sábado, 25 de abril de 2026

O falso salvador: religião, medo e manipulação política na era da tecnopolítica

Quando a fé deixa de ser experiência espiritual e passa a ser usada como arma eleitoral, a democracia corre o risco de trocar cidadãos por fiéis políticos e projetos de país por promessas messiânicas.


Lide

A religião pode ser fonte de ética, solidariedade, esperança e compromisso com a dignidade humana. Mas, quando instrumentalizada por projetos de poder, pode se transformar em uma das formas mais perigosas de manipulação política. O problema não está na fé do povo, mas no uso da fé como tecnologia de medo. O “salvador da pátria” contemporâneo não se apresenta apenas como gestor, candidato ou líder. Muitas vezes, apresenta-se como escolhido, ungido, defensor do bem contra o mal. Nesse momento, a política deixa de ser debate público e passa a assumir a forma de guerra moral. E é exatamente aí que mora o perigo.



1. A fé como força social e o risco de sua captura política

A religião é uma das forças simbólicas mais poderosas da vida humana. Ela organiza valores, dá sentido ao sofrimento, sustenta comunidades, cria redes de solidariedade e oferece esperança em tempos de crise. Nenhuma análise séria pode tratar a fé popular como ignorância. Isso seria injusto, elitista e historicamente equivocado.

O problema começa quando lideranças políticas percebem que a fé pode ser convertida em capital eleitoral. Nesse caso, Deus deixa de ser referência espiritual e passa a ser usado como selo de legitimação política. O púlpito vira palanque. A crença vira disciplina eleitoral. A comunidade de fé vira base de mobilização. A dúvida vira pecado. A crítica vira traição.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Estudos sobre religião e populismo mostram que líderes autoritários e movimentos populistas frequentemente mobilizam identidades religiosas para dividir a sociedade entre “povo puro” e “inimigos corruptos”, associando adversários a ameaças morais, culturais ou civilizacionais (Yilmaz; Morieson, 2021).  

A religião, nesse uso distorcido, deixa de elevar a consciência moral da sociedade e passa a organizar medo, obediência e ressentimento.



2. O “salvador da pátria” como figura religiosa secularizada

O “salvador da pátria” é uma figura política com aparência religiosa. Ele pode não se declarar divino, mas se apresenta como alguém investido de missão superior. Fala como se estivesse acima da política comum. Aparece como instrumento de redenção nacional. Coloca-se como barreira final contra o caos.

Essa estrutura é messiânica: há um povo sofrido, uma crise profunda, um inimigo ameaçador e um líder que promete salvação.

A política democrática, porém, não funciona por salvação. Funciona por instituições, leis, orçamento, planejamento, fiscalização, alternância de poder e responsabilidade pública. Quando o líder se apresenta como salvador, ele já começa a deslocar a política do campo republicano para o campo da devoção.

É nesse ponto que a metáfora do “anticristo” pode ser compreendida criticamente: não como acusação religiosa literal contra uma pessoa específica, mas como imagem simbólica do falso redentor. Aquele que se apresenta como defensor do bem, mas usa o medo, a fé e a esperança do povo para concentrar poder.

O falso salvador não chega dizendo que vai destruir a democracia. Ele chega dizendo que vai protegê-la. Não chega prometendo opressão. Promete ordem. Não começa destruindo direitos. Começa dizendo que combaterá inimigos. Não pede obediência total no primeiro dia. Primeiro pede confiança absoluta.



3. A criação do inimigo: o “outro” como ameaça moral

Nenhum salvador político se sustenta sem a criação de um inimigo. Esse inimigo pode receber muitos nomes: comunista, globalista, corrupto, herege, inimigo da família, inimigo de Deus, traidor da pátria, ameaça à moral, ameaça à liberdade.

A técnica é sempre semelhante: transformar o adversário político em inimigo existencial.

