sábado, 14 de fevereiro de 2026

2 - Globalização: triunfos, fraturas e o retorno da política

Crescimento e eficiência versus desigualdade, instabilidade financeira e soberania sob pressão


Durante décadas, a globalização econômica foi vendida como uma estrada de mão única: mais integração significaria mais crescimento, preços menores e convergência de renda. E há evidências importantes a favor: a pobreza extrema caiu de forma histórica, o comércio se expandiu e países populosos aceleraram sua industrialização. Mas a mesma engrenagem que gerou ganhos agregados também produziu fraturas profundas: desigualdade dentro de países ricos, mercados de trabalho locais em colapso, volatilidade financeira e pressões sobre a soberania regulatória. O século XXI trouxe o teste definitivo: pandemia, guerra e disputa tecnológica mostraram que cadeias globais eficientes podem ser cadeias frágeis — e que a integração não dissolve a política; ela a reconfigura.





1. A promessa liberal e a “era de ouro”




1.1. Crescimento, comércio e queda da pobreza



O argumento mais forte pró-globalização sempre foi empírico: o mundo ficou mais rico e a pobreza extrema caiu. Os dados agregados sobre pobreza mostram uma queda expressiva desde 1990. O Sustainable Development Goals Report 2019 registra que a parcela da população mundial em extrema pobreza caiu de 36% (1990) para 10% (2015), e que mais de um bilhão de pessoas saiu da pobreza em cerca de 25 anos, com grande parte desse avanço concentrado no Leste Asiático. 


O Our World in Data consolida a mesma trajetória, destacando a redução de centenas de milhões na contagem de pessoas em pobreza extrema ao longo das últimas décadas. 


Esse é o coração do “triunfo”: integração comercial, reorganização produtiva global, aumento de produtividade e incorporação de grandes contingentes de força de trabalho ao mercado mundial se combinaram com políticas domésticas (algumas muito bem-sucedidas, outras nem tanto) para produzir o maior recuo da pobreza extrema já observado em escala global. 



1.2. Eficiência e vantagem comparativa: por que o argumento convence



O liberalismo econômico não defende globalização apenas por “otimismo”; ele se apoia numa lógica formal: vantagem comparativa. A ideia, associada a David Ricardo, afirma que um país pode ganhar com o comércio mesmo sem ser o melhor em tudo — basta ser relativamente mais eficiente em alguma atividade (menor custo de oportunidade), especializar-se e trocar. Essa tese permanece central no comércio internacional moderno e continua sendo discutida em sínteses contemporâneas sobre Ricardo e sua formulação. 


Em linguagem direta: produzir internamente aquilo em que se é relativamente pior equivale a desperdiçar recursos. A especialização, quando bem conduzida, eleva a produtividade agregada e permite acesso a bens mais baratos e variados. Essa narrativa explica por que a globalização, em sua fase de aceleração (anos 1990–2010), foi tratada como “progresso econômico” quase automático.


O ponto que costuma ficar omitido é decisivo: vantagem comparativa é uma teoria de eficiência, não um manual de coesão social. Ela diz que o “bolo” pode crescer; não diz como as fatias serão distribuídas.



1.3. Capital e tecnologia: IED como vetor de produtividade



A globalização não foi só comércio. Ela também se apoiou na circulação de capital e na difusão tecnológica, especialmente via Investimento Estrangeiro Direto (IED). A tese é conhecida: o IED não traz apenas dinheiro; traz tecnologia, padrões de gestão, redes de fornecedores e acesso a mercados. Quando essa transferência “cola” no território — isto é, quando vira aprendizado local e encadeamento produtivo — a produtividade pode subir.


Mas há uma condição frequentemente esquecida: para o IED gerar transformação estrutural, é preciso capacidade doméstica de absorção — infraestrutura, qualificação, instituições e estratégia industrial. Sem isso, o IED pode virar enclave: moderniza um segmento, mas não difunde ganhos para o conjunto da economia.



1.4. Interdependência e paz: a tese clássica e seu limite histórico



Após 1945, a interdependência econômica ganhou um status quase moral: ampliar comércio e integração seria um antídoto contra guerras. A crença institucional do pós-guerra foi ancorada em arranjos como Bretton Woods e a governança do comércio multilateral (GATT/OMC) — uma arquitetura pensada para reduzir incerteza, conter protecionismos e criar previsibilidade. 


