Fascismos históricos e neofascismos contemporâneos não operam apenas como ideologias “racionais” ou “seculares”: eles mobilizam desejos de redenção, rituais de pertença, promessas de futuro e uma moralidade de guerra que reordena o mundo em puros e impuros, salvos e condenados. Quando a política sequestra o imaginário religioso — sobretudo o apocalíptico e messiânico —, ela transforma o presente em ante-sala de uma “batalha final”, justificando violência, exceções e perseguições como etapas necessárias de um destino histórico. Entender esse mecanismo, com rigor conceitual e exemplos próximos, é condição para defender a democracia sem cair na armadilha de reduzir religião a “atraso” ou política a “técnica”.
1. A tese central: não houve “ruptura simples”
A ideia de que o nazismo teria rompido com o cristianismo de modo direto e definitivo costuma nascer de um equívoco: confundir a existência de tensões institucionais (entre Estado totalitário e igrejas) com a ausência de apropriação simbólica do repertório cristão. Movimentos totalitários podem disputar, limitar ou cooptar instituições religiosas e, ao mesmo tempo, capturar a linguagem do sagrado para construir uma religião política própria. Não se trata de “ser cristão” no sentido teológico, mas de converter imagens, afetos e promessas em tecnologia de mobilização.
1.1 Cristianismo como gramática simbólica disponível
Em sociedades atravessadas por séculos de cristianismo, o imaginário do sacrifício, da missão, do povo eleito, do combate entre bem e mal e da redenção coletiva funciona como uma gramática pré-existente. Ela está nas festas, nos calendários, nos modos de falar sobre culpa, pureza, perdão, punição e destino. Por isso, mesmo quando um regime pretende reordenar tudo, ele não começa do zero: reprograma símbolos que já “fazem sentido” para muita gente. A força política dessa reprogramação é simples: ela reduz complexidade. Em vez de explicar crises econômicas, humilhações nacionais e desigualdades como processos históricos, reconta tudo como uma narrativa moral: há culpados, há traidores, há uma missão e há um “reerguimento” que exige disciplina.
1.2 Fascismo e nazismo como reinterpretação violenta do sagrado
A reinterpretação violenta ocorre quando elementos religiosos são deslocados para uma estrutura de guerra: a comunidade vira corpo sagrado; o líder vira mediador da história; o inimigo vira figura demoníaca; a violência vira purificação. Nesse arranjo, a redenção não é transcendente (para além do mundo), mas imanente: promete-se um paraíso social aqui, no tempo político, construído por força, expurgo e obediência. É nesse ponto que o messianismo político se torna perigoso: ele não pede apenas adesão; pede entrega total e legitima o esmagamento do “impuro” como dever.
No cotidiano, isso se expressa em frases que parecem “de fé”, mas funcionam como comando político: “o país precisa ser salvo”; “o inimigo destruiu a nação”; “só um escolhido pode restaurar a ordem”; “quem critica atrapalha a missão”. A mesma estrutura aparece em diferentes escalas — de grandes regimes totalitários a movimentos contemporâneos que operam dentro de democracias, corroendo-as por dentro.
2. O que é “religião política” e por que isso importa
A noção de “religião política” ajuda a explicar um fenômeno recorrente do século XX e do presente: ideologias que se apresentam como salvação coletiva, organizando rituais, símbolos, mitos e liturgias públicas. Emilio Gentile descreve como regimes e movimentos podem sacralizar a política, transformando a nação, a raça, o partido ou o líder em objetos de devoção, com códigos morais, cerimônias e promessa de regeneração (Gentile, 2006).
2.1 Rituais, liturgias civis e afetos coletivos
Religião política não é “religião no sentido de igreja”. É o uso sistemático de forma religiosa na esfera pública: bandeiras como relíquias, desfiles como procissões, slogans como orações repetidas, juramentos como confissões, punições públicas como atos de expiação. A lógica é afetiva: as pessoas não aderem apenas por cálculo; aderem porque sentem pertencimento, grandeza, vingança simbólica, alívio da ansiedade. Quando o cotidiano está cheio de incerteza, uma liturgia política oferece um roteiro emocional: quem é “nós”, quem é “eles”, o que esperar do futuro e o que fazer agora.
2.2 O líder como providência histórica
O culto ao líder não é um detalhe folclórico. É a peça que fecha o circuito: se há missão, precisa haver mensageiro; se há destino, precisa haver intérprete; se há batalha, precisa haver comandante. Ian Kershaw analisou como o “mito do Führer” operou como mecanismo de integração e legitimação no regime nazista, convertendo o líder em figura quase providencial (Kershaw, 1987). A política vira teodiceia: o sofrimento presente é justificado como etapa para o futuro glorioso, desde que se obedeça ao guia.
