sábado, 28 de fevereiro de 2026

Meritocracia, empreendedorismo e a culpa organizada: Como a precarização do trabalho vira “fracasso pessoal” — e por que isso é um problema político

A meritocracia e o empreendedorismo não são apenas ideias “motivacionais” circulando nas redes: são dispositivos morais que ajudam a converter uma crise estrutural do trabalho em responsabilidade individual. No Brasil, onde a informalidade segue elevada e o trabalho por plataformas cresce, essa conversão produz efeitos econômicos (endividamento, renda instável), sociais (adoecimento, isolamento) e políticos (antipolítica, guerra cultural, ressentimento). A “uberização” — mais do que um setor — tornou-se um modelo de gestão da vida: sem garantias, com metas invisíveis e culpa visível.



1. O ponto cego do debate público: quando a precarização vira psicologia


A precarização do trabalho raramente se apresenta com o seu nome verdadeiro. Ela costuma chegar ao cotidiano como “flexibilidade”, “oportunidade”, “autonomia”, “ser seu próprio chefe”. A linguagem muda; a estrutura permanece. O que se altera, de forma decisiva, é o lugar da culpa: se a renda cai, se a jornada estoura, se o corpo adoece, se a carreira não “decola”, a explicação oferecida não é econômica — é moral. A pergunta não é “o que aconteceu com o mercado de trabalho?”, mas “o que você fez de errado?”.


Esse deslocamento é central: ele transforma uma contradição histórica (produção de riqueza com instabilidade crescente para quem trabalha) em narrativa íntima de inadequação. Nessa lógica, falhar não é efeito de estrutura: é defeito de indivíduo. E o indivíduo, por sua vez, é convocado a “se corrigir” consumindo cursos, mentorias, branding pessoal, networking e disciplina emocional — como se o mundo social fosse uma prova interminável e o sujeito, um candidato eterno.


Quando esse mecanismo se consolida, a precarização não precisa mais ser defendida como política econômica: ela se naturaliza como “realidade”. E a realidade, aí, passa a operar como sentença.





2. Meritocracia como tecnologia moral de governo




2.1 O “sujeito empresarial” e a conversão da vida em desempenho



A meritocracia, no capitalismo contemporâneo, funciona menos como uma descrição do mundo e mais como uma norma de comportamento: exige que o indivíduo se entenda como projeto empresarial. Pierre Dardot e Christian Laval descrevem essa racionalidade neoliberal como produtora de um “sujeito empresarial”, para quem viver é gerir-se e valorizar-se como capital (Dardot; Laval, 2016). 


Nessa moldura, o trabalho deixa de ser apenas um contrato e vira uma identidade total: o sujeito não “tem” carreira — ele “é” carreira; não “faz” um bico — ele “se reinventa”; não enfrenta desemprego — enfrenta “transição”. A linguagem empresarial coloniza a existência. Resultado: a precariedade aparece como falha de gestão de si.



2.2 A linguagem do mérito como anestesia social



A promessa meritocrática parece simples: esforço gera recompensa. Mas, quando o mercado se torna estruturalmente incapaz de absorver trabalho estável em escala suficiente, essa promessa vira uma máquina de frustração. Aaron Benanav argumenta que a crise do emprego não decorre apenas de “robôs” substituindo pessoas, e sim de uma tendência prolongada de baixo dinamismo econômico e insuficiência de expansão produtiva capaz de criar postos estáveis; o efeito não se expressa só como desemprego aberto, mas como subemprego massivo e precariedade (Benanav, 2019; 2020). 


A meritocracia, então, cumpre uma função política: despolitiza a insegurança. Se o problema é você, não há conflito social a disputar — há autocorreção a realizar. É uma forma elegante de conter a pergunta essencial: quem está ganhando com a instabilidade?





3. Empreendedorismo: promessa de autonomia, gestão da insegurança




3.1 A “empresa de si” e a administração da frustração



O empreendedorismo contemporâneo se apresenta como libertação: “saia do chefe”, “faça seu horário”, “ganhe o quanto quiser”. Só que, na prática social, ele frequentemente opera como gestão da falta: falta de emprego formal, falta de renda suficiente, falta de proteção. Em vez de garantir direitos, o sistema oferece uma narrativa: “você é livre — então, se sofrer, é por escolha”.


