Uma leitura crítica — com filosofia e sociologia — sobre sentido, pertencimento e o sequestro da religiosidade
Você já tentou trabalhar num dia em que a cabeça está em outro lugar — e, mesmo assim, o gerente do supermercado cobra meta, o aplicativo cobra entrega, a escola cobra tarefa, a conta de luz cobra pagamento? A vida real faz isso: empilha exigências sobre gente cansada. E aí aparece a perplexidade. Não como “dúvida bonitinha”, mas como aquela sensação de que o mundo ficou grande demais para as respostas que estavam funcionando até ontem.
Essa perplexidade não é só individual. Ela virou um problema social. A Organização Mundial da Saúde estima que 1 em cada 6 pessoas no mundo é afetada por solidão, associando o fenômeno a impactos relevantes na saúde e até a cerca de 871 mil mortes por ano (World Health Organization, 2025). Não é “drama existencial”; é gente que chega em casa e não tem com quem falar, é idoso invisível em cidade grande, é adolescente que passa o dia em rede social e ainda se sente fora do mundo, é imigrante que trabalha dobrado e não pertence a lugar nenhum.
Este texto tem um objetivo simples e direto: mostrar como a perplexidade vira terreno de disputa — e como fé, religiosidade e relações humanas podem tanto salvar o cotidiano quanto piorar o estrago. A relevância é prática: sem entender essa dinâmica, o leitor vira alvo fácil de duas máquinas ao mesmo tempo — a máquina fria do “se vira” (burocracia, precarização, competição) e a máquina quente da “certeza total” (fanatismo, guerra moral, culto da identidade).
A posição defendida aqui é clara: a perplexidade não deveria ser tratada como defeito a ser corrigido por slogans religiosos ou por cinismo tecnocrático. Ela precisa ser assumida como experiência legítima — e trabalhada com maturidade ética. O contrário disso tem nome: instrumentalização. E o custo aparece no trabalho, na família, na sala de aula, no posto de saúde, na fila do INSS e no grupo de WhatsApp.
1) Perplexidade não é confusão: é quando a vida cobra explicação e não aceita improviso
Perplexidade é o que acontece quando o “manual do mundo” rasga. Não é “falta de fé” nem “fraqueza emocional”. É um choque entre expectativa e realidade. A pessoa planeja, o mundo desplaneja.
Exemplo banal, mas real: uma costureira que atende por encomenda e vive de pequenas entregas. Um mês o movimento cai porque o aluguel subiu, o tecido encareceu, o cliente sumiu. Ela tenta se adaptar: posta em Instagram, faz vídeo curto, entra em marketplace. Tudo exige presença constante, resposta rápida, sorriso pronto. Se falha, some do alcance. Perplexidade aqui não é filosófica: é fome com ansiedade.
Outra cena: professor em escola pública. Turma grande, aluno com dificuldade, família exausta, gestão exigindo resultado. O docente tenta fazer “o certo” — mas o “certo” vira uma lista impossível. A perplexidade vira irritação ou apatia.
Esse tipo de fratura do cotidiano já foi analisado por autores que tratam do vínculo social como condição de humanidade. A ideia central é simples: ninguém se sustenta sozinho. A existência humana é relacional, não isolada. Quando as relações falham, a pessoa não perde só companhia; perde chão interpretativo, perde linguagem comum, perde um “lugar no mundo” (Arendt, 1998).
2) Humanidade não é “ser bonzinho”: é reconhecimento, limite e responsabilidade
“Humanidade” costuma aparecer como palavra ampla e decorativa. Aqui ela significa algo bem concreto: capacidade de reconhecer o outro como alguém que importa, inclusive quando dá trabalho.
Emmanuel Levinas coloca a ética no encontro com o outro — não como um “plus moral”, mas como aquilo que funda a própria responsabilidade (Levinas, 2000). Essa visão incomoda porque corta uma fantasia: a de que a vida ética é só seguir regra geral. Não é. É lidar com casos reais: o parente difícil, o colega ressentido, o vizinho barulhento, o aluno que provoca, o paciente impaciente.
No mundo urbano, isso vira rotina: no ônibus lotado, alguém dá um empurrão; no hospital, alguém fura fila; na empresa, alguém “passa por cima”; no condomínio, alguém humilha porteiro; no balcão do serviço público, alguém grita com atendente que também está cansado.