Em termos de psicologia social, isso reduz angústia. O mundo deixa de ser complexo e vira trama. A crise deixa de ser estrutural e vira conspiração. A democracia deixa de ser pluralidade e vira “fraqueza”. O pluralismo, que é condição democrática, passa a ser lido como “divisão que impede a salvação”.
3. Escatologia e política: quando o “fim dos tempos” organiza o presente
A escatologia, na tradição religiosa, trata do “fim”, do juízo e do destino último. Quando esse esquema é transportado para a política, o tempo social muda de textura: o presente deixa de ser espaço de reformas graduais e vira contagem regressiva. A história é reorganizada como drama final. E, numa contagem regressiva, quase tudo é permitido.
3.1 A temporalidade da batalha final
A temporalidade escatológica tem um efeito prático: acelera decisões e suspende escrúpulos. Se o país está “à beira do abismo”, qualquer freio vira “covardia”. Se a nação está “em guerra”, direitos viram “luxos”. Se a moralidade do grupo é “ameaçada”, a perseguição do diferente vira “autodefesa”. O que, em condições normais, seria crime ou abuso passa a ser apresentado como “necessidade histórica”.
Esse mecanismo é particularmente eficiente em contextos de medo difuso: violência urbana, desemprego, inflação, desinformação, sensação de decadência cultural. Em vez de políticas públicas complexas, oferece um eixo moral simples: punir inimigos e “restaurar ordem”.
3.2 Inimigos, pureza e a promessa de redenção “neste mundo”
Um traço decisivo do messianismo político é que ele promete redenção imanente: não se espera um além transcendente; exige-se purificação do mundo social. E purificação exige inimigos. Robert Paxton descreve a dinâmica fascista como processo que cresce por mobilização emocional, violência e escalada de exceções, sempre definindo ameaças internas e externas (Paxton, 2004). Roger Griffin, por sua vez, enfatiza a ideia de “renascimento” (palingenesia) como mito central: a nação decaiu, mas renascerá mediante ruptura radical (Griffin, 1991).
No Brasil, a forma local desse imaginário aparece quando a política é narrada como “libertação” do país de uma suposta corrupção total, de um inimigo cultural ou de um complô difuso. O problema é que, sob o rótulo de “salvação”, abre-se espaço para desumanização. O adversário deixa de ser cidadão com outra opinião e vira encarnação do mal. Aí, a violência simbólica (humilhação, insulto, ameaça) prepara o terreno para violências institucionais (perseguição, censura, exceções legais).
4. Benjamin e o estado de exceção: a norma dos oprimidos
Walter Benjamin, em suas teses “Sobre o conceito de história”, oferece uma chave potente: o estado de exceção não é anomalia; para os oprimidos, ele é regra (Benjamin, 2012). Essa afirmação desloca a discussão. Em vez de tratar a exceção como “evento raro”, obriga a enxergar como sociedades mantêm zonas permanentes de suspensão de direitos — geralmente aplicadas a grupos vulneráveis.
4.1 Exceção permanente como técnica de governo
Quando a exceção se normaliza, ela deixa de precisar de decretos explícitos. Ela se infiltra como prática: policiamento seletivo, justiça desigual, burocracias que punem alguns e protegem outros, leis que existem no papel, mas não na vida de todos. A retórica fascista se alimenta dessa desigualdade: promete ordem e proteção, mas frequentemente entrega mais exceção para quem já vive sob exceção.
No discurso messiânico, a exceção ganha verniz moral. O abuso vira “combate ao mal”. A violência vira “limpeza”. A censura vira “defesa da família”. E qualquer crítica vira “aliança com o inimigo”.
4.2 O “pseudoestado de exceção” e o fascínio do tempo redentor
A expressão “pseudoestado de exceção” ajuda a nomear um truque: fabricar a sensação de emergência permanente para governar como se estivesse sempre em guerra. A emergência é performada por notícias seletivas, pânico moral, teorias conspiratórias e repetição de ameaças. A população passa a viver num presente tenso, em que o futuro é apresentado como prêmio: “aguente agora; depois virá a redenção”.
