A Prefeitura anuncia que o Carnaval “movimenta bilhões”. O bar do bairro contrata três pessoas por uma semana. O ambulante compra caixa térmica no fiado. A UPA lota na quarta-feira de cinzas. E, no meio disso, a política aprende um truque velho: quando a rua está em festa, o debate público fica manso, curto e distraído. A pergunta é simples: quem está lucrando com a folia — e quem está pagando a ressaca?
Introdução: a pergunta que incomoda
Quantos reais você acha “normal” custar uma noite de Carnaval para quem quer “experiência premium”? Em 2026, há camarote vendendo um dia a até R$ 8.000 — quase cinco salários mínimos para o sujeito ver desfile de cima, com open bar e gastronomia de vitrine.
Agora tenta segurar essa imagem por dez segundos e colocar ao lado de outra: a mesma cidade, dois dias depois, com UPA 24h abarrotada, gente esperando horas por soro, sutura, nebulização, exame básico. A festa termina; a fila não.
Este artigo toma uma posição clara: o Carnaval foi capturado por uma engrenagem de espetáculo e economia da atenção que funciona, sim, como anestesia social — e essa anestesia tem operador, tem patrocínio, tem “ativação de marca”, tem decisão orçamentária e tem custo empurrado para quem não tem camarote, nem plano de saúde, nem tempo para ficar discutindo política enquanto está tentando sobreviver.
Não é um texto contra o Carnaval como cultura. O Carnaval é patrimônio afetivo, memória coletiva, trabalho de milhares de pessoas e uma das poucas coisas que ainda conseguem colocar brasileiros diferentes na mesma rua sem catecismo, sem farda e sem filtro. O problema é outro: do jeito que está, a festa virou um dispositivo perfeito para o Brasil não olhar para o próprio buraco — e, de quebra, ainda chamar isso de “geração de receita”.
Objetivo
Mostrar, com exemplos do Brasil real e dados públicos/noticiosos recentes, como o Carnaval contemporâneo opera como:
reengenharia da atenção pública (o país inteiro olhando para o palco, enquanto muita coisa passa no rodapé);
máquina de espetacularização (a rua vira mídia, a vida vira feed, o cidadão vira audiência);
mecanismo de anestesia social (o sofrimento some por alguns dias e reaparece como fila, dívida e exaustão).
Metodologia
A abordagem é qualitativa, com pesquisa documental e análise crítica de:
estimativas econômicas e de emprego sobre o Carnaval 2026 divulgadas por entidades do comércio e turismo ;
informações de poder público sobre impacto econômico local ;
reportagens sobre verbas federais (emendas e patrocínios) associadas ao Carnaval 2026 ;
dados e alertas de saúde pública sobre riscos no período e circulação viral ;
reportagens sobre preços e estrutura de camarotes, como evidência do processo de camarotização .
O texto cruza isso com um referencial clássico sobre sociedade do espetáculo (Debord, 1967) para explicar por que, quando tudo vira imagem, a política aprende a se esconder atrás da própria festa.
A cena 1: o ambulante, o fiado e a matemática cruel do “movimenta bilhões”
O sujeito está em Duque de Caxias, ou em Itaquera, ou no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Ele não “empreende”. Ele se vira. Compra isopor, gelo, latinha, pega empréstimo com parente, parcela no cartão, aposta no fluxo de gente. Trabalha em pé dez horas. Volta para casa com dinheiro amassado e coluna gritando.
A narrativa oficial chama isso de “economia girando”. A realidade chama de risco individualizado.
Porque a festa, para esse trabalhador, é assim: se chover, ele perde. Se a polícia apertar, ele perde. Se a prefeitura mudar o trajeto do bloco, ele perde. Se for assaltado, ele perde. Se tiver fiscalização em cima do estoque, ele perde. Se o preço do gelo subir, ele perde. Se ficar doente no terceiro dia, ele perde duas vezes: não vende e ainda tem custo.
E quando dá certo? Dá certo por alguns dias. Depois, o aluguel continua. A conta de luz continua. A escola do filho continua. O ônibus continua. O cartão continua.
Enquanto isso, a manchete fala em R$ 14,48 bilhões de receita no Carnaval 2026 e 39,2 mil vagas temporárias no turismo — com predominância em alimentação fora do domicílio.
“Tem emprego”, dizem. Tem, mas repare no detalhe: é temporário, concentrado em setor de alta rotatividade, com jornada pesada e pouca proteção. É o tipo de emprego que some antes do primeiro boleto grande do mês seguinte.
