Por que o sistema público brasileiro é melhor do que parece — e por que ele apanha como se fosse luxo
O SUS é aquele sistema que a maior parte do Brasil usa quando a coisa aperta — e que todo mundo critica como se fosse opcional. A comparação com os EUA ajuda a enxergar uma coisa simples: sistema universal pode ser cheio de defeitos e, ainda assim, ser muito melhor do que um sistema que transforma doença em boleto surpresa.
1) A cena mais comum do Brasil: gripe, atestado e fila
Pensa num cenário bem básico: segunda-feira, 6h40, ônibus lotado. Uma auxiliar de cozinha em Goiânia chega ao trabalho já sentindo o corpo “quebrado”, com febre baixa. No meio do turno, piora. O chefe pede atestado. Ela sai, passa numa UPA, pega senha, espera. Não é bonito. Às vezes demora. Mas ela sai de lá medicada, com orientação, e volta com o papel que impede o desconto do dia.
Agora coloca a mesma situação num modelo em que consulta é “serviço” cobrado como qualquer outro — e em que o primeiro filtro é: “tem plano?” Nos EUA, mesmo com muita gente segurada, ainda existe um pedaço grande de população sem cobertura; em 2023, a proporção de pessoas sem seguro ficou em torno de 8% (U.S. Census Bureau, 2024) e o dado mais recente aponta 8,2% em 2024 (U.S. Census Bureau, 2025). Só que o drama não é só “não ter seguro”. É ter e, mesmo assim, evitar médico porque cada passo vira cobrança.
Esse detalhe muda a vida real. No Brasil, a pessoa reclama do tempo de espera. Nos EUA, muita gente calcula se a dor “vale” a conta.
2) O que o SUS entrega sem ninguém “perceber”
Quando se fala em SUS, o debate costuma virar “hospital lotado” e “fila”. Só que o SUS também é o que segura o básico do país funcionando — inclusive para quem tem plano.
Tem vacina em posto, campanha em escola, sala de vacinação em bairro que nem agência bancária tem. Isso não é “detalhe”. É logística diária e cara, repetida no país inteiro.
Tem vigilância sanitária: fiscalização que evita que o restaurante do centro sirva comida estragada, que uma fábrica de embutidos faça “qualquer coisa”, que uma farmácia venda produto irregular. Quase ninguém acorda pensando “obrigado, vigilância sanitária”. Mas é esse tipo de coisa que impede surto de intoxicação virar rotina.
E tem o ponto que costuma doer mais politicamente: o SUS não é uma rede “para pobres”. Ele foi desenhado como direito universal; a saúde aparece como “direito de todos e dever do Estado” na Constituição (Brasil, 1988). Isso não é frase bonita: é regra que obriga política pública, orçamento, serviço e cobrança judicial quando falha.
E o dado mais cru: mais de 70% da população brasileira depende exclusivamente do SUS para acessar assistência à saúde (Ipea, 2019). Quando alguém fala “fecha isso e privatiza”, está falando, na prática, de jogar dezenas de milhões num sistema de cobrança direta — num país em que a renda não acompanha esse tipo de gasto.
3) Comparando com o modelo dos EUA: caro, fragmentado e cheio de sustos
Vamos tirar a discussão do “achismo” e pôr número na mesa.
Em 2022, o Brasil gastou cerca de US$ 1.700 por pessoa (ajustado por paridade de poder de compra) com saúde; é menos de um terço da média da OCDE, segundo a própria OCDE (Ocde, 2025a). Já os EUA gastaram US$ 12.555 por pessoa em 2022 (Ocde, 2023). É um abismo.
E aqui vem a pergunta que irrita: se os EUA gastam tanto, por que ainda tem gente evitando consulta, acumulando dívida médica e discutindo preço de remédio como crise permanente? Porque o dinheiro não vira acesso simples. Vira uma cadeia de cobranças, intermediários e preços pouco transparentes. É um sistema onde a regra é fragmento: cada rede, cada seguradora, cada hospital, cada “cobertura”. Você não tem “o sistema”. Você tem contratos.
No Brasil, o SUS é cheio de falhas, mas tem uma lógica: entrou na rede, o atendimento não depende de cartão, franquia, coparticipação, “fora da rede” e surpresa no extrato do banco. O custo está no imposto e no orçamento público — e isso é justamente o que deixa o cidadão menos exposto ao azar.
Quer um exemplo bem chão? Um microempreendedor de bairro, dono de uma borracharia, corta a mão feio num domingo. No SUS, ele vai ao serviço, é atendido e volta sem escolher entre “pagar o aluguel da loja” e “pagar o curativo”. No modelo americano, mesmo com seguro, o sujeito pode sair com conta porque “o hospital era fora da rede” ou porque o procedimento caiu em regra diferente do contrato. A discussão lá muitas vezes não é “quando serei atendido?”, é “quanto isso vai me custar no final?”.
E o dado de cobertura reforça a diferença de filosofia: nos EUA, a taxa de não segurados ficou em torno de 8% em 2023 (U.S. Census Bureau, 2024) e subiu para 8,2% em 2024 (U.S. Census Bureau, 2025). No SUS, a porta de entrada existe mesmo para quem não tem “nada”.
4) O problema real do SUS: subfinanciamento e gestão que perde tempo
Defender o SUS não exige fingir que ele funciona liso. Ele não funciona. A fila existe. Falta médico em lugar remoto. Falta especialista em cidade grande. Falta leito em pico de demanda. Falta exame em tempo razoável.
