Um exportador de máquinas agrícolas no interior do Paraná fecha venda para um cliente na Índia e descobre que o problema não é a qualidade do equipamento, nem a taxa de importação. É o básico: como receber sem perder dinheiro no caminho. O banco oferece uma estrutura de cobrança “em dólar porque é mais simples”, o cliente quer pagar em moeda local, e o seguro do câmbio está mais caro do que a margem do contrato. No mundo real, geopolítica vira isso: custo, liquidez e risco. É por isso que a economia mundial está ficando menos “polarizada” em um único centro — mas também é por isso que o dólar ainda não saiu do centro do palco.
Introdução — a pergunta que decide se “desdolarização” é plano ou slogan
Quando o BRICS fala em negociar internamente com menos dólar, a pergunta não é “pode?”, é “quem segura o risco quando o câmbio vira e o mercado trava?”
Essa pergunta conecta os três itens que aparecem toda hora:
- Despolarização da economia mundial (o mundo funcionando mais como blocos desconfiados);
- A tese de que se a hegemonia do dólar cair, os EUA quebram;
- A ideia de uma Unit (unidade de conta) para negociações internas do BRICS.
Minha posição é direta: a despolarização empurra arranjos alternativos (pagamento e compensação), mas o dólar continua dominante porque ainda é o melhor “pacote completo” de preço, hedge e liquidez em crise. E sobre “os EUA quebram”: a perda de hegemonia seria dolorosa, sim — juros mais altos, menos poder de sanções, menos demanda por Treasuries — mas “quebra automática” é mais propaganda do que análise.
1) Despolarização: o mundo ficou mais fragmentado porque ficou mais caro confiar
A “despolarização” não é um evento. É uma mudança de comportamento. E dá para ver isso sem usar palavras grandes.
Uma rede municipal de saúde que compra equipamento importado não quer saber de “multipolaridade”. Ela só sabe que fornecedor começou a exigir reajuste, e o atraso na entrega virou regra. Uma pequena fábrica em Caxias do Sul que depende de componente importado vê o distribuidor exigir pagamento antecipado porque o custo de crédito lá fora subiu. Isso é despolarização no chão: a confiança encareceu, então todo mundo quer redundância.
Esse cenário aparece em dados macro também, mas com cuidado para não exagerar. Um estudo do FMI que montou um painel amplo sobre moeda de faturamento do comércio (132 países, 1990–2023) conclui que, apesar de mudanças e maior influência de alinhamento geopolítico, o dólar permanece dominante e as participações globais de faturamento se mantiveram “amplamente estáveis” (Boz et al., 2025).
Ou seja: o mundo fragmenta, mas não tem uma substituição rápida do “idioma” do comércio.
O que muda primeiro é a margem: mais contratos bilaterais em moeda local, mais linhas de swap, mais arranjos de compensação regional. Isso é despolarização como estratégia defensiva, não como revolução.
2) “Se o dólar cair, os EUA quebram”: o que é verdade e o que é exagero
Aqui dá para ser franco: o dólar dá vantagens reais aos EUA. A questão é quanto dessas vantagens precisa cair para “quebrar”.
2.1 O ganho que importa: financiamento
O dólar no centro do sistema significa que o mundo, por necessidade de segurança e liquidez, carrega ativos em dólar — e, principalmente, carrega títulos do Tesouro americano. Essa demanda estrutural reduz o custo de financiamento do Estado americano e ajuda a rolar déficits com mais tranquilidade.
A nota do Federal Reserve sobre o papel internacional do dólar expõe a escala dessa dominância: em 2024 o dólar era 58% das reservas oficiais divulgadas, muito acima do euro e demais moedas (Bertaut; Tabova, 2025).
Isso não é só estatística. É base de demanda por ativos americanos.
2.2 O ganho que vira poder: infraestrutura e sanções
Quando transações e reservas passam pelo ecossistema do dólar, aumenta a capacidade de enforcement financeiro. Não é uma “taxa por transação”. É a possibilidade de encarecer, bloquear ou condicionar acesso à infraestrutura. Isso vira poder geopolítico sem precisar de míssil.
