segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Eleição de 2026: o que muda na sua fila, no seu boleto e no seu WhatsApp

 Você está numa segunda-feira comum. Chega cedo na UBS do bairro, pega senha, espera. A recepcionista diz que “o sistema caiu”. A consulta vai ser remarcada. Na saída, você abre o WhatsApp e tem um vídeo curto dizendo que “se tal candidato ganhar, vai acabar a fila”, e outro dizendo que “se o outro ganhar, o país quebra”. Aí vem a pergunta simples: você vai votar pelo vídeo ou pela sua rotina?



As eleições gerais de 2026 já têm data: 1º turno em 4 de outubro e 2º turno em 25 de outubro. E tem prazo que pega gente desprevenida: até 6 de maio é a janela-chave para tirar ou regularizar o título. 


A partir daqui, dá para falar de política sem floreio: em 2026, o Brasil não precisa de salvador. Precisa de gerente de Estado. Alguém que pare de brincar de guerra cultural e entregue o básico com previsibilidade — porque é isso que mexe com o seu tempo, seu dinheiro e sua paciência.



Minha posição (bem direta): vote em quem aguenta o “trabalho chato” do país



O Brasil não quebra por falta de frase bonita. Quebra por falta de execução. E execução é aquela parte antipática: sentar com Congresso, negociar orçamento, respeitar regra fiscal, escolher prioridade e bancar desgaste.


Se você trabalha de carteira assinada, sabe como é chefe que promete “crescimento” e só entrega meta sem ferramenta. Na política é igual: tem candidato que promete “acabar com a corrupção” ou “transformar tudo”, mas não diz que serviço vai melhorar primeiro, quanto custa, e o que vai ser cortado ou adiado. Sem isso, é conversa para live.


Exemplo bem chão: o dono de uma padaria no bairro não quer “um Brasil inovador”. Ele quer saber se vai conseguir pagar o gás, se o imposto muda toda hora, se a rua vai ter segurança para fechar às 22h sem medo, e se o fornecedor vai aumentar o preço porque o dólar disparou. “Inovador”, na prática, seria o quê? Uma regra tributária que não muda no meio do ano, fiscalização que não parece caça-níquel e crédito que não te empurra para dívida eterna.


Outro exemplo: quem é motorista de app não precisa de “política transformadora”. Precisa de asfalto decente, menos buraco, menos roubo de celular, menos gasto de manutenção, e um custo de vida que não coma o ganho do dia. Se o governo erra a mão na economia, o combustível sobe, a comida sobe, o aluguel sobe. No fim, o “debate ideológico” vira sua marmita menor.


Então, em 2026, eu defendo um critério bem antipático, mas honesto: votar em quem mostra capacidade de administrar conflito e entregar serviços — e punir no voto quem vive de manchete, boato e briga.



“Mas todo mundo mente”: aí é que mora o truque



A eleição não é só urna; é disputa de narrativa. O Brasil já viu o tamanho do problema da desinformação em período eleitoral. O próprio TSE mantém estrutura de enfrentamento e publicou centenas de checagens em 2022 (foram 193 esclarecimentos só no “Fato ou Boato”). 


Isso importa porque o golpe mais comum não é “roubar seu voto”. É roubar sua atenção.


Funciona assim, bem cotidiano:


  • No grupo da família, alguém manda um áudio “de um amigo que trabalha em Brasília”.
  • Você não tem tempo de checar.
  • Você repassa para “só avisar”.
  • Em dois dias, metade do bairro está repetindo como se fosse fato.



Esse tipo de boato tem efeito real: vira briga em escola, vira ameaça em posto de saúde, vira confusão em repartição. E, no fim, o candidato que vive disso ganha palanque sem gastar.


E aqui entra uma coisa que quase ninguém diz do jeito certo: desinformação dá voto porque economiza pensamento. Ela te entrega um vilão pronto, um herói pronto e uma frase pronta. É o fast-food da política.



O que isso muda na escola do seu filho e no serviço público que você usa



Quando governo vira ringue, a conta cai em lugares previsíveis:


Na escola:


  • a merenda atrasa porque licitação trava,
  • o ar-condicionado não conserta porque contrato foi mal feito,
  • falta professor porque concurso não anda ou a rede perde gente para outras carreiras.



Isso não é “debate abstrato sobre Estado”. É o dia em que você recebe mensagem no WhatsApp: “não vai ter aula hoje”.


No SUS:


  • a fila do exame não some com discurso; some com gestão de regulação, contrato, escala, logística e prioridade.
  • se o município está estrangulado, a UPA vira sala de espera infinita.



No INSS e serviços digitais:


  • promessa de “agilidade” não vale nada se não tiver equipe, sistema estável e meta pública.
  • o cidadão não quer saber o nome do programa. Quer que o pedido não fique parado.



Tudo isso depende de um negócio chato: governar. E governar é escolher. Se alguém promete tudo para todo mundo, sem dizer “de onde sai”, está te vendendo um sonho que vira briga orçamentária depois.



Um teste simples para não cair em propaganda



Quando você ouvir “vai ser impactante”, traduza na hora: impactante onde, para quem, e em quanto tempo?


