Há uma imagem simples, quase folclórica, que ajuda a compreender o impasse geopolítico criado pela escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã em março de 2026: a célebre pergunta atribuída a Garrincha antes de Brasil x União Soviética, em 1958. Diante de uma preleção minuciosa, o craque teria reagido com ironia: tudo bem, mas alguém já combinou com o outro lado? É exatamente essa chave que o professor Leonardo Trevisan mobiliza em sua análise para a BandNews FM, e o ponto central de sua leitura parece correto: a política externa de Donald Trump, no atual conflito, mostra força tática, mas exibe debilidade estratégica. Ela ataca, ameaça, anuncia, proclama vitória; porém faz isso como se o tabuleiro fosse unilateral, como se o adversário fosse um objeto inerte, e não um ator histórico, estatal, militar e simbólico capaz de reorganizar sua resposta. Essa assimetria entre espetáculo e estratégia não é detalhe. É o núcleo do problema.
O argumento do professor ganha consistência quando confrontado com os fatos mais recentes do conflito. Um mês após o início da campanha militar, a própria cobertura internacional descreve a situação de Trump como um acúmulo de “escolhas difíceis”, e não como uma operação de objetivos claros, delimitados e politicamente estabilizados. A guerra começou em 28 de fevereiro de 2026; desde então, o Irã retaliou, o Estreito de Ormuz foi parcialmente bloqueado, os preços de energia dispararam, aliados ocidentais passaram a cobrar clareza sobre os fins da operação, e o governo norte-americano passou a emitir sinais contraditórios: de um lado, fala em êxito rápido; de outro, desloca mais tropas e prepara “opções flexíveis” para cenários imprevisíveis (Reuters, 2026).
É aqui que a metáfora de Garrincha deixa de ser anedota e se torna diagnóstico. O erro de Trump, na leitura de Trevisan, não está apenas em ter um plano. O erro está em agir como se o plano bastasse. O governo norte-americano parece ter apostado que a eliminação de lideranças, a destruição de alvos militares e o uso combinado de pressão bélica e retórica maximalista produziriam, quase automaticamente, o colapso do regime iraniano ou sua rápida capitulação. Mas esse raciocínio ignora o básico da política internacional: Estados sob ataque tendem a recalibrar comando, intensificar centralização e ativar mecanismos de continuidade institucional. Foi precisamente isso que se viu no Irã. Mesmo após mortes no alto escalão, o sistema político-militar iraniano mostrou capacidade de recomposição, com substituições rápidas em órgãos centrais de segurança e preservação da cadeia decisória (Reuters, 2026).
Esse dado é decisivo para validar a crítica do professor. Se o adversário dispõe de redundância institucional, de um aparelho ideológico consolidado e de uma estrutura militar com capilaridade, a eliminação de chefes não equivale automaticamente à vitória estratégica. Ao contrário: pode reforçar a lógica de resistência, endurecer a sucessão e aprofundar a coesão defensiva. Reuters registrou, por exemplo, que a estrutura iraniana seguiu operando com forte protagonismo da Guarda Revolucionária e com reposição acelerada de postos-chave. Em outras palavras, o golpe tático não se converteu, por si só, em ruptura do regime. Trevisan está certo ao afirmar que a Casa Branca parece ter superestimado o efeito político do dano militar.
Há ainda um segundo ponto forte da análise: a distinção entre guerra real e guerra narrada. Trevisan sugere que Trump opera, muitas vezes, num plano comunicacional próprio, no qual a declaração de vitória importa mais do que a estabilização efetiva do terreno. Isso não é apenas impressão retórica. A imprensa internacional tem mostrado que o governo norte-americano enfrenta dificuldade crescente para sustentar uma narrativa coerente sobre o conflito. Reuters relatou a luta da Casa Branca para “moldar a narrativa” da guerra, ao mesmo tempo em que Trump passou a pressionar aliados reticentes e a oscilar entre ameaça, triunfalismo e acenos diplomáticos. O que aparece, então, não é uma grande estratégia inteligível, mas uma comunicação errática, pensada para consumo político doméstico e não necessariamente para a consistência diplomática externa (Reuters, 2026).
Nesse aspecto, a referência de Trevisan a Steve Bannon também não é gratuita. A ideia de “flood the zone with shit” — inundar o espaço público com excesso, ruído e versões simultâneas — tornou-se um dos resumos mais conhecidos do estilo comunicacional trumpista (Vox, 2020). Quando aplicada a um teatro de guerra, essa lógica é especialmente perigosa. Em política doméstica, a confusão já produz erosão do debate racional; em política internacional, ela pode produzir erro de cálculo, desalinhamento entre aliados e dificuldade de calibrar saídas negociadas. A retórica de vitória permanente passa, então, a substituir a clareza sobre fins, custos e condições de encerramento.