Em uma democracia saudável, o adversário é alguém com quem se discorda. Em uma política contaminada pelo messianismo religioso, o adversário passa a ser visto como encarnação do mal. Quando isso acontece, a convivência democrática se degrada.

Esse mecanismo é perigoso porque desumaniza. Se o outro é apenas alguém que pensa diferente, deve ser debatido. Mas, se o outro é tratado como inimigo de Deus, inimigo da pátria ou força demoníaca, então qualquer ataque contra ele passa a parecer justificável.

É assim que a política se torna guerra moral.

A literatura sobre populismo mostra que esse tipo de discurso costuma dividir a sociedade entre um “povo puro” e elites ou grupos considerados corruptos, perigosos ou ilegítimos. Essa divisão simplifica a realidade e permite que o líder se apresente como único intérprete verdadeiro da vontade popular (Pew Research Center, 2022).  



4. O medo como método de governo

O medo é uma das emoções mais eficazes na política. Ele reduz a complexidade, acelera julgamentos e torna a população mais receptiva a soluções autoritárias.

Quando a religião é usada politicamente, o medo ganha uma dimensão ainda mais profunda. Não se trata apenas de medo econômico ou medo da violência. Trata-se de medo espiritual, medo moral, medo de perder a família, medo de perder Deus, medo de ver a sociedade destruída por forças malignas.

Esse medo produz obediência.

O cidadão deixa de perguntar: “qual é o programa de governo?”
E passa a perguntar: “quem vai nos proteger do mal?”

Essa mudança é devastadora. A política deixa de ser espaço de deliberação racional e se transforma em campo de batalha emocional. O líder que domina o medo não precisa apresentar políticas públicas consistentes. Basta manter a população em estado permanente de ameaça.

Quanto mais medo, menos reflexão.
Quanto mais pânico moral, menos análise.
Quanto mais inimigos imaginários, menos cobrança concreta.



5. Projetos que parecem dar certo: a armadilha inicial

Uma das partes mais importantes dessa análise está na ideia de que projetos autoritários nem sempre começam fracassando. Muitas vezes, começam produzindo resultados aparentemente positivos.

No início, pode haver sensação de ordem.
Pode haver aumento de popularidade.
Pode haver obras simbólicas.
Pode haver medidas de impacto imediato.
Pode haver discurso moralizador.
Pode haver melhora localizada em alguns indicadores.
Pode haver forte propaganda de eficiência.

É assim que a armadilha se fecha.

O falso salvador precisa demonstrar algum sucesso inicial para convencer a população de que vale a pena entregar mais poder. A lógica é simples: “se ele resolveu isso, devemos deixá-lo ir mais longe”. Aos poucos, a crítica passa a ser tratada como sabotagem. A imprensa vira inimiga. A universidade vira ameaça. O Judiciário vira obstáculo. A oposição vira traição. A Constituição vira detalhe.

A destruição democrática raramente começa com aparência de destruição. Muitas vezes começa com aparência de eficiência.

Esse é o ponto mais sofisticado: o falso salvador não precisa falhar no começo. Pelo contrário, ele precisa parecer funcionar.



6. Religião, nacionalismo e culto ao líder

A fusão entre religião, nacionalismo e liderança carismática é uma combinação politicamente explosiva.

Quando o líder diz defender Deus, pátria e família, ele pode estar defendendo valores legítimos. Mas também pode estar usando esses valores como escudo contra qualquer crítica. O problema não está nas palavras. Está na operação política feita com elas.

“Deus” pode virar autorização simbólica.
“Pátria” pode virar exclusão dos discordantes.
“Família” pode virar instrumento de perseguição moral.
“Liberdade” pode virar licença para atacar instituições.
“Ordem” pode virar justificativa para violência de Estado.

A análise sobre a direita cristã no Brasil mostra que religião, família, moralidade e política passaram a ocupar lugar central no governo Bolsonaro, especialmente em pautas de costumes, disputas culturais e mobilização conservadora (Carranza, 2024).  

