domingo, 8 de fevereiro de 2026

Capitalismo “criou” o comunismo? A genealogia real de uma ideia que virou arma política

 Entre contradições históricas e “inimigos úteis”: por que capitalismo e comunismo se espelham mais do que admitem


A afirmação de que “o capitalismo criou o comunismo porque precisava de um inimigo para sobreviver” é sedutora: simples, memorável e politicamente explosiva. O problema é que, do ponto de vista histórico, ela mistura duas coisas distintas. Primeiro, a ideia de que o socialismo moderno emergiu como resposta às contradições do capitalismo industrial. Segundo, a constatação de que, no século XX, o anticomunismo funcionou como tecnologia de coesão interna e legitimação geopolítica do Ocidente. Ao separar essas camadas, aparece um quadro mais perturbador: capitalismo e comunismo “realmente existente” não foram apenas rivais — foram, muitas vezes, versões concorrentes de uma mesma modernidade organizadora, produtivista e burocrática, cujo motor era a disputa por controle social, trabalho e futuro.



1. A frase provocativa e o problema do slogan


1.1 “Criou” em que sentido?


Dizer que o capitalismo “criou” o comunismo pode significar três coisas bem diferentes:

Criação histórica indireta: o comunismo surge como resposta às crises e desigualdades geradas pelo capitalismo.

Criação política funcional: elites capitalistas precisam da figura do comunismo como ameaça para organizar alianças, disciplinar dissenso e justificar estratégias de poder.

Criação deliberada (conspiratória): capitalistas teriam inventado o comunismo intencionalmente como inimigo.


A terceira é a mais fraca: costuma aparecer como retórica, não como explicação histórica séria. O que a bibliografia robusta sustenta, com nuances e conflitos entre autores, são as duas primeiras: genealogia estrutural e função político-ideológica.


1.2 Duas teses que costumam ser confundidas


A confusão nasce porque ambas produzem uma intuição parecida: “o comunismo não cai do céu; ele se encaixa no jogo do capitalismo”. Só que o encaixe pode ser de origem (nasce das contradições) ou de uso (vira instrumento de legitimação). Separar isso é o primeiro passo para não cair em slogan.



2. A genealogia: como o capitalismo produz seu “negativo”


2.1 Marx e Engels: o antagonista nasce dentro do processo


Marx e Engels descrevem o capitalismo como um sistema que universaliza mercados, acelera produtividade e reorganiza a vida social — e, ao fazer isso, cria também suas fraturas. A formulação mais conhecida é que a burguesia “produz seus próprios coveiros”, ao formar o proletariado moderno e as condições materiais para conflitos de classe (MARX; ENGELS, 1848).


O ponto aqui não é profecia mecânica; é lógica histórica: quando uma sociedade passa a depender do trabalho assalariado, da disciplina fabril, de crises periódicas e de desigualdades estruturais, ela também passa a gerar ideias, organizações e movimentos que contestam essa estrutura. Em outras palavras: o comunismo moderno — como teoria e movimento — não é um meteoro; é um produto interno da modernidade capitalista.


2.2 Polanyi: quando o mercado tenta engolir a sociedade


Polanyi aprofunda o argumento por outra via. Ele mostra que a tentativa de organizar toda a sociedade como mercado — transformando trabalho, terra e dinheiro em “mercadorias” — gera desintegração social e reação política. Sua tese do “contramovimento” é essencial: a sociedade reage para se proteger, criando instituições e políticas que reencaixam o mercado em limites sociais (POLANYI, 1944).


Nesse quadro, socialismos, regulações e Estados de bem-estar aparecem como respostas históricas a um mercado que pretende governar tudo. E Polanyi chega a afirmar que fascismo e socialismo, apesar de opostos, emergem do mesmo drama: a crise de uma sociedade de mercado que falha em se sustentar (POLANYI, 1944). É aqui que a provocação ganha densidade: o capitalismo não “inventa” o socialismo; mas cria a instabilidade que torna o socialismo um horizonte plausível.


2.3 Sistema-mundo: movimentos antissistêmicos como produto do sistema


A leitura do sistema-mundo reforça que esses antagonismos não nascem apenas no centro industrial. Arrighi, Hopkins e Wallerstein analisam movimentos antissistêmicos como parte da própria dinâmica do capitalismo histórico — especialmente quando o sistema produz hierarquias centro-periferia e ciclos de crise (ARRIGHI; HOPKINS; WALLERSTEIN, 1989).