Exemplo: “Vou valorizar a segurança pública.”

Tá, mas como?


  • Vai aumentar efetivo?
  • Vai integrar investigação com inteligência?
  • Vai mexer em prevenção no ensino médio noturno, onde muito adolescente larga a escola?
  • Vai apertar o cerco em roubo e receptação de celular (o crime que mais azeda a rotina urbana)?



Sem isso, “segurança” é só palavra para render aplauso.


Outro: “Vou melhorar a saúde.”

Ótimo. Vai fazer o quê primeiro: fila de exame, atenção básica, abastecimento de remédio, gestão de fila? Quem já administrou alguma coisa sabe: se não disser qual é o gargalo, não tem plano.



“Tá, mas você está defendendo ‘gestor’ e esquecendo ‘ideal’”



Crítica possível (e justa): “Essa ideia de ‘votar em gerente’ é tecnocracia. Política não é só planilha. Precisa de projeto, valores, coragem.”


Resposta: sim, política tem valores. Só que valor sem entrega vira seita.

O Brasil já está cansado do político que grita “pátria”, “povo”, “Deus”, “família” e não resolve o posto sem médico nem o ônibus lotado às 6h40.


Valores importam, claro. Mas o mínimo é o seguinte: se a pessoa diz que vai “defender o povo”, ela precisa explicar qual povo, onde e como. O “povo” da diarista que pega dois ônibus não é o mesmo “povo” do influencer que vive de publi falando de moralidade. E quem não separa isso costuma governar no modo slogan.


A melhor combinação é rara e é essa que merece voto: valores claros + capacidade de fazer o básico funcionar. Um sem o outro dá ruim:


  • valor sem capacidade = promessa eterna;
  • capacidade sem valor = cinismo administrativo.




E a abstenção? Vai deixar os outros decidirem por você?



Em 2022, o 1º turno teve mais de 31 milhões de abstenções, cerca de 20% do eleitorado, segundo dados divulgados à época. 


Se você some, não “protesta”. Você só entrega o volante. E normalmente quem fica no volante é o grupo mais fanático — o que tem tempo e disposição para militar em rede, encher comentário e pressionar político a governar por barulho.


Abstenção, no Brasil real, tem cara: é o trabalhador que não consegue folga, a mãe solo sem com quem deixar criança, o cara que está de saco cheio. Só que o efeito final não é poesia: é você reclamando quatro anos depois de uma escolha que não ajudou a fazer.



O que fazer, de um jeito bem prático (sem virar especialista)



Não precisa virar cientista político. Precisa só parar de ser “encaminhador profissional” de propaganda.


Quando vier vídeo ou áudio:


  1. Procure a fonte. “Quem falou? Onde está escrito?”
  2. Desconfie do tom de urgência (“repasse agora”, “vão te proibir de saber”). Isso é técnica de manipulação.
  3. Compare promessa com histórico: a pessoa já administrou algo? Entregou? Ou só performou?



E anote uma coisa: a campanha oficialmente esquenta a partir do período permitido (há marcos como início de campanha e propaganda, conforme calendário divulgado pela Justiça Eleitoral). 

Antes disso, o que mais circula é pré-campanha disfarçada — e pré-campanha adora boato porque boato não precisa provar nada.



Você quer fazer um favor a si mesmo até outubro? Pare de discutir candidato como se fosse time e comece a discutir entrega como se fosse a sua conta de luz. E, quando alguém te mandar “bomba” no WhatsApp, responda só com: “manda o link da fonte”. Isso já corta metade do espetáculo.



Referências bibliográficas 


SÃO PAULO (Estado). Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Eleições 2026: confira as principais datas e regras do pleito. São Paulo: TRE-SP, 7 jan. 2026. Atualizado em 13 fev. 2026. Disponível em:

https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Janeiro/eleicoes-2026-confira-as-principais-datas-e-regras-do-pleito

Acesso em: 15 fev. 2026. 


BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Fato ou Boato publicou quase 200 esclarecimentos contra fake news em 2022. Brasília, DF: TSE, 18 nov. 2022. Atualizado em 5 mar. 2025. Disponível em:

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Novembro/fato-ou-boato-publicou-193-esclarecimentos-contra-fake-news-em-2022

Acesso em: 15 fev. 2026. 


BRASIL. Senado Federal. TV Senado. Eleições 2022: abstenções superam 31 milhões e correspondem a 20% dos eleitores. Brasília, DF: TV Senado, 3 out. 2022. Disponível em:

https://www12.senado.leg.br/tv/programas/noticias-1/2022/10/eleicoes-2022-abstencoes-superam-31-milhoes-e-correspondem-a-20-dos-eleitores

Acesso em: 15 fev. 2026. 


PERNAMBUCO (Estado). Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco. Eleições 2026: confira as principais datas do calendário eleitoral. Recife: TRE-PE, 15 jan. 2026. Disponível em:

https://www.tre-pe.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Janeiro/eleicoes-2026-confira-as-principais-datas-do-calendario-eleitoral

Acesso em: 15 fev. 2026. 


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