Isso não significa que todo religioso seja autoritário, nem que toda presença religiosa na política seja ilegítima. Significa apenas que a religião pode ser capturada por projetos políticos que usam valores espirituais para produzir obediência eleitoral.



7. A tecnopolítica religiosa: o púlpito ampliado pelo algoritmo

A novidade contemporânea é que a manipulação religiosa não depende apenas do templo, do culto, da missa, da pregação ou do programa de rádio. Agora ela circula por vídeos curtos, grupos de mensagem, cortes emocionais, lives, memes, perfis falsos, influenciadores religiosos e inteligência artificial.

O algoritmo se tornou uma espécie de púlpito invisível.

Ele não prega uma doutrina, mas seleciona aquilo que a pessoa verá repetidamente. Se o usuário reage a conteúdos de medo, recebe mais medo. Se reage a conteúdos de indignação moral, recebe mais indignação. Se consome vídeos sobre perseguição religiosa, recebe mais conteúdos sobre ameaça, guerra cultural e inimigos da fé.

Assim se forma uma bolha espiritualizada de medo político.

O eleitor passa a acreditar que está vendo a realidade, quando na verdade está recebendo uma sequência personalizada de conteúdos desenhados para reforçar suas crenças e vulnerabilidades emocionais.

O TSE já reconheceu a gravidade do uso de inteligência artificial no processo eleitoral. A Resolução nº 23.732/2024 regulamentou o uso de conteúdo sintético, impôs deveres de informação e proibiu manipulações capazes de afetar a integridade da propaganda eleitoral (TSE, 2024).  

Isso é decisivo para 2026. A próxima eleição presidencial brasileira ocorrerá em ambiente no qual religião, IA, deepfakes, desinformação e guerra cultural poderão se combinar de maneira extremamente perigosa.



8. O Brasil e a eleição de 2026: fé, voto e responsabilidade democrática

O Brasil é uma sociedade profundamente religiosa. Isso não é defeito. É parte de sua formação histórica, cultural e social. O risco está em transformar religiosidade em obediência eleitoral automática.

Em 2026, a população brasileira precisará fazer uma distinção fundamental: uma coisa é votar a partir de valores religiosos; outra, muito diferente, é aceitar que líderes políticos usem Deus como ferramenta de blindagem.

Nenhum candidato deve estar acima da crítica porque fala em nome da fé.
Nenhum governante deve ser tratado como escolhido divino.
Nenhum projeto político deve ser aceito sem análise porque usa linguagem religiosa.
Nenhuma liderança deve transformar adversários em demônios sociais.
Nenhuma campanha deve usar o medo espiritual para capturar o voto.

A democracia exige que o eleitor pergunte:

qual é o projeto econômico?
qual é o plano para educação?
qual é a proposta para saúde?
qual é a política industrial?
qual é a estratégia para segurança pública?
qual é o compromisso com a Constituição?
qual é a posição diante das instituições?
o candidato aceita perder?
respeita a imprensa?
respeita a ciência?
respeita minorias?
respeita a diversidade religiosa?

Essas perguntas são mais importantes do que slogans de campanha.



9. A verdadeira espiritualidade não precisa de culto político

A fé autêntica não precisa transformar político em santo. Também não precisa transformar adversário em demônio.

Religião, quando vivida em sua dimensão ética mais profunda, pode fortalecer a democracia. Pode defender os pobres, proteger os vulneráveis, promover justiça social, estimular solidariedade e denunciar abusos de poder.

Há tradições cristãs, católicas, evangélicas, espíritas, afro-brasileiras, judaicas, islâmicas, budistas e tantas outras que historicamente produziram obras sociais, defesa de direitos humanos e resistência à opressão. Portanto, o problema não é a presença pública da religião. O problema é sua captura pelo autoritarismo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, setores cristãos progressistas têm reagido ao nacionalismo cristão, afirmando que políticas de guerra, perseguição a migrantes e militarização contradizem valores centrais da tradição cristã, como paz, acolhimento e justiça social.  