Humanidade, nesse cenário, não é discurso motivacional. É o mínimo: não tratar gente como objeto de descarte. Quando esse mínimo quebra, o resto quebra junto — família vira campo minado, trabalho vira arena, religião vira tribo.
3) Fé e religiosidade não são a mesma coisa — e confundir as duas é perigoso
Fé é uma coisa. Religiosidade é outra.
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Fé: experiência interior de confiança, esperança, abertura ao sentido, relação com o transcendente (em termos religiosos) ou com valores últimos (em termos filosóficos).
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Religiosidade: forma social organizada — ritos, instituições, liderança, normas, símbolos, pertencimento.
Durkheim mostrou que religião funciona como fato social: ela organiza símbolos, produz coesão, dá linguagem comum ao grupo (Durkheim, 1912). Em termos bem práticos, a igreja do bairro (ou o terreiro, o centro, a comunidade) muitas vezes faz o que o Estado não faz: acolhe, orienta, socorre, conecta.
Só que aí entra o risco: o mesmo mecanismo de coesão pode virar mecanismo de controle. O grupo que acolhe também pode exigir submissão. A comunidade que abraça também pode expulsar. A linguagem do sagrado pode virar linguagem de poder.
A modernidade acrescenta uma pressão extra: Weber descreveu o “desencantamento” — não como “fim da religião”, mas como avanço de racionalização, burocracia, cálculo e controle (Weber, 2004). O mundo vira planilha. E quando tudo vira planilha, cresce a fome por sentido. Essa fome é legítima. O problema é quem se aproveita dela.
4) A travessia típica: ruptura, deserto, encontro e retorno (ou repetição)
A jornada humana costuma seguir um roteiro que não é de cinema, é de sobrevivência.
Ruptura
Algo cai: emprego, saúde, casamento, reputação, fé. No mundo do trabalho por aplicativo, ruptura pode ser banal: conta suspensa sem explicação, nota despenca por atraso causado por chuva, bloqueio por “suspeita” automática. O sujeito não discute com pessoa; discute com sistema.
Deserto
É o período da ambivalência. A pessoa não confia em ninguém, ou confia demais em qualquer promessa. É aqui que surgem soluções rápidas: coach espiritual, guru político, “milagre financeiro”, “cura instantânea”.
Viktor Frankl insistiu que o sofrimento não precisa anular o sentido, mas obriga a pessoa a reposicionar a vida. Não é “pensamento positivo”. É responsabilidade: que tipo de atitude ainda é possível quando o controle desaparece? (Frankl, 2008).
Encontro
Encontro é menos “revelação” e mais realidade: alguém que escuta sem explorar. Um grupo que acolhe sem exigir humilhação. Um trabalho voluntário que devolve utilidade concreta. Um vínculo que não reduz a pessoa a “culpada” ou “escolhida”.
Retorno
O retorno é quando a vida comum reaparece, com contas e tarefas. Só que a pessoa volta diferente: mais desconfiada de certezas absolutas, mais atenta a quem manipula medo, mais exigente com relação a respeito.
A parte feia do roteiro também existe: a repetição. Quando o deserto vira moradia, a pessoa passa a viver de choque e guerra: sempre um inimigo, sempre uma ameaça, sempre uma “causa santa”. A religiosidade vira armadura.
5) Por que a religiosidade cresce e muda de forma? Porque pertencimento virou mercadoria rara
Peter Berger descreveu o “dossel sagrado” como forma de legitimar o mundo e proteger a vida do caos simbólico (Berger, 2011). Tradução para linguagem de rua: religião dá um teto de sentido. E quando falta teto, qualquer telhado serve.
Isso explica fenômenos do cotidiano:
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Trabalhador precarizado que encontra na comunidade religiosa rede de apoio, indicação de serviço, cesta básica, acolhimento.
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Mãe solo que precisa de gente para olhar o filho e encontra suporte em grupo de oração.
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Adolescente hiperconectado que vive em bolha digital e encontra na religião uma identidade que parece firme.
A discussão séria começa quando se pergunta: essa identidade firma ou aprisiona?. Porque pertencimento pode ser cura, mas pode virar cárcere.