Essa é a virada moral: a precariedade deixa de ser sinal de desigualdade e passa a ser prova de “coragem”. A instabilidade vira virtude. O risco deixa de ser imposto e passa a ser “assumido”. E, quando a renda não fecha, a culpa se fecha.



3.2 O mercado como tribunal permanente



A consequência subjetiva é intensa: a vida vira um ciclo de avaliação contínua. Não basta trabalhar; é preciso performar. Byung-Chul Han descreve a sociedade do desempenho como um regime no qual o sujeito se explora a si mesmo, acreditando estar exercendo liberdade; a autoexploração tende a ser ainda mais eficiente do que a exploração externa, porque dispensa coerção visível (Han, 2015). 


A moral do mérito e do empreendedorismo transforma o cotidiano em auditoria: produtividade, disciplina, otimismo, resiliência. O problema é que, quando a estrutura é instável, essa auditoria é infinita — e o veredito é sempre provisório.





4. Financeirização do cotidiano: dívida como forma de disciplina




4.1 Do salário à dívida: quem garante a reprodução da vida?



A precarização do trabalho não anda sozinha. Ela costuma caminhar com um fenômeno complementar: financeirização. Não se trata apenas de “mais bancos” ou “mais crédito”, mas de uma reorganização social em que a reprodução da vida (moradia, consumo básico, emergência) se integra cada vez mais a circuitos financeiros. Leda Paulani interpreta esse processo como a transformação do país em plataforma de valorização financeira, com impactos diretos sobre o papel do Estado e o horizonte de proteção social (Paulani, 2008; 2017). 


Na prática, isso significa algo muito concreto: quando o salário já não sustenta a vida, a dívida passa a sustentar o mês — e, depois, passa a comandar o mês. A dívida vira relógio e coleira: orienta escolhas, impõe jornadas, impede recusa. E, de novo, o discurso moral aparece: “organize-se”, “controle-se”, “planeje-se”. Como se o problema fosse educação financeira, e não um arranjo social que empurra milhões para a borda.



4.2 Estado, austeridade e a engenharia da vulnerabilidade



A financeirização não é neutra: ela frequentemente demanda um Estado que atue menos como provedor direto e mais como garantidor de condições de valorização financeira, inclusive por meio de políticas de austeridade (Paulani, 2008; 2017). 

Quando direitos viram custos e proteção vira “gasto”, o indivíduo é empurrado a resolver sozinho aquilo que era, antes, socialmente compartilhado. E o empreendedorismo entra como linguagem de consolo: se o coletivo se retrai, vende-se a ideia de que o sujeito deve “crescer”.





5. Uberização do trabalho: o laboratório brasileiro da precariedade




5.1 Plataformas e a normalização da instabilidade



No Brasil, a plataformização virou símbolo — e também método. Dados do IBGE indicam que, em 2024, havia 1,7 milhão de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços (transporte, entregas, serviços gerais/profissionais), com crescimento de 25,4% entre 2022 e 2024. 

Esses números não são apenas estatística: são a materialização de um modelo que combina tecnologia, gestão algorítmica, instabilidade e narrativa meritocrática.


Além disso, a taxa anual de informalidade segue alta, embora tenha caído de 39,0% (2024) para 38,1% (2025), segundo a PNAD Contínua. 

Em um país onde a informalidade é estrutural, a uberização não “chega” num terreno estável — ela aprofunda uma longa história de proteção incompleta.



5.2 O debate jurídico e o “vínculo” como disputa de sociedade



A disputa sobre o vínculo empregatício em plataformas não é detalhe técnico: é conflito sobre o que a sociedade reconhece como trabalho digno. O STF tem tema de repercussão geral tratando do reconhecimento (ou não) de vínculo entre motorista de aplicativo e empresa administradora da plataforma (Tema 1291). 