Isso mostra que religião não é sinônimo de autoritarismo. A religião pode ser libertadora ou opressora, dependendo de como é mobilizada.



10. Como reconhecer o falso salvador

O falso salvador tem sinais reconhecíveis.

Ele se apresenta como único capaz.
Diz que todos os outros são corruptos ou inimigos.
Usa linguagem religiosa para se blindar.
Estimula medo constante.
Ataca imprensa, ciência, universidades e instituições.
Transforma crítica em perseguição.
Promete soluções simples para problemas complexos.
Fala mais de inimigos do que de políticas públicas.
Mistura fé com obediência política.
Sugere que sua vitória é vontade divina.
Insinua que sua derrota só pode ser fraude, conspiração ou ação do mal.

Quando muitos desses sinais aparecem juntos, a democracia deve acender o alerta vermelho.

O cidadão religioso não precisa abandonar sua fé para ser democrático. Pelo contrário: pode usar sua fé para exigir honestidade, humildade, justiça, compaixão e respeito à dignidade humana. O que não pode é entregar sua consciência política a líderes que usam Deus como instrumento de manipulação.



Conclusão: a fé não pode ser sequestrada pelo poder

A eleição presidencial de 2026 será um teste não apenas para as instituições brasileiras, mas para a maturidade política da população. O país terá de decidir se escolherá um presidente da República ou se buscará novamente um salvador da pátria.

Essa diferença é decisiva.

Presidente governa dentro da Constituição.
Salvador se apresenta acima dela.

Presidente presta contas.
Salvador exige fé.

Presidente aceita crítica.
Salvador acusa críticos de traição.

Presidente respeita limites.
Salvador trata limites como obstáculos ao bem.

Presidente é servidor temporário do Estado.
Salvador tenta se confundir com a própria nação.

Quando a religião é usada para fabricar esse tipo de liderança, o risco se torna ainda maior, porque a manipulação deixa de atuar apenas sobre opiniões políticas e passa a tocar a região mais íntima da pessoa: sua fé, seu medo, sua esperança, sua ideia de bem e mal.

É por isso que o debate precisa ser feito com coragem e serenidade. Não se trata de atacar igrejas, templos, pastores, padres, líderes religiosos ou fiéis. Trata-se de defender a própria religião contra sua captura por projetos de poder. Fé não deve ser curral eleitoral. Igreja não deve ser fábrica de obediência política. Deus não deve ser usado como cabo eleitoral de nenhum projeto autoritário.

O falso salvador pode aparecer com discurso bonito, linguagem moral, promessas de ordem e aparência de bondade. Pode apresentar projetos que, no começo, parecem funcionar. Pode seduzir a população cansada, ferida e descrente. Mas, quando exige obediência cega, quando cria inimigos absolutos, quando transforma crítica em pecado, quando usa medo para governar e quando se coloca acima das instituições, deixa de ser liderança democrática e passa a ser ameaça.

O Brasil precisa de fé, mas não de fanatismo político. Precisa de esperança, mas não de ilusão messiânica. Precisa de líderes, mas não de ídolos. Precisa de religião viva, ética e solidária, não de religião sequestrada por projetos de poder.

Em 2026, a pergunta essencial não será apenas em quem votar. Será esta: o voto nascerá da consciência livre ou do medo manipulado?

Essa pergunta vale para o Brasil e para qualquer país democrático. Onde a fé é usada para libertar, a democracia respira. Onde a fé é usada para obedecer cegamente, a democracia começa a morrer por dentro.


Referências

CARRANZA, Brenda. Democracy and the Christian Right in Brazil: family, religion, and politics. Religions, v. 15, n. 6, 2024.

PEW RESEARCH CENTER. Classifying populist political parties. Washington, DC: Pew Research Center, 2022.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resolução nº 23.732, de 27 de fevereiro de 2024. Brasília, DF: TSE, 2024.