Zygmunt Bauman descreveu uma modernidade em que vínculos ficam frágeis: relações “descartáveis”, contratos curtos, medo constante, insegurança como regra (Bauman, 2001). É o mundo em que o motorista de aplicativo precisa sorrir para avaliação, a atendente de telemarketing precisa aguentar agressão para não perder emprego, e o estudante precisa “performar” para não desaparecer.
Quando o mundo social fica líquido, cresce a tentação de virar pedra. A pedra pode ser fé madura — ou pode ser fanatismo. O detalhe é o modo como o grupo lida com diferença e conflito.
6) O teste das relações: perdão, reparação e a mentira perigosa do “esquece isso”
Numa família comum, conflito religioso é simples de aparecer: alguém muda de igreja, alguém casa com pessoa de outra tradição, alguém assume orientação que o grupo condena, alguém vira “desviado”. E aí entram duas frases que parecem espirituais, mas podem ser cruéis:
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“Você está com falta de Deus.”
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“Perdoa e esquece.”
Paul Ricoeur critica justamente essa facilidade. Perdão, quando existe, não é apagamento de memória. É trabalho com a memória — e com a responsabilidade (Ricoeur, 2007). Em termos práticos: não dá para pedir “paz” exigindo silêncio de quem foi ferido. Não dá para falar em “família” usando humilhação como método.
No trabalho, isso aparece de outro jeito. A empresa pede “resiliência” e “clima bom”, mas mantém metas impossíveis. O colega explode, vira “descontrolado”. A chefia não quer saber de causa; só quer “boa convivência”. É moralismo organizacional: exige virtude de quem está esmagado por estrutura.
O ponto é: relações humanas não se sustentam só com “boa vontade”. Elas exigem regras mínimas de respeito, formas de reparação e limites claros. Sem isso, a religiosidade vira anestesia — e anestesia não trata ferida; só deixa a pessoa dormir em cima dela.
7) O problema do mal: quando o sofrimento chega, a resposta fácil vira insulto
Qualquer conversa honesta sobre fé precisa encarar o sofrimento. O erro mais comum é responder dor com frase pronta.
Exemplo global (e recorrente): desastre natural, guerra, crise econômica. Depois vem o comentário: “Deus quis assim”, “é castigo”, “é prova”. Isso pode parecer consolador para quem fala, mas pode ser violência simbólica para quem sofre.
A teodiceia — o esforço de justificar o mal — é antiga. Mas a crítica contemporânea aponta que nem toda dor pede explicação; muita dor pede presença. A tentativa de fechar o sentido à força pode virar cinismo espiritual.
Frankl propõe uma virada: não é “por que isso aconteceu comigo?”, mas “o que ainda pode ser feito com isso?” (Frankl, 2008). Isso não é romantização do sofrimento. É recusa da paralisia.
No mundo do serviço público, isso tem consequência concreta: quando um sistema falha, a pessoa não precisa de “lição”. Precisa de atendimento que funciona. Quando um hospital atrasa, o paciente não precisa de “mistério divino”. Precisa de médico, leito, remédio.
Espiritualidade madura, aqui, é simples: não usar Deus para substituir responsabilidade humana.
8) Fé sequestrada por identidade: quando religião vira arma política e moral
A politização da fé não é novidade, mas ganhou escala com mídia, redes e polarização. O mecanismo é conhecido:
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Escolhe-se um inimigo simbólico.
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Transforma-se disputa social em batalha espiritual.
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Converte-se o grupo em identidade total (“nós, os corretos”).
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O outro vira ameaça (“eles, os degenerados”).
Nesse ponto, religiosidade deixa de ser espaço de sentido e vira máquina de guerra moral.
Habermas argumenta que religião pode participar do debate público, mas a democracia exige tradução: argumentos religiosos, para valerem como norma comum, precisam ser comunicáveis a quem não compartilha a mesma fé (Habermas, 2006). O que se vê muitas vezes é o contrário: religião usada como atalho para impor regra.