Quando a sociedade aceita que alguém trabalhe sob controle intenso sem direitos correspondentes, ela está aceitando uma redefinição do trabalho: mais risco para quem executa, menos obrigação para quem organiza.


A Organização Internacional do Trabalho tem discutido condições de trabalho e princípios para trabalho digno na economia de plataformas, indicando que o fenômeno exige regulação e proteção adequadas, não apenas “liberdade contratual”. 





6. A crítica de Marilena Chauí: uberização e ideologia neoliberal



Marilena Chauí oferece uma crítica decisiva: o neoliberalismo não é só política econômica, é forma de vida e forma de subjetivação. Nesse quadro, a uberização funciona como mecanismo que encobre o desemprego estrutural e redefine o indivíduo não como membro de uma classe, mas como empresa individual, “capital humano” ou empreendedor de si — empurrado à competição permanente, sob o nome de meritocracia (Chauí, 2019). 


A força dessa crítica está em expor o truque central: o sistema cria condições objetivas de insegurança e, ao mesmo tempo, entrega ao sujeito uma gramática que proíbe a explicação estrutural. O indivíduo deve sentir vergonha, não indignação; ansiedade, não conflito; culpa, não política. A uberização, nessa leitura, não é apenas uma “nova ocupação”: é uma pedagogia social da resignação competitiva.


E há um ponto ainda mais duro: quando cada um vira empresa de si, a solidariedade vira irracionalidade. Organizar-se vira “mimimi”. Reivindicar direitos vira “vitimismo”. O conflito social é deslegitimado antes mesmo de começar, porque a ideologia já decretou que só existem indivíduos no mercado — e não classes em disputa.





7. Consequências políticas e sociais: ressentimento, antipolítica e captura do conflito



Quando a precarização é interiorizada como fracasso pessoal, o efeito político tende a ser perverso. Em vez de produzir ação coletiva, ela pode produzir ressentimento difuso: raiva sem alvo estrutural, canalizada contra “inimigos culturais” mais fáceis (servidores, professores, beneficiários de políticas sociais, minorias, “vagabundos”). O discurso meritocrático oferece um mapa emocional pronto: “se eu sofro, é porque os outros têm privilégios”.


O resultado é uma sociedade com conflito social real, mas sem linguagem para nomeá-lo corretamente. E esse vazio é disputado por narrativas autoritárias, que prometem ordem num mundo instável, oferecendo punição simbólica para quem aparece como “culpado” — quase nunca os verdadeiros centros de decisão econômica.





8. Reconstruir o horizonte: direitos, organização e novas gramáticas de dignidade



Se meritocracia e empreendedorismo operam como tecnologias morais que privatizam a precariedade, a resposta precisa recolocar o tema no lugar correto: estrutura, direitos, política.


Isso implica, no mínimo:


  • Reafirmar que trabalho não é só renda: é proteção, tempo de vida, reconhecimento e previsibilidade mínima.
  • Tratar a regulação do trabalho por plataformas como debate público central, não como detalhe jurídico-administrativo (OIT, 2024; STF, 2025–2026).  
  • Enfrentar a financeirização como problema de soberania social: quando a vida é organizada pela dívida, a cidadania vira dependência (Paulani, 2008; 2017).  
  • Recuperar a dimensão coletiva do sofrimento econômico: não para negar agência individual, mas para impedir que a agência seja usada como desculpa para eliminar direitos.



O ponto não é atacar quem empreende ou quem trabalha por aplicativo — seria injusto e superficial. O ponto é recusar a mentira estrutural: a de que a precariedade é escolha e a insegurança é culpa.





9. Conclusão



A persistência da meritocracia e do empreendedorismo como “senso comum” não é um acidente cultural: é uma engrenagem de governança social. Em um cenário de subemprego, informalidade elevada e plataformização crescente, essas ideologias funcionam como tradutores morais de uma crise estrutural: transformam a instabilidade do trabalho em falha de caráter, e a falta de proteção em incapacidade de gestão pessoal. Essa tradução é politicamente útil porque neutraliza o conflito: se o problema é o indivíduo, não há o que disputar coletivamente.