YILMAZ, Ihsan; MORIESON, Nicholas. A systematic literature review of populism, religion and emotions. Religions, 2021.

THE GUARDIAN. Progressive Christians stake a claim to their religion amid Trump-pope feud. Londres, 25 abr. 2026.


O novo “Salvador da Pátria”: Sassá Mutema, tecnopolítica, educação e o risco democrático nas eleições de 2026

Da novela de 1989 ao algoritmo eleitoral contemporâneo, o Brasil enfrenta uma questão decisiva: escolherá projetos verificáveis de governo ou continuará vulnerável ao mito do líder providencial?


Lide

A figura de Sassá Mutema, personagem central de O Salvador da Pátria, permanece atual porque revela uma fragilidade estrutural da política brasileira: a tendência de transformar carência social, medo coletivo e desinformação em matéria-prima para a fabricação de líderes messiânicos. Em 1989, essa fabricação passava pelo rádio, pela televisão, pelos coronéis locais e pelos palanques. Em 2026, passa também pelos algoritmos, pela inteligência artificial, pelos vídeos curtos, pelas bolhas digitais, pelos disparos segmentados e pela manipulação emocional do eleitor. O problema não é apenas escolher mal um presidente. O problema é quando a sociedade deixa de escolher projetos e passa a consumir personagens.



1. Sassá Mutema e o velho mito do redentor popular

Sassá Mutema não é apenas um personagem marcante da teledramaturgia brasileira. Ele é uma metáfora política. Em O Salvador da Pátria, Lauro César Muniz construiu um personagem simples, vulnerável, socialmente marginalizado, que passa a ser usado por forças políticas mais poderosas. A novela foi exibida em 1989, ano da primeira eleição presidencial direta após quase três décadas, e dialogava com aquele ambiente de redemocratização, incerteza institucional e disputa pela imaginação popular.  

A potência crítica da novela está justamente aí: Sassá não nasce como líder plenamente consciente. Ele é convertido em símbolo. E símbolo, quando manipulado, pode substituir o debate racional. A política deixa de ser disputa entre projetos e passa a ser teatro emocional.

Essa lógica permanece viva. A política brasileira continua marcada por personagens apresentados como “homens do povo”, “salvadores”, “outsiders”, “gestores milagrosos”, “defensores da moral” ou “última esperança nacional”. A embalagem muda; a estrutura permanece.

O perigo é evidente: quando o eleitor busca um redentor, ele abre mão de exigir programa, orçamento, equipe, planejamento, avaliação de políticas públicas e compromisso institucional. A fé política substitui a cidadania.



2. De 1989 à era dos algoritmos

Em 1989, rádio, televisão, jornal impresso e comícios eram os grandes mediadores da política. Hoje, o centro da disputa deslocou-se para plataformas digitais, redes sociais, aplicativos de mensagem, inteligência artificial generativa e sistemas de recomendação.

A diferença é profunda. Antes, a manipulação era mais centralizada e visível. Hoje, ela é descentralizada, personalizada e muitas vezes invisível. O eleitor acredita estar vendo “o que todo mundo está vendo”, mas frequentemente está preso a uma bolha construída a partir de seus próprios medos, preferências e hábitos digitais.

A política contemporânea não disputa apenas votos. Disputa percepção. Disputa atenção. Disputa emoção.

É por isso que a eleição de 2026 no Brasil precisa ser analisada para além da pergunta “quem será o próximo presidente?”. A questão mais importante é outra: em que condições informacionais o eleitor brasileiro formará sua decisão?

O TSE já reconheceu a gravidade desse cenário ao aprovar regras sobre uso de inteligência artificial, deepfakes e propaganda eleitoral. A Resolução nº 23.732/2024 passou a exigir maior controle sobre conteúdos sintéticos e proibiu manipulações capazes de degradar a integridade do processo eleitoral.  

Esse dado é decisivo: se a Justiça Eleitoral precisou regulamentar IA e deepfakes, é porque a democracia já entrou em uma nova fase de vulnerabilidade.