2.3 Então… quebra?
A forma correta de dizer é: perder hegemonia encarece e enfraquece, mas não necessariamente “quebra”. Se a perda for lenta, o efeito tende a ser uma mistura de:
- juros mais altos (menos demanda por Treasuries),
- dólar menos forte,
- menor capacidade de “exportar” liquidez em crise,
- sanções menos eficazes.
Quebra é cenário de choque: crise política interna grave, perda de confiança abrupta, disfunção fiscal com percepção de risco de default técnico. Isso não é consequência automática de “mais comércio em moedas locais”.
3) Como os EUA “ganham” quando dois países terceiros negociam em dólar
Vamos tirar o folclore e colocar mecânica.
Imagine Vietnã vendendo eletrônicos para a África do Sul em dólar. Os EUA não recebem uma comissão na nota fiscal. O ganho acontece assim:
(a) Demanda por dólar e ativos em dólar
Quanto mais comércio em USD, mais empresas e bancos mantêm caixa em USD e mais bancos centrais mantêm reservas. Caixa vira aplicação. Aplicação vira Treasuries. Isso sustenta o custo de financiamento americano.
(b) Hedge e derivativos
O comércio em dólar puxa hedge em dólar. E hedge em dólar é barato porque é líquido. Em abril de 2025, o mercado global de câmbio atingiu US$ 9,6 trilhões por dia e o dólar esteve em um dos lados de 89% das transações (BIS, 2025).
Esse número explica por que o dólar volta como ponte: onde tem liquidez, tem preço melhor.
(c) Tubo bancário e padrões contratuais
Mesmo quando o dólar está “offshore”, a rede de bancos correspondentes, padrões de compliance e benchmarks puxa a operação para o ecossistema dolarizado.
Se você quiser um resumo cínico: o dólar não manda só porque é “moeda”. Ele manda porque é moeda + seguro + infraestrutura.
4) BRICS e “Unit”: onde a ideia é pragmática e onde vira ruído
Vamos separar duas coisas que a internet adora misturar.
4.1 O que está mais próximo de realidade: menos dólar no pagamento interno
Países do BRICS podem reduzir uso de dólar em transações específicas com:
- liquidação em moedas nacionais,
- bancos designados,
- sistemas de pagamentos conectados,
- câmara de compensação para “netting” (compensar fluxos).
Isso é plausível e já faz sentido em nichos: comércio de grande volume, contratos governamentais, projetos financiados por banco multilateral. O NDB, por exemplo, tem meta explícita de ampliar financiamento em moedas locais — 30% do total no período 2022–2026 (NDB, 2022).
Isso não é “moeda BRICS”; é reduzir risco cambial e custo de intermediação.
4.2 O que não está acontecendo do jeito que vendem: “moeda BRICS pronta”
Quando aparece meme dizendo que “a moeda do BRICS já existe e vale X dólares”, desconfie. A própria Reuters fez checagem de fatos: o BRICS não criou uma moeda própria circulando; discute-se sistema de pagamento e uso de moedas locais, não uma moeda comum implantada (Reuters, 2025).
Isso é crucial porque impede a fantasia de que “Unit” é um novo euro. Não é.
4.3 Então o que “Unit” pode ser sem virar ficção?
O caminho mais realista é “Unit” como unidade de conta para contratos internos: uma régua contábil para precificar e ajustar contratos sem usar USD como referência direta.
Só que, aqui, entra a armadilha que o operador percebe na hora: unidade de conta sem hedge líquido vira problema, não solução. Se você precifica em Unit, mas precisa travar risco, e o hedge barato continua sendo em dólar, então a Unit vira um rótulo em cima de uma engrenagem que ainda roda em USD.
Em outras palavras: a Unit pode reduzir dependência do dólar no “papel” e no “pagamento” em alguns casos, mas o dólar tende a voltar pelo lado do hedge e da liquidez — exatamente porque o mercado de FX global continua girando em torno do USD.
5) A correlação entre os três itens: por que eles sempre andam juntos
Agora dá para juntar tudo em uma linha causal que faz sentido.