E aqui começa o truque: o Brasil aprendeu a chamar precariedade de oportunidade, desde que o número fique bonito no release.
A cena 2: a prefeitura, o orçamento e o argumento que sempre vence
Quando a prefeitura quer defender gasto com Carnaval, ela puxa três cartas da manga:
“É cultura.”
“Gera turismo.”
“Volta em arrecadação.”
Só que, na prática, o debate municipal raramente entra na parte incômoda: de onde vem o dinheiro e para onde vai o custo.
A Prefeitura do Rio, por exemplo, divulgou estimativa de R$ 5,9 bilhões movimentados na economia carioca e público total de aproximadamente 8 milhões de foliões em 2026.
Esse tipo de número vira munição política imediata: “Tá vendo? Compensa.” Só que “movimentar” não é “distribuir”. “Movimentar” não é “pagar conta de UPA”. “Movimentar” não é “dar escala para o ambulante sair do fiado”. “Movimentar” é a palavra perfeita porque parece grande e não explica quase nada.
O que quase nunca entra no discurso oficial é o seguinte: a mesma prefeitura que banca infraestrutura de festa — limpeza, guarda municipal, interdição, ambulância, banheiros químicos, operação urbana — é a que, em outros meses, vai dizer que não tem orçamento para reformar a UPA do bairro, para manter farmácia popular abastecida, para trocar ar-condicionado de escola, para comprar insumo básico na rede.
E aí o cidadão que questiona vira “inimigo da cultura”. Pronto. Debate encerrado. O truque funciona porque ninguém quer ser o chato que estraga a festa.
Mas política pública não é “ser chato”. É só fazer a pergunta óbvia: qual é a prioridade quando o cobertor é curto?
O ponto central: Carnaval virou uma máquina de atenção — e atenção é poder
Vamos falar do que quase ninguém fala com clareza: Carnaval é uma tecnologia de captura de atenção em escala nacional.
Não é metáfora. É literal. A cidade vira um cenário otimizado para ser filmado. O público vira massa de imagem. A música vira trilha de conteúdo. O bloco vira palco de marca. A fantasia vira anúncio ambulante. E o feed vira o novo sambódromo.
A lógica do espetáculo, no sentido clássico, é essa: a vida social deixa de ser vivida principalmente como experiência direta e passa a ser mediada por imagens, por representações, por performance pública (Debord, 1967).
O Carnaval encaixa nisso como luva, porque ele é, por natureza, imagem. Só que a imagem agora não é só memória: é monetização.
O que isso significa na prática?
Significa que o Carnaval não compete apenas com outras notícias. Ele compete com qualquer capacidade de foco do brasileiro médio.
O professor que tenta falar de orçamento público na escola, na semana do Carnaval, vira “o cara do sermão”.
O dono de mercadinho que tenta fechar as contas e pagar fornecedor fica refém do fluxo de clientes, do barulho, da quebra de rotina.
A enfermeira que pega plantão dobrado ouve piada: “Enquanto a galera curte, vocês trabalham.” Como se fosse escolha.
E, politicamente, o efeito é simples: quando a atenção coletiva está sequestrada pelo espetáculo, a cobrança pública fica mais fraca. A indignação perde tração. A memória encurta. O assunto sério vira “clima pesado”.
A democracia não morre de golpe todo dia. Muitas vezes ela se desgasta por saturação e distração. E nisso o Carnaval é um período perfeito para a política “respirar” sem pressão.
A verba pública entrando na festa: quando o patrocínio vira política disfarçada
Aqui a conversa fica mais espinhosa. Porque não é só prefeitura. Em 2026, levantamentos jornalísticos indicaram que festas de Carnaval contaram com pelo menos R$ 85,2 milhões em recursos federais, somando emendas parlamentares e patrocínios.
E a Caixa aprovou R$ 14,8 milhões em patrocínios para o Carnaval, incluindo R$ 6,3 milhões para um camarote em Salvador e R$ 1,8 milhão para um camarote no Rio, além de recursos para outras praças.
Vamos deixar a hipocrisia de lado: patrocínio público e semipúblico em eventos culturais existe e vai continuar existindo. O problema não é “pode ou não pode” em abstrato. O problema é: qual é o critério e qual é o retorno social mensurável? E quem fiscaliza?