Essa intuição teve uma formulação emblemática em projetos europeus do pós-guerra: a integração produtiva faria uma guerra “materialmente impossível” por destruir a racionalidade econômica do conflito. O detalhe incômodo é que essa tese é parcialmente verdadeira e parcialmente ilusória: interdependência pode elevar o custo da guerra, mas não impede que conflitos ocorram quando a política, a segurança e a identidade nacional entram como variáveis dominantes.


Em outras palavras: a economia pode desincentivar a guerra; não pode abolir a decisão política.





2. As fraturas que a teoria não “fecha”




2.1. Desigualdade intranacional e a desconexão produtividade–salários



Uma das críticas mais persistentes à globalização é que ela pode reduzir desigualdade entre países enquanto aumenta desigualdade dentro de países, especialmente os ricos. O mecanismo é conhecido: competição externa pressiona setores expostos, enfraquece barganha trabalhista em certas ocupações e desloca renda para lucros e para ativos (capital), enquanto a renda do trabalho cresce mais lentamente.


Dois conjuntos de evidências ajudam a fixar essa fratura:


  1. Queda/contração da participação do trabalho na renda: relatório da OCDE aponta que mudanças tecnológicas e globalização explicam parcela relevante da contração da labour share nas últimas décadas, incluindo o papel das cadeias globais de valor.  
  2. Produtividade crescendo mais do que salários: uma nota analítica ligada à OIT documenta, para 52 países de alta renda, que a produtividade real cresceu mais rapidamente do que salários reais por mais de duas décadas, gerando um “gap” mensurável no período 1999–2022.  



O resultado político é explosivo: quando a economia “vai bem” no agregado, mas a vida concreta de parte da classe trabalhadora fica estagnada, a legitimidade do projeto globalizante se erode. O discurso “o mundo ganhou” não responde ao cidadão que perdeu emprego, status e futuro em uma cidade industrial específica.



2.2. O “China shock”: custos concentrados, ajuste lento e política reativa



Se existe um símbolo empírico do backlash contra a globalização, ele se chama China shock. Autor, Dorn e Hanson mostram que a exposição de mercados locais à competição de importações chinesas teve efeitos profundos e persistentes: o ajuste foi lento, com queda de participação na força de trabalho, impactos salariais e aumento do uso de programas de transferência em áreas mais afetadas. 


Essa literatura é especialmente relevante por dois motivos:


  • Ela desmonta a ideia de que “as pessoas se realocam rapidamente” e que o choque vira apenas uma transição curta;
  • Ela mostra que a dor é concentrada e territorializada, o que significa que a política não reage por médias; ela reage por mapas eleitorais.



A globalização, nesse sentido, não fracassa apenas por gerar perdedores; ela fracassa quando os perdedores são deixados sozinhos — sem reconversão produtiva, sem qualificação eficaz, sem políticas regionais e sem tempo social para o ajuste.



2.3. Globalização financeira: “hot money”, crises e o problema do sequenciamento



A crítica mais dura, no plano macroeconômico, recai sobre a globalização financeira: abertura de conta de capitais e liberalização prematura podem expor economias emergentes a fluxos de curto prazo (“hot money”), booms de crédito e reversões abruptas.


O FMI, em análises do World Economic Outlook do fim dos anos 1990, já discutia como quedas de juros globais podem induzir surges de fluxos para emergentes e como reversões podem agravar fragilidades bancárias e cambiais. 


Nos anos 2010, o FMI volta ao tema com análises sobre gestão de fluxos e ciclos de entrada/saída, reconhecendo o padrão recorrente: entrada de capitais → boom doméstico e déficits → reversão → crise e ajuste doloroso. 


Há ainda a dimensão institucional: a avaliação do Independent Evaluation Office (IEO) do FMI discutiu a abordagem do Fundo à liberalização da conta de capitais e as tensões associadas a aconselhar abertura em contextos de instituições financeiras ainda frágeis — isto é, o problema do “sequenciamento”. 


A crítica aqui não é “capital é mau”. É mais específica: capital móvel é mais rápido do que política pública, e isso cria um risco estrutural quando não há supervisão robusta, instrumentos macroprudenciais e amortecedores (reservas, regulação, redes de segurança financeira).



2.4. Soberania e democracia: o trilema político de Rodrik



Quando a globalização se aprofunda, ela não integra apenas mercados; ela integra regras. E regras integradas reduzem o espaço de política doméstica. É nesse ponto que Dani Rodrik formula o famoso “trilema”: integração econômica internacional, Estado-nação e política de massas (democracia) não podem coexistir plenamente; é preciso escolher dois. 