Despolarização aumenta o incentivo de criar rotas alternativas e reduzir vulnerabilidade. Isso inclui falar em “Unit” e em pagamentos internos mais autônomos. Só que o dólar continua dominante porque concentra liquidez, hedge e ativos seguros. E é essa dominância que dá aos EUA custo de financiamento menor e poder geopolítico.
O resultado prático é um mundo em que:
- blocos tentam reduzir o uso de dólar em certas transações;
- o dólar continua sendo referência no preço e no hedge em várias cadeias;
- e a hegemonia vira menos “tudo ou nada” e mais “quanto do sistema dá para tirar sem quebrar a operação”.
Uma crítica honesta a este texto (e a resposta)
Crítica: “isso é conservador e subestima a velocidade de mudança; basta o BRICS criar um sistema de pagamento eficiente e o dólar perde espaço.”
Resposta: sim, um sistema de pagamento eficiente pode reduzir uso de USD no pagamento, mas isso não substitui o núcleo do problema: liquidez e hedge. Enquanto o USD estiver em um dos lados de 89% das transações de câmbio e o volume diário for trilionário, ele continua sendo o lugar mais fácil de travar risco (BIS, 2025).
E enquanto o FMI encontrar o dólar como dominante no faturamento do comércio global, a “régua” ainda é dolarizada (Boz et al., 2025).
Sistema de pagamento é uma parte do jogo. Hedge é outra. O segundo costuma ser o mais caro.
Fechamento
Se a conversa sobre “Unit” for séria, ela precisa responder uma pergunta bem desagradável: quem vai oferecer hedge líquido e barato em Unit (ou em pares BRL/CNY/INR etc.) quando vier uma crise e todo mundo quiser sair ao mesmo tempo? Se a resposta for “depois a gente vê”, então a Unit é só um jeito elegante de adiar o dólar.
Referências
BANCO DE COMPENSAÇÕES INTERNACIONAIS (BIS). Global FX trading hits $9.6 trillion per day in April 2025 and the US dollar is on one side of 89% of all FX trades. Basel: BIS, 30 set. 2025. Disponível em: https://www.bis.org/press/p250930.htm. Acesso em: 26 fev. 2026.
BANCO DE COMPENSAÇÕES INTERNACIONAIS (BIS). OTC foreign exchange turnover in April 2025. Basel: BIS, 2025. Disponível em: https://www.bis.org/statistics/rpfx25_fx.htm. Acesso em: 26 fev. 2026.
BERTAUT, Carol; TABOVA, Ali. The International Role of the U.S. Dollar – 2025 Edition. Washington, DC: Board of Governors of the Federal Reserve System, 2025. Disponível em: https://www.federalreserve.gov/econres/notes/feds-notes/the-international-role-of-the-u-s-dollar-2025-edition-20250718.html. Acesso em: 26 fev. 2026.
BOZ, Emine; GOURINCHAS, Pierre-Olivier; PLANTIN, Guillaume; MEHL, Arnaud. Patterns of Invoicing Currency in Global Trade in a Fragmenting World Economy. IMF Working Paper, Washington, DC, 2025. Disponível em: https://www.imf.org/en/publications/wp/issues/2025/09/12/patterns-of-invoicing-currency-in-global-trade-in-a-fragmenting-world-economy-570297. Acesso em: 26 fev. 2026.
BOZ, Emine et al. Patterns of Invoicing Currency in Global Trade in a Fragmenting World Economy (PDF). Washington, DC: IMF, 2025. Disponível em: https://www.imf.org/-/media/files/publications/wp/2025/english/wpiea2025178-source-pdf.pdf. Acesso em: 26 fev. 2026.
NEW DEVELOPMENT BANK (NDB). New Development Bank: General Strategy for 2022–2026. Shanghai: NDB, 2022. Disponível em: https://www.ndb.int/wp-content/uploads/2022/07/NDB_StrategyDocument_eVersion_07.pdf. Acesso em: 26 fev. 2026.
REUTERS. Checagem de fatos: Brics não criou moeda cotada a US$ 45. Reuters Fact Check, 8 jan. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/fact-check/portugues/PEDR7WJSIVPADMC7DBVRZSYVHM-2025-01-08/. Acesso em: 26 fev. 2026.
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