Porque, quando o dinheiro entra pelo caminho do patrocínio, ele ganha uma maquiagem bonita: vira “apoio à cultura”, “promoção turística”, “valorização da economia criativa”. Só que, muitas vezes, na ponta, o cidadão vê isso como: “Tem dinheiro para camarote, mas não tem para remédio.”
E aí vem a parte que ninguém gosta de admitir: o patrocínio também compra silêncio e compra amizade institucional. Compra foto, compra placa, compra anúncio, compra simpatia. Não é teoria. É prática básica de política.
Camarotização: a festa “popular” com setor VIP do tamanho de um shopping
Agora vamos falar do elefante no Sambódromo: a festa popular virou um parque de consumo segmentado.
Em 2026, reportagem reuniu preços indicando que um dia de camarote pode chegar a R$ 8.000.
Outra matéria detalha camarote na Sapucaí com ingressos variando de R$ 2.900 a R$ 4.400, dependendo do dia.
Isso não é só “luxo”. É uma arquitetura social. É a rua dizendo, com concreto e pulseira: “tem um Carnaval para quem pode e outro para quem serve.”
E repara no detalhe: camarote não vende só visão privilegiada. Vende proteção contra o povo. Vende banheiro limpo, água gelada, ar-condicionado, fila curta, atendimento. Em outras palavras: vende um microcosmo de serviços que o cidadão não tem no cotidiano da cidade.
Isso diz mais sobre o Brasil do que qualquer discurso. Porque o camarote, sem perceber, vira uma propaganda cruel: ele mostra que é possível ter estrutura, limpeza, organização, conforto. Só não é para todo mundo. É para quem paga.
E, quando a elite paga para se isolar dentro da própria festa popular, fica difícil sustentar a romantização de que “Carnaval é democracia na rua”. É e não é. É mistura, mas também é segregação.
A ressaca que ninguém quer filmar: SUS, UPA e o custo invisível
A parte mais honesta do Carnaval não está no trio elétrico. Está no que vem depois.
Durante a folia, e nos dias seguintes, serviços de saúde lidam com aumento de demanda por desidratação, exaustão, intoxicação alcoólica, violência urbana e outros agravos, enquanto autoridades e especialistas fazem alertas públicos sobre riscos e cuidados.
Há também alertas oficiais sobre risco de bebidas adulteradas e registros de intoxicação por metanol associados a consumo de álcool no país, com dados do Ministério da Saúde e reforço de fiscalização em estados.
E tem uma camada epidemiológica que é óbvia e mesmo assim sempre vira “surpresa”: aglomeração intensa aumenta circulação de vírus respiratórios. A Fiocruz, via InfoGripe, emitiu alerta específico para o Carnaval e trouxe recortes de prevalência de vírus e participação da Covid-19 nas semanas analisadas.
O ponto aqui não é moralismo. É conta.
Quando o município organiza a festa, ele assume que vai haver:
mais atendimento de urgência;
mais custo com limpeza e lixo;
mais esforço de fiscalização;
mais desgaste de profissionais de saúde, guarda, trânsito.
Só que esse custo raramente aparece com transparência na narrativa do “movimenta bilhões”. E, pior: quando aparece, aparece como “custo natural da alegria”.
Vamos traduzir para a vida real: se você tem parente trabalhando em UPA, sabe o que acontece depois de feriado grande. A equipe chega no limite. A fila estoura. O paciente bravo desconta em quem está atendendo. O profissional exausto vira alvo. E a gestão, muitas vezes, responde com improviso.
Isso é anestesia social: a festa vira o pico de dopamina; o pós-folia vira o pico de desgaste. Só que um pico é filmado. O outro é só aguentado.
A moral torta do “gera emprego”: o trabalhador temporário e o ciclo da dívida
Tem outra cena repetida todo ano, e ela é bem brasileira: o sujeito consegue trabalho temporário no Carnaval — garçom, segurança, caixa, repositor, limpeza, apoio de evento. Ele se mata de trabalhar. Recebe. Aí faz o quê? Paga atraso.
Não compra futuro. Compra “voltar ao zero”.
A CNC fala em 39,2 mil vagas temporárias no Brasil em 2026, com concentração em alimentação fora do domicílio e setores como transportes e hospedagem.
Isso é importante? É. Mas não dá para fingir que vaga temporária resolve precariedade estrutural.
Porque o trabalhador temporário costuma entrar no Carnaval já devendo. Ele usa o dinheiro para tapar buraco. No mês seguinte, volta a dever. A festa funciona como “bônus” de sobrevivência.