Esse “tempo redentor” fascina porque oferece sentido à frustração. A precarização do trabalho, por exemplo, deixa de ser resultado de reformas, globalização, financeirização e desmonte de políticas públicas; vira prova de que “o inimigo sabotou tudo”. A violência urbana deixa de ser problema de políticas de segurança, urbanismo e desigualdade; vira evidência de que “o mal tomou conta”. O mundo complexo se converte em tribunal moral.
5. Neofascismo contemporâneo: salvação, medo e aceleração
O neofascismo não precisa copiar literalmente os fascismos históricos para operar com a mesma lógica. Ele pode vestir terno institucional, usar redes sociais, atuar por dentro de eleições e se apoiar em coalizões. O núcleo permanece: promessa de redenção, identificação de inimigos, culto à força e relativização de direitos.
5.1 Crise climática, precarização e ansiedade de massa
Crises globais produzem sensação de perda de controle. A mudança climática, a insegurança econômica, a instabilidade geopolítica e o custo de vida alimentam ansiedade coletiva. Nesse terreno, o messianismo prospera como “atalho psicológico”: em vez de enfrentar a complexidade, aponta culpados e promete decisão rápida. A urgência vira estilo. A agressividade vira autenticidade. O “homem forte” vira fetiche.
No Brasil, isso se traduz em moralização de temas estruturais. Crise fiscal vira “roubo do inimigo”. Políticas sociais viram “privilégio”. Ciência e universidade viram “doutrinação”. E assim se cria um ambiente em que o ataque a instituições pode ser vendido como “purificação”.
5.2 Indústria cultural digital e a impaciência como combustível
A lógica de plataformas intensifica o apelo escatológico: tudo precisa ser imediato, indignante, polarizador. Conteúdo que explica com nuance perde para conteúdo que aponta um vilão em 20 segundos. O resultado é a educação afetiva para o ódio: aprende-se a sentir antes de pensar, a compartilhar antes de verificar, a condenar antes de entender.
Jason Stanley descreve como a propaganda fascista opera com divisão moral do mundo, ataque à verdade e construção de inimigos internos (Stanley, 2018). Umberto Eco, ao discutir o “ur-fascismo”, chama atenção para traços recorrentes como culto à tradição, medo do diferente, linguagem empobrecida e obsessão por complôs (Eco, 2018). No ambiente digital, esses traços ganham velocidade e escala.
6. Religião, política e Brasil: por que o apelo evangélico pesa
Reconhecer a presença política do campo evangélico não significa reduzir evangélicos a um bloco, nem confundir fé com extremismo. O campo é heterogêneo. Mas há um dado sociológico: segmentos organizados podem oferecer redes de pertencimento, disciplina moral e narrativa de sentido em um país atravessado por desigualdade e insegurança. Autores como Paul Freston analisam o crescimento evangélico e sua relação com política na América Latina, mostrando como diferentes tradições e lideranças produzem efeitos públicos diversos (Freston, 1994; 2001).
6.1 Promessa de futuro em cenário de incerteza
Quando o futuro parece fechado — emprego instável, violência, serviços públicos insuficientes —, a promessa de um amanhã guiado por propósito tem força material. Não é “só crença”: é experiência social. Uma comunidade que acolhe, dá regras claras e fornece identidade pode ser refúgio real. O problema surge quando essa estrutura comunitária é instrumentalizada por projetos que transformam adversário em inimigo moral.
Nessa lógica, “apocalipse” não é apenas doutrina: vira ideologia do tempo. Organiza experiência histórica: o presente é guerra; o amanhã é vitória; a dúvida é tentação; a crítica é sabotagem. E a política democrática, que exige negociação, passa a ser tratada como traição.
6.2 Disputa de moralidade, autoridade e pertencimento
O que está em disputa, muitas vezes, não é apenas política pública. É autoridade simbólica. Quem define o bem? Quem define a família? Quem define o que pode ser ensinado? Quem define o que é “decente”? Quando grupos políticos capturam essa disputa e a convertem em guerra cultural, a democracia vira palco de cruzadas.
No Brasil, isso aparece em conflitos sobre escola, universidade, cultura, ciência, direitos civis e políticas de saúde. O risco não está na fé, mas na fusão entre fé e soberania política: quando a legitimação do poder passa a ser teológica, críticas ao governo podem ser tratadas como ofensa ao sagrado. A política deixa de ser accountability e vira blasfêmia.
6.3 Riscos democráticos: teologia do poder e guerra cultural
Do ponto de vista institucional, o perigo maior é a naturalização da exceção. Se o adversário é “o mal”, então eleições viram guerra; tribunais viram inimigos; imprensa vira traição; universidade vira ameaça; direitos viram obstáculos. A democracia perde o chão comum, que é o reconhecimento do outro como parte legítima do povo.