3. O “Sassá digital”

O “Sassá digital” não precisa ser pobre, analfabeto ou ingênuo. Pode ser sofisticado, midiático, rico, religioso, militarizado, tecnocrático ou populista. O que o define não é sua origem social, mas sua função política: ocupar o lugar simbólico do salvador.

Esse personagem costuma operar por simplificações brutais:

“vou acabar com a corrupção”;
“vou resolver a segurança pública”;
“vou salvar a economia”;
“vou moralizar o país”;
“vou derrotar os inimigos da nação”.

São frases fortes, mas insuficientes. Nenhuma delas responde às perguntas fundamentais da gestão pública:

Com qual orçamento?
Com qual equipe?
Com qual base legal?
Com qual articulação federativa?
Com quais indicadores?
Com qual prazo?
Com qual controle social?
Com quais efeitos colaterais?

O “Sassá digital” vive da recusa da complexidade. Ele vende clareza onde há conflito, rapidez onde há processo, punição onde deveria haver política pública e identidade emocional onde deveria haver projeto nacional.



4. A tecnopolítica como nova fábrica do salvador

A tecnopolítica não é apenas o uso de redes sociais em campanhas. É a reorganização da política pela lógica dos dados, dos algoritmos, da visibilidade digital e da manipulação da atenção.

Na política tradicional, o candidato tentava convencer multidões. Na política algorítmica, tenta-se atingir indivíduos ou grupos específicos com mensagens moldadas para suas emoções particulares.

Isso muda tudo.

O eleitor religioso recebe uma mensagem.
O eleitor inseguro recebe outra.
O jovem recebe outra.
O empresário recebe outra.
O servidor público recebe outra.
O trabalhador precarizado recebe outra.
O eleitor revoltado recebe outra.

A democracia deixa de ter uma esfera pública comum e passa a ser fragmentada em pequenas realidades emocionais. Cada bolha recebe sua própria versão do país.

Esse fenômeno enfraquece o debate público porque impede a construção de consensos mínimos. A sociedade deixa de discutir problemas comuns e passa a disputar narrativas privadas.

No limite, a tecnopolítica pode transformar a eleição em uma guerra de percepções, não em uma escolha racional entre projetos de Estado.



5. O eleitor como alvo de engenharia emocional

O eleitor contemporâneo não é visto apenas como cidadão. É visto como perfil de dados.

Suas curtidas, buscas, medos, ressentimentos, hábitos religiosos, consumo de notícias, localização e preferências culturais podem ser usados para prever comportamentos e moldar mensagens políticas.

Essa engenharia emocional não precisa convencer pela razão. Basta ativar medo, raiva, ressentimento, humilhação, nostalgia ou sensação de ameaça.

A política do salvador precisa de uma sociedade emocionalmente cansada. Quanto maior o medo, maior a demanda por autoridade. Quanto maior a insegurança, maior a sedução por soluções duras. Quanto maior a frustração econômica, maior a chance de prosperarem discursos contra “inimigos internos”.

Aqui está o ponto crítico: uma população economicamente pressionada, educacionalmente fragilizada e digitalmente exposta torna-se mais vulnerável à promessa autoritária.

É por isso que a democracia não depende apenas de urnas funcionando. Depende de cidadãos com condições materiais, cognitivas e informacionais para escolher livremente.



6. A Professora Clotilde como metáfora da emancipação

Na novela, a professora Clotilde representa mais do que uma personagem afetiva. Ela simboliza a educação como ruptura da manipulação.

Sassá começa a se transformar quando deseja aprender. A alfabetização, nesse sentido, não é apenas técnica. É política. Quem aprende a ler deixa de depender completamente da interpretação dos outros.

Hoje, essa alfabetização precisa ser ampliada. O cidadão precisa aprender a ler textos, números, imagens, vídeos, discursos, estatísticas, plataformas e algoritmos.