E aí o discurso oficial faz uma perversidade elegante: usa a existência do trabalhador temporário como prova de sucesso da política pública, mas não discute:
salário real;
jornada;
proteção;
informalidade;
risco de acidente;
adoecimento;
assédio e violência no trabalho.
O Carnaval, como evento, gera renda. Só que ele também reforça um modelo ruim: a renda concentrada no topo e o risco espalhado na base. Isso é o Brasil em miniatura.
A publicidade, o patrocínio e a captura do espaço público
A parte mais “moderna” do Carnaval não é a bateria. É o marketing.
Uma coisa é patrocinar escola de samba ou bloco. Outra coisa é transformar o espaço público num tabuleiro onde marca ocupa cada metro: camiseta, trio, camarote, copo, pulseira, foto, hashtag, influencer.
E isso se conecta diretamente à economia da atenção: quanto mais a marca ocupa, mais ela tenta administrar o que aparece, o que viraliza, o que “pega bem”.
No Brasil, o investimento em mídia digital já movimenta dezenas de bilhões. Reportagem com base no Digital AdSpend (IAB Brasil/Kantar Ibope Media) indicou R$ 37,9 bilhões em mídia digital em 2024, com crescimento em relação ao ano anterior.
Essa grana não está no Carnaval por acaso. Ela está ali porque a rua virou tela e o povo virou audiência em tempo real.
E quando a cidade vira tela, o poder municipal aprende outra malícia: governar é aparecer. E Carnaval é a maior máquina de aparecer do ano.
Prefeito que quer reeleição não precisa discutir saneamento com profundidade. Ele precisa ser visto no bloco certo, na foto certa, com a frase certa, no ângulo certo. Enquanto isso, a licitação do contrato de limpeza passa. O aditivo passa. A contratação passa. A “emenda” passa.
E você, cidadão comum, vai discutir isso quando? Na quarta-feira de cinzas, com dor de cabeça e boleto atrasado?
“Ah, mas Carnaval também é protesto”: sim — e é justamente por isso que o poder ama a festa
Aqui entra a crítica mais comum ao que estou dizendo:
“Carnaval não anestesia. Carnaval politiza. Tem marchinha crítica, tem fantasia satírica, tem escola denunciando problema social, tem bloco antifascista, tem tudo.”
Tem. E seria desonesto negar. Só que o argumento tem um buraco: a crítica carnavalesca, muitas vezes, vira produto.
A denúncia vira enredo. O tema vira estética. A revolta vira meme. A ironia vira camiseta. E aí a crítica vira um conteúdo consumível, que dá engajamento, mas não necessariamente vira consequência política.
É o espetáculo engolindo a crítica.
O poder ama esse formato porque ele administra risco: ele deixa a válvula aberta. Deixa o povo falar — desde que fale cantando, e que a fala acabe quando o bloco dispersar.
Uma prefeitura prefere mil vezes uma crítica em forma de fantasia do que uma crítica em forma de audiência pública sobre orçamento da saúde.
E o público, sem maldade, colabora. Porque o brasileiro tem razão quando pensa: “eu já apanho o ano inteiro; deixa eu viver.”
O problema é quando “deixa eu viver” vira “deixa passar”.
O ponto mais incômodo: o Brasil usa festa para não encarar humilhação cotidiana
Agora vamos falar de algo que quase nunca entra no debate público com honestidade: humilhação.
Humilhação é:
pegar ônibus lotado todo dia;
ficar seis horas esperando atendimento;
trabalhar muito e não fechar o mês;
ver escola caindo aos pedaços;
ver o preço do básico subir;
ser tratado como número.
O Carnaval dá uma pausa nisso. E essa pausa é legítima. Só que o Brasil, do jeito que está, usa essa pausa como substituto de política pública. Troca o “resolver” pelo “aguentar”.
E aí nasce a anestesia social: a alegria vira remédio — e remédio temporário vicia se não vem com cura.
A prova disso é o pós-folia: quando a cidade volta ao normal, o normal é ruim. E é aí que a festa revela o que ela encobriu: a gente aceita um cotidiano indigno porque, de vez em quando, ganha uma válvula de escape grande o bastante para não explodir.
Isso não é poesia. É engenharia social involuntária: um calendário de alívio controlado.
O papel das prefeituras: entre cultura e cinismo administrativo
Vamos deixar mais concreto. Pensa numa prefeitura média: 80 mil, 150 mil habitantes. Cidade com orçamento apertado, hospital municipal já no limite, escola com falta de professor, frota de ônibus ruim, buraco na rua.