Isso não significa que a democracia deva “combater religião”. Significa o contrário: precisa proteger a liberdade religiosa e, ao mesmo tempo, impedir que qualquer religião (ou ideologia) se transforme em monopólio moral do Estado. Esse é o limite republicano: o Estado não pode ter uma escatologia oficial.
7. E o campo progressista? Subjetividade, afeto e a lacuna estratégica
Um dos argumentos mais incômodos — e talvez mais necessários — é que respostas progressistas frequentemente subestimam a dimensão subjetiva: medo, humilhação, pertencimento, esperança, reconhecimento. Quando se fala só em estrutura e se esquece o afeto, o messianismo ocupa o espaço.
7.1 O problema de abandonar a dimensão subjetiva
Movimentos emancipatórios historicamente combinaram crítica material com imaginação de futuro. Quando essa imaginação enfraquece, sobra apenas denúncia. Denúncia é necessária, mas não mobiliza sozinha. A extrema direita oferece narrativa total: explica o passado (culpa do inimigo), captura o presente (guerra) e promete o futuro (redenção). Se o campo democrático oferece apenas gestão técnica, perde a disputa do sentido.
Isso não significa abandonar análise econômica ou estrutural. Significa reconhecer que política também é pedagogia do sentimento: ensina a sentir o outro como aliado ou como ameaça.
7.2 Esperança como afeto ativo e projeto político
Benjamin sugere que há uma urgência ética: interromper a catástrofe (Benjamin, 2012). A esperança, nesse sentido, não é otimismo vazio; é afeto ativo, energia de organização e compromisso. Ela precisa de forma: políticas públicas concretas, linguagem que respeite a experiência popular, presença comunitária e narrativa de dignidade.
No Brasil, isso pode ser traduzido de modo muito direto: a defesa da democracia precisa tocar a vida real — fila do posto de saúde, ônibus lotado, escola sem estrutura, trabalho informal, violência cotidiana, humilhação burocrática. Quando a democracia é percebida como distante, o messianismo oferece proximidade. A resposta democrática precisa recuperar proximidade sem cair em simplificações violentas.
8. Conclusão: conter a escatologia política sem demonizar a fé
Quando a política se veste de religião, ela ganha duas armas poderosas: o monopólio do sentido e a licença moral para a violência. O fascismo histórico e suas reconfigurações contemporâneas mostram um padrão: transformar crises em drama final, converter adversários em inimigos ontológicos, sacralizar o líder como providência e naturalizar exceções como caminho para a redenção. Nesse arranjo, o cristianismo — ou qualquer tradição religiosa majoritária — pode ser menos “negado” do que reprogramado: seus símbolos e afetos são desviados para uma narrativa de guerra, purificação e destino.
A resposta democrática exige precisão: criticar o uso político da escatologia não é atacar a religião; é proteger a própria religião de virar instrumento de dominação e proteger o Estado de virar altar de uma verdade única. Democracia é convivência conflitiva, mas regulada por direitos; é pluralidade sem expulsão; é disputa sem aniquilação. Por isso, o ponto decisivo não é “expulsar o sagrado” da vida pública, e sim impedir que qualquer sagrado se converta em autorização para suspender direitos, perseguir minorias e destruir instituições de controle. Quando a promessa de salvação passa a exigir inimigos, a democracia já está em risco — e o primeiro dever político, antes de qualquer programa, é recusar a guerra moral como destino.
Referências
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012.
ECO, Umberto. O fascismo eterno. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2018.
FRESTON, Paul. Evangelicals and Politics in Asia, Africa and Latin America. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
FRESTON, Paul. Protestantes e política no Brasil: da Constituinte ao impeachment. Campinas: UNICAMP/IFCH, 1994.
GENTILE, Emilio. Politics as Religion. Princeton: Princeton University Press, 2006.
GRIFFIN, Roger. The Nature of Fascism. London: Routledge, 1991.
KERSHAW, Ian. The “Hitler Myth”: Image and Reality in the Third Reich. Oxford: Oxford University Press, 1987.
PAXTON, Robert O. The Anatomy of Fascism. New York: Alfred A. Knopf, 2004.
STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Tradução de Bruno Alexander. Rio de Janeiro: LPM, 2018.
STEIGMANN-GALL, Richard. The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity, 1919–1945. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
TRAVERSO, Enzo. As novas faces do fascismo. Tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto. São Paulo: Âyiné, 2019.
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