Essa chave é fundamental porque explica por que revoluções e projetos comunistas ganharam força em periferias e semiperiferias: o comunismo pode operar como promessa de soberania econômica, industrialização acelerada e ruptura com a dependência, ainda que ao custo de formas autoritárias de organização. A genealogia, então, fica ainda mais clara: o capitalismo global cria periferias; as periferias buscam saídas; algumas saídas assumem a forma de projeto comunista.



3. A função política do comunismo como “inimigo”


Até aqui, o comunismo aparece como produto indireto das contradições do capitalismo. Mas há outra camada: o comunismo como inimigo funcional na arquitetura política do século XX.


3.1 Wallerstein: anticomunismo como cimento de unidade e hegemonia


Wallerstein argumenta que a hegemonia dos EUA no pós-guerra se sustentou por pilares, e um deles foi a unidade interna e a legitimação de um papel global — em grande medida ancoradas no anticomunismo (WALLERSTEIN, 1993). Isso muda a conversa: não se trata de dizer que a ameaça era inventada “do nada”, mas de observar que a existência de um inimigo sistêmico ajuda a organizar consentimento, gasto militar, alianças e disciplina política.


A pergunta incômoda surge naturalmente: quanto do “mundo livre” foi liberdade e quanto foi gestão do medo?


3.2 Westad: Guerra Fria global e periferias como tabuleiro


Westad amplia o cenário: a Guerra Fria não foi apenas um duelo Europa–EUA–URSS. Ela se globalizou, e boa parte do conflito se deu no chamado “Terceiro Mundo”, com intervenções, guerras por procuração e projetos de engenharia política (WESTAD, 2007). Isso fortalece a tese funcional: o inimigo comunista — e o anticomunismo — vira linguagem de legitimidade para ações concretas, com impacto brutal sobre sociedades periféricas.


O inimigo não é só retórica; ele redesenha instituições, forças armadas, doutrinas de segurança e alianças econômicas.


3.3 Romero: anticomunismo como tecnologia cultural no Ocidente


Romero trata o anticomunismo como fenômeno cultural e político: uma gramática que atravessa partidos, mídia, universidades, sindicatos e políticas públicas (ROMERO, 2017). Isso é decisivo para o Brasil porque mostra que anticomunismo não é apenas “posição”; é infraestrutura simbólica — um modo de narrar ameaças, organizar moralidade e definir quem é legítimo.


Quando essa gramática vira automática, ela dispensa evidência. Basta insinuar o rótulo.


3.4 Chomsky: a ameaça como justificativa recorrente


Chomsky argumenta que a “ameaça soviética” foi mobilizada repetidamente como justificativa para políticas externas e para moldar consentimento interno — uma espécie de recurso narrativo que torna certas ações aceitáveis (CHOMSKY, 1989; CHOMSKY, 2003). O ponto não é negar conflitos reais, mas insistir na diferença entre ameaça e uso político da ameaça.


Essa distinção é central para entender por que o “inimigo” é tão durável: ele simplifica, organiza emoções e reduz o custo de governar.


3.5 Mishra: o “inimigo útil” e a narrativa moral do liberalismo


Mishra descreve como o comunismo funcionou como contraponto moral: se o comunismo é totalitário, então o liberalismo americano representa liberdade — uma operação retórica poderosa que ajuda a sustentar autoestima civilizatória e autoridade geopolítica (MISHRA, 2015). O inimigo é útil porque fornece uma régua moral pronta.


E aí aparece uma ironia histórica: regimes capitalistas podem operar com censura, violência e intervenção — mas preservam o selo simbólico de “liberdade” porque o inimigo fornece o contraste.



4. “Mais em comum do que diferente”: onde as semelhanças aparecem


A segunda parte da sua pergunta — “capitalismo e comunismo têm mais fatores em comum do que diferentes” — é perigosa se virar equivalência moral barata. Mas ela ganha força se for tratada como comparação estrutural, especialmente entre capitalismo do século XX e comunismo “realmente existente”.


4.1 Modernização, produtivismo e disciplina: o século XX como fábrica


Tanto o capitalismo industrial quanto os regimes comunistas do século XX foram projetos de modernização acelerada. Ambos apostaram em produtividade, planejamento (de mercado ou estatal), ciência aplicada e disciplina do trabalho. Em termos de imaginário, ambos venderam futuro como promessa: abundância, progresso, grandeza nacional.