A crítica de Marilena Chauí ilumina a função histórica da uberização: ela não apenas reorganiza ocupações, mas reorganiza subjetividades — dissolvendo classe em “empreendedor de si”, direitos em “custo”, e política em “mimimi”. Ao lado disso, a financeirização do cotidiano — analisada por Leda Paulani — empurra a reprodução social para a dívida, intensificando a dependência e restringindo a liberdade real. E, como aponta Benanav, a crise do trabalho estável não se explica por um salto tecnológico mágico, mas por tendências econômicas prolongadas que tornam o subemprego e a precariedade uma condição generalizada.


Recolocar o trabalho no centro do debate, portanto, não é nostalgia: é democracia. É afirmar que uma sociedade que normaliza a precarização e ainda exige gratidão por ela não está promovendo mérito — está reorganizando a culpa para proteger estruturas. O desafio político do presente é romper essa gramática e reconstruir horizontes coletivos de proteção social, regulação e dignidade, capazes de devolver ao sofrimento econômico o seu nome verdadeiro: um problema público, e não uma falha privada.




10. Referências


BENANAV, Aaron. Automation and the future of work. Londres: Verso, 2020. Disponível em: https://tankona.free.fr/benanav2020.pdf. Acesso em: 19 fev. 2026. 


BENANAV, Aaron. Automation and the future of work—1. New Left Review, n. 119, 2019. Disponível em: https://newleftreview.org/issues/ii119/articles/aaron-benanav-automation-and-the-future-of-work-1. Acesso em: 19 fev. 2026. 


CHAUÍ, Marilena. Marilena Chauí: o que é a “nova” ultradireita? Outras Palavras, 8 out. 2019. Disponível em: https://outraspalavras.net/outrasmidias/marilena-chaui-o-que-e-a-nova-ultradireita/. Acesso em: 19 fev. 2026. 


DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/ppgs/files/2019/11/Christian-Laval-_-Pierre-Dardot-A-Nova-Razao-do-Mundo_-Ensaios-Sobre-a-Sociedade-Neoliberal-Colecao-Estado-de-Sitio-Boitempo-2016.pdf. Acesso em: 19 fev. 2026. 


HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. Disponível em: https://psico.cinead.org/wp-content/uploads/2021/10/HAN_BYUNG_CHUL_Sociedade-do-cansac%CC%A7o.pdf. Acesso em: 19 fev. 2026. 


INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Número de trabalhadores por aplicativos cresceu 25,4% entre 2022 e 2024. Agência IBGE Notícias, 17 out. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44806-numero-de-trabalhadores-por-aplicativos-cresceu-25-4-entre-2022-e-2024. Acesso em: 19 fev. 2026. 


INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). PNAD Contínua: em 2025, taxa anual de desocupação foi de 5,6% enquanto taxa de subutilização foi 14,5. Agência IBGE Notícias, 30 jan. 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45759-pnad-continua-em-2025-taxa-anual-de-desocupacao-foi-de-5-6-enquanto-taxa-de-subutilizacao-foi-14-5. Acesso em: 19 fev. 2026. 


ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). Realizar o trabalho digno na economia das plataformas. 2024. Disponível em: https://www.ilo.org/sites/default/files/2025-02/Realizar-trabalho-digno-economia-plataformas-2024-PT.pdf. Acesso em: 19 fev. 2026. 


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PAULANI, Leda Maria. Não há saída sem a reversão da financeirização. Estudos Avançados, v. 31, n. 89, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/PQYDPK3MqYq3BycVNTQPyvd/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 19 fev. 2026. 


SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF). Tema 1291 – Reconhecimento de vínculo empregatício entre motorista de aplicativo e plataforma digital. Repercussão Geral, s.d. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/jurisprudenciaRepercussao/verAndamentoProcesso.asp?classeProcesso=RE&incidente=6679823&numeroProcesso=1446336&numeroTema=1291. Acesso em: 19 fev. 


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