A nova alfabetização democrática envolve três dimensões:

alfabetização política, para compreender Estado, Constituição, orçamento, políticas públicas e instituições;

alfabetização midiática, para diferenciar jornalismo, propaganda, opinião, manipulação e mentira;

alfabetização algorítmica, para entender que as redes sociais não mostram “a realidade”, mas uma realidade filtrada por interesses econômicos, políticos e tecnológicos.

Sem isso, o eleitor vota, mas não necessariamente escolhe. Apenas reage.



7. O papel da educação na defesa da democracia

A educação é o principal antídoto contra o messianismo político. Não porque transforme todos em especialistas, mas porque cria condições para que a população não seja facilmente capturada por slogans, boatos, falsas promessas e personagens fabricados.

O papel da educação deve ser compreendido em sentido amplo.

Primeiro, a educação básica precisa formar leitores competentes. Um país que não lê bem interpreta mal a política. Quem não compreende texto, gráfico, orçamento, notícia e argumento torna-se presa fácil de frases de efeito.

Segundo, a educação científica precisa ensinar método. Ciência não é apenas conteúdo; é forma de pensar. Ensinar ciência é ensinar dúvida, evidência, comparação, causalidade, hipótese, teste e revisão. Isso é essencial para enfrentar fake news e manipulações eleitorais.

Terceiro, a educação histórica precisa mostrar que democracias morrem também por dentro. Não é necessário haver tanques nas ruas para que uma democracia adoeça. Ela pode ser corroída por ataques às instituições, desprezo à imprensa, culto ao líder, naturalização da violência política e deslegitimação permanente do processo eleitoral.

Quarto, a educação política precisa deixar de ser tabu. Escola não deve fazer doutrinação partidária, mas deve formar consciência constitucional. Ensinar democracia não é ensinar em quem votar. É ensinar por que o voto deve ser livre, informado, plural e protegido.

Quinto, a educação digital tornou-se indispensável. Não basta colocar internet na escola. É preciso ensinar como plataformas funcionam, como algoritmos recomendam conteúdo, como discursos extremistas se espalham, como imagens podem ser manipuladas e como a inteligência artificial pode produzir textos, vozes e vídeos falsos.

Sexto, a educação profissional e tecnológica deve formar trabalhadores capazes de compreender o mundo produtivo contemporâneo. Instituições como os Institutos Federais têm papel estratégico porque unem ciência, técnica, cidadania e desenvolvimento regional. Elas podem formar jovens capazes de usar tecnologia, mas também de criticá-la.

Sétimo, a formação docente precisa ser profundamente atualizada. O professor não pode ser reduzido a operador de ferramentas digitais. Ele precisa compreender sociologia das redes, economia política das plataformas, inteligência artificial, desinformação e cultura democrática.

A UNESCO tem insistido que a IA na educação precisa preservar agência humana, pensamento crítico, ética e inclusão, especialmente diante da inteligência artificial generativa.  

Portanto, a educação democrática do século XXI precisa formar o cidadão que pergunta:

isso é verdade?
quem produziu essa mensagem?
quem ganha com minha raiva?
há evidências?
há orçamento?
há projeto?
há respeito às instituições?
há compromisso com a Constituição?

Quando essas perguntas entram na cultura política, o salvador perde força.



8. Contra o salvador, o projeto

A política democrática não deve ser baseada em fé pessoal. Deve ser baseada em projeto público.

O salvador promete.
O projeto demonstra.

O salvador emociona.
O projeto calcula.

O salvador acusa.
O projeto diagnostica.

O salvador personaliza.
O projeto institucionaliza.

O salvador pede lealdade.
O projeto aceita fiscalização.

Essa diferença precisa orientar o debate eleitoral de 2026. O Brasil não deve analisar candidaturas apenas por carisma, rejeição, identidade ideológica ou força nas redes. Deve exigir programa, viabilidade, respeito institucional e compromisso democrático.