O que muda é o mecanismo de coordenação (mercado vs. plano), não necessariamente a obsessão pela produção.


Polanyi ajuda a entender por que isso acontece: a sociedade industrial produz tensões tão intensas que o Estado — em diferentes formas — vira operador central para manter coesão (POLANYI, 1944). No fundo, o século XX foi menos “mercado puro” e mais “sociedades organizadas”.


4.2 Burocracia, Estado e organização: a era dos grandes sistemas


A disputa capitalismo–comunismo foi também uma disputa entre grandes organizações: Estados, exércitos, serviços de inteligência, partidos, burocracias técnicas. Na prática, o cidadão comum dos dois blocos viveu cercado por instituições que regulavam trabalho, educação, informação e mobilidade.


Westad mostra que essa lógica se exportou para a periferia em forma de doutrinas, alinhamentos e aparatos de segurança (WESTAD, 2007). A semelhança, então, não é “ideológica”; é institucional: o século XX construiu máquinas administrativas gigantes, e ambos os campos operaram por elas.


4.3 Cliff: “capitalismo de Estado” e o espelho incômodo


Tony Cliff propõe uma tese provocativa e influente em certas correntes: a URSS teria se tornado uma forma de capitalismo de Estado, com acumulação, hierarquia e exploração organizadas pelo Estado em vez de por capitalistas privados (CLIFF, 1955). Não é uma tese consensual — mas é uma tese útil para explicar por que tantas práticas soviéticas pareciam, funcionalmente, espelhar a lógica de acumulação: metas, disciplina, competição geopolítica e centralidade da produção.


Se essa leitura é aceita, a frase “têm mais em comum do que diferente” ganha corpo: o antagonismo seria entre duas formas de organizar a acumulação e o controle, e não entre liberdade e servidão em termos puros.


4.4 Schmitt: política como produção de inimigos


Schmitt fornece a gramática final: a política se organiza pela distinção amigo/inimigo (SCHMITT, 1932). Isso ajuda a entender por que o “inimigo comunista” se tornou tão funcional no Ocidente — e por que, após 1991, surgiram substitutos (terrorismo, “inimigos internos”, guerras culturais).


Se a política precisa de inimigo para manter coesão, então o comunismo não é apenas doutrina econômica: é peça estrutural de uma máquina de mobilização.



5. O que isso ilumina no Brasil hoje


5.1 O anticomunismo como atalho retórico e economia de argumentos


No Brasil, “comunismo” frequentemente aparece como palavra-curinga: serve para rotular políticas públicas, universidades, artistas, professores, jornalistas, movimentos sociais e até organismos internacionais. Esse mecanismo é típico do fenômeno que Romero analisa: anticomunismo como gramática cultural, não como debate econômico real (ROMERO, 2017).


O resultado é uma economia de argumentos: não se discute evidência, custo, desenho institucional. Troca-se discussão por etiqueta.


5.2 O “inimigo” como cola social em tempos de crise


Em momentos de inflação, insegurança, queda de confiança, crise de emprego e fragmentação social, cresce a demanda por narrativas simples. A figura do inimigo cumpre função psicológica e política: organiza medo, oferece culpado, cria fronteira moral. É a versão doméstica do “inimigo útil” descrito por Mishra (MISHRA, 2015) e da arquitetura de unidade discutida por Wallerstein (WALLERSTEIN, 1993).


O risco é que essa cola social seja produzida à custa de instituições democráticas: imprensa vira “inimiga”, universidade vira “ameaça”, professor vira “doutrinador”, ciência vira “agenda”.


5.3 O custo democrático: quando a política vira guerra permanente


Quando a vida pública se estrutura como guerra, tudo vira exceção. A exceção justifica atalhos: menos diálogo, mais punição; menos pluralismo, mais expurgo; menos complexidade, mais paranoia. Westad lembra que a Guerra Fria global não foi apenas competição — foi um regime de exceção disseminado, com impactos duradouros (WESTAD, 2007). A pergunta brasileira, então, não é se “há comunismo”; é se a sociedade está disposta a viver com uma política que precisa fabricar inimigos para funcionar.