A consequência é direta e incômoda. Se o eleitorado pressiona por proteção de empregos, padrões trabalhistas e autonomia regulatória, e se a integração “profunda” exige harmonização e disciplina pró-mercado, a fricção torna-se inevitável. A globalização deixa de ser um debate técnico e vira um conflito de legitimidade:


  • quem decide as regras: o eleitorado doméstico ou o mercado transnacional?
  • o que vale mais: eficiência agregada ou pacto social?
  • qual preço aceitável para manter “competitividade”?



O trilema não é uma sentença final, mas um alerta: globalização sem mediação democrática tende a gerar reação política — e essa reação não é “irracional”; ela é um mecanismo de autopreservação social.





3. Choques do século XXI: cadeias globais sob estresse




3.1. Pandemia e o colapso do “just-in-time” como dogma



Se a globalização dos anos 1990–2010 foi o culto à eficiência, a pandemia foi o sermão da vulnerabilidade. Cadeias globais desenhadas para reduzir estoques e custos (just-in-time) mostraram fragilidade diante de interrupções simultâneas: logística, produção, fronteiras, saúde pública, demanda e oferta.


A literatura sobre impactos e disrupções em cadeias durante a Covid-19 descreve como dependências e gargalos se amplificaram, colocando “resiliência” no centro da agenda. 


O resultado foi uma mudança de mentalidade: a pergunta deixou de ser “qual cadeia é mais barata?” e passou a ser “qual cadeia sobrevive ao choque?”. Isso altera investimentos, estratégias empresariais e, sobretudo, políticas públicas.



3.2. Guerra, sanções e dependências estratégicas: quando comércio vira risco



A guerra na Ucrânia e a escalada da disputa tecnológica aprofundaram essa guinada. O comércio, que era visto como sinônimo de eficiência, passou a ser visto como vetor de dependência estratégica — energia, semicondutores, terras raras, infraestrutura digital.


Nesse contexto, globalização não “acaba”: ela se resegmenta. Fluxos passam a obedecer, cada vez mais, a critérios de alinhamento, segurança e controle tecnológico. Integração vira, paradoxalmente, instrumento de coerção (sanções) e autoproteção (restrições de exportação e subsídios industriais).





4. Slowbalisation: a globalização desacelera ou muda de forma?




4.1. Evidências de desaceleração e fragmentação seletiva



O debate contemporâneo descreve a transição para uma fase de slowbalisation (globalização lenta). Um estudo do Parlamento Europeu (EPRS) examina múltiplas dimensões (comércio, abertura financeira, mobilidade social transfronteiriça, desigualdade e trocas digitais) e conclui que a desaceleração não é uniforme, mas que há sinais consistentes de mudança de trajetória, especialmente após a crise de 2007–2008 e com novo choque na pandemia. 


Esse diagnóstico é crucial porque evita o clichê “fim da globalização”. O que ocorre é uma recomposição: menos fé no livre fluxo irrestrito, mais fricção regulatória, mais política industrial e mais critérios geopolíticos.



4.2. A nova gramática: resiliência, política industrial e segurança econômica



A fase atual é marcada por três deslocamentos:


  1. Da eficiência para a resiliência: redundância deixa de ser “custo inútil” e passa a ser seguro.
  2. Do mercado para o Estado: subsídios, compras governamentais, incentivos e estratégias industriais voltam com força.
  3. Do universalismo para o bloco: integra-se com “amigos”, limita-se com rivais; o comércio vira ferramenta de política externa.



A globalização, nesse sentido, foi “reestatizada”: continua existindo, mas cada vez mais mediada por decisões de segurança, soberania tecnológica e disputa por capacidades produtivas.





5. Conclusão: globalização não acabou — ela foi reestatizada



A globalização econômica pode ser lida como um ciclo de triunfos e fraturas. O triunfo é real: queda histórica da pobreza extrema, ampliação de comércio e difusão tecnológica. As fraturas também: desigualdade intranacional, desconexão produtividade–salários, desindustrialização localizada, volatilidade financeira e erosão de espaço regulatório democrático. A síntese do século XXI é clara: a política não foi superada pela integração; ela voltou com mais força — agora sob a forma de segurança econômica, política industrial, sanções e blocos tecnológicos.


A pergunta que organiza o debate não é “globalização sim ou não”. É outra, mais exigente: qual globalização, com quais salvaguardas, sob quais regras, com que proteção distributiva e com qual legitimidade democrática. A globalização “automática”, tratada como destino inevitável, foi desmentida pelos fatos: o mundo já globalizou, já recuou, já reabriu e agora desacelera de modo seletivo. O futuro não será o retorno a um mercado mundial “sem atrito”; será uma disputa por desenho institucional — e por quem paga, no chão social, a conta das escolhas macroeconômicas.