Isso vale para qualquer país que escolha seu chefe do Executivo por voto popular. Democracias presidencialistas são especialmente vulneráveis ao mito do líder providencial porque concentram enorme expectativa simbólica na figura do presidente.

Quando o presidente é tratado como “pai”, “mito”, “salvador”, “ungido”, “predestinado” ou “único capaz”, a democracia enfraquece. O Executivo deixa de ser uma função republicana e passa a ser objeto de culto político.



9. A política atual e o risco de 2026

O Brasil chega a 2026 em um ambiente de forte polarização, desgaste institucional e disputa intensa pela narrativa pública. Relatórios internacionais ainda classificam o país como democracia competitiva, com debate público vibrante, mas também apontam problemas como violência política, ataques a jornalistas, exclusão econômica e desconfiança pública alimentada por corrupção e polarização.  

Esse quadro exige cautela analítica. A eleição de 2026 não deve ser tratada como disputa comum de marketing. Ela ocorrerá em um mundo de inteligência artificial generativa, manipulação audiovisual, radicalização digital e crise global das democracias.

A experiência brasileira recente demonstrou que discursos contra instituições, ataques ao sistema eleitoral e tentativas de deslegitimar resultados podem produzir efeitos concretos. Em 2025, veículos internacionais noticiaram a condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe, fato que agravou a polarização e colocou o debate democrático brasileiro sob observação mundial.  

Esse dado não deve ser usado como propaganda partidária, mas como alerta institucional: democracias precisam de lideranças que aceitem limites, regras, derrotas eleitorais e alternância de poder.

A questão de 2026, portanto, não é apenas quem vencerá. É se a população escolherá com base em projetos verificáveis ou se será conduzida novamente pela estética do salvador.



Conclusão

O Brasil de 2026 estará diante de uma escolha que ultrapassa nomes, partidos e campanhas. A questão central será saber se a sociedade brasileira amadureceu o suficiente para distinguir liderança democrática de messianismo político, projeto nacional de espetáculo eleitoral, coragem pública de autoritarismo performático, crítica legítima de destruição institucional.

A figura de Sassá Mutema permanece viva porque o país ainda convive com a tentação de transformar frustração social em devoção política. O problema não está em desejar mudança. Toda democracia precisa de mudança. O problema está em acreditar que mudança real virá de um personagem providencial, imune à crítica, superior às instituições e dispensado de apresentar projeto consistente.

Nas eleições presidenciais de 2026, a população brasileira terá a responsabilidade de avaliar não apenas promessas, mas a qualidade democrática de quem as faz. Um presidente da República não é um salvador. É um agente constitucional temporário, submetido à lei, ao controle público, à imprensa, ao Congresso, ao Judiciário, à sociedade civil e aos limites do Estado Democrático de Direito.

Essa análise também vale para qualquer país que escolha seu chefe do Executivo em contexto democrático. Onde há medo, desigualdade, desinformação e baixa educação política, sempre haverá espaço para falsos redentores. Onde há cidadania crítica, educação robusta, imprensa livre, instituições respeitadas e cultura democrática, o mito do salvador perde terreno.

A pergunta decisiva para 2026 não será apenas “quem vencerá?”. A pergunta mais profunda será: o eleitorado escolherá um projeto de país ou uma fantasia de salvação?

A democracia brasileira não precisa de um novo Sassá Mutema fabricado por algoritmos. Precisa de cidadãos capazes de reconhecer quando estão tentando fabricá-lo.


Referências

FREEDOM HOUSE. Brazil: Freedom in the World 2025 Country Report. Washington, DC: Freedom House, 2025.

MEMÓRIA GLOBO. O Salvador da Pátria. Rio de Janeiro: Globo, 2021.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resolução nº 23.732, de 27 de fevereiro de 2024. Brasília, DF: TSE, 2024.

UNESCO. Guidance for generative AI in education and research. Paris: UNESCO, 2023.

V-DEM INSTITUTE. Democracy Report 2025. Gothenburg: University of Gothenburg, 2025.