6. Conclusão: a verdade por trás da provocação


A frase “o capitalismo criou o comunismo porque precisava de um inimigo” acerta quando aponta duas realidades históricas: (1) o socialismo moderno nasce dentro do mundo capitalista, como resposta às suas contradições e crises (MARX; ENGELS, 1848; POLANYI, 1944); (2) o anticomunismo funcionou como tecnologia de coesão e legitimação geopolítica, com enorme peso cultural e institucional no Ocidente (WALLERSTEIN, 1993; WESTAD, 2007; ROMERO, 2017; MISHRA, 2015; CHOMSKY, 1989; CHOMSKY, 2003). Ela erra quando sugere uma invenção deliberada e consciente — como se o comunismo fosse produto de laboratório ideológico do capital. A história é mais complexa e, por isso mesmo, mais inquietante: inimigos não precisam ser inventados para serem úteis; basta que existam e possam ser narrados como ameaça absoluta.


A conclusão mais robusta talvez seja esta: capitalismo e comunismo não são apenas opostos; são também espelhos de uma modernidade que organiza vidas por grandes sistemas, acumulação, disciplina e promessa de futuro — e que, em crise, tende a buscar coesão pela fabricação de fronteiras morais. O desafio democrático, no Brasil e fora dele, é recusar a tentação do inimigo como atalho e recuperar o difícil: debate público com evidência, instituições com responsabilidade e política que não precise de guerra para existir.



Referências (ABNT)


ARRIGHI, Giovanni; HOPKINS, Terence K.; WALLERSTEIN, Immanuel. Antisystemic Movements. 1989. Disponível em: https://files.libcom.org/files/giovanni-arrighi-terence-k-hopkins-immanuel-wallerstein-antisystemic-movements.compressed.pdf. Acesso em: 8 fev. 2026.


CHOMSKY, Noam. Necessary Illusions: Thought Control in Democratic Societies. Boston: South End Press, 1989. Disponível em: https://www.cia.gov/library/abbottabad-compound/52/526D2E781AC9EBBB13346BDF7693E1BB_CHOMSKY_Noam_-_Necessary_Illusions.pdf. Acesso em: 8 fev. 2026.


CHOMSKY, Noam. Hegemony or Survival: America’s Quest for Global Dominance. New York: Metropolitan Books, 2003. Disponível em: https://ia803409.us.archive.org/21/items/ManufacturingConsent_201408/Hegemony%20or%20Survival.pdf. Acesso em: 8 fev. 2026.


CLIFF, Tony. State Capitalism in Russia. 1955. Disponível em: https://www.marxists.org/ebooks/cliff/state-capitalism-in-russia-cliff.pdf. Acesso em: 8 fev. 2026.


MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. 1848. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/marx/works/1848/communist-manifesto/ch01.htm. Acesso em: 8 fev. 2026.


MISHRA, Pankaj. The Sound of Cracking. London Review of Books, v. 37, n. 16, 2015. Disponível em: https://www.lrb.co.uk/the-paper/v37/n16/pankaj-mishra/the-sound-of-cracking. Acesso em: 8 fev. 2026.


POLANYI, Karl. The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time. 1944. Disponível em: https://economicsociology.org/wp-content/uploads/2014/12/the-great-transformation-pdf-free.pdf. Acesso em: 8 fev. 2026.


ROMERO, Federico. Cold War Anti-Communism and the Impact of Communism on the West. In: NAIMARK, Norman; PONS, Silvio; QUINN-JUDGE, Sophie (org.). The Cambridge History of Communism. Cambridge: Cambridge University Press, 2017. Disponível em: https://resolve.cambridge.org/core/services/aop-cambridge-core/content/view/FBF5BE47137C1284F8D7AB073CE0EDBF/9781316459850c12_p291-314_CBO.pdf/cold_war_anticommunism_and_the_impact_of_communism_on_the_west.pdf. Acesso em: 8 fev. 2026.


SCHMITT, Carl. The Concept of the Political. 1932. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/The_Concept_of_the_Political. Acesso em: 8 fev. 2026.


WALLERSTEIN, Immanuel. The World-System after the Cold War. Journal of Peace Research, 1993. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/424718. Acesso em: 8 fev. 2026.


WESTAD, Odd Arne. The Global Cold War: Third World Interventions and the Making of Our Times. Cambridge: Cambridge University Press, 2007. Disponível em: https://ir101.co.uk/wp-content/uploads/2018/11/westad-2007-the-global-cold-war-compressed.pdf. Acesso em: 8 fev. 2026.

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