Trevisan também acerta ao insistir que o Irã, nesse conflito, não precisa “vencer” no sentido clássico. Basta não colapsar. Basta resistir. Basta prolongar o custo. Essa é uma das lições mais incômodas da história militar contemporânea para Washington: superpotências tecnológicas frequentemente têm dificuldade em transformar supremacia operacional em solução política durável. A literatura sobre opinião pública e guerra mostra que o apoio social a conflitos armados não é um cheque em branco; ele responde a custos visíveis, sobretudo baixas e sensação de impasse. Estudos clássicos e posteriores indicam que o aumento de fatalidades e a deterioração perceptível do conflito tendem a corroer o apoio público, especialmente quando os objetivos se tornam difusos (Gartner, 2008). Ao mesmo tempo, o projeto Costs of War, da Brown University, mostra o peso humano e econômico prolongado das guerras lideradas pelos EUA desde 2001, com centenas de milhares de mortos diretos e custos sistêmicos muito além do campo de batalha (Brown University, 2026).
É por isso que a analogia de Trevisan com Vietnã e Afeganistão não deve ser lida como mera retórica histórica. O paralelo não significa dizer que o Irã repetirá exatamente esses cenários, mas que há uma lógica recorrente: quando os objetivos políticos são nebulosos, quando o adversário aceita o desgaste prolongado e quando o custo interno para a democracia intervencionista cresce mais rápido do que sua capacidade de converter força em legitimidade, a superioridade militar deixa de ser garantia de êxito estratégico. O professor identifica precisamente esse risco: os Estados Unidos podem destruir muito e, ainda assim, sair menores politicamente.
Outro eixo em que a análise do professor se sustenta é o do isolamento diplomático. A guerra revelou desconforto explícito entre aliados tradicionais dos EUA. A Alemanha manifestou dúvida sobre os objetivos da campanha. França, Reino Unido e outros parceiros do G7 priorizaram linguagem de contenção, proteção a civis e restauração da navegação, sem endossar automaticamente a lógica ofensiva inicial. A Associated Press registrou que vários aliados enfatizaram não terem sido consultados previamente e insistiram numa solução diplomática. Reuters acrescentou que líderes europeus vêm deixando claro que a guerra “não é assunto da OTAN” e que qualquer participação exigiria mandato, base legal e aprovação parlamentar (AP, 2026; Reuters, 2026). Isso confirma diretamente o ponto de Trevisan: Trump age como se liderasse um bloco coeso, mas o bloco já não responde como no passado.
Essa fissura diplomática é ainda mais séria porque ocorre em torno de um dos pontos mais sensíveis da economia mundial: o Estreito de Ormuz. Reuters e The Economist destacaram que o estreito se tornou um gargalo estratégico de dimensão global, afetando cerca de um quinto do fluxo mundial de petróleo e gás natural liquefeito e produzindo impacto imediato sobre energia, fertilizantes, petroquímicos e inflação internacional (Reuters, 2026; The Economist, 2026). A ONU, diante do risco sistêmico, anunciou inclusive a criação de um mecanismo para tentar salvaguardar o comércio pela rota. Quando Trevisan recorre à imagem do “gargalo” e diz que Trump parece não controlar as consequências econômicas de sua própria escalada, ele não está exagerando: está descrevendo um problema material concreto.
Não se trata apenas de petróleo mais caro. O que está em jogo é a vulnerabilidade estrutural da globalização quando um ponto geográfico concentra fluxos decisivos de energia e insumos. Reuters mostrou que a guerra já vinha comprimindo cadeias petroquímicas, elevando preços de plásticos e insumos industriais, além de pressionar serviços, seguros, logística marítima e investimentos no setor de energia. A guerra, portanto, deixa de ser regional apenas no mapa. Ela se torna mundial em seus efeitos econômicos. E esse talvez seja um dos aspectos mais fortes da leitura de Trevisan: Trump pode vender internamente a estética da força, mas não controla a difusão externa dos danos.