E aqui está o ponto que muita gente evita: o SUS faz muito com pouco. O gasto per capita brasileiro é baixo em comparação internacional (Ocde, 2025a). A consequência aparece em coisas pequenas que viram inferno: marcação que cai num sistema lento, paciente que volta três vezes porque o exame não saiu, ambulância que roda mais do que deveria, gente na recepção sem treinamento para orientar fluxo.
Quando a gestão é boa, a unidade anda. Quando é ruim, o cidadão vira “pedinte de carimbo”: vai, volta, pega papel, perde dia de trabalho, gasta passagem, pega fila de novo. Não é só sofrimento; é custo econômico escondido. Quem paga é o trabalhador que falta, o comércio que fecha meia porta, a escola que perde professor por atestado mal resolvido, a prefeitura que vira alvo de judicialização.
5) “Mas o SUS é lento e ruim”: a crítica que faz sentido — e onde ela erra
A crítica tem um núcleo verdadeiro: para quem precisa de especialidade e exame, o SUS pode ser demorado. Isso não é narrativa; é experiência brasileira. E não adianta mandar o cidadão “ter paciência” quando ele está com dor, com suspeita séria, ou com familiar idoso precisando de cuidado contínuo.
Só que essa crítica costuma virar uma conclusão errada: “então o SUS não presta; melhor trocar por algo parecido com os EUA”.
Trocar por quê, exatamente? Por um sistema em que o gargalo não é fila, é dinheiro? Porque, na prática, é isso que acontece: você troca espera por seleção econômica. No SUS, o problema é capacidade. No modelo de seguro privado como eixo central, o problema vira cobertura e custo — e isso cria um tipo de injustiça que não aparece na foto da UPA lotada, mas explode no orçamento da família.
Outro erro comum: achar que “plano resolve tudo”. No Brasil, muita gente com plano usa o SUS para vacina, vigilância, urgência e procedimentos caros. E quando o plano nega, quem segura é o SUS — inclusive via decisão judicial. O SUS é o chão da casa. Dá para reclamar do piso gasto, mas é melhor do que cair no buraco.
A crítica mais honesta, então, não é “acaba com o SUS”. É: o SUS precisa parar de ser tratado como despesa incômoda e virar prioridade de gestão e financiamento, porque ele já é a espinha dorsal do país (Ipea, 2019; Ocde, 2025a). E isso não é poesia: é o que evita que doença vire falência doméstica.
6) O que dá para fazer amanhã (sem fantasia)
Minha posição é clara: o SUS deve ser defendido e fortalecido como sistema universal, e o Brasil deveria ter vergonha de brincar com a ideia de importar um modelo parecido com o dos EUA, onde o gasto é gigantesco e ainda assim uma parte relevante fica sem cobertura (U.S. Census Bureau, 2024; U.S. Census Bureau, 2025) e o acesso depende do contrato.
Defender o SUS, no entanto, não é passar pano para fila e desperdício. O mínimo do mínimo é exigir coisa concreta:
melhor gestão de fila e regulação, transparência no tempo de espera por especialidade, atenção básica funcionando para evitar que tudo vire emergência, e cobrança política quando prefeitura e estado transformam unidade de saúde em palanque.
Se a ideia é “ser prático”, começa simples: na próxima vez que alguém repetir “SUS é só fila”, pergunta quanto custaria sem SUS a vacina da criança, a UPA do domingo e o remédio de alto custo quando o médico da rede privada diz “tem que correr”. E aí espera a resposta — com números, não com grito.
Referências
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: artigos 196 a 200. Brasília, DF: Presidência da República/Conselho Nacional de Saúde, 1988. Disponível em: https://www.gov.br/conselho-nacional-de-saude/pt-br/acesso-a-informacao/legislacao/outras-normativas/constituicaofederal.pdf. Acesso em: 15 fev. 2026.
IPEA. ODS 3 – Saúde e Bem-estar. Brasília, DF: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2019. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/ods/ods3.html. Acesso em: 15 fev. 2026.
OCDE. Health at a Glance 2023: OECD Indicators. Paris: OECD Publishing, 2023. (Indicador: gasto per capita em saúde nos EUA em 2022 – USD PPP). Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/2023/11/health-at-a-glance-2023_e04f8239/full-report/health-expenditure-per-capita_735cda79.html. Acesso em: 15 fev. 2026.
OCDE. Institutionalising Health Accounts in Brazil: Putting Brazilian health spending data into an international context. Paris: OECD Publishing, 2025a. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/2025/06/institutionalising-health-accounts-in-brazil_7e69dec6/full-report/putting-brazilian-health-spending-data-into-an-international-context_443a3911.html. Acesso em: 15 fev. 2026.
U.S. CENSUS BUREAU. Health Insurance Coverage in the United States: 2023. Washington, DC: United States Census Bureau, 2024. Disponível em: https://www.census.gov/library/publications/2024/demo/p60-284.html. Acesso em: 15 fev. 2026.
U.S. CENSUS BUREAU. Uninsured Rates Up in 18 States and District of Columbia (ACS 2024 1-year estimates). Washington, DC: United States Census Bureau, 2025. Disponível em: https://www.census.gov/library/stories/2025/09/uninsured-rates.html. Acesso em: 15 fev. 2026.
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