Dados ajudam a visualizar o problema. Pesquisas recentes nos EUA mostram disputas sobre o lugar da Bíblia nas leis e a relação entre religião e política, indicando fraturas consistentes em torno de como valores religiosos devem influenciar decisões públicas (Pew Research Center, 2024). Não é só “tema americano”: o padrão se repete em outros lugares, com nomes diferentes.
No Brasil, o fenômeno aparece quando líder religioso vira cabo eleitoral permanente, quando púlpito vira palanque, quando sofrimento social vira combustível de ressentimento. Na prática: gente com medo vira massa de manobra. É duro dizer, mas é isso.
E aqui entra a posição do texto: a fé que precisa humilhar o outro para existir já virou outra coisa. Virou projeto de poder.
9) “Mas a religião também salva”: sim — e é exatamente por isso que precisa de crítica
Uma crítica previsível a esta posição é: “Você está pegando pesado. Muita gente só não caiu no abismo por causa da religião.”
Correto. E negar isso seria desonesto.
Comunidades religiosas oferecem rede de apoio, rotina, disciplina, amizade, solidariedade material. Em contextos de pobreza, violência e abandono estatal, isso não é detalhe; é infraestrutura social.
A questão é a linha que separa apoio de domínio.
Sinais práticos de apoio:
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acolhimento sem chantagem;
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ajuda sem exigir submissão política;
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liderança que presta contas;
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espaço para dúvida sem humilhação;
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ética que protege o frágil (mulher em risco, criança, idoso, dependente químico).
Sinais práticos de domínio:
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controle da vida íntima como condição de pertencimento;
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demonização do diferente;
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“blindagem” de líderes contra crítica;
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uso de medo e culpa como técnica;
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confusão entre fé e obediência cega.
A crítica não é contra fé. É contra a captura da fé por estruturas que lucram com medo e pertencimento.
10) Perplexidade como ferramenta ética: melhor dúvida honesta do que certeza cruel
Existe uma coragem na perplexidade: ela obriga a parar de fingir que entende tudo. Isso tem um valor moral.
Charles Taylor descreve a pluralidade moderna como campo de disputas de sentido: múltiplas fontes do “eu”, múltiplas formas de crença e descrença, convivendo no mesmo espaço (Taylor, 2007). Nesse cenário, a certeza absoluta costuma aparecer como reação defensiva, não como maturidade.
A pergunta prática é: o que fazer com isso no cotidiano?
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No trabalho: desconfiar de discurso que manda “ter fé” para aceitar exploração.
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Na escola: criar espaço em que perguntas difíceis não virem pecado nem motivo de piada.
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No serviço público: parar de moralizar o usuário (“é falta de educação”) e moralizar o sistema (“por que esse processo humilha?”).
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Na família: cortar a chantagem emocional disfarçada de “cuidado espiritual”.
Isso é espiritualidade concreta: um modo de viver que reduz crueldade cotidiana.
11) Um fechamento realista: o que importa para quem está lendo isso
A perplexidade virou rotina: no caixa do mercado, no feed, no ônibus, na sala de aula, no plantão do hospital, no contrato que não renova, na dívida que não fecha. E é exatamente por estar em toda parte que ela virou mercado: há quem venda cura rápida, certeza instantânea, inimigo pronto.
Fé e religiosidade podem ser abrigo contra isso — ou combustível. A diferença aparece num teste simples: o grupo ensina a cuidar melhor das relações reais ou só ensina a odiar o “lado de lá”?
Se a resposta for ódio, a recomendação prática é curta: antes de seguir conselho espiritual de alguém, observe como essa pessoa trata o porteiro, a atendente, o familiar frágil e o diferente. O resto é performance.
Referências
ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BERGER, Peter L. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 2011.
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Obra original publicada em 1912).
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 30. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
HABERMAS, Jürgen. Religion in the public sphere. European Journal of Philosophy, v. 14, n. 1, p. 1–25, 2006. DOI: 10.1111/j.1468-0378.2006.00241.x.
LEVinas, Emmanuel. Totalidade e infinito. Lisboa: Almedina, 2000.
PEW RESEARCH CENTER. Christianity’s place in politics, and “Christian nationalism”. Washington, DC: Pew Research Center, 2024.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.
TAYLOR, Charles. A secular age. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2007.
WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. Report of the WHO Commission on Social Connection. Geneva: WHO, 2025.
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