Há ainda o argumento institucional, talvez o mais grave de todos: a ausência dos “adultos na sala”. A expressão remete ao diagnóstico, amplamente difundido durante o primeiro mandato de Trump, de que certos quadros militares, diplomáticos e burocráticos funcionavam como freios de contenção. Bob Woodward mostrou, em seu trabalho sobre a presidência Trump, que figuras centrais da administração frequentemente se viam obrigadas a conter impulsos presidenciais e explicar o básico da ordem estratégica norte-americana; a própria Reuters resumiu esse contexto ao relatar episódios em que assessores precisavam refrear decisões abruptas do presidente (Reuters, 2018). Quando Trevisan afirma que esses freios desapareceram ou perderam densidade, seu alerta é plausível: quanto menos filtros institucionais, maior o risco de que impulsos de comunicação sejam convertidos em atos de guerra.
Naturalmente, nem toda formulação do comentário radiofônico precisa ser lida literalmente. Metáforas sobre humilhação ministerial, submissão cômica ou fidelidade caricatural cumprem papel interpretativo, não documental. Mas o diagnóstico de fundo permanece sólido: a personalização extrema da política externa aumenta a imprevisibilidade e enfraquece a capacidade de autocorreção institucional. Em cenário de guerra, isso é explosivo. Uma grande potência sem estratégia clara já é um problema. Uma grande potência sem estratégia clara e sem mecanismos internos robustos de contenção é um problema muito maior.
No fim, a força da análise de Leonardo Trevisan está em recolocar a política internacional num plano de realidade. O professor desmonta a tentação de ler o conflito apenas pelo vocabulário da superioridade tecnológica norte-americana. Sim, os EUA têm mais poder militar. Sim, podem destruir mais, mais rápido e a maior distância. Mas guerra não é apenas destruição; é relação entre meios, fins, tempo, legitimidade, custo e capacidade de transformar violência em resultado político. Quando esses elementos deixam de convergir, o poder bruto perde inteligência estratégica. E é precisamente isso que a pergunta de Garrincha ilumina com brutal simplicidade: não basta desenhar a jogada; é preciso considerar que o outro lado também decide, reage, resiste e, por vezes, transforma a força do adversário em armadilha para ele mesmo.
Se o conflito atual já oferece alguma lição preliminar, ela é esta: a maior fraqueza de uma potência pode ser a ilusão de que sua própria narrativa substitui a complexidade do mundo. Trump parece falar como quem já venceu. Mas o campo geopolítico mostra outra coisa: aliados céticos, gargalos energéticos, custos globais crescentes, um adversário ainda funcional e uma estratégia de saída cada vez menos nítida. Em outras palavras, a pergunta de Garrincha continua em pé. E, ao que tudo indica, ela ainda não foi respondida.
Referências
ASSOCIATED PRESS. Rubio pushes postwar plan for Strait of Hormuz after meeting G7 allies skeptical about Iran strategy. 27 mar. 2026. Disponível em: AP News. Acesso em: 28 mar. 2026.
BROWN UNIVERSITY. Costs of War. 2026. Disponível em: Watson Institute for International and Public Affairs. Acesso em: 28 mar. 2026.
GARTNER, Scott S. The Multiple Effects of Casualties on Public Support for War: An Experimental Approach. American Political Science Review, v. 102, n. 1, 2008. Disponível em: Cambridge Core. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. Watergate’s Woodward says Times Trump op-ed not up to his standards. 9 set. 2018. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. Iran says Hormuz open to all but ‘enemy-linked’ ships. 22 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. Iran tells UN: ‘non-hostile’ ships can transit Strait of Hormuz. 24 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. Iran names hardline ex-Revolutionary Guards commander to replace slain security chief. 24 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. With top figures dead, who is now running Iran? 23 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. German Chancellor Merz says he has doubts over Iran war aims. 27 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. G7 foreign ministers demand an end to attacks on civilians in Iran war. 27 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. Rubio says US can achieve Iran objectives without ground troops. 27 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. UN moves to create mechanism to safeguard Hormuz trade in face of Iran war. 27 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. One month into Iran war, only hard choices for Trump. 28 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. Barclays sees 13-14 million bpd oil supply loss from prolonged Hormuz disruption. 26 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. Iran war chokes petrochemical supply, sends plastic prices soaring. 26 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
REUTERS. Services firms feel the squeeze as oil rally from Iran war fails to spur drilling. 27 mar. 2026. Disponível em: Reuters. Acesso em: 28 mar. 2026.
THE ECONOMIST. An attack on the world economy. 12 mar. 2026. Disponível em: The Economist. Acesso em: 28 mar. 2026.
VOX. “Flood the zone with shit”: How misinformation overwhelmed the impeachment trial. 16 jan. 2020. Disponível em: Vox. Acesso em: 28 mar. 2026.
YOUTUBE. BandNews FM – análise de Leonardo Trevisan sobre Trump, Irã e a frase de Garrincha. Disponível em: YouTube. Acesso em: 28 mar. 2026.
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