. Mas participa dentro de uma moldura estrutural que premia exposição, velocidade, responsividade e coerência de marca.


Nesse ambiente, silêncio vira apagamento. Contradição vira ruído. Complexidade vira perda de engajamento. Lentidão vira irrelevância. A subjetividade, então, passa a ser empurrada para formas de simplificação performática. É preciso ser reconhecível, legível, indexável. O custo disso é alto: o sujeito corre o risco de já não saber se sente, pensa e elabora, ou se apenas publica versões estrategicamente organizadas de si mesmo.



6. O que essa transformação faz com a democracia e com a vida comum


Seria um erro reduzir esse problema ao universo da autoajuda digital ou à vaidade das redes. O que está em jogo é maior. Quando a identidade se torna moeda simbólica, o espaço público muda de natureza. Wendy Brown adverte que a racionalidade neoliberal corrói a própria ideia de cidadania ao converter todos os domínios da vida em termos econômicos. Isso significa que até o debate público pode ser atravessado por métricas de desempenho, reputação, influência e retorno.


Numa esfera pública fortemente plataformizada, o reconhecimento tende a seguir a lógica da atenção. E a atenção, como se sabe, raramente privilegia reflexão longa, ambivalência ou elaboração cuidadosa. Ela privilegia intensidade, choque, identificação rápida e repetição. Nesse sentido, a mercantilização da identidade não afeta apenas indivíduos isolados. Ela altera as condições de produção do comum.


O efeito político é grave. Se o sujeito se acostuma a existir como marca, também pode passar a perceber os outros menos como cidadãos e mais como perfis concorrentes. O laço social enfraquece. O debate público se estetiza. A política se emocionaliza de maneira calculada. E a diferença, em vez de produzir experiência democrática, corre o risco de ser absorvida como nicho, segmento ou ativo de engajamento.


A promessa de emancipação digital, portanto, precisa ser revista com seriedade. As plataformas abriram possibilidades reais de fala, circulação e visibilidade. Isso é verdade. Mas também instituíram um regime em que a fala se torna dado, a visibilidade se torna métrica e a subjetividade se torna campo de extração. O problema não é simplesmente falar de si. O problema é quando o sistema inteiro exige que o sujeito exista prioritariamente como vitrine.



Conclusão


A frase que resume o nosso tempo talvez seja esta: já não basta consumir; é preciso ser consumível. O neoliberalismo contemporâneo, intensificado pelas plataformas digitais, deslocou a identidade do campo da constituição subjetiva para o campo da valorização simbólica. O “eu” tornou-se projeto, marca, interface, ativo reputacional e matéria-prima algorítmica.


Esse processo não elimina a subjetividade, mas a reorganiza. Não apaga a autenticidade, mas a captura. Não destrói os afetos, mas os reinscreve em circuitos de visibilidade, mensuração e troca. A identidade continua sendo lugar de pertencimento, disputa e memória, mas passa a funcionar também como unidade econômica de atenção e previsibilidade. Em outras palavras: ser alguém converte-se, cada vez mais, em parecer algo reconhecível, compartilhável e rentável.


A crítica a esse fenômeno não pede nostalgia de um passado puro, sem mídia ou sem mercado. Pede lucidez. É preciso reconhecer que, sob a racionalidade neoliberal, até a intimidade pode ser transformada em infraestrutura de valor. E, uma vez que isso acontece, a liberdade de expressão corre o risco de ser colonizada pela obrigação de performance.


Defender a dignidade do sujeito, hoje, talvez implique recolocar uma pergunta antiga em cenário novo: o que resta da experiência humana quando até a identidade passa a circular como mercadoria? Essa não é uma pergunta marginal. É uma das questões centrais do século XXI.



Referências


BANET-WEISER, Sarah. Authentic™: the politics of ambivalence in a brand culture. New York: New York University Press, 2012.


BROWN, Wendy. Undoing the demos: neoliberalism’s stealth revolution. New York: Zone Books, 2015.


DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.


FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.


HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.


HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Petrópolis: Vozes, 2018.


HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.


HEARN, Alison. Reality television, The Hills, and the limits of the immaterial labour thesis. tripleC, [s. l.], v. 8, n. 1, p. 60-76, 2010.


ILLOUZ, Eva. Cold intimacies: the making of emotional capitalism. Cambridge: Polity Press, 2007.


KHAMIS, Susie; ANG, Lawrence; WELLING, Raymond. Self-branding, micro-celebrity and the rise of social media influencers. Celebrity Studies, [s. l.], v. 8, n. 2, p. 191-208, 2017.


SENFT, Theresa M. Microcelebrity and the branded self. In: HARTLEY, John; BURGESS, Jean; BRUNS, Axel (org.). A companion to new media dynamics. Malden: Wiley-Blackwell, 2013.


VAN DIJCK, José; POELL, Thomas; DE WAAL, Martijn. The platform society: public values in a connective world. New York: Oxford University Press, 2018.


ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.