Chega fevereiro. A gestão anuncia investimento em Carnaval porque “vai trazer turista”. Só que turista de cidade média não é milagre. Vem gente das cidades vizinhas, gasta pouco, bebe, suja, vai embora. No máximo, aquece bar e posto.
A prefeitura gasta com palco, som, segurança, banheiro químico. No dia, funciona. No mês seguinte, falta remédio. E quando alguém aponta isso, vem a resposta pronta: “Uma coisa não tem a ver com a outra. Cultura também é direito.”
Só que tem a ver, sim, quando o orçamento é curto. Tem a ver quando a compra de insumo da saúde é adiada. Tem a ver quando o plantão fica sem reforço. Tem a ver quando a cidade não tem gestão de risco para o aumento previsível de atendimento.
A questão não é “cultura vs. saúde” como se fosse briga ideológica. A questão é gestão pública com prioridades claras e prestação de contas.
No Brasil, festa é perfeita porque ela gera foto e emoção imediata. Reforma de UPA gera poeira e reclamação. Festa dá curtida. Obra dá dor de cabeça.
Político, em geral, escolhe o que dá curtida.
A crítica que vale considerar — e a resposta que não dá para fugir
Crítica provável: “Isso é elitismo ao contrário. Você está atacando o Carnaval que é do povo. Quer tirar a alegria de quem já sofre.”
Resposta direta: o texto não está atacando a alegria; está atacando o cinismo.
O povo não é culpado por querer alegria. Quem tem responsabilidade aqui é quem:
usa a festa como cortina para decisões ruins;
faz política de imagem em vez de política de serviço;
vende a narrativa “movimenta bilhões” sem apresentar o custo completo;
permite camarotização crescer como símbolo de segregação dentro do que se diz popular;
não protege trabalhador temporário e informal;
trata SUS como “aguenta aí” enquanto a cidade vira vitrine.
E tem outra coisa: apontar anestesia social não é chamar o povo de manipulado. É reconhecer que o cotidiano é duro e que, quando a vida é dura, qualquer mecanismo de alívio vira sagrado. Justamente por isso ele vira instrumento.
Se a crítica ao poder incomoda, ótimo. Era para incomodar.
Por que isso importa para quem não está em camarote
Importa porque a conta volta para você, de algum jeito.
Volta quando:
a UPA está lotada e você fica esperando;
o posto de saúde não tem médico porque a equipe foi esmagada no feriado;
a limpeza do bairro piora porque o caminhão ficou dias focado no circuito;
o ônibus muda rota e você chega atrasado;
o preço do gelo e da bebida sobe e você paga mais no mercadinho;
a prefeitura anuncia que “não tem recurso” para uma demanda básica em abril, mas teve para palco em fevereiro;
o trabalhador da sua família pega bico no Carnaval e volta com dor no corpo e sem garantia nenhuma.
O Carnaval pode ser maravilhoso. Mas o modo como ele é administrado e explorado não é neutro. Ele organiza quem aparece e quem some. Quem ganha e quem paga. Quem é servido e quem serve.
E isso, no Brasil, raramente é acaso.
Conclusão: a pergunta que fica depois que o confete some
O Carnaval 2026, dizem, “movimenta” R$ 14,48 bilhões e cria 39,2 mil empregos temporários.
Também mobiliza bilhões em visibilidade, patrocínio e controle simbólico da cidade. E, no meio disso, há camarote custando até R$ 8.000 por uma noite.
Há dinheiro federal circulando via emendas e patrocínios, com debate político e questionamentos sobre critérios.
Há alerta de saúde pública, aumento previsível de demanda e circulação viral, com recomendações oficiais.
Nada disso é “só festa”. É estrutura.
Se a prefeitura da sua cidade publicar gasto com Carnaval, faça uma coisa simples e imediata: procure no Portal da Transparência quanto ela empenhou para UPA, medicamento e reforço de plantão no mesmo período. Compare. E aí responda, sem romantismo: a cidade estava comemorando — ou estava fugindo da própria conta?
Referências bibliográficas (ABNT)
BRASIL. Ministério da Saúde. Brasil registra 41 casos confirmados de intoxicação por metanol após consumo de bebidas alcoólicas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/brasil-registra-41-casos-confirmados-de-intoxicacao-por-metanol-apos-consumo-de-bebidas-alcoolicas. Acesso em: 17 fev. 2026.
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