5 pontos relevantes do Artigo 2



  1. A pobreza extrema caiu fortemente desde 1990, com dados oficiais da ONU e consolidações de séries históricas independentes.  
  2. Globalização melhora eficiência no agregado, mas não resolve distribuição: labour share e salários reais podem ficar para trás.  
  3. O “China shock” mostra que o ajuste ao comércio pode ser lento e concentrado territorialmente, com efeitos políticos duradouros.  
  4. A globalização financeira amplia acesso a capital, mas aumenta vulnerabilidade a ciclos de entrada/saída e crises em emergentes.  
  5. Slowbalisation descreve uma mudança de regime: desaceleração e fragmentação seletiva após 2007–2008 e a pandemia, sem “fim” uniforme da globalização.  






3 livros recomendados



  1. RODRIK, Dani. O paradoxo da globalização: democracia e o futuro da economia mundial (edições em português variam por editora).  
  2. STIGLITZ, Joseph E. A globalização e seus malefícios (edições em português amplamente disponíveis).
  3. MILANOVIC, Branko. Desigualdade global (há edições em português; útil para separar desigualdade “entre países” e “dentro dos países”).




Referências

AUTOR, David H.; DORN, David; HANSON, Gordon H. The China Shock: Learning from Labor Market Adjustment to Large Changes in Trade. Cambridge: National Bureau of Economic Research, 2016. (NBER Working Paper n. 21906). Disponível em: https://www.nber.org/system/files/working_papers/w21906/w21906.pdf. Acesso em: 9 fev. 2026.


EUROPEAN PARLIAMENT. Slowing down or changing track? Understanding the dynamics of “Slowbalisation”. Brussels: European Parliamentary Research Service, 2020. Disponível em: https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/IDAN/2020/659383/EPRS_IDA(2020)659383_EN.pdf. Acesso em: 9 fev. 2026.


FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (IMF). World Economic Outlook, May 1998: Financial Crises — Causes and Indicators. Washington, DC: IMF, 1998. Disponível em: https://www.imf.org/-/media/websites/imf/imported-flagship-issues/external/pubs/ft/weo/weo0598/pdf/_0598ch4pdf.pdf. Acesso em: 9 fev. 2026.


FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (IMF). The Yin and Yang of Capital Flow Management. In: World Economic Outlook, October 2013. Washington, DC: IMF, 2013. Disponível em: https://www.imf.org/-/media/websites/imf/imported-flagship-issues/external/pubs/ft/weo/2013/02/pdf/_c4pdf.pdf. Acesso em: 9 fev. 2026.


ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT/ILO). Economic growth and inequality: The role of labour market, social protection and other key institutions. (Nota analítica). Genebra: ILO, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/g20/pt-br/trilhas/trilha-de-financas/economia-global/1-ilo-analytical-note_the-role-of-labour-market-social-protection-and-other-key-institutions.pdf. Acesso em: 9 fev. 2026.


ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OCDE/OECD). Labour share developments over the past two decades: The role of technological progress, globalisation and “winner-takes-most” dynamics. Paris: OECD, 2018. Disponível em: https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2018/09/labour-share-developments-over-the-past-two-decades_0a792416/3eb9f9ed-en.pdf. Acesso em: 9 fev. 2026.


OUR WORLD IN DATA. Poverty. Oxford: Our World in Data, s.d. Disponível em: https://ourworldindata.org/poverty. Acesso em: 9 fev. 2026.


UNITED NATIONS. The Sustainable Development Goals Report 2019. New York: United Nations, 2019. Disponível em: https://unstats.un.org/sdgs/report/2019/The-Sustainable-Development-Goals-Report-2019.pdf. Acesso em: 9 fev. 2026.


UNITED NATIONS. SDG Indicators — Goal 1: No poverty (Report 2019 highlights). New York: UN Statistics Division, 2019. Disponível em: https://unstats.un.org/sdgs/report/2019/goal-01/. Acesso em: 9 fev. 2026.


RODRIK, Dani. How Far Will International Economic Integration Go? Journal of Economic Perspectives, Nashville, v. 14, n. 1, p. 177–186, 2000. Disponível em: https://www.aeaweb.org/articles?id=10.1257/jep.14.1.177. Acesso em: 9